Tríptico literário [Releitura de três obras]

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Oh, morte, como é amara tua lembrança, como rápida é tua vinda, como são ocultos os teus caminhos, como é duvidosa tua honra, e como é universal teu domínio! (Frei Luís de Granada. * Granada, 1505; Lisboa, 1588 23 anos!).

1 TANATOLOGIA – Vida e Morte no Dia a Dia

Por via da tradição, talvez religiosa cristã e no decurso dos tempos, eram praticamente proibidas na cultura do Ocidente reflexões atinentes a este tão natural fenômeno do decesso corporal, trânsito anímico, trespasse, exício da vida, antônimo perfeito do nascimento, verdade implacável. Morte.

Tema eivado de tanto preconceito, matéria a que se atribui, ainda, caráter de interdito, hoje o assunto perde, a pouco e pouco, seu mistério e é concertado, com frequência, em várias ocasiões e diversos lugares, mormente na ambiência universitária, onde se examinam com profundidade a origem, produção, conservação, repasse e progresso do conhecimento na sua mais extensiva amplitude temática.

O argumento do ocaso vital, evento imprescritível para aquele que viu aparecer a luz, mostra inexoravelmente sua extinção, cedo ou tarde, normalmente ou de inopino, por caducidade natural ou morbidade, ao nos fazer divisar, entre o ser extinto e o vivo, a mesma diferença entre a matéria bruta e a substância ativa.

Diversamente dos fatos ocorrentes nos organismos unicelulares, nos quais não há, necessariamente, fatalidade, a morte dos seres complexos é consequência inevitável da maquinaria anímica, a qual, ajuntando nos tecidos produtos acessórios, lentamente destrui a energia dos aparelhos até a supressão total.

A fim de conduzir esta reflexão ao patamar da naturalidade dos tratos mais ordinários – como os relativos à vida e à ciência – a sociedade inteligente descortinou uma teoria ordenada no tocante à morte, suas causas e eventos, especialmente o estudo dos mecanismos psicológicos empregados para superar os efeitos do fenômeno nas mentes de quem prossegue ou está na iminência de finar-se.

Amparadas nas conjecturas da Tanatologia, sub-ramo científico da Psicologia, as equipes de saúde desenvolvem, diuturnamente, em nosocômios de todo o Mundo, esse custoso ofício/arte de conceder refrigério, transpondo o corpo doente, prestes a consumir-se, e dedicando auxílio e conforto às almas atormentadas pela proximidade do próprio fim ou martirizadas com a imediação do termo existencial de uma pessoa dileta.

Convergindo à regular quantidade de trabalhos literoacadêmicos referentes a este moto de ascensa relevância, no Brasil, e de indescartável aplicação prática, em particular nos hospitais, os professores Annatália Gomes e Erasmo Ruiz Miessa escreveram um livro oportuníssimo, no qual reflexionam, com esmerado preparo e zelo, sobre a relação correta a ser estabelecida entre os profissionais de saúde e os doentes de quem cuidam holisticamente, em especial os enfermos de moléstias em quadro terminal, numa demonstração cabal dos aprestos intelectuais e do desvelo humanitário de ambos, ora ao bom serviço dos seus pares.

A obra Vida e Morte no Cotidiano (EdUECE)reflexões com o profissional de saúde – constitui aditamento valioso à literatura nacional do gênero, razão por que há de ser adotado nos diversos programas universitários de graduação, mestrado e doutorado, onde se estuda a analogia vida-morte, bem assim na formação em serviço do pessoal dos hospitais e congêneres.

Seus consulentes terão neste volume o romaneio correto e seguro para o desempenho de suas nobilitantes ações de intermediação paciente/doença grave, extensivamente aos seus componentes familiares, cujo padecimento à beira do leito será sensivelmente mitigado com a recepção das ideias aqui veiculadas, magnificamente expressas.

Da morte a férrea lei não se derroga./ Nas páginas fatais é tudo eterno! O que se escreve ali jamais se risca. (Manuel Maria Barbosa Du BOCAGE. *Setubal, 1765-+1805).

2 O DRAMA DO PACIENTE TERMINAL

A literatura, recorrentes vezes, recomenda-nos certas cautelas para que, ante a excessiva especialização dos conhecimentos, não percamos de vista as grandes conexões da ciência. De tal sorte, a interdisciplinaridade é praticada sempre mais pelos compositores do saber novo, o que significa o aporte dos melhores resultados, devolvendo às ideias parcialmente unificadas pela ciência o caráter de horizontalidade.

O ideário científico, de efeito, sejam quais forem as vertentes e taxinomias, opera constantemente sob relações e a consorciação de saberes é natural no decurso investigativo em demanda à certeza relativa, consoante orienta a Filosofia da Ciência.

Dessa maneira, compreensões aliadas são, muita vez, necessárias para realização de novéis sub-ramos da indústria humana, como ocorre, verbi gratia, com Bioestatística, Fisico-Química, Sociologia Jurídica, Economia Política, Jusfilosofia, Biônica e tantas outras comunhões de interesses metodológicos a servirem às causas epistemológicas.

Na linha raciocinativa deste ensaio de apreciável força de pesquisa, da autoria da Professora Doutora Preciliana Barreto de Morais, ela se favoreceu da Ciência de Augusto Comte (*Montpellier, 19.01.1798; +Paris, 05.09.1857), bem como de saberes correlatos, para interpretar, ao lume da dita Sociologia, situações extremas de clientes portadores de males terminais, sob os cuidados das equipes multiprofissionais, nos leitos e, na crescente falta destes, até em macas e cadeiras, no desconforto final da vida no interior e umbrais das casas de saúde.

Pungente e contagiante é a dor de quem guarda a certeza de que se vai dentro em pouco. Preocupantes as dúvidas e impasses daqueles a quem se cometeu a tarefa de cuidar dos pacientes acometidos de moléstias, a maioria das quais a Medicina ainda não controlou, como certas síndromes e alguns cânceres.

Há, decerto, falhas de comunicação das equipes, particularmente em virtude de formações defeituosas. “Os livros somente ensinam sobre o comportamento do tumor” – queixa-se um sextanista, que remata: “E a conduta psicológica do doente?”

Faltam, na escolaridade e prática funcional de psicólogos, enfermeiros, médicos, fisioterapeutas e outros agentes do cuidado, informações relevantes de natureza interdisciplinar, quando não para a reabilitação impossível, pelo menos na direção de abreviar o transe ou diferir a vida por algum tempo.

Evidentemente, enquanto perdurar esta situação – configurada no fim da existência dos pacientes, vacilações e embaraços das equipes multifuncionais, sujeitos da pesquisa da Autora – esses clientes vão prosperar como atores na ribalta da tragédia. O livro de Preciliana de Morais – atual docente da Universidade Estadual do Ceará – constitui libelo responsável e claro ao sistema educacional e de atenção à saúde no País, sendo, por este pretexto, fonte de fé para alicerçar investigações similares e embasar novas e urgentes políticas públicas para o setor.

… Por isso, oh Morte! Eu amo-te e não temo./ Por isso, oh Morte, eu quero-te comigo./Leva-me à região da paz horrenda!/Leva-me ao Nada, leva-me contigo! (Luiz José de JUNQUEIRA FREIRE. *Salvador, 31.12.1832; +24.6.1855 – 23 anos!).

3 PACIENTE MUITO ESPECIAL

Resulta deveras compensador o fato de se exercitar constantemente a observação, para dar asas ao talento criador.

Das atividades seculares do espírito, a que mais enleia parece ser a boa leitura, que possibilita a produção de um escrito escorreito, de uma alocução bem concatenada, porquanto vazada em códigos precisos e significações perfeitamente arrazoadas.

Somente a prática dial do exame atento sobre as coisas, bem como o adjutório da ação de ler – sem o que a observação fica limitada – são suficientes para se estabelecer uma mensagem límpida, sem vieses nem ruídos, decomponível com a máxima lucidez por quem a recebe.

Obviamente, há estruturas textuais bem mais leves e fáceis, acessíveis a maior quantidade de pessoas, nomeadamente os esquemas verbais constituídos com suporte na opinião comum. Até aqui, a langue e a parole  saussureanas correm mais livres, obedientes apenas às muitas regras da Língua Portuguesa. (Ferdinand Saussure – *Genebra, 26.11.1857; + Morges, 22.02.1913).

A situação começa a complicar, porém, quando se joga com a certeza relativa do fato científico, não raro se misturando – em sua manifestação oral ou grafada – com as elucubrações espirituais, a fim de dar conformação ao estilo. Mais complexo, ainda, se configura o texto (ou a fala), se a manifestação da verdade científica disser respeito às relações Homem/Natureza. O embaraço se proporciona, consideravelmente, se este Ser for criança, e caso a criança seja doente, e essa moléstia tenha gravidade, dolorosíssima, fatal, óbito iminente …

O Mundo e a História, entretanto, estão cheios de artistas que receberam o dom evangélico e o sopro paráclito da escrita, com incidência menor da dificuldade de estruturação. Eis que, no livro sob escólio, dá-se o caso de uma socióloga, com a função principal de pequena empresária, que achou de estudar a freguesia de instituição especial – a Casa do Menino Jesus, em Fortaleza-CE, cujos clientes se acham em várias fases de C.A.

Rossana Guabiraba discorre sobre o meritório trajeto de acompanhamento dos pequenos enfermos, em texto deveras comovente, haja vista as condições dos sujeitos em relação na sua pesquisa de cunho acadêmico. Entre outras recomendações de ordem humana e humanitária, a Autora indica encarecidamente aos leitores a necessidade de se procurar conhecer os estertores e consequências da morte, a fim de que o transe do cliente e dos circunstantes seja abrandado com o aceite da realidade, abraçando a resignação ante um sucesso irrecorrente.

Nesse poema de amor amplo e celeste – lembrando o simbolismo poético de Alphonsus de Guimaraens (Ouro Preto, 24.07.1870; Mariana, 15.07.1921) – Rossana alcançou a composição de um escrito claro e correto, de leitura cristalina, no qual impôs o vigor de pesquisadora, estruturando-o teoricamente com especialistas acreditados perante a comunidade investigadora de temas afins, com a vantagem de haver evitado compromisso com as desproporções da tanatologia esotérica, não científica, a qual transita solta entre os desavisados.

O escrito de Rossana Guabiraba, embora tenha o continente rápido como o decurso da doença referida, pontilhada de tanta amargura, possui conteúdo de grande alcance, pelo que deve ser lido e debatido, pois, decerto, vai servir de norte a outros estudiosos que intentem revolver o tema sob ângulos mais diversificados.

Morre o acadêmico Paulo Bonavides – Uma grande perda para a inteligência brasileira

A Academia Cearense da Língua Portuguesa externa o profundo pesar de todos os seus membros pelo falecimento, nesta sexta-feira (30/10), do Professor Paulo Bonavides, um dos maiores constitucionalistas brasileiros de todos os tempos. Bonavides ocupava a Cadeira nº 29 da ACLP, agremiação que ajudou a fundar a 28 de outubro de 19977. Também integrava a Academia Cearense de Letras (Cadeira nº 17), assim como inúmeras instituições científicas e culturais de Brasil e do exterior.

O corpo do acadêmico e catedrático de renome internacional será velado amanhã, 31 de outubro, das 9h às 14h30min, no Complexo Velatório Ethernus (Rua Padre Valdevino, 1688 – Aldeota). Seguindo as recomendações de segurança sanitária, o velório terá acesso controlado. O sepultamento, será realizado, em seguida, apenas com a presença de familiares.

VIDA EXEMPLAR

Paulo Bonavides nasceu a 10 de maio de 1923, em Patos, na Paraíba. Iniciou seus estudos jurídicos, em 1943, na Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se bacharelou em 1948. Durante a graduação, cursou também a Universidade de Harvard, nos EUA.

Começou sua carreira docente em 1950, como professor de Ensino Médio na disciplina de Sociologia, no Instituto de Educação Justiniano de Serpa. Nos anos letivos de 1951 e 1952, foi professor do Seminário Românico da Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Ingressou na Universidade Federal do Ceará em 1956, como professor assistente de Introdução à Ciência do Direito.  

Dentre os muitos títulos e honrarias que lhe foram atribuídos, ao longo de sua carreira, destacam-se: Professor Emérito da Universidade Federal do Ceará; Doutor Honoris Causa da Universidade de Lisboa; Professor Visitante nas universidades de Colônia, Tenessee e Coimbra; Lente no Seminário Românico da Universidade de Heidelberg; membro correspondente do Instituto de Direito Constitucional e Político da Universidade Nacional de La Plata, Argentina; membro correspondente do Grande Colégio de Doutores da Catalunha; membro do Comitê que fundou a Associação Internacional de Direito Constitucional; membro da Associação Internacional de Ciência Política da França e da “Internationale Vereinigung für Rechts und Sozialphilosopie” de Weisbaden, Alemanha; da Academia Brasileira de Ciências Jurídicas, e do Instituto Ibero-Americano de Direito Constitucional.

“UM EXEMPLO AOS HOMENS DE BEM”

Seguem-se algumas manifestações sobre essa grande perda para a inteligência brasileira:

José Sarney, ex-Presidente da República: “O falecimento de Paulo Bonavides é uma imensa perda para o Ceará e para o Brasil. Grande jurista, grande historiador, jurisconsulto de fama internacional, Bonavides deixa valiosos estudos de Direito Constitucional. Ele é o autor, também, de uma obra extraordinária para todos que querem pensar o País, que são os volumes da ‘História Constitucional do Brasil’e dos ‘Textos Políticos da História do Brasil’, que permitem a reconstituição documenta da evolução do pensamento político e constitucional entre os que nos precederam.”

Dias Toffoli, ministro do STF e coordenador da “Coleção Paulo Bonavides”, da Editora Forense: “Os livros de Paulo Bonavides introduziriam no país uma série de temas que eram centrais na doutrina alemã e norte-americana, ajudando a reconstruir o constitucionalismo após 1988. Grande parte da jurisprudência constitucional do Supremo Tribunal Federal inspira-se em suas teorias. Ele foi um jurista que conseguiu concretizar a célebre expressão “o universal pelo regional”.

Luís Roberto Barroso, ministro do STF e Presidente do TSE: “Paulo Bonavides teve um valor inexcedível no cenário brasileiro, do ponto de vista institucional, teórico e afetivo. Institucional porque, ao lado de José Afonso da Silva, manteve a chama do constitucionalismo acesa durante a longa noite da ditadura militar. Teórico porque foi pioneiro na reaproximação entre o Direito e a Ética, liderando o movimento pós-positivista no Brasil. E afetivo porque era uma pessoa adorável, generosa e de grande senso de humor. Um ser iluminado. A partir de agora, brilhará no firmamento.”

Maria Cristina Peduzzi, Presidente do TST: “A obra de Paulo Bonavides tem impacto permanente na formação de inúmeras gerações de juristas brasileiros. Como poucos, soube condensar o espírito do constitucionalismo nacional, sistematizando argutamente as influências teóricas do direito brasileiro. O Brasil perde um democrata que descreveu, com precisão, as bases de sustentação do constitucionalismo nacional.”

Jorge Mussi, Vice-Presidente do STJ: “Perdemos o nosso maior constitucionalista. Figura luminar das Ciências Humanas. Pessoa cujo caráter retemperado pela chama do seu idealismo foi um exemplo aos homens de bem.”

João Otávio de Noronha, Ministro do STJ: “O Brasil e o mundo perdem com o falecimento de Bonavides, um gênio do constitucionalismo moderno”.

Ophir Cavalcante, ex-Presidente da OAB: “Uma perda irreparável. Um homem simples, humano, educado, estudioso, enfim, um ser humano que deve servir de exemplo a todos. Sua obra ultrapassou as fronteiras do Brasil, passando a ser referência no estudo do Direito Constitucional nas melhores Faculdades de Direito do mundo. Seu contributo à ciência jurídica é inestimável. Vai o homem, ficam as obras e o exemplo.”

Que sonho curto, camaradas!

RITACY DE AZEVEDO TELES, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 23

Surpreendi-me quando abri o portão. As pessoas que vi não eram os amigos brilhantes que eu esperava para o aniversário do meu primo nem os dois jornalistas que registrariam o evento nas redes sociais. Eram quatro desconhecidos: um casal e duas crianças. Eram esquálidos e pareciam sentir profunda dor e vergonha. Vinham portando sacos e restos de comida e já cheiravam mal. Talvez tivessem caminhado dias. A princípio, quis lhes dar água e algum alimento, mas eles me despertaram uma responsabilidade muito maior que essa, e chamei mamãe para rogar-lhe que os acolhesse.

Depois do aniversário, do qual se mantiveram distantes, chamei a mulher. Ela me revelou que haviam saído de um sítio após perder as duas vacas, o boi e algumas ovelhas. Disse que não havia água alguma quando deixaram sua região e que, após andarem cerca de cem quilômetros, uma das crianças passara a sentir náuseas e febre. Fora estranho, pois não gripara nem tivera desarranjo, e o fato é que lá ficara, em cova rasa, com cruz de pau seco. Foi aí, deixando emergir algo recôndito no ser e normalmente preguiçoso, um resquício de bondade, que resolvi fazer minha aquela família. Dei-lhe um espaço em um quarto do quintal, consegui emprego para o pai e para a mãe e apadrinhei a garota.

Hoje, vinte anos depois de tudo, estamos reunidos em comemoração. O rapaz comprou um pequeno sítio para os pais, que estão voltando às suas raízes campestres. Vão, porém, sozinhos. O filho tem atividades na cidade, pois é engenheiro e cuida de obras na orla marítima. A moça também não pode acompanhá-los: é a única cardiologista do lugar, há muitos pacientes que necessitam de sua presença e o interior nada lhe oferece.

Hoje é dia de chorarmos, pois sentiremos saudades de todos. O casal partirá, e os dois filhos, apesar de estarem por perto, casarse-ão em breve. Todos foram importantes na minha vida e na de minha família, pois nos fizeram ver que temos responsabilidades uns pelos outros, que a vida só é plena se fizermos algo que nos sublime a humanidade. Você gostou dessa história de destinos, leitor? Linda, não?! Lindo mesmo seria se esse sonho de bondade se realizasse mais que uma vez em cem, não é mesmo?! E lindo, lindíssimo, no exagero maior do superlativo, seria se, nos anseios da mediocridade social, sempre mascarada por discursos rasos, prescindíssemos das forminhas finais de chantilly, hem?!

Memórias esparsas – Flagrantes da Vida Real (Releitura Analítica)

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

A sorte serve-se, às vezes, dos nossos defeitos
para nos elevar. (FRANÇOIS, Duque de La Rochefoucauld –
*Paris, 15.09.1613; +17.03.1680).

“Memória como o único paraíso de onde não se pode ser expulso.”

1 INTRODUÇÃO – Inexistência de Total Saúde

Certamente não assiste razão a quem cogita na noção de uma humanidade dispensada de toda a doença, na ideal fruição de saúde. Contrariamente ao pretendido pela OMS (BUSS, 2000), ao prescrever ausência patológica total e gozo de bem-estar completo, sempre haverá um senão, seja um ai! no corpo ou mesmo um ui! na alma. Normalmente ocorre a afluência dos dois, via de regra multiplicados nos seus influxos negativos, ao residirem, sem nosso habite-se, tanto em meio corporal quanto no círculo anímico.

Este ponto é objeto de acuradas reflexões por parte de preclaras autoridades da Ciência Médica e seus esgalhos disciplinares e afins, merecendo ressalto o psiquiatra e pioneiro da Neurologia, facultativo estadunidense Walter Riese [Berlin, 30.06.1890; Richmond (Virgínia), 1976].

Em estudo de 1959 – A History of Neurology – como assinala aquele expoente, uma perfeita higidez física e mental faria menos rica a raça de hoje, porquanto um imenso campo de atividade lhe seria poupado e recusado.  Na intelecção de Riese, uma pessoa idealmente sã jamais nos ensinaria tudo de sua capacidade, até seu ponto maior de resistência, quando as moléstias, corpóreas e psíquicas, acham de acometê-la.

Entre vários exemplos reproduzidos pela História, sob tal aspecto, remeto-me a uma leitura feita na infanto-adolescência (a propalada aborrecência), salvante lapso rememorativo, na Nova Seleta, organizada pelo escritor cratense Romão Filgueiras Sampaio (18.11.1915 – 28.01.1994), sendo oportuno pinçar o caso de Helen Adams Keller (1880-1968), do qual procederei a relato ligeiro um pouco à frente, cotejando-a com Antônio de Araújo Costa Filho (2008), cujo Memórias Esparsas – Flagrantes da Vida Real termino de reler.

2 MEMÓRIA E REGRESSÃO

Aqui, procedo a uma digressão, em expediente mais parecido com um colchete ou até uma chave. Sem perder, entanto, o liame com as mencionadas defeituações materiais e da psique, peço a vênia do leitor para compor parêntese maior, a fim de me reportar à memória, cuja falta representa manifestação enfermiça peculiar, nas mais das vezes, à idade cronológica, sendo algo não muito fácil de entendimento, nomeadamente por parte de leigos nesta seara, conforme sou.

Nem todas as pessoas, evidentemente, são favorecidas com a propriedade de preservar e trazer à evocação certas situações de consciência há muito passadas e tudo aquilo quanto a elas está associado. Há algum tempo, exempli gratia, a pouco e pouco, me vinha o lapso de memória, o conhecidíssimo branco.

Agora, contudo, ao descer os degraus vitais, em obediência ao normalíssimo fim organísmico (consoante sucede com o fenômeno do nascimento) e ao qual a sociedade ocidental ainda não se habituou –  me aportam muitas dessas alvuras escurecedoras da lembrança, obstando-me o processamento dos dados.

Em sentença lapidar, de quando em vez repetida, Napoleão Bonaparte exprimiu: cabeça sem memória, cidadela sem guarnição. Entrementes, o escritor alemão, apreciado produtor do livro Titã e Héspero, João Paulo Frederico Richter, exprimiu a memória como o único paraíso de onde não se pode ser expulso.

A vida e a literatura estão, por conseguinte, pontilhadas de remissões a este conceito, e não somente renomeados autores, em todas as línguas literárias, registaram suas lembranças e as legaram à posteridade, pois, mesmo não sendo escritores de ofício, seres dotados desta faculdade, em quantidade considerável, assinalam, à farta, sua existência por intermédio da pontoação de suas recordações, editadas em receptáculo de papel e, hoje, em suportes eletrônicos.

Evocação, porém – é cediço – constitui circunstância complicada, supondo a manutenção de expressões anteriores, sua reprodução e revivescimento, bem como a própria localização. A faculdade da lembrança, decerto, não depende unicamente da mudança de elementos nervosos, mas reclama ligações dinâmicas entre estes. Assim, quanto mais se repetir a associação de tais componentes, tanto mais a ideia será preservada.

De tal sorte, este talvez seja o fenômeno explicativo de serem as evocações mais velhas as derradeiras a aparecer, pela via fenomênica da regressão, estádios já percorridos pela pessoa em seu desenvolvimento, em circunstâncias de estresse e experiências de conflitos interiores e externos.

Evidentemente, por ser fora de propósito, não alimento a tenção de ensaiar nesta senda na qual sou insipiente, pois contraposta aos meus assuntos de exame. Nada obsta observar, entretanto, a necessidade de a imagem recordada se confirmar como algo já conhecido.

3 HELLEN KELLER E COSTA FILHO

Dessa maneira, depois de tergiversar da temática principal ora sob relato, volto a Helen Keller, fecunda escritora dos EEUU, a quem um ataque de escarlatina tolheu a visão e subtraiu a audição, quando contava apenas um ano e sete meses e, no entanto, sob os cuidados de Anne Sullivan (1866-1936), aprendeu muitas línguas e História Latina, havendo escrito vários livros da mais distinta verve criadora, pintando paisagens e descrevendo sons. Com sua força de fé, revelada na autobiografia A História da minha Vida, disse haver criado seu mundo, pois, “[…] com visão, fiz para mim os dias e as noites, divisando nas nuvens o arco-íris e, para mim, a própria noite se povoou de estrelas”. (Apud LELLO & LELLO, 1983).

Transpondo, com efeito, todo esse balanço negativo, Helen Keller demonstrou na doença, imposta como um fado, a possível vertente perpétua de enriquecimento da Natureza. Daí a opinião de Walter Riese, há pouco expressa, para quem a noção do homem, do qual moléstia e padecimento estejam ausentes, será sempre imperfeita.

Ao proceder a um cotejamento de HK com Antônio de Araújo da Costa Filho, autor de Memórias Esparsas – Flagrantes da Vida Real (EDUECE-2008), vejo haver sido ele guardado pelo desvelo de sua família. Enriqueceu-lhe o caráter o fato de haver sobrelevado as limitações físicas, pois não teve a ventura de, na realidade do Tio Sam, deparar uma Anne Sullivan a lhe seguir os passos, alumiar-lhe a senda vital e a ele conceder os favores permitidos a Helen Keller, tornada paradigma de superação.

4 CONCLUSÃO – A Obra de Costa Filho

Ao considerar os comentários procedidos na seção imediatamente anterior deste curto escrito, nem  por isso, todavia, Antônio de Araújo Costa Filho deixou de se crer propício à vida, dignitário de sua condição humana, admiravelmente revelada nos exemplos da peleja, resignação e vitória, bem no espírito do pensamento de Walter Riese, consoante é expresso no esforço de açular a memória e ajuntar seus alfarrábios para reuni-los em um volume, denotativo do seu preparo intelectual, na constância da autodidaxia, sem ocorrer sub tegmini fagi da escola formal e com seu ror de limitações.

Autodidata e na solidão de suas faltas corporais, porém, alcançou mais este galardão, o qual, distante de ser um triunfo de Pirro, aflui à opinião rieseana, cuja ideia de homem, sem neste haver doença nem sofrimento, será perpetuamente inexata.

Costa Filho, nesta seleção de muito bem trabalhados escritos, demonstra, à exuberância, a aptidão humana do sobrepujamento, malgrado os desprovimentos orgânicos, na conquista de um de seus anelos desde há muito acalentado, fazendo-o – e isto é o mais relevante – de modo inteligente, tanto no conteúdo como no formato, legando-nos uma peça literária e artística de indiscutível valor, produzida no recôndito de seu corpo fisiologicamente defeituoso, no encoberto de sua alma vizinha da perfeição e nos escaninhos de um coração referto de amor.

REFERÊNCIAS

BUSS, Paulo Marchiori. Promoção de Saúde e Qualidade de Vida. Ciência e Saúde Coletiva. V.5.n.1, 2000, pp. 163-77.

COSTA FILHO, Antônio de Araújo. Memórias Esparsas – Flagrantes da Vida Real. Fortaleza: Editora da UECE (EDUECE), 2008.

LELLO, José; LELLO, Edgard (Dir.) Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro em 2 volumes. Porto: Lello & Irmão, 1983.

MESQUITA, Vianney. Arquiteto a Posteriori. Fortaleza: Imprensa Universitária – UFC, 2013. 252 pp.

RIESE, Walter. A History of Neurology. New York, MD. Publications, 1959.

Eleita e empossada a Diretoria da ACLP para o biênio 2020/2022

Em Assembleia Geral realizada na noite de quinta-feira, 08/10, em ambiente virtual, a Academia Cearense da Língua Portuguesa elegeu sua Diretoria Executiva para o biênio 2020/2022. Na ocasião, a chapa “ACLP Unida”, liderada pelo acadêmico Marcelo Braga, recebeu o assentimento unânime dos votantes (27 no total).

Após a abertura dos trabalhos, pelo Presidente Teoberto Landim, foi lida e aprovada a ata da reunião anterior, seguindo-se a tradicional “Hora do Vernáculo”, em que se discutem temas relacionados à Língua Portuguesa. A exposição, dessa feita, coube à Profª Ritacy Azevedo, ocupante da Cadeira 23, que discorreu sobre “Subordinação e coordenação, concessão e adversidade em coesões intra e interfrasais: uma reflexão”.

Prof. Marcelo Braga
Prof. Marcelo Braga é o novo Presidente da Academia Cearense da Língua Portuguesa.

Em seguida, Teoberto Landim passou a condução dos trabalhos ao Prof. Myrson Lima, que presidiu a Comissão Eleitoral, integrada, ainda, pelas acadêmicas Regina Barros Leal e Eulália Leurquin. Coube a Myrson anunciar o resultado da votação, que apontou a totalidade dos sufrágios favorável à chapa única apresentada. Os votos haviam sido emitidos, durante todo o dia, por e-mail ou através do WhatsApp.

Proclamado o resultado, o Prof. Teoberto despediu-se da Presidência externando profundo agradecimento aos membros de sua Diretoria e a todos os acadêmicos que, ao longo do último biênio, prestigiaram as reuniões e demais atividades da Academia.

Na condição de ex-Presidente, o acadêmico Batista de Lima havia sido designado para dar posse, oficialmente, à nova Diretoria. Em breve mensagem, Batista ressaltou ser aquela a primeira solenidade de posse em formato remoto vivenciada pela ACLP. Agradeceu à Comissão Eleitoral por seu brilhante desempenho, desejou êxito à nova gestão e prestou homenagem a uma série de ilustres acadêmicos já falecidos.

Ao término da Assembleia, já na condição de Presidente, o Prof. Marcelo Braga dirigiu-se a seus pares, inicialmente, com palavras de agradecimento. Comprometeu-se a dar continuidade ao trabalho desenvolvido por seus predecessores no comando da Academia e se manifestou aberto a sugestões, sendo seu desejo agregar a experiência dos acadêmicos veteranos. Propôs que se formassem comissões para dar maior celeridade às tarefas e, por fim, conclamou à unidade, proposta contida no próprio título da chapa que liderou.

É a seguinte a composição da nova Diretoria da ACLP:

Presidente – Marcelo Braga
Primeiro-vice-presidente – Sebastião Teoberto Mourão Landim
Segundo-vice-presidente – Paulo Sérgio Lobão
Primeiro-secretário – Francisco Vicente de Paula Júnior
Secundo-secretário – Maria Margarete Fernandes de Sousa
Primeiro-tesoureiro – Sebastião Valdemir Mourão
Segundo-tesoureiro – Ana Vládia Mourão de Oliveira
Diretor de Publicação e Marketing – Italo Gurgel
Conselho Fiscal – Ritacy de Azevedo Teles; Maria Gorete Oliveira de Sousa; Antônio Vicente de Alencar

Hora do Vernáculo – A defectibilidade do verbo CABER

MARCELO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 18

Antes de iniciarmos a análise sobre a possibilidade de se considerar, diferentemente das gramáticas normativas, o verbo CABER como defectivo, atenhamo-nos à origem da palavra defectivo.

Defectivo vem do Latim DEFECTIVUS de DEFECTUS (falha, fraqueza) – particípio passado de DEFICEREDE prefixo (separação) + FACERE (fazer).

De acordo com a Norma, são chamados de defectivos os verbos que não apresentam conjugação completa. Isso ocorre especialmente no presente do indicativo e nos seus derivados: presente do subjuntivo e imperativo. A maioria das gramáticas distribuem os verbos defectivos em três grupos, assim classificados:

1º Grupo – verbos que não apresentam a primeira pessoa do singular do presente do indicativo como abolir, colorir, extorquir, explodir

2º Grupo – verbos conjugados apenas nas formas arrizotônicas do presente do indicativo na primeira pessoa do plural e na segunda pessoa do plural como adequar, falir, precaver-se, remir

3º Grupo – verbos unipessoais e impessoais como miar, coaxar, chover, trovejar…..

Observação – alguns gramáticos apresentam os unipessoais e os impessoais como sendo o 1º grupo.

Exemplo de conjugação dos defectivos de 1º e 2º Grupos

COLORIR                                   ADEQUAR

COLORIR                                   ADEQUAR

PRES. DO INDIC.                     PRES. DO SUBJ.

Eu      ————–                    Eu —————-

Tu      colores                          Tu —————–

Ele     colore                            Ele ————— –

Nós    colorimos                      Nós adequamos

Vós    coloris                           Vós adequais

Eles   colorem                         Eles ————-

Por não se ter a conjugação da primeira pessoa do presente do indicativo dos referidos verbos, não se tem também a conjugação do presente do subjuntivo, haja vista ser derivado da primeira pessoa do presente do indicativo.

Quanto ao imperativo, os verbos do primeiro grupo poderão ser conjugados no afirmativo na segunda pessoa do singular tu e na segunda pessoa do plural vós, mas não no negativo, visto que o negativo se conjuga de acordo com o presente do subjuntivo sem a primeira pessoa. Já os verbos do segundo grupo apresentarão a conjugação no imperativo afirmativo apenas da segunda pessoa do plural vós. Assim fica a conjugação:

COLORIR                                                     ADEQUAR

IMPERATIVO AFIRMATIVO             IMPERATIVO AFIRMATIVO

Colore tu

Colori vós                                                 Adequai vós

Feita essa explanação acerca dos verbos defectivos, poderemos agora entender a defectividade do verbo CABER. Consoante o conceito de defectividade, a Gramática Normativa expõe que os verbos defectivos são aqueles que não apresentam conjugação completa. Essa não conjugação completa se dá por certos motivos como eufonia (colorir), homofonia (falir) e também pela relação semântica do verbo. É exatamente nessa relação semântica que o verbo irregular CABER poderia também ser classificado como defectivo.

O verbo CABER apresenta conjugação completa no presente do indicativo e, consequentemente, no presente do subjuntivo (tempo derivado da primeira pessoa do presente do indicativo). No entanto, não se conjuga no imperativo afirmativo nem no negativo, embora o imperativo afirmativo seja derivado das 2ª pessoas do singular e do plural do presente do indicativo e o imperativo negativo seja conjugado a partir do presente do subjuntivo sem a primeira pessoa. E isso se dá por qual motivo? Na verdade, pela semântica do verbo. Não há como mandar alguém caber em algum lugar, ou suplicar para que alguém caiba em algum lugar. A ausência da conjugação, no referido modo, não ocorre pelo não uso, como acontece, por exemplo, com o verbo PODER, o qual permite o emprego do imperativo pela sua diversidade semântica, mas pela ideia de sentido.

Conjugação do verbo CABER

PRES. DO INDIC.                               PRES. DO SUBJ

Eu      caibo                                     Eu caiba

Tu      cabes                                    Tu caibas

Ele     cabe                                      Ele caiba

Nós    cabemos                               Nós caibamos

Vós    cabeis                                   Vós caibais

Eles   cabem                                   Eles caibam

A volta ao de sempre

CLAUDER ARCANJO, Membro Correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

— Calma! Isso tudo vai passar.

Resolveu, então, ouvi-lo e resistir. As mazelas do isolamento consumiam-lhe o juízo, mas decidiu se submeter ao regramento imposto.

&&&

Certa manhã cobrou-lhe resposta, pálido e com as forças combalidas:

— Passou? Posso sair?

O amigo olhou-lhe com a ternura dos crédulos e asseverou:

— Logo, logo entraremos num novo normal. Nada será como antes. O sacrifício valerá a pena.

— …

Conteve o protesto; a engolir, cuspe amargo da revolta, o que sairia de sua boca após as reticências. E se enfiou, uma vez mais, na solidão.

&&&

Um ano depois a porta se abriu, e o seu amigo entrou, a anunciar:

— A cidade está livre! Novos dias, áureos tempos. Estamos em festa. A partir de agora nada mais será como antes.

Ele, então, fez a barba, aparou o bigode, vestiu o seu melhor terno, perfumou-se. Contudo, mal pôs os pés na rua, concluiu: “Estou de volta ao de sempre”.

“ACLP Unida”, a chapa completa

O Presidente da Academia Cearense da Língua Portuguesa, Prof. Teoberto Landim, recebeu nesta terça-feira, 15 de setembro, Requerimento no qual o acadêmico Marcelo Braga apresenta a composição completa da chapa “ACLP Unida”, por ele encabeçada, concorrente ao processo seletivo da Diretoria Executiva que conduzirá a entidade no biênio 2020/2022.

É o seguinte, na íntegra, o teor do documento:

REQUERIMENTO PARA O REGISTRO DA CHAPA

Ilmo. Sr.
Presidente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

Senhor Presidente,

Eu, Marcelo Braga,  nos termos do Edital de Convocação da Eleição, publicado no dia 3/08/2020, conforme disposto em seu Estatuto, artigos 16 e 19, venho REQUERER, no prazo legal, a inscrição e o registro da Chapa ACLP UNIDA para concorrer ao processo seletivo da Diretoria Executiva da ACLP para o biênio 2020 / 2022. A chapa é composta pelos seguintes membros:

Presidente – Marcelo Braga
Primeiro-vice-presidente – Sebastião Teoberto Mourão Landim
Segundo-vice-presidente – Paulo Sérgio Lobão
Primeiro-secretário – Francisco Vicente de Paula Júnior
Secundo-secretário – Maria Margarete Fernandes de Sousa
Primeiro-tesoureiro – Sebastião Valdemir Mourão
Segundo-tesoureiro – Ana Vládia Mourão de Oliveira
Diretor de Publicação e Marketing – Italo Gurgel
Conselho Fiscal – Ritacy de Azevedo Teles; Maria Gorete Oliveira de Sousa; Antônio Vicente de Alencar

Nestes termos,
Pede deferimento.

Marcelo Braga

ACLP define data de escolha da nova Diretoria – Hora do Vernáculo discute BNCC

A Academia Cearense da Língua Portuguesa (ACLP) realizou nessa quinta-feira, 3, através de plataforma virtual, sua reunião ordinária do mês de setembro. Na ocasião, foi marcada para o dia 8 de outubro a realização da assembleia geral que elegerá a nova Diretoria da entidade para o biênio administrativo 2020/2022.

Na Hora do Vernáculo, a acadêmica Eulália Leurquin (Cadeira nº 33) apresentou trabalho de sua autoria e da confreira Margarete Fernandes (Cadeira nº 13) sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que define o conjunto de habilidades e competências a serem desenvolvidas por todo jovem brasileiro ao longo de sua vida escolar.

A BNCC começou a ser discutida em 2015, tendo recebido milhares de contribuições em consultas e audiências públicas. A sociedade participou com mais de 12 milhões de contribuições na primeira versão, sendo que metade delas veio de 45 mil escolas. Em 2016, a segunda versão viajou por todos os estados. Através de seminários estaduais, cerca de 9 mil pessoas, entre educadores e alunos, debateram o documento em detalhes. Em abril de 2017, a terceira versão foi entregue ao Conselho Nacional de Educação (CNE), que ouviu opiniões em uma nova rodada de seminários regionais. Por fim, em dezembro de 2017, a BNCC foi homologada pelo MEC e passou a vigorar em todo o Brasil.

Segue-se resumo da palestra de ontem, distribuído, eletronicamente, pela Profª Eulália Leurquin:

A Língua Portuguesa na Base Nacional Comum Curricular e implicações para o Ensino e Aprendizagem

  1. Considerações gerais sobre a BNCC

A  Base Nacional Comum Curricular (BNCC) “é um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica” (BRASIL, 2017, p. 7).

A Língua portuguesa é um dos componentes curriculares, mas também é o idioma dos brasileiros. Ela faz parte da área Linguagens e suas tecnologias, juntamente com Arte, Educação Física e Língua Estrangeira (a língua inglesa). Na sua apresentação, o foco está no contexto social, alinhado aos cinco campos de atuação (Campo da vida cotidiana, artístico-literário, das práticas de estudo e pesquisa, da vida pública, jornalístico-midiático), onde acontecem as práticas sociais, mediadas pela linguagem em forma de gêneros textuais, semiotizados em textos (orais, escritos e/ou multimodais).

Com base nesta composição,  a centralidade do ensino e aprendizagem da língua portuguesa é o texto. Ele deve ser estudado nas práticas de linguagem (Leitura/Escuta, Oralidade, Produção de texto e Análise linguística/semiótica), também denominadas de práticas de linguagem ou Eixos, para desenvolver habilidades (há trezentas e noventa e quatro), articuladas aos objetivos previstos específicos para o Ensino Fundamental (temos dez). Dentre eles, destacamos:

Compreender a língua como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso, reconhecendo-a como meio de construção de identidades de seus usuários e da comunidade a que pertencem. (grifo nosso)

A proposta de ensino e aprendizagem da língua portuguesa ratifica um posicionamento já feito desde 1998 sobre a mudança da terminologia ensino da gramática para ensino de análise linguística. O argumento que dá base a esse posicionamento aponta para o fato de que o ensino da gramática distante da funcionalidade da língua não contribui para ampliar as competências comunicativas.

  • O ensino da Analise linguística/Semiótica

A atividade Análise Linguística/Semiótica se apresenta de maneira articulada com os dois eixos Leitura e Produção de texto. Esta articulação garante que o ensino da língua aconteça de maneira contextualizada porque a atividade de Análise Linguística/Semiótica 

 envolve os procedimentos e estratégias (meta)cognitivas de análise e avaliação consciente, durante os processos de leitura e de produção de textos (orais, escritos e multissemióticos), das materialidades dos textos, responsáveis por seus efeitos de sentido, seja no que se refere às formas de composição dos textos, determinadas pelos gêneros (orais, escritos e multissemióticos) e pela situação de produção, seja no que se refere aos estilos adotados nos textos, com forte impacto nos efeitos de sentido. (BRASIL, 2017, p. 77).

Portanto, três orientações são feitas:

  1. Formas de composição dos textos (coesão, coerência e progressão temática e ritmo, altura, intensidade, clareza de articulação, variedade linguística adotada, estilização etc. –, assim como os elementos paralinguísticos e cinésicos – postura, expressão facial, gestualidade etc);
  2. Estilo (léxico e de variedade linguística ou estilização e alguns mecanismos sintáticos e morfológicos);
  3. Textos multissemióticos formas de composição e estilo de cada uma das linguagens que os integram (cor, plano/ângulo/lado, figura/fundo, profundidade e foco, cor e intensidade nas imagens visuais estáticas, acrescendo, nas imagens dinâmicas e performances, as características de montagem, ritmo, tipo de movimento, duração, distribuição no espaço, etc).

De acordo com a BNCC, os conhecimentos grafofônicos, ortográficos, lexicais, morfológicos, sintáticos, textuais, discursivos, sociolinguísticos e semióticos estão concomitantemente, sendo construídos a partir das práticas de Leitura/Escuta e Produção de textos que oportunizam situações de reflexão sobre a língua e as linguagens

(…) em que  essas descrições, conceitos e regras operam e nas quais serão concomitantemente construídos: comparação entre definições que permitam observar diferenças de recortes e ênfases na formulação de conceitos e regras; comparação de diferentes formas de dizer “a mesma coisa” e análise dos efeitos de sentido que essas formas podem trazer/ suscitar; exploração dos modos de significar dos diferentes sistemas semióticos etc.(BRASIL, 2017, 79).

Sobre a dinâmica que move o ensino e aprendizagem da língua portuguesa, passaremos a tratar.

  • Os campos os conhecimentos linguísticos para o ensino de Língua portuguesa

Os campos os conhecimentos linguísticos relacionados a ortografia, pontuação, conhecimentos gramaticais (morfológicos, sintáticos, semânticos), entre outros são apresentados de maneira a articular habilidades, eixos e conhecimentos.

Exemplo 1:

Morfossintaxe

  • Conhecer as classes de palavras abertas (substantivos, verbos, adjetivos e advérbios) e fechadas (artigos, numerais, preposições, conjunções, pronomes) e analisar suas funções sintático-semânticas nas orações e seu funcionamento (concordância, regência).
  • Perceber o funcionamento das flexões (número, gênero, tempo, pessoa etc.) de classes gramaticais em orações (concordância).
  • Correlacionar as classes de palavras com as funções sintáticas (sujeito, predicado, objeto, modificador etc.

4.  Documento Curricular Referencial do Ceará

No Documento Curricular Referencial do Ceará (DCRC), ampliamos a tabela proposta pelo Ministério de Educação de forma a melhor contemplar a nossa proosta de ensino e aprendizagem da Língua portuguesa, conforme apresentamos:

Exemplo II:

  1. Componente
  2. Ano/ Faixa
  3. Campo de atuação
  4. Prática de linguagem
  5. Objeto de conhecimento
  6. Objeto específico
  7. Habilidade
  8. Competência específica
  9. Competência geral
  10. Interface com outros conhecimentos

(Eulália Leurquin e Margarete Fernandes)

Chapa “ACLP Unida” solicita registro

A Secretaria da Academia Cearense da Língua Portuguesa recebeu, nesta quarta-feira, dia 2 de setembro de 2020, solicitação de registro de chapa para concorrer ao processo seletivo da Diretoria Executiva que conduzirá a entidade no biênio administrativo 2020/2022. A chapa “ACLP Unida” está encabeçada pelo Prof. Marcelo Braga.

A Assembleia Geral para eleição de nova Diretoria será realizada no mês de outubro, em data a ser definida amanhã (quinta-feira, 3 de setembro), em reunião virtual marcada para as 20:00h. Nessa ocasião, o Presidente nomeará uma Comissão composta por três associados efetivos para dar encaminhamento ao processo eleitoral.

Segue-se transcrição do Requerimento endereçado hoje ao Presidente Teoberto Landim:

REQUERIMENTO PARA O REGISTRO DA CHAPA

Ilmo. Sr.
Presidente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

Senhor Presidente,

Eu, Marcelo Braga,  nos termos do Edital de Convocação da Eleição, publicado no dia 3/08/2020, conforme disposto em seu ESTATUTO, artigos 16 e 19, venho REQUERER, no prazo legal, a inscrição e o registro da Chapa ACLP UNIDA para concorrer ao processo seletivo da Diretoria Executiva da ACLP para o biênio 2020 / 2022. A chapa é composta pelos seguintes membros:

Presidente – Marcelo Braga
Primeiro-vice-presidente – Sebastião Teoberto Mourão Landim
Segundo-vice-presidente – Paulo Sérgio Lobão
Primeiro-secretário – Francisco Vicente de Paula Júnior
Secundo-secretário – Maria Margarete Fernandes de Sousa
Primeiro-tesoureiro – Sebastião Valdemir Mourão
Segundo-tesoureiro – Ana Vládia Mourão de Oliveira

Nestes termos,
Pede deferimento.

Marcelo Braga