O discurso do Mérito

RAIMUNDO EVARISTO NASCIMENTO 

(Membro titular da ACLP, onde ocupa a Cadeira nº 40. Pesquisador de Línguas Clássicas, Especialista em Psicopedagogia. Professor de Língua Portuguesa da UVA, da Faculdade Luciano Feijão e de Cursinhos Pré-vestibulares.)

Prof. Raimundo Evaristo

Parafraseando René Descartes, desde o título dado a este singular opúsculo, eu diria clicheisticamente, ao estilo de Tristan Tzara, que NADA É POR ACASO. É impossível homenagear alguém do nada, por não ter feito nada, por não ter sido nada. Isso posto, convém dizer que os homens a quem sucedemos esta noite, dignatários destas cadeiras e desta casa, engrandecem-nos, principalmente por quem são e, mais ainda, pelo que fizeram. Portanto, é de bom alvitre externar aqui, com a máxima vênia, o quanto estamos honrados de tomar assento à mesa de tão denodada instituição e sucedendo duas figuras tão impolutas, o estudioso Candido Jucá Filho e o professor Rogério Bessa. 

É, acima de tudo, pertinente dizer que a honra a nós ofertada e, antes, a eles merecida vem em justíssima e boníssima hora, porquanto, vivos, teremos este momento como uma insigne coroa que há de se juntar ao brilho próprio com o qual cada um sempre se aureolou, posto em berço, como os óculos machadianos do bom senso em uma de suas célebres narrativas. Cândido Jucá Filho e Rogério Bessa foram, então, desbravadores que, na mata densa dos estudos sobre a Linguagem, abriram largas veredas pelas quais, em iluminação, passei como aluno a trilhar o meu próprio caminho, conquanto até hoje, como no Poema de sete faces, de Drummond, eu tenha vivido um tanto gauche e nas sombras. Tenho, portanto, muito que agradecer.  

A Cândido Jucá, além da incansável figura do pesquisador, de textos utilíssimos como o Dicionário escolar das dificuldades da Língua portuguesa, A Gramática de José de Alencar, A pronúncia brasileira, ou mesmo o prelúdio do grande estudo da linguagem como se evidencia em sua monografia O fator psicológico na evolução sintática: contribuição para uma estilística brasileira(1933), defendida na Universidade de Coimbra, berço dos grandes estudos sobre a gramática da Língua Portuguesa.  

A ele cabe a utilização efetiva dos tropos (em seus efeitos) e a agudeza do gênio ensaístico, como se observa em O pensamento e a expressão em Machado de Assis, ou, ainda, a sutileza de seus poemas e o fantástico de sua prosa como se percebe em Pedrinhas no meu mosaico, O crepúsculo de Satanás e Noite insone. A prodigalidade dos seus estudos e de sua prosa de ficção ratifica todas as honras que ora lhe são conferidas e às quais se vinculam essas humildes palavras. 

Poeta e professor Rogério Bessa.

Quanto a Rogério Bessa, eu poderia afirmar que nascemos vizinhos. Ele, na distinta e sempre próspera Baturité; eu, na menos afortunada Guaiúba, embora tudo seja pedra no meio do caminho. Em menino, Rogério Bessa fez os estudos primários nas Escolas Reunidas de Acarape. Depois, fez o terceiro ano no Liceu do Ceará (1963). Desde 1965, era funcionário do DNOCS, porém pediu exoneração em 1971. Licenciou-se em Letras e, em 1967, tornou-se professor da Universidade Federal do Ceará.  Depois, ingressou em uma pós-graduação no Rio de Janeiro, tornando-se mestre e doutor em Letras Vernáculas (1988). Teve como orientador o não menos ilustre Celso Ferreira da Cunha. De volta ao Ceará, coordenou o Núcleo de Pesquisa e Especialização em Linguística – UFC.  

Conheci-o pessoalmente em Fortaleza, lecionando na Universidade Federal do Ceará. Era comum ver, nos olhos vivos de seus alunos, a alegria de terem aula com um mestre tão imbuído de competência, de dedicação e de sabedoria. Depois, voltei a vê-lo na década de 90, em Sobral, como professor do curso de Letras da Universidade Estadual Vale do Acaraú. Na mesma época, soube de um importante trabalho seu, ao lado de outro grande vulto da língua portuguesa, José Alves Fernandes, de quem também sou discípulo e pelo qual tenho muito apreço. A pesquisa versava sobre a presença dos ciganos na cidade de Sobral, sua cultura, suas crenças e, mormente, sua linguagem. 

Depois de publicar Comunidade cigana em sobral (2004), estudo de relevo nacional, Rogério Bessa, que já era uma referência em estudos linguísticos, coordenou a equipe que produziu o Atlas Linguístico do Estado do Ceará, um mapeamento lançado em 2010 com diversas formas de falar do cearense, resultado de pesquisa para cuja conclusão durou 17 anos. As informações subsidiam estudos de linguistas, de lexicógrafos, de gramáticos, de historiadores, de sociólogos e de pedagogos. A ideia de elaboração do Atlas surgiu nos anos 1970, dentro do Núcleo de Pesquisa e Especialização em Linguística do Centro de Humanidades da UFC.  

O professor Rogério Bessa também se dedicou à poesia com os livros Poesia em dois tempos (1968), Praxiscópio (1970) e Redescoberta de Orfeu (1999), exatamente porque integrou um grupo de poetas da Literatura Cearense, o Grupo SIN, uma geração de poetas cearenses que viveu em 1968, literalmente escrevendo entre o Sim e o Não da Ditadura Militar. O Grupo SIN ainda tinha nomes como Pedro Lyra, Horácio Dídimo, Roberto Pontes e Linhares Filho. Foi ainda professor do Departamento de Letras Vernáculas e da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Mattos (FAFIDAM), em Limoeiro do Norte e da Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA, onde tive o orgulho de lecionar a mesma disciplina deixada por ele.  

Poeta e ensaísta, publicou inúmeros textos sobre Língua, Linguagem, Linguística e Literatura. Em seu favor, cultuou o estilo acadêmico, a ponto de dizermos acertadamente que seu modo de escrever era pautado, sobretudo, pelo zelo, pela importância do que fazia e pela forma como o fazia, em detrimento do oportuno, da mera vaidade, aspectos tão presentes neste mundo hedonista e narcísico. Seu texto beirava o erudito, o que o tornava inóspito ao leigo, contudo se mostrava convidativo a todo amante da língua portuguesa, razão pela qual era tido como um dos grandes esteios desta casa.  No que tange a esse particular, são muito adequadas e oportunas as palavras do próprio Rogério Bessa, ao enunciar:   

“Poeto a meu modo / tenho meu modo de ser//muito pouco me incomodo / se meu modo não se vê/ (…) “Escrevo e pronto/[…]/ ninguém tem nada com isso” 

Hora do Vernáculo – Tautologia

Prof. Valdemir Mourão (Cadeira nº 19), 1º Vice Presidente da ACLP

Tautologia significa redundância, pleonasmo; é o uso de palavras diferentes para expressar uma mesma ideia; é a repetição de ideias com palavras diferentes; é a repetição de forma, significado ou relação.

1) Abusar demais (abusar já é demais).
Ex.: Tem gente que abusa demais da boa vontade dos outros. Adequado: Tem gente que abusa da boa vontade dos outros.

2) Voltar atrás (será possível voltar para frente?).
Ex.: Não vou voltar a palavra atrás. Adequado: Não vou voltar minha palavra; Não vou retroagir minha palavra.

3) Repetir outra vez (repetir não já é outra vez?).
Ex.: O lanche está tão gostoso que vou repetir outra vez. Adequado: O lanche está tão gostoso que vou repetir.

4) Atrás na retaguarda (retaguarda já é atrás).
Ex.: Vamos protegê-lo lá atrás, na retaguarda. Adequado: Vamos protegê-lo na retaguarda.

5) Continua a permanecer (permanecendo não continua?).
Ex.: Depois de tudo, ele ainda continua a permanecer neste recinto. Adequado: Depois de tudo, ele ainda permanece neste recinto.

6) Comparecer em pessoa (você consegue comparecer sem ser em pessoa?).
Ex.: Minha cunhada é tão atenciosa que compareceu em pessoa ao lançamento de meu livro Praticando Redação. Adequado: Minha cunhada é tão atenciosa que compareceu ao lançamento de meu livro Praticando Redação.

OUTROS CASOS PARA REFLEXÃO:

 1) A razão é porque.
2) A meu critério pessoal.
3) Abertura inaugural.
4) Acabamento final.
5) Amanhecer o dia.
6) Anexo junto a carta.
7) Catedral da Sé.
8) Certeza absoluta.
9) Colaborar com uma ajuda.
10) Colocar algo em seu devido lugar.
11) Com absoluta correção.
12) Como prêmio extra (recompensa).
13) Compartilhar conosco.
14) Completamente vazio.
15) Comprovadamente certo.
16) Conviver junto.
17) Criação nova.
18) De sua livre escolha.
19) Demasiadamente excessivo.
20) Destaque excepcional.
21) Detalhes minuciosos.
22) Elo de ligação.
23) Em caráter esporádico (disperso, acidental, raro).
24) Em duas metades iguais.
25) Empréstimo temporário.
26) Encarar de frente.
27) Escolha opcional.
28) Exceder em muito.
29) Expressamente proibido (terminantemente, decisivo).
30) Exultar de alegria.
31) Fato real.
32) Frequentar constantemente.
33) Gritar bem alto.
34) Há anos atrás.
35) Individualidade inigualável.
36) Interromper de uma vez.
37) Juntamente com…
38) Matiz cambiante.
39) Medidas extremas de último caso.
40) Multidão de pessoas.
41) Nasceu morto.
42) Nos dias 8, 9 e 10, inclusive.
43) Obra-prima principal.
44) Outra alternativa.
45) Passatempo passageiro.
46) Planejar antecipadamente.
47) Pode possivelmente ocorrer.
48) Preconceito intolerante.
49) Quantia exata.
50) Relações bilaterais entre dois países.
51) Retornar de novo.
52) Sentido significativo.
53) Sintomas indicativos.
54) Superávit positivo.
55) Surpresa inesperada.
56) Terminantemente proibido (expressamente).
57) Todos foram unânimes.
58) Última versão definitiva.
59) Vandalismo criminoso.
60) Vereador da cidade.

O registro fotográfico de um evento inesquecível

A posse de novos membros da Academia Cearense da Língua Portuguesa (ACLP) propiciou, no último dia 30 de outubro, a realização de um simpático congraçamento entre os acadêmicos, familiares e amigos. Na mesma ocasião, a ACLP prestou homenagem a personalidades do mundo da Educação e lançou a 14ª edição da revista “Vernáculo”.

O que se segue são imagens desse evento inesquecível, que teve como cenário o Ideal Clube, em Fortaleza. Entenda-se, de antemão, a impossibilidade de registrar, aqui, todas as presenças.

Alguns dos acadêmicos presentes e, à direita, os homenageados com a Medalha Cultural Hélio Melo: os professores Francisco Nazareno de Oliveira, Diretor-Geral do Colégio Master, e Otacílio de Sá Pereira Bessa, Diretor da EEM Adauto Bezerra.
Os dois homenageados com a Medalha Hélio Melo: Francisco Nazareno de Oliveira e Otacílio de Sá Pereira Bessa.
Acadêmico Myrson Lima e o Prof. Otacílio Bessa.
Acadêmico Paulo Sérgio Lobão e o Prof. Francisco Nazareno.
Prof. Francisco Nazareno e o acadêmico José Batista de Lima.
Novos acadêmicos: Frei Hermínio Bezerra Oliveira (Cadeira nº 27) e Raimundo de Assis Holanda (Cadeira nº 22) prestam juramento.
Acadêmicos Francisco Vicente de Paula Júnior, empossado na Cadeira nº 4, e Giselda de Medeiros Albuquerque.
Acadêmico Italo Gurgel, Diretor de Comunicação da ACLP; Prof. Teoberto Landim, Presidente da Academia; Prof. Francisco Nazareno de Oliveira e acadêmico Valdemir Mourão, 1º Vice-Presidente.
Em pé: acadêmicos Révia Herculano, Teoberto Landim, Valdemir Mourão e Giselda de Medeiros; sentados: acadêmicos Vicente Alencar, Tarcísio Cavalcante e José Ferreira de Moura.
Teoberto Landim, acadêmico Assis Holanda, Prof. Francisco Nazareno de Oliveira e acadêmico Marcelo Braga.
Acadêmicas Maria Luísa Silva Bomfim, Ana Vládia Mourão de Oliveira e Maria Gorete Oliveira de Sousa exibem exemplares da nova edição de “Vernáculo”.

 

 

 

Três novos membros tomam posse na ACLP

Frei Hermínio (Cadeira nº 27), Prof. Teoberto Landim e Assis Holanda (Cadeira nº 22).
Acadêmico Evaristo Nascimento, Francisco Vicente (Cadeira nº 4), e o presidente Teoberto Landim.
Acadêmico Myrson Lima, Prof. Nazareno de Oliveira, Prof. Otacílio Bessa e Teoberto Landim.

A Academia Cearense da Língua Portuguesa (ACLP) agregou ontem a seus quadros três novos membros titulares: Francisco Vicente de Paula Júnior (Cadeira nº 4), Raimundo de Assis Holanda (Cadeira nº 22) e Frei Hermínio Bezerra Oliveira (Cadeira nº 27). A posse teve lugar na noite de 30 de outubro, durante solenidade no Ideal Clube, em Fortaleza. O Presidente da ACLP, Prof. Teoberto Landim, transmitiu as boas-vindas aos novos acadêmicos e entregou as insígnias que os distingue, agora, como membros de um dos mais tradicionais e respeitados sodalícios culturais do Ceará.

Na mesma ocasião, a Academia fez entrega da Medalha do Mérito Cultural Hélio Melo a dois educadores cearenses que se destacaram por sua atuação profissional: os professores Francisco Nazareno de Oliveira, Diretor-Geral do Colégio Master, e Otacílio de Sá Pereira Bessa, Diretor da EEM Adauto Bezerra. Acompanhada de diploma, a Medalha traduz o reconhecimento da ACLP pelo trabalho em favor do enriquecimento cultural do Ceará. Os dois homenageados foram apresentados pelo acadêmico Paulo Sérgio Lobão.

Seguiram-se dois lançamentos. O acadêmico Valdemir Mourão fez a apresentação do livro “Da Espanhola ao Azulão”, coletânea de crônicas, contos e poemas, de autoria do Prof. Assis Holanda. Em seguida, o Diretor de Publicações da Academia, jornalista Italo Gurgel, apresentou a edição nº 14 da revista “Vernáculo”, órgão oficial da ACLP, que a partir de hoje passa a circular. Exemplares da “Vernáculo” serão encaminhados a colégios, bibliotecas públicas e instituições culturais do Ceará e de outros estados.

Além dos acadêmicos, um grande número de convidados participou do evento, que teve o acadêmico Marcelo Braga como mestre de cerimônia. Encerrado o ato solene, um jantar foi servido, em ambiente de confraternização e de reencontro entre amigos e familiares.

Nº 14 de “Vernáculo” será lançado no jantar comemorativo do aniversário

A Academia Cearense da Língua Portuguesa comemora, no próximo dia 30 de outubro, os 41 anos de sua fundação. A efeméride será assinalada com um jantar solene, no Ideal Clube, ocasião em que tomarão posse três novos membros efetivos. Também está previsto o lançamento da 14ª edição da revista “Vernáculo”, publicação oficial da ACLP, que tem promovido o diálogo com os diversos campos do saber da Língua Portuguesa, contribuindo para a formação intelectual e a reflexão crítica dos estudantes, intelectuais e professores.

De acordo com o Presidente da entidade, Prof. Teoberto Landim, os textos recolhidos nessa nova edição “reforçam práticas, recriam, criam, reiteram inovam e assumem sempre e cada vez mais o compromisso da Academia Cearense da Língua Portuguesa com os sujeitos de sua prática”.

Expressivo número de acadêmicos participa desse novo número de “Vernáculo” produzindo, com a variedade de textos, um painel representativo da própria composição da Academia, que reúne professores de Língua Portuguesa e de Literatura, gramáticos, jornalistas, poetas, contistas e ensaístas.

É a seguinte a relação de artigos e textos literários coletados:

ENSAIOS E ARTIGOS

  1. De Latim e Português: riquezas, graças, erros e contradições – Francisco Felipe Filho
  2. A leitura é fonte inesgotável de prazer – Regine Limaverde
  3. Ao pedagogo, com carinho – Ana Paula de Medeiros Ribeiro
  4. Gerúndio e gerundismo – Myrson Lima
  5. Numerais: grafia e uso – Myrson Lima
  6. Os vocábulos “tipo” e “claro” como marcadores discursivos presentes nas redações dos adolescentes – Marcelo Braga
  7. Tautologia – Valdemir Mourão
  8. Linguagem viva – José Ferreira de Moura
  9. O fluir do murmúrio – Batista de Lima
  10. Memórias esparsas: releitura analítica – Vianney Mesquita
  11. A arte de escrever – Anizeuton Leite

CONTOS

  1. A um passo da eternidade – Italo Gurgel
  2. A mulher nuvem – Clauder Arcanjo

POESIAS

  1. Dadaísta, graças a Deus! – Gorete Oliveira
  2. Em nome do filho – Gorete Oliveira
  3. Enquanto a pipa sobe – Gorete Oliveira
  4. Tolice – Maria Luisa Bomfim
  5. Depois do inverno – Ana Paula de Medeiros Ribeiro
  6. A festa da paisagem e o silêncio – Giselda de Medeiros
  7. No repleno do encontro – Regina Barros Leal
  8. Antítese – Regina Barros Leal
  9. À Alda Matos Bezerra Lima, mãe quase avó – Révia Herculano

DISCURSO

  1. Discurso de posse na Academia Cearense da Língua Portuguesa (31/10/2017) – Maria Margarete Fernandes de Sousa

Tributo a Jorge de Lima

Batista de Lima (Membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 36)

Jorge, essa esperança, que pões nos braços dos meus combalidos sonhos, é uma embarcação embriagada que se esqueceu do porto de chegada. Antevejo-me chegando por aí e encontrando Murilíssimo ao lado de Deus e tu latejando épico do lado esquerdo divino. Por aqui não está fácil plantar jardins além da dor, nem contar estrelas verdes que se banham no leite profundo que do sonho emerge. Dos porões dos teus versos uma capoeira trescala mitos entre a água do açude e o fogo da fornalha em que se enterram sete lastros de perguntas.

Alagado de Alagoas, mergulhaste no Rio, criando peles para um mundo órfão de texto e teto, quase incurável de incertezas. Nesta manhã umbrosa em que te escrevo, um sol apodrecido borra as margens que a aurora fluviou. E teus pés amarrados de certitudes e certidões não torcicolaram as atitudes. Por isso que, no calor do dia, interrogavas por que, maduros pelos dias, cambitávamos o sol e o sal da terra que nos viu ver a vez primeira. É que no profundo das coisas, coisas outras se erguem em pedidos de socorro, querendo a palavra teto, carapaça protetora para enfrentar o mundo.

É, de Lima, teus cantos doem, corroem e limam nossos nós. Tu vês que no grande ser profundo, a musa intacta dorme e muita coisa palustre e bela mostra sua garupa. Basta, pois, de tocares a campainha, se não queres ingresso na choupana do simples. Sou feito de palavras ancestrais que se vitimam diante de teu arcabouço de novos signos. Naquela terra que me viu brotar, os cavalos adivinham as chuvas, os galos marcam as horas e os sapos festejam as chuvas. Por isso que, se nesses verbos, de mim sinto falta, culpo teu estro que me manda suspender a frase e engolir a fala.

És inúmero em encantamentos, poeta. Esse despir-se das coisas te fez ilha, onde um copo de água te faz marinheiro num veleiro sem velas. Do teu peito de cordas, plangem as epopeias de um passado desenterrado. Não é fácil fluviar entre cardumes de mitos, por isso perco meus braços com o peso dos teus manuscritos. Afinal, nas águas que sobraças, dançam peixes devassados. Nas águas que te verbam tudo é lícito e sagrado. Nas águas que salitras, tudo redura de retornos.

Prezado esculápio, tua febre felpuda, toda vestida de tardes, é a mão pesada de Orfeu em delação de coisas findas. Por isso que nessas horas despencadas, abrimos nossos bolsos de condutas e liberamos as musas que acabamos por matá-las. Mesmo assim serás dia onde a noite for reinar, pois teus versos não se abatem onde há trevas, nem têm medo da carranca das lonjuras. Por isso que dorme e sonha, no dentro escuro do teu poema, uma vertigem de longo sono, amarrada no silêncio do semblante. Quando lambes a placenta do signo, um cavalo, todo feito de léguas, interpreta, lendo comigo os teus versos. Daí que são fiéis as palavras e as dores que me ligam a ti.

Estimado vate, também gosto da hospitalidade da poesia, com seus mares de símbolos latentes, neste mundo de aconteceres procelosos. Enquanto a grande noite não me golfar de sombras e terrores, vou por aqui roendo tua poesia pelas beiradas do verso. Se a noite e a floresta se deitam juntas nos teus versos é porque os soluços da treva procuram falar pela garganta das coisas. Acho culminante quando, do âmago do nada, extrais cordilheiras para o leitor escalar sem freios. Acontece que também há momentos em que teu verso é tão amargo que espanta os passarinhos que no estômago guardamos.

Senhor menestrel das figurações, plantaste eternidades nos teus roçados verbais, e agora colhemos os frutos, fora aqueles bicados por incertezas que perdemos tragados pela pressa. Na união dos teus palmares, aquele cordão que te ligou à mãe por lá te espera ligando o céu à terra. Quanto aos ocasos, por lá eles vagueiam pelas asas dos insetos. Lá uma noite perdida sai vagando montanha acima, gritando teu nome e repetindo teus versos. Tuas imagens e melodias dançando entre o épico e o lírico vão pintando este Brasil de caboclo de mãe Chica e pai João. Por isso, ao tentar atravessar esse caudaloso rio de imagens que criaste, quase me afogo no meio dessa multidão de mitos e metáforas que inventaste.

Querido amigo Jorge de Lima, assim como os generais, também foste partido quando partiste. Agora as raízes das tuas terras perderam a rega que teu gênio alumiava. E enquanto teus olhos me espiam tristes pelas frechas das oitavas, ainda rastejo rascunhando meus quartetos coxos e canhotos. Assim, as palavras me devolvem seus silêncios, todas rouquenhas de por ti tão possuídas.  Portanto vou agora olhar a lua no seu banho sobre as águas, enquanto as palavras descansam como noivas depois que se lançam no teu colo. Enquanto isso, vou amando as pessoas e utilizando as coisas que nos enganam com seus pelos. Agora que o sol se põe triste em despedida, quero te dizer que se um dia perguntarem pela floração do meu plantio de símbolos, vou dizer que foi por teres inventado as sementes que plantei.