O PENSAMENTO NO ENSINO DA REDAÇÃO

HORA DO VENÁCULO – 28-6-2017

                                   Prof. Valdemir Mourão – Cadeira nº 19

Se considerada toda a amplidão em que se engloba o pensamento, há de se admitir que quando um aluno é privado de certas experiências, as consequências logo aparecem na mudança de seu comportamento, por isso que, quando ele apresenta um comportamento impulsivo, por exemplo, o professor costuma atribuir isto à falta de pensamento: a pessoa não para para pensar (cf. Raths, 1977). 

Ainda em Raths, pode-se encontrar outro exemplo de que o aluno não se concentra:

Em certo momento, não presta atenção ao que está fazendo e, por isso, fracassa em seu trabalho. Geralmente se supõe que isso resulte de negligência de rigor nos processos de pensamento. Quando existe acentuação de pensamento no currículo, os alunos tendem a modificar seu comportamento. Quando existem frequentes oportunidades para participar de grande diversidade de processos que exigem pensamento, a frequência de comportamento impulsivo tende a diminuir (Idem).

Pode-se aceitar que é possível transpor a capacidade de pensar do aluno à expressão escrita, dando-lhe oportunidade para exercer essa capacidade, aplicando processos que o levam ao exercício do pensamento através da escrita, pois é fundamental, ao escritor, “ter oportunidade para pensar e para discutir o pensamento”(Ibidem), para que ele consiga harmonizar o pensar e o escrever.

Redigir é, afinal, uma das formas de manifestação da linguagem a qual determina o pensamento que, por sua vez, é útil ao desenvolvimento da linguagem, cuja relação (pensamento-linguagem) é advertida por Greene (1976) ao afirmar que falar acerca do pensamento, ignorando a linguagem, seria uma forma extremamente incompleta de abordar o assunto. 

Por ser o pensamento um elemento determinado pela linguagem e por ser a redação uma das formas de manifestações da linguagem, sente-se, então, a necessidade de se partir da produção do aluno, porque a sua produção deve refletir o seu pensamento (ou a sua consciência) e a sua variedade linguística, se já não decapitada pela repressão do ensino tradicional. 

É oportuno transcrever relações possíveis entre o pensamento e a linguagem atribuídas por Greene (1976), para que se entenda melhor tal ligação: 

  1. A linguagem é necessária ao pensamento e determina-o;b) O pensamento precede a linguagem e é necessário ao seu desenvolvimento; c) Linguagem e pensamento têm raízes independentes.

Também vale apresentar duas funções distintas da linguagem, para que se tenha ciência de que a linguagem e o pensamento partilham o mesmo código linguístico, daí a interligação entre ambos, reforçando, assim, a existência de um auxílio mútuo:

A linguagem tem duas funções distintas: a comunicação externa com os seres humanos nossos semelhantes e, de igual importância, a manipulação internade nossos pensamentos íntimos. O milagre da cognição humana é que ambos esses sistemas usam o mesmo código linguístico e, assim, podem ser reciprocamente traduzidos – com mais ou menos êxito (Ibidem).

Ainda referente ao pensamento, dentro do que interessa para este trabalho, tem lugar uma transcrição de Lima (1970):

O pensamento é uma atividade mental que envolve a manipulação de símbolos, sinais, conceitos ou ideias simbolicamente representados. (…) Se Considerarmos a memória como um arquivo, pensamento é o termo (sic) utilizado para descrever as diversas maneiras que temos para recuperar, examinar, combinar e reagrupar as informações arquivadas. A memória, a aprendizagem, o pensamento e a linguagem são processos intimamente (sic) interligados.

Este enunciado diz respeito especificamente ao que interessa esta pesquisa, visto que mostra que há ligação entre as operações de pensamento, a aprendizagem e a linguagem (elementos frequentes no ato de redigir e indispensáveis ao ensino deste ato). 

Se, por outro lado, o processo que estimula o aluno ao uso do pensamento – que deve refletir no seu comportamento e na sua linguagem – deve ser uma tarefa do professor, a mudança em si deve ser do aluno. Logo, compete ao mestre criar em cima da redação do aluno atividades que provoquem pensamento, que ativem a sua consciência, para que a alteração apresentada por ele recaia na sua própria produção: assim, fica detectada a influência do pensamento no ensino da redação. 

Para que isso ocorra, no entanto, com maior eficácia, presume-se que se deva partir da manifestação escrita do aluno, ainda que com suas variações, sem, todavia, estigmatizá-las, para se alcançar a língua padrão. Feito isso, poder-se-á levar o aluno a conhecer diferentes variações linguísticas e usá-las convenientemente, quando solicitado a expressar-se por escrito, refletindo, portanto, um melhor ordenamento do binômio pensamento-linguagem. 

As atividades sugeridas, a partir da produção escrita do aluno, podem ser desde a reestruturação de frases do texto, de períodos e de parágrafos, além de substituições de verbos, de complementos e/ou de sujeitos. 

O importante, portanto, é que estas atividades ativem o pensamento do aluno para que ele transforme a sua variação linguística em norma culta.

                        SUGESTÕES PARA OS PROFESSORES DE LÍNGUA

            Diante dos resultados favoráveis encontrados, a partir da aplicação de Operações de Pensamento, resta sugerir alguns pontos óbvios e implícitos no decorrer do trabalho.

  1. Que as operações de pensamento sejam aplicadas durante o trabalho de análise da produção do aluno.
  2. Que este trabalho seja feito também junto às composições de outras disciplinas, mesmo diante daquelas que têm como base o número. Acredite: Isso é possível.
  3. Que o trabalho de estudo da composição do aluno abranja a análise do código linguístico e doconteúdo, além da reestruturação frasal no texto e do uso de elementos coesivos.
  4. Que o ponto fundamental do trabalho de produção e análise de texto seja levar o aluno a refletirsobre a própria produção, fazendo-o sentir ou produzir a harmonia entre o pensar e o escrever.
  5. Que, mesmo com os conteúdos programáticos impostos pela escola, seja dada ênfase ao pensamento e ao uso da língua como fator final da produção da linguagem.
  6. Que a norma culta seja o fim do processo do ensino de língua, mas nunca o princípio nem o meio, e que este fim não sirva de repressão do uso da variação linguística do aluno.
  7. Que o processo de correção não seja um mero apontar de erros, mas um motivo de análise do ato de comunicação do indivíduo, sem que estes erros sirvam de punição para o aluno.

            Com a aplicação dessas sugestões por parte do professor, poder-se-á crer em uma possívelexpressão escrita mais próxima dos desejos dos mestres de língua.  

                      

                                    BIBLIOGRAFIA

  1. BAKHTIN, Mikhail (V. N. Volochínov), (1986).Marxismo e filosofia dalinguagem. 3ª ed.,   

       São Paulo, Ed. Hucitec. (tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira).

  1. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda (s.d.).Novo dicionário dalíngua portuguesa. 1ª  

       ed., 4ª impressão, RJ, Ed. Nova Fronteira.

  1. GREENE, Judith (1976). Pensamento e linguagem. 2ª ed., RJ, Zahar.
  2. GAGNÉ, Gilles (1983).Norme et enseignement de la languagematernelle. InBédard Edith

       e Jacques Manrais (org.). La norme linguistique, Québec, p. 463-509.

  1. GARMADI, J. (1973).Introdução à sociolinguística. Lisboa, Publicações Dom Quixote.
  2. GENOUVRIER, Emile e PEYTARD, Jean [1973].Linguística e ensinodo português. Coimbra,

       Almedina. (Tradução de Rodolfo Ilari).

  1. GUILLAUME, Gustavo (b, 1973).Leçons de linguistique,1948-1949, série C, Grammaire

       particulière du français et grammaire générale (IV), publiées par Roch Valin, Québec,   

       Presses de l’Université Laval et Paris, Klincksieck.

  1. JOHNSON, Wendell (1977).Impossível redigir redação.In: Uso e mau uso da linguagem,

       org. por S. I. HAYAKAWA (Tradução: Paulo V. Damásio Filho). SP, Pioneira.

  1. LIMA, Lauro de Oliveira (1982).O ensino reprovado: adaptado por autor desconhecido de

      “Oliveira Lima: Acabou no Brasil a escola normal”. Int: O GLOBO, RJ, p. 12, 2ª clichê, 09:02.

  1. MIRA Y LÓPEZ, Emílio (1966).El pensamiento:leyes y factores, límites y possibilidades del

       pensamento. Buenos Aires, Editorial Kapelsusz.

  1. MIRANDA, José Fernando (1985).Arquitetura da redação.7ª ed., ampliada e reformulada,

       Sagra, 3º V.

  1. OLIVEIRA FILHO, Paulo de (1987).Fundamentos da redação.SP, Lua Nova Editora.
  2. RATHS, Louis Edward; ARTHUR, Jonas; ARNOLD, M. Rothstein e WASSERMANN, Selma

       (1977). Ensinar a pensar: teoria e aplicação. 2ª ed., SP, EPU. (Tradução: DANTE MOREIRA LEITE). 

Emprego do Infinitivo

ACADEMIA CEARENSE DA LÍNGUA PORTUGUESA – 40 anos

Hora do Vernáculo – Prof. Myrson Lima – Cadeira nº14 – 28.3.2017.

             

            O infinitivo é uma das três formas nominais do verbo (infinitivo – gerúndio – particípio).

             São assim chamadas, porque assumem a função de nome (substantivo – advérbio – adjetivo).

Exemplos:

Estudar dá cultura.

Estudando, conseguirás aprovação.

Encerrada a reunião, nós nos retiramos.

 

  1. Infinitivoimpessoal: É inflexível, sem sujeito. Apresenta o verbo sem nenhuma especificação de modo, de tempo, de número, de pessoa. É a forma que encontramos registrada nos dicionários. Corresponde a um substantivo puro e provém do infinitivo latino em – re. Exemplos: amare, venire, audire.

Exemplos: Orar e trabalhar são duas importantes atividades do ser humano. Viver. O maior mandamento é amar o próximo.

 

  1. Infinitivo pessoal: Há referência a uma pessoa do discurso. Possui sujeito próprio ou o mesmo sujeito do verbo com que se articula. Poderá ou não flexionar-se.

Exemplos:   

Declararam estar prontos para o concurso.

Elas supõem sermos honestos.   

 

  1. Infinitivo pessoal flexionado: com flexão de número e pessoa.

Exemplos: amar eu, amares tu, amar ele, amarmos nós, amardes vós, amarem eles.

Às vezes, com flexão zero (1ª. e 3ª. pessoas do singular)

É esse infinitivo pessoal flexionado, mal regulamentado pela gramática, que se constitui um idiotismo da língua portuguesa.

 

  1.  Infinitivo pessoal não flexionadohá referência a um sujeito, mas a forma se confunde com a do infinitivo impessoal. De uso frequente nas locuções verbais.

Exemplos:

Eles não podem fazer tudo sozinhos.

As crianças brincam sem saber que há perigos no jardim.

    Observações:

  • Não são claramente definidas pela gramática todas as regras do emprego do infinitivo pessoal flexionado e do infinitivo pessoal não flexionado. São registradas apenas as tendências que se observam em seu emprego.
  • A opção entre a forma flexionada ou não flexionada pertence mais ao campo da estilística do que propriamente da gramática.
  • Geralmente, quando mais se quer realçar a ação, prefere-se a forma não flexionada, quando se realça o agente, usa-se a forma flexionada.

 

               Infinitivo flexionado

É flexionado, entre outros casos, quando

  1. a)O verbo tiver sujeito próprio, diferente do sujeito da oração principal.

       Exemplo: Declaramos estarem prontos os trabalhos.

  1. b)O verbo for reflexivo.

Exemplo: Foram obrigados a se refugiarem ali.

  1. c)Quando houver ideia de reciprocidade.

Exemplo: Vivem juntos sem se incomodarem.

  1. d)Quando vier preposicionado, antecedendo a oração principal.

Exemplo: Para passares no processo seletivo, é preciso muito estudo.

 

Infinitivo não flexionado

É não flexionado, entre outros casos, quando houver

  1. a)o sujeito do infinitivo idêntico do verbo regente.

Exemplo: Declaramos estar prontos para a viagem.

  1. b)uma locução verbal.

Exemplo: Queremos sair cedo.

  1. c)um pronome oblíquo como sujeito do verbo seguinte.

Exemplo: Vi-o sair.

  1. d)um sentido passivo.

Exemplo: Textos fáceis de ler.

 

  • O infinitivo é, muitas vezes, confundido com o futuro do subjuntivo. Para que isso não ocorra, coloca-se antes a preposição por para identificar o infinitivo e a conjunção quando ou se para o caso de futuro do subjuntivo.

Exemplos: Foi condenado por falar a verdade. Quando eu falar a verdade…

 

Desafio 1

Vocês devem, sempre que possível, fazer ou fazerem a fiscalização?

Resposta:

A resposta é vocês devem fazer a fiscalização.

Regra: Em locuções verbais, deve-se usar o infinitivo pessoal não flexionado.

Outros exemplos:

Os peritos devem analisar o avião acidentado com urgência.

Os contribuintes poderão pagar antecipadamente o Imposto de Renda.

Vamos estudar todos os casos de corrupção.

Desafio 2

Os técnicos estão aqui para resolver ou resolverem o problema?

Resposta:

O correto é os técnicos estão aqui para resolver.

Regra: Quando o sujeito do infinitivo é o mesmo da primeira oração, deve-se usar a forma inflexionada.

Outros exemplos:

Os torcedores vieram ao estádio só para vaiar o time.

Nós saímos a fim de almoçar juntos.

 

Desafio 3

Declaramos estar ou estarem prontos os relatórios?

Resposta: A resposta é estarem prontos os relatórios.

Regra: O infinitivo se flexiona, quando os sujeitos dos verbos são diferentes.

Outros exemplos:

O diretor mandou os funcionários irem à reunião.

A bolsa fez os preços subirem.

 

Desafio 4

O professor liberou seus alunos para ir ou para irem ao jogo? 

Resposta: O aconselhável é o professor liberou os alunos para irem ao jogo.

Regra: Em caso de ambiguidade, é aconselhável flexionar o infinitivo.

Outros exemplos:

O juiz pediu aos escrivães para saírem da sala.

O fotógrafo solicitou aos presentes para mudarem a cena.

 

Desafio 5

Mandei-os entrar ou mandei-os entrarem?

Resposta: A resposta é mandei-os entrar.

Regra: Se o sujeito do infinitivo for expresso por um pronome oblíquo (= o, os, a, as, lo, los, la, las no, na, nos, etc.), com verbos causativos ou sensitivos (mandar, deixar, fazer, ver, ouvir, sentir e sinônimos), a praxe é não flexionar o infinitivo.

Outros exemplos:

Fui vê-los fazer a apreensão / Fui ver os auditores fazerem a apreensão.  

Deixei-os sair para a palestra / Deixei os alunos saírem para a palestra.

Fizeram-nos renunciar ao mandato / Fizeram os deputados renunciarem ao mandato.

 

Desafio 6

Eles foram proibidos de sair ou saírem?

Resposta: O aconselhável é foram proibidos de sair.

 Regra: Não se flexiona o infinitivo com preposição que funcione como complemento de substantivo, adjetivo ou do próprio verbo principal.

Outros exemplos:

Os manifestantes foram impedidos de entrar. Os retardatários foram obrigados a ficar em pé.Eles têm necessidade de estar sempre discutindo.

 

Desafio 7

Foram obrigados a se refugiar ou se refugiarem no banco?

Resposta: O aconselhável é foram obrigados a se refugiarem.

Regra: O infinitivo se flexiona, se o verbo for reflexivo.

Outros exemplos:

As crianças tiveram de se esconderem do psicopata.

Os acusados foram convidados a se apresentarem ao chefe.

 

Desafio 8

Vivem juntos sem se incomodar ou se incomodarem?

Resposta: O usual é vivem juntos sem se incomodarem.

Regra: Quando houver ideia de reciprocidade, o infinitivo se flexiona.

Outros exemplos:

Eles convivem sob o mesmo teto sem se agredirem.

Eles saíram da reunião após se cumprimentarem.

 

Desafio 9

Textos fáceis de interpretar ou textos fáceis de interpretarem?

Resposta: O aconselhável é textos fáceis de interpretar.

Regra: Quando houver o sentido passivo, o infinitivo não se flexiona.

Outros exemplos:

Havia relatórios difíceis de concluir.

Tabelas fáceis de elaborar.

 

Desafio 10

Alegram-se por ter ou terem visto o cantor?

Resposta: O aconselhável é alegram-se por terem visto o cantor.

Regra: Para alguns gramáticos, convém flexionar o infinitivo, quando é possível a substituição por uma forma modal.

Explicação: Alegram-se por terem visto o cantor (alegram-se, porque viram o cantor)

Outros exemplos:

Já tivemos oportunidade de nos retratarmos. (de que nos retratássemos)

Afirmo terem chegado os computadores. (que chegaram)

Treinar os atletas para estarem aptos a competir. (para que compitam)

REMÉDIO PARA BARATA

(Periplaneta americana)

Vianney Mesquita

Em determinada ocasião, aqui em Fortaleza, fui a um depósito de material de construção, em verdade um empório de mercadorias não comestíveis, em razão da enorme variedade de produtos, e pedi a um dos caixeiros (palavra fora de moda = balconista) algum REMÉDIO PARA BARATAS.

Incontinenti, ele, alegre e zombeteiro, me respondeu, indagando: – “Então, as bichinha do senhor tão doente?” (sic).

A pergunta produziu nas demais pessoas, de fora e dentro do balcão, um jorro de riso, pela graça realmente originada, em decorrência da falta de conhecimento – dele e de seus circunstantes – a respeito das características homonímicas e polissêmicas de termos e dicções do léxico português, fato, aliás, a tornar este código glossológico uma língua admiravelmente literária.

A surpresa e o aborrecimento, entretanto, bem depois, se dissolveram, quando cuidei do fato de aqueles compradores e caixeiros da loja constituírem um conjunto desprovido de maiores haveres informativos, com escolaridade insuficiente para o alcance daquilo por mim retrucado, ao explicar ao protagonista do chiste, evidentemente com termos diversos dos expressos à frente, o fato de ele não ter razão, pois REMÉDIO possui diversas acepções, aplicáveis na dependência de certas necessidades e circunstâncias.

Impossível é dizer, todavia, não me haja o motejo causado enfado, conforme adiantei, notadamente pelo fato de haver ocorrido publicamente. Passemos a refletir, contudo, tendo por mote este sucesso passado no depósito, a respeito de algumas significações do termo “remédio”.

Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Objetiva, 2005) colheram no Fichário do Índice do Vocabulário Português Medieval, de Antônio Geraldo da Cunha (Fundação Casa de Rui Barbosa. Rio de Janeiro, 1986), o ano de1390 como o de registro do vocábulo REMÉDIO, palavra polissêmica por excelência, consoante pode ser divisado à frente.

Cumpre informar, por oportuno, o significado, em Lexicologia e Linguística, do termo polissemia, hic est, a propriedade de certas palavras e expressões denotarem bem mais de um sentido, como  ocorrente em:

–  manga –1 de camisa; 2 de farol; 3 fruta (propriedade do fruto comestível); 4 local de pastagem de animais; 5 verbo mangar; etc.;

 

– quarto – 1 posição de número quatro numa sequência; 2 correspondente a cada uma das partes da divisão de um todo (um quarto de litro); 3 aposento ou divisão da casa onde se dorme (alcova, dormitório); 4 partes laterais da região da coxa (meia bunda) etc.

– prato – 1 vasilha; 2 comida; 3 iguaria; 4 de balança; 4 de banda de música; 5 manzape; 6 guloseima, 7 notícia em voga (prato do dia) etc.

Sob o prisma da Gramática, a polissemia é fenômeno ordinário nas línguas naturais, sendo incontáveis os vocábulos expressos por seu intermédio. É diferente de homonimia, por ser a mesma palavra e não unidades de ideias com procedências diversas, as quais convergiram foneticamente.

São causas da polissemia, apontadas por Houaiss e Villar (Opus citatum):

–  empregos figurados, por metáfora ou metonímia, extensão de sentido, analogia etc; e

–  empréstimo de acepção expressa pela palavra noutra língua.

Seu étimo é do francês polysémie, procedente do grego polúsëmos, os on, – “com muitos sentidos” (grego poli- = numeroso; sema- = ato, sinal, marca + o sufixo ia).

REMÉDIO é, pois, como exprimi, noutros torneios, para o caixeiro do depósito à Avenida Jovita Feitosa, aqui na Capital, em acepção estendida, tudo aquilo – substância ou recurso – empregado não somente para combater uma doença ou fazer cessar uma dor, mas também expediente para amatar sofrimentos morais, atenuar os males da vida, eliminar uma inconveniência, um mal, um transtorno.

REMÉDIO configura um recurso, uma solução; instrumento de proteção, para auxilio ou remendo de falha ou defeito. É emenda, corretivo, “regulagem”, retificação.

Como vocábulo polissêmico por excelência, por exemplo, no campo jurídico, refere-se a uma providência para reparar um dano ou estabelecer relação de direito interrompida (“REMÉDIO jurídico”). A Penitência ou Confissão, terceiro Mandamento da Igreja Católica, é “REMÉDIO” religioso; no mesmo passo, a seção do divã do psicanalista representa “REMÉDIO” psicológico.

Na sua ampla variação sinonímica, REMÉDIO” é, ainda, droga, emenda, expediente, forma, jeito, maneira, medicamento, meizinha, curativo, penso, modo, recusa, saída, salvatório.

Por qual pretexto, então, remédio deixaria de ser veneno para acabar com as minhas saudáveis e serelepes “Periplanetae americanae” de estimação?

OBS. Peço atenção para o fato de eu não haver empregado vez nenhuma a partícula “quê”, para render homenagem ao professor. e nosso acadêmico, Itamar Espíndola, o qual era “quêfobo

NUMERAIS : GRAFIA E USO

Academia Cearense da Língua Portuguesa

Hora do Vernáculo – 29.8.2016.

 

NUMERAIS : GRAFIA E USO                                                    

                 

  1. Geralmente, não se iniciam frases com algarismos. Em tais casos, o número deve ser escrito por extenso. Exemplo: Vinte e nove anos completou minha filha. Exceção para o ano civil. Exemplo: 2015 foi um ano difícil para o país.
  2. Escrevem-se os algarismos de 1.000 em diante, usando-se o ponto, exceto na indicação do ano civil. Exemplos: Havia 45.674 torcedores na Arena Castelão. Moro na rua Princesa Isabel, 1.181. Nasceu em 1984. Estamos no ano de 2016.
  3. Na sucessão de papas, soberanos, séculos e capítulos, os números são ordinaisaté dez e os cardinais de onze em diante.

No português do Brasil, na enumeração de artigos de leis, decretos e portarias, emprega-se o ordinal até nove, daí por diante emprega-se o cardinal. Exemplos: Paulo VI (sexto); Pio X (décimo); Século IX (nono); Capítulo XXII (vinte e dois). Arts. 2º (segundo) e 3º (terceiro); Art. 10 (dez).

  1. 4. Os algarismos romanos são muito usados para esses casos acima, bem como para numerar assembleias, conferências, simpósios, encontros, congressos, etc. Cuidado com o vício de se colocar a abreviatura do ordinal (º), após o número romano.
  2. O numeral ordinal, como o nome indica, usa-se para indicar ordem ou série em que estão dispostos os seres e as coisas.Se o número anteceder o substantivo, emprega-se o numeral ordinal. Exemplos: Trigésimo capítulo, segunda sessão.
  3. Por brevidade e economia, usam-se muitas vezes os cardinais em vez dos ordinais. Exemplos: Página vinte e um em vez de “página vigésima primeira”. Moro na casa 1.985 desta rua em vez de “moro na milésima, nongentésima, octogésima quinta casa desta rua”.
  4. Segundo a Instrução Normativa nº 4, da Secretaria da Administração Federal. 6. 3.92. (Cf. D.O. de 4.3.92)“os numerais devem ser escritos por extenso quando constituírem uma única palavra (“quinze”, “trezentos”, “mil” etc.). Quando constituírem mais de uma deverão ser grafados em algarismos (“25”; “141” etc.).

Os numerais que indiquem percentagem seguem a mesma regra: a expressão “por cento” será grafada por extenso, se o numeral constituir uma única palavra (“quinze por cento”, “cem por cento”), e na forma numérica seguida de símbolo “%”, se o numeral constituir mais de uma palavra (“142%”, “57%”, etc.).

  1. “Os valores monetários devem ser expressos em algarismos, seguidos da indicação, por extenso, entre parênteses. Se o valor a ser mencionado estiver localizado no final de uma linha, não deve ser separado: o cifrão deve ser colocado em uma linha e o numeral na seguinte”.
  2. Usam-se algarismos em tabelas, relatórios econômicos, quadros estatísticos, demonstrativos, horários, etc. Empregam-se algarismos quando se indica ordem ou sequência (capítulo, páginas, folhas, modelos, canais, nomes de veículos, apartamentos, estradas, etc.). Exemplos: Canal 10; BR 222; CE 085; lápis nº 2; 2º ato; pág. 135; Apolo 7; Casa 2; Ap. 1.001.
  3. Usa-se, porém, igualmente algarismo na indicação de zonas, regiões, distritos, na indicação de resultados esportivos, na indicação de latitude e longitude, em contextos financeiros e bancários, na seriação de competições, resultados de votação, etc.
  4. 11. Quanto ao gênero,os cardinais são invariáveis, com exceção doumdois e as centenas de duzentos a novecentos. Exemplos : Uma banana;  duzentas bananas.
  5. Milhar, milhão, bilhão, trilhãosão substantivos masculinos. Os artigos e os numerais que os acompanham devem ficar, pois, no masculino. Exemplos: Um milhão participou da eleição. Os dois milhões e quatrocentas mil vítimas da guerra. Os milhares de homens. Os milhares de mulheres. Morreram dois milhares de crianças no conflito.
  6. Milhar, milhão, bilhão, trilhãopodem ser acompanhados da preposição de, quando seguidos de nome. Exemplos: Um milhão de judeus morreu (ou morreram). Os milhares de plantas.
  7. Milé numeral. O artigo e o numeral que o acompanham concordam com o substantivo que se segue. Exemplos: Os dois mil homens. As duas mil mulheres.
  8. 15.Mais demenos de exigem a concordância verbal com o numeral a que se refere. Exemplos: Mais de um conseguiu bolsa. Mais de dois conseguiram bolsa. Menos de quinze acadêmicos compareceram à sessão.
  9. Nonumeral fracionário, o verbo concorda com o numerador, segundo a maioria dos gramáticos. Exemplos: Um quinto dos eleitores preferiu este candidato. Dois quintos preferiram.
  10. Quando houvernúmero percentual, o verbo vai para o plural obrigatoriamente, se o termo especificador estiver também no plural; e preferencialmente vai para o singular, se o termo especificador estiver no singular. Exemplos: Trinta por cento dos alunos saíram. Trinta por cento da turma saiu (ou saíram).
  11. O primeiro dia do mês é indicado preferencialmente por ordinal. Exemplos: Em 1° de maio, comemora-se o Dia do Trabalho; em 1° de abril, o Dia da Mentira.
  12. Onumeral multiplicativo indica o aumento proporcional da quantidade. Exemplos: duplo (dobro, dúplice); triplo (tríplice); quádruplo; quíntuplo; sêxtuplo; sétuplo; óctuplo; nônuplo; décuplo; cêntuplo. Exemplos: A sala estava com o quádruplo da capacidade. O salto triplo. A sêxtupla aliança.
  13. Onúmero fracionário exprime parte da unidade. Exemplos: meio, terço, quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo, nono, décimo, onze avos, doze avos, etc De mil em diante, o fracionário tem a nomenclatura do ordinal (milésimo, milionésimo, bilionésimo, trilionésimo). Os fracionários são normalmente empregados como substantivos com exceção de meio. Exemplos: Um terço da farinha. Meia (numeral fracionário) maçã (substantivo).

Observação: Avos é um substantivo fictício tirado da terminação de oitavo.

 

“Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para as frases; o algarismo não tem frase nem retórica.”  Machado de Assis  (Crônica de 15 de agosto de 1876 )

 

Prof. Myrson Lima – Cadeira nº 14   

VALVA versus VÁLVULA

Ignoti nulla cupido (Ovídio)

Já demanda muito tempo, eu trabalhava como amanuense de uma empresa privada aqui de Fortaleza, na elaboração de atas de sessões das assembleias gerais ou reuniões da Diretoria, redação de cartas comerciais e outras peças que tais. No caso dos relatórios dessas reuniões, as acompanhava nos registros legais na Junta Comercial, para o que era necessário obedecer às exigências da Repartição, entre as quais o preenchimento dos claros de questionários – nome, endereço, número do telefone (hoje, dentro do besteirol em curso, “telefone para contato”, como se ele existisse para outra coisa), ramo de atividade, numerações de CGC e CGF etc.

Havia aprendido com meu chefe, o economista e intelectual eclético Dr. Francisco Gentil Nogueira, de saudosíssima memória, que, se o claro do formulário não permitisse resposta, este era recheado com a expressão “prejudicado”, conforme os advogados sabem decorado e de salto. Por exemplo, se o estado civil do cidadão é de solteiro, não é possível responder, na sequência, qual o regime de bens ao casamento – se comunhão universal, comunhão parcial, separação total ou separação obrigatória, tudo agora de acordo com o Código Civil de 2002.

Ocorreu, então, de o mal-educado e apedeuta funcionário deixar de receber o dossiê documental onde a empresa requeria registo, alegando que “o prejudicado é você, que não preencheu direito o formulário. Volte e conserte; não sei onde você inventou esta besteira!”

Fedelho verde e tolo em muitas ocasiões, com vinte anos de idade, não protestei nem insisti. Voltei à empresa sem proceder ao registro. Foi o suficiente para, no dia seguinte, o Dr. Gentil ir entregar pessoalmente o pacote de documentos, da maneira como estava, ao principal da JUCEC – lembro-me bem, o Dr. Rodrigo Otávio Correa Barbosa – o qual aplicou suspensão de três dias no incompetente empregado, que – então, sim – restou bastanteprejudicado.

Faz muitos anos, também (já era docente da UFC), que fui destratado pelo caixeiro de um depósito de material de construção, quando quis comprar um “remédio para baratas”, expressão absolutamente correta, bem como, noutra vez, me referi àquele calanguinho branco e cego, reportando-me à palavra briba, pois meu circunstante, um vereador à Câmara de Fortaleza e advogado (“adevogado”) me repreendeu, em uma mesa no jantar de aniversário do acadêmico doutor Arnaldo Santos, pois achava ele que o nome era “víbora”. Precisei ser duro e categórico com o teimoso e seus acompanhantes (alguns, porém, vieram em meu favor) para convencê-lo de que víbora é outra coisa, não aquela osga esbranquiçada que costuma dormir atrás dos quadros da parede, onde espera muriçocas e outros pequenos insetos para se alimentar. A respeito desses dois eventos, remeto o leitor deste escrito a duas matérias publicadas, em 18.12.2013 (Remédio para Barata) e 23.01.2015 (É Briba Mesmo!), no blog da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (academiacearense.blogspot.com.br).

Para fechar estas notas, reporto-me a uma visita que realizei a um dos açudes sob administração do Departamento Nacional de Obras contra as Secas – DNOCS, aqui no Ceará, colhendo matéria para o Jornal Universitário(UFC), oportunidade em que, com outras pessoas, conhecemos suas instalações e equipamentos, acolitados por um dos engenheiros da Instituição, o qual nos ciceroneou por boa parte da imensa barragem – convém dizer – com apropriada capacidade narrativa. Este reservatório d’água, então, era o maior do Ceará em capacidade de volume hídrico, antes de inaugurado o “Castanhão”.

Pensando, inocentemente, no entanto, que estava agarrado em boa escora, após se referir a um equipamento importado e sem informar de que país, esse tecnólogo escorregou desastrosamente, quando foi por mim indagado acerca de onde houvera sido adquirida aquela valva, equipagem de uns oito metros de altura, tendo, assim, respondido, nitidamente tencionando me “corrigir”, espaçando oralmente as sílabas do termo equivocado “válvula”:

– “Você quer dizer esta v á l v u l a aqui da frente, não é?” – A isto respondi, também com vagar e separando na voz as duas sílabas (corretas) da palavra:

– “Sim. Tenciono saber de qual país procede esta VAL-VA – Vê-a-ele-vê-a -imensa, de exagerada altura, que está aqui pertinho de nós”. E ele, dirigindo-se às demais pessoas:

– “Esta vál-vu-la” – continuou com destaque oral, também deletreando a expressão – “foi importada da Alemanha e custou uma fortuna. É uma vál-vu-la de fabricação demorada, com tecnologia estudada há muitos anos, hoje utilizada para controle perfeito da admissão e saída d’água em diversas barragens espalhadas pelo mundo”. (Como se pudessem ficar amontoadas).

As pessoas que ali estavam, quase todas de formação universitária, quer conhecessem ou não os dois vocábulos, notavam a disputa, umas pensando que ele estava correto e outras na certeza de eu estar certo. Aí apareceu a vontade de explicar-lhe em público, como o fiz com o caixeiro do remédio para barata e o “adevogado” da briba, há pouco mencionados. Urbanizadamente, entretanto, me contive e aproveitei-me de uma ocasião em que ele se atrasou para retirar uns carrapichos aderidos as suas calças para dizer-lhe, sem ninguém da turma ouvir, evidentemente com outras expressões, o que exprimo agora para os leitores:

Em Língua Portuguesa, nas flexões de grau, há os aumentativos e diminutivos analíticos e sintéticos. Para não me tornar paulificante na explicação, bastante é dizer que, no concernente aos diminutivos sintéticos, estes se fazem por intermédio dos sufixos -ebre, -ejo, -ete, -eto, -ito, -ote, -ucho, – ULO e , principalmente, -inho e –zinho, assim: casebre, lugarejo, corpete, folheto, franguito, filhote, papelucho, válvULA (diminutivo sintético de VALVA), bichinho e riozinho.

Com efeito, não pode existir válvula grande, de oito metros, por exemplo, pois VÁLVULA é uma VALVA pequena, menor do que aquelas usadas nos radiotransmissores fabricados antes da descoberta dos transístores (TRANSfer+resISTOR), em 1947 e de sua popularização dos anos 1950 em diante. Válvula (valva pequena = diminutivo analítico), por conseguinte, é o diminutivo sintético de VALVA. E eis que ele restou convencido e, decerto, agradecido por não haver sido exposto ao ridículo, como intentou me exibir.

Pelo fato de hoje, em especial na Eletrônica, só se usarem valvas pequenas, as pessoas mais na idade, que conheceram as ditas peças nos rádios fabricados antes dos equipamentos radiofônicos transistorizados, chamam as válvulas, equivocamente, de valvas. Por semelhante pretexto, o engenheiro protagonista desta crônica denomina válvula uma equipagem de oito metros de altura, talvez por não ter conhecido as primeiras, pensando que inexiste a unidade de ideia valva.

Com efeito, convém prestar atenção no aforismo expresso pelo autor latino das Metamorfoses, Públio Ovídio Nasão, configurado em IGNOTI NULLA CUPIDO – “ao ignorante nenhum desejo”, igual a “não tente expressar aquilo que não conhece”.

Em bom Português: não se meta com o que não sabe!

Emprego do hífen

“A ortografia também é gente. A palavra é completa, vista e ouvida, e a gala da transliteração greco-romana veste-na do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.” (Fernando Pessoa)

Observações gerais:

a)O hífen é um sinal diacrítico (-) empregado para dividir sílabas em final de linha para ligar elementos das palavras compostas por justaposição (curto-circuito; banana-prata; banho-maria; franco-atirador; agro-doce; para-raios; afro-luso-brasileiro) e para unir pronomes átonos a verbos (amá-lo; telefonar-lhe; realizar-se-á; fá-lo-íamos)

b)Diacrítico é o sinal gráfico que se apõe a uma letra ou a um vocábulo para se indicar um valor fonológico especial, como o cedilha, os acentos agudo, circunflexo e grave, o trema e o hífen.

c)Não se emprega em geral o hífen nas locuções se houver algum elemento de ligação (fim de semana, mão de obra, fogão a gás,água de coco) e em certos compostos, em que se perdeu a noção de composição (paraquedas, mandachuva, pontapé, madrepérola, madressilva, girassol, passatempo, varapau).

d)Usa-se geralmente hífen quando um dos elementos da palavra composta ou derivada tiveracento ou til, como pré-; pós-; pró-; além-; recém-; aquém; grão-; grã-. Exemplos: pré-operatório; pós–graduação; pró-Brasil; além-mar; recém-nascido; aquém-Pireneus; grão-duque; Grã-Bretanha.

e)São hifenizados elementos repetidos com ou sem alternância vocálica ou consonântica. Exemplos: blá-blá-blá; fecha-fecha; pingue-pongue; ruge-ruge; zás-trás; bum-bum (som de tambor)

f)Usa-se hífen nos topônimos compostos porforma verbal ou aqueles cujos elementos estejam ligados por artigo. Exemplos: Passa-Quatro, Quebra-Dentes (SC); Baía de Todos-os-Santos. Entre-os-Rios, Trás-os-Montes.

g)São hifenizados os gentílicos derivados de topônimos compostos. Exemplos: belo-horizontino; mato-grossense-do-sul; pedro-segundense; são-gonçalense; juazeirense-do-norte.

HÍFEN COM PREFIXOS

 Regra nº 1. O hífen usa-se nos prefixos, quando a palavra seguinte começa por “h”. Não se emprega, porém, quando a palavra começa por “r” ou “s”, devendo essas consoantes duplicar-se. Exemplos: anti-herói; super-homem; a-histórico; antessala; autorretrato; antissocial; antirrugas; arquirraivoso; contrarrazões; contrarregra; contrassenso; megassena; minissérie; suprarrenal; ultrassonografia.

 Regra nº 2. Usa-se o hífen quando o prefixo é terminado por uma vogal e a palavra seguinte é iniciada pela mesma vogal Exemplos: anti-inflamatório: anti-inflacionário: arqui-inimigo; infra-axilar; macro-organização; micro-ondas.

 Regra nº 3. Se a última letra do prefixo for uma consoante idêntica à consoante do início dovocábulo seguinte, haverá hífen. Exemplos: sub-bibliotecário; hiper-rugoso; super-rápido.

 Regra nº 4. O hífen não é mais utilizado em palavra formada de prefixo terminado em vogal

seguida por palavra iniciada por vogal diferente. Exemplos: antiaéreo; autoajuda; autoescola,

contraindicação; contraordem; extraescolar; infraestrutura; intraocular; intrauterino; neonazismo;neoimpressionismo; semiaberto; semiárido; semiaculturado.

CASOS ESPECIAIS

Sempre recebem hífen, quando houver os prefixos: ex- vice- e sem-. Exemplos: ex-chefe; ex-secretário; vice-diretor; sem-terra, sem-família.

Usa-se hífen nas palavras compostas por justaposição cujos elementos constituem uma unidade sintagmática e semântica. Exemplos: ano-luz; azul-claro; médico-cirurgião; tenente-coronel; engenheiro-agrônomo; conta-corrente; turma–piloto; decreto-lei; edifício-sede; mesa-redonda; cachorro-quente; beira-mar; editor-chefe; diretor-presidente; diretor-executivo; diretor-superintendente; diretor-secretário; sócio-gerente; empresa-fantasma.

Usa-se hífen nas palavras compostas formadas por numerais ou pelo adjetivo “geral”;. Exemplos: primeiro-secretário, segundo-tenente; primeira-dama; segunda-feira; diretor-geral, relator-geral, ouvidor-geral; procurador-geral; advocacia-geral; secretaria-geral.

Usa-se hífen nos compostos em que o segundo elemento é um adjetivo pátrio e a palavra envolve mais de uma nacionalidade, região de origem ou etnia. Exemplos: afro-brasileiro; anglo-saxão; euro-asiático; luso-brasileiro; ibero-americano.

Não se usa hífen nas palavras compostas por justaposição, quando o segundo elemento é um adjetivo que denota os diversos graus de uma carreira. Exemplos: professor titular; professor adjunto; professor assistente; diretor administrativo; diretoria social; auxiliar técnico; consultor jurídico; gerente financeiro.

 

Não se emprega o hífen nos compostos por justaposição em que existe elemento ligação, exceto nos que designam espécies de plantas, flores, frutos, raízes, sementes ou espécies zoológicas. Exemplos: pé de moleque; folha de flandres; cão de guarda; azeite de dendê; cor de vinho; pôr do sol; dia a dia; brigadeiro do ar; dona de casa; mal de gota; ponto e vírgula; quarto e sala;bem-te-vi; porco-do-mato; ipê–do-cerrado; fava-de-santo-inácio. Exceções: água-de-colônia;arco-da-velha; cor-de-rosa; mais-que-perfeito; pé-de-meia; ao deus-dará; à queima-roupa.

Nos vocábulos compostos por aglutinação, o hífen permanece. Exemplos: fins-d’água; estrela-d’alva; pai-d´égua; olho-d’água.

Sub recebe hífen, se o vocábulo seguinte começar por ‘h’, ‘b’ ou ‘r’. Exemplos: sub-hélice; sub-base; sub-raça; sub-humano; sub-humanidade. Aceitam-se também subumano;subumanidade.

Mal recebe hífen, se a palavra seguinte começa por “h”, “vogal” ou “l” Exemplos: mal-humorado; mal-educado; mal-estar; mal-limpo; malcriado; malmequer.

Bemrecebe hífen nos compostos sem elemento de ligação. Exemplos: bem-criado; bem–falante; bem-vindo; bem-aventurado; bem-estar; bem-humorado; bem-me-quer. Quando o advérbio bem aparece aglutinado com o segundo elemento, não há hífen. Exemplos: benfeito;benfazejo; benfeitor; bem-querer ou benquerer; bem-querença ou benquerença.

Na formação com os prefixospan- e circum- , haverá hífen se o segundo elemento começar por h, vogal, m ou n. Exemplos: pan-helenismo, pan-americano, pan-mítico, pan-negritude, circum-hospitalar, circum-escolar, circum-meridiano, circum-navegação, no entanto pan-Brasil; pambrasileiro; pambrasileirismo. (Encarte de correções e aditamentos da 5ª.ed.do VOLP)

Com os prefixosco-, re-, pre-, (sem acento), pro- (sem acento) nunca haverá hífen, mesmo se o vocábulo seguinte começar por “h’”. Exemplos: coerdeiro; coautor; coerança; cosseno; reexame; reenvio; preexistência; preeleger; procônsul; provigário-geral.

Não e quase, quando empregados com função prefixal, não recebem hífen. Exemplos: tratado de não agressão; não violência; não fumante; quase irmão; quase contrato.

Existe hífen nos vocábulos formados pelos sufixos – açu (grande); – guaçu (grande); – mirim(pequeno), quando o exige a pronúncia (capim-açu) ou quando o primeiro elemento acaba em vogal acentuada graficamente (Acaraú-mirim; Pará-mirim; Amoré-guaçu; tatuaçu).
Emprega-se o hífen para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam formando encadeamentos vocabulares. Exemplos: a ponte Rio-Niterói; o percurso Lisboa-Coimbra-Porto; a estrada Rio-Santos; a ligação Fortaleza-Recife.

Exercício de fixação: confira as letras em que ocorreu erro (marcado em negrito):

() mini-hotel; semiescravo; sub-raça; subestação; anticristo; cata-vento

() anti-inflacionário; radiorreceptor; socioeconômico; subsolo; obra-prima

() microondas; autoajuda; ultrassom, sócio-gerente; paraquedas; finca-pé

() circum-ambiente; hiper-realista; cosseno; anti-Sarney; pan-Brasil

( ) antissequestro; coeducação; defensor público; porco-do-mato

() agronegócio; radiorrelógio; subcomandante; pré-natal; professor adjunto

g .( ) eurocomunista; coprodutor; coerdeiro; contrassinal; grã-fina; subchefe

h .( ) contra-ordem; conta-corrente; supersônico; corréu; radio-cassete

( ) suprassumo; megaoperação; procurador-geral adjunto; biorritmo

( ) antessala; semioficial; conta-gotas; radiotáxi; maria vai com as outras

() megassalário; microssistema; bielorusso; decreto-lei; suboficial

( ) megassena; circum-navegação; autoescola; ti-ti-ti; pambrasileiismo

m.( ) poli-infecção; pan-negritude; pan-americano; fins-d´água; sem-número

() autoelogio; autossuficiente; ex-vice-primeiro-ministro; beira-mar; malmequer

() direção-geral; procurador-chefe; aerossol; preexistir; mal-educado

() projeto-piloto; subsecretário; afrodescendente; afro-brasileiro; anglo-saxão

() intrauterino; cor-de-rosa; neorreitor; blá-blá-blá; alto-astral; café com leite

() supersecretário; café da manhã; comum de dois; advocacia-geral da União

() água-de-colônia; dia a dia; diretor-secretário; ponto-final; ponto e vírgula

( ) neossocialismo; inter-racial; contraindicação; infantojuvenil; feijão-verde

() água de coco; fim de semana; aerossol; pai-d’égua; vaga-lume; tique-taque

() cor de vinho; à queima-roupa; sub-hélice; mal-estar; mega-hertz; antissocial

w.( ) pé-de-meia; ano-base; azul-celeste; supersônico; mau-caratismo; má-fé

() estrela-d´alva; perfurocortante; mesa-redonda; norte-rio-grandense

() reenviar; professor assistente; preto-e-branco; belo-horizontino; carro-pipa

() tim-tim; antiaéreo; bem-vindo; Benvindo; semiárido; matéria-prima; zás-trás.

Referências bibliográficas

– ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa. 5.ed. Rio de Janeiro, Global Ed., 2009.

– ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Dicionário escolar da língua portuguesa. 2.ed.São Paulo, Companhia Editora Nacional, 2008.

– ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Encarte de correções e aditamentos à 5ª.ed. Fonte: internet.

– LIMA, Myrson. O essencial do português.7.ed.Fortaleza, Editora ABC, 2008.