A poesia do Natal na Academia Cearense da Língua Portuguesa

Sem milagre

 Gorete Oliveira (Cadeira nº 1)

É quase meia-noite
É noite de Natal
Estou num paraíso
Mas não inteiramente
Meu coração não está aqui
Espero um milagre
Os minutos passam
E eu espero
Eu peço ao Menino Pequenino
Um grande milagre de Natal
A noite é fria
Mas minh’alma tem febre
Os jardins estão iluminados
As flores sorriem
Espero o milagre
A noite avança
E eu espero
Cantam aqui hinos e salmos
Mas a alma está silente
O telefone também
As vozes cortam o ar
O silêncio, meu coração
Os ponteiros correm
Meu milagre não vem
A esperança consola
Ainda há tempo
E eu espero
O céu se ilumina
É meia-noite
É Natal!
Meu milagre não veio
Estou num paraíso
Voam por aí anjos e querubins
Mas falta uma estrela
Brilhar no caminho
Falta um sininho
Tocar para mim.

Adormeço.

(Meruoca, 24 de dezembro de 2002)

Presença de Natal

Maria Luisa Bomfim (Cadeira nº 3)

Na manjedoura,
o Menino Deus.
Ajoelhados,
José e Maria.
Chegam
pastores e Reis Magos
seguindo a estrela guia.

Anjos flutuam no ar
Cantando para o Menino,
melodias que vêm do céu
e falam de Esperança.

É a instauração do amor,
é uma paz infinita.
É a presença de
Deus,
é o Natal que chegou.

Natal

Giselda Medeiros (Cadeira nº 16)

A mesa está posta:
os vinhos gelados,
comidas gostosas,
os trajes de gala,
sapatos macios…
e mentes vazias!

As vozes que cantam
sob os violões
cantigas de louco
nem ouvem os sinos
que tocam distante
ao longe chamando
à mesa de Deus,
sem vinhos gelados
sem pratos gostosos
sem trajes de gala,
mas lá onde os anjos,
servindo aos convivas,
entoam cantigas,
cantigas do céu,
deixando no prato
a paz e o amor
e, à mesma mesa,
o servo e o Senhor!

E pensa, e pensa profundo,
com essa luz que te guia:
“o maior Homem do mundo
nasceu numa estrebaria”.

Natal nordestino

Italo Gurgel (Cadeira nº 17)

Quero um Natal sem barbas ou sentimentos postiços,
Sem falsa neve caindo do céu tropical
E sem a falsa alegria
De papais noéis adiposos.

Quero um Natal de luzes lamparinas
Alumiando preces sertanejas.
Quero o silêncio dos jingobéus edulcorados
Para ouvir as rabecas em oração.

Quero um Natal como Ele quis:
Sem mãos estendidas nas esquinas
E sem a cusparada da opulência
No rosto dos deserdados.

Quero o Natal festejado em Vaticano de taipa,
Sem faustos, tapetes ou dosséis,
Como era, no tempo da estrela guia,
A casa de José – a casa e a marcenaria.

Quero um Natal sem mantos dourados,
Mas também sem trapos nem farrapos,
Sem balas nem crianças perdidas
Nos desvãos do crack e da miséria.

Quero um Natal sem o preconceito
Que corrói o coração dos ignaros.
Quero um Natal nordestino, aberto a todos os abraços,
Um Natal francisco, como Francisco, certamente, sempre quis.

Aquele que é

Révia Heculano (Cadeira nº 34)

Maria e o menino pequenino…
Cercam-lhes olhos de diversas faces:
Faces de homens, de crianças, de anjos.
Trombetas ecoam vendo a Face anunciada…
Na veste dos arcanjos, aragem de estrelas
Potestades!

O afável dedo erguido do menino pequenino
aponta a tempestade se fazendo calmaria
uns pés extenuados caminhando sobre a vaga
e o cuspo de sua língua desvelando lume ao cego…
O menino pequenino fará saltar o coxo,
fará o surdo ouvir e os mudos por sua mão loas entoarão.
Numa ira expulsará do templo vendilhões,
mas, humilde, há de lavar pés de doze santos.
O menino pequenino carregará nas costas multidões
e gritará ao abandono entre dois ladrões.

Roberto Pontes, poeta convidado

Francisco Roberto Silveira de Pontes Medeiros, nascido em Fortaleza/CE, é poeta, crítico, ensaísta e tradutor. Foi professor do Departamento de Literatura e do Programa de Pós-Graduação em Letras/Literatura do Curso de Letras da Universidade Federal do Ceará de 1991 a 2014. Em 2014, aposentou-se da atividade docente na UFC, passando a dedicar-se à literatura e à música, com destaque sempre para a poesia. Nesse mesmo ano recebeu o Prêmio Nacional de Literatura PEN Clube do Brasil,  concedido ao seu livro “O Jogo de duplos na poesia de Sá-Carneiro”.

O cartão-poema acima reproduzido nos foi enviado pela acadêmica Maria Elias Soares (Cadeira nº 15).

Autocídio frustrado

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37, tendo como patrono Estêvão Cruz.

É próprio do covarde desejar a morte.
(Públio OVÍDIO Nasão).

Agora, quando perfaz o tempo de 50 anos da edição do Ato Institucional número 5 (13 de dezembro de 1968), transfiro esta estória – sem ocorrência confirmada, é claro – de um rapaz de 24 anos que, de mal com a vida, tentava de todas as maneiras perpetrar a autoinflição. Em decorrência, entretanto, de circunstâncias alheias à sua vontade, por mais que tenha tentado, esta não se consumava.

Experimentou, por várias vezes, operar o auto-óbito, mas sem sucesso para seu decesso. Em certa oportunidade, achou de contar a melódia para alguns elementos de sua matula, alguns dos quais bastante gaiatos – coisa, aliás, consabida como muito comum da molecagem cearense – que conversavam na calçada d’A Miscelânea, na rua Pedro Borges, Praça do Ferreira, em Fortaleza. Isto sucedeu no dia 19 de dezembro do ano à frente expresso, quando se desenvolviam as preliminares natalinas de enfeites das ruas e ornato das coisas em preparo para as circunstâncias de final de ano.

Corria, vagaroso, o fatídico 1968, com a ocorrência de motos populares em todo o Mundo – principalmente em França, e na China, no terceiro ano da Revolução Cultural empreendida por Mao-Tse-Tung, desde 1966 e estendida a 1976.

No Brasil, transcorria o quinto aniversário da gloriosa, no fim do qual fora assinado o citado e famoso AI – 5, componente mais pesado dos 17 decretos firmados durante o governo civil-militar instalado em 1964. O chamado golpe dentro do golpe, pelo jornal Correio da Manhã, teve a assinatura (com o polegar direito, almofada e mata-borrão perto – diz a rafameia do PSD) encabeçada pelo presidente, Marechal Arthur da Costa e Silva, acolitado por seu Ministério. (Os estudantes do Liceu, que andavam nos ônibus do seu Oscar Jathay Pedreira, diziam que o Marechal só andava com as mãos nos bolsos, exatamente, para conservar a ditadura!)

O Elisiário, protagonista desta estória, contabilizara no passivo uma série de desencantos, como o passamento do Eliseu, seu irmão, a perda do emprego nas Lojas Novail, onde trabalhara por seis anos, e algumas outras decepções carregadas, como o “belo par” com o qual a ex-namorada, Ritinha, havia enfeitado sua cabeça, principalmente (veio a saber, depois, pelo Fernando Siqueira) porque, dissera ela, o pretexto ter sido a quebradeira que, de inopino, se abatera sobre o Filho do seu Elísio, agora liso.

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Fraternos abraços, mensagens inspiradas, saudades… É o Natal da ACLP

Em torno das grandes mesas, o festivo encontro dos acadêmicos e seus familiares.
Teoberto Landim, Myrson Lima e Regine Limaverde.

Em ambiente descontraído, ornado de belos pronunciamentos, a Academia Cearense da Língua Portuguesa (ACLP) realizou nessa terça-feira, 11 de dezembro, sua confraternização natalina. O cenário foi um dos salões privativos do restaurante Dallas Grill, onde tudo aconteceu como manda o espírito natalino, com o sorteio de brindes, a troca de presentes envolvendo “amigos secretos”, as mensagens inspiradas, os drinks, o jantar de variadíssimos pratos…

Moura e Lúcia, os ganhadores de disputada orquídea.

O presidente Teoberto Landim saudou os acadêmicos e acompanhantes e ressaltou a importância dos elos fraternais para fortalecimento da própria Academia. Seguiu-se o ritual festivo, que culminou com a bela mensagem de Natal. Tradicionalmente, nessas ocasiões, quem brindava os presentes com seus textos poéticos era o acadêmico Horácio Dídimo. Este ano, com a morte do querido mestre, a honrosa missão foi confiada ao acadêmico Batista de Lima, que dissertou sobre um Natal nordestino eivado de símbolos que foi captar nas mais belas páginas da Literatura brasileira (veja, abaixo, o texto integral da mensagem).

Vicente Alencar lembrou, em versos, os sinos das igrejas de Fortaleza, que aos poucos vão silenciando. Houve, ainda, momentos de saudade, quando Myrson Lima homenageou Genuíno Sales, outro estimado e talentoso confrade falecido no corrente ano.

O Natal de hoje

BATISTA DE LIMA (Cadeira nº 36)

Batista de Lima ao lado de Paulo Sérgio Lobão.

Mensagem de natal proferida na confraternização da Academia Cearense da Língua Portuguesa, a 11 de dezembro de 2018.

A criança divina ainda não nasceu e já estamos comemorando treze dias antes, é o milagre do Natal. Quero, no entanto, me antecipar e montar uma árvore de natal. Será uma goiabeira carregada de goiabas maduras e verdes. Tem que ser goiabeira porque possui galhos e troncos muito fortes para sustentar tudo o que nela for colocado. As goiabas parecem com aquelas bolinhas caras vendidas nos supermercados. Os três reis magos serão três moradores de rua muito magros. Os três pastores serão três cegos que trarão lições de como ver luzes de olhos nulos.

“O presépio”, do xilógrafo pernambucano José Miguel da Silva.

O casal será Fabiano e Sinhá Vitória que há oitenta anos, exatamente, foram criados por Graciliano. O filho não será o mais velho nem o mais novo, e sim uma criança da Síria, ou da Etiópia, mas que se chama Jesus, que a mãe seja Maria Vitória e o pai José Fabiano. A oliveira pode ser uma mangueira e a tamareira, um cajueiro, com muitos cajus de castanhas grandes, todas perguntando-nos por que, como sementes, não estão dentro do caju. Quanto ao Pinheiro que não é de nosso chão vou colocar um angico que de tão duro tem a nossa consistência.

Que Jesus me perdoe essa comemoração de seu nascimento com coisas daqui da terra. Se ele por aqui vier, quando estiver maior, vai ver que não crucificamos ninguém, mas há perigo de bala perdida, de fome, peste e guerra, que nem São Sebastião tem conseguido resolver. Quanto a São José, que venha ensinar carpintaria nas escolas do Estado, já que é notório saber e cabe perfeitamente na BNCC. Nossa Senhora pode ser dona de casa, ou ensinar às jovens mães como criar bem suas crianças. Depois explicar às senhoras nossas que não precisa haver massacre de perus nessa data gloriosa, lá em Belém era mais peixe e carneiro. Outra coisa, por que as cores precisam ser vermelha e branca se nosso mar é azul e nossas matas são verdes?

Meu querido, e divino Cristo, como presente de natal nós lhe prometemos devoção, e perdoar quem nos molesta em todos os dias do ano. Mas gostaríamos que o Senhor não deixasse as criancinhas morrerem por descaso dos adultos, nem deixasse os idosos sofrerem depois de tantos anos de trabalho duro. Ah sim, Jesus, desculpe essas palavras sem jeito de me dirigir ao Senhor, e de comemorar o Natal no meio dos meus amigos. Eles esperavam ouvir nesta ocasião tocar uns sinos de Belém, falar em manjedoura, Papai Noel e aqueles mesmos animais desconhecidos arrastando um trenó no gelo. Aqui só tem poeira e mato. Até os jumentos estão em extinção, nem carroça é mais permitido ser arrastada por burro. As crianças no Natal só querem ganhar celulares, cada vez mais megahabituadas. Não meu Jesus querido, minha prece natalina é feita de esperança ao Senhor e a sua Família Sagrada.

Lembra-te ainda, Jesus sagrado, de quando fui interno no Seminário Apostólico da Sagrada Família. Eram padres alemães. Ali eu via, no carpinteiro, São José consertando carteiras, portas e janelas, via em Dona Hilda Niehoff a figura de Nossa Senhora, cuidando da cozinha do claustro, da roupa limpa dos seminaristas e Jesus personificado no padre Rodolfo Stall, cuidando da nossa espiritualidade e fazendo seus primeiros milagres na tradução do “De Bello Gallico”, das Catilinárias e do Tito Lívio.

Na árvore de natal, Jesus, vou colocar alguns livros de poemas, e outros teréns para os quais as gentes pouco ligam.

Ilustrações de Aldemir Martins para Vidas Secas.

Ainda voltando à manjedoura, não será feita de um coxo mas de gamela do engenho do Taquari, que é para o menino Jesus ficar mais confortável, forrado com folhas de bananeira, que são bem friinhas. Vou colocar um passarinho carrancudo do Horácio Dídimo para cantar canções de ninar, trepado num cajueiro pequenino carregadinho de flor, plantado pelo Juvenal Galeno. Patativa vai me mandar do local onde estiver a vaca Estrela e o boi Fubá.

Já pedi a Barros Pinho sua ajuda ovina, mas ele me preveniu cuidado, dizendo: “meu carneiro Jasmim nunca se queixou de mim”. Quando chegar o bode Yoyô trazido pelo Mário Gomes, ou pelo Chagas dos Carneiros, vou aceitar a ajuda, guardando o devido cuidado. Uma vaquinha também está presente mandada por Jorge de Lima. É uma vaca de garupa palustre e bela e dois cachorros lá de nós, Rompe Nuvem e Rompe Ferro, e os animais de carga e sela, bem feito, Memória e Gasolina e a burrinha de Tedeza e o cavalo de Parredino ali estarão sentados secundados pela cachorra Baleia, presente de Graciliano, um burrinho pedrês, uma égua Balalaica, e o burro Canário estarão ali de vigia, mandados pelo Rosa das Gerais. Não esquecerei Navegante e Rapé, Chuvisco e Surubim.

Para finalizar, digo que eu creio nos seus ensinamentos, creio em Deus pai, todo poderoso, criador do céu e da terra, e em Jesus Cristo seu único filho, Nosso Senhor, que foi concebido, pelo poder do Espírito Santo,
nasceu da Virgem Maria
padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado,
morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos,
ressuscitou no terceiro dia, subiu aos céus e está
sentado à direita de Deus pai todo poderoso
donde há de vir julgar os vivos e os mortos. Creio
no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na
comunhão dos Santos, na remissão dos pecados,
na ressurreição da carne, e na vida eterna
Amém.

SOS Português: as dicas do Professor Mourão

A ALFACE OU O ALFACE?

Alface – planta usada principalmente para o preparo de saladas.

Deve-se usar como substantivo feminino. Portanto: a alface, esta alface, etc.

Exemplos:

  • Aquela alface está tão bonita que dá vontade de comer com os olhos.
  • Tem gente que gosta da alface molhada com azeite.

DE TARDE OU À TARDE?

De tarde é locução adverbial de tempo usada em relação a dia não determinado.

  • Ex.: De tarde costumo ler e escrever.

À tarde é usada quando o dia é determinado.

  • Ex.: Ontem à tarde conclui mais um livro.

DEFERIR, DIFERIR

São formas parônimas, com escrita e pronúncia parecidas, mas com significados diferentes.

Deferir: atender, conceder, conferir a, outorgar, despachar favoravelmente.

  • Ex.: Deferi o requerimento, depois de conferir os documentos.

Diferir: divergir, ser diferente, adiar, procrastinar, prorrogar.

  • Ex.: “A voz era a mesma de Escobar, o sotaque era afrancesado. Expliquei-lhe que pouco diferia do que era.” (Machado de Assis).

Tem outras dúvidas? Quer ver outras dicas? Visite o blog do Prof. Mourão: profmourao.blogspot.com

(Sebastião Valdemir Mourão é membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa, onde ocupa a Cadeira nº 19)

Est@mos conect@dos?

 Anizeuton Leite (Membro correspondente da ACLP em Jucás/CE)

Conectar é um dos verbos mais utilizados no momento. Ao utilizarmos tal verbo, passamos a ideia de estarmos inseridos no mundo globalizado e tecnológico, mostramos que dominamos as ferramentas da internet e que temos algo para dizer ou compartilhar com o mundo.

Conectar, quase sempre, é usado no sentido de ligar, unir, juntar, sejam pessoas ou ideais. Mas será que est@mos conect@dos? Estamos realmente unidos às pessoas?  Compartilhamos vídeos, fotos e textos nos meios de comunicação, mas será que estamos compartilhando sentimentos verdadeiros? Parece que não.

Conectar a si mesmo, nesse mundo iluminado e barulhento, não é tarefa fácil. E quando não visitamos a nossa morada interior nos tornamos vazios e passamos a viver de aparências. Prova disso é que a depressão, mal deste século, tem arrasado a vida de muita gente. Pessoas que nas redes sociais parecem viver uma vida de alegria e glamour, mas em casa choram suas dores e borram a mesma maquiagem que usaram para postar mais um vídeo nas redes sociais fazendo caras e bocas.

Conectar-se às pessoas que moram ou convivem diariamente conosco também é tarefa difícil. Estamos cada vez mais juntos e ao menos tempo separados. Parece contraditório, mas não é. Pais reclamam do isolamento dos filhos, casais pouco dialogam, pois têm a atenção voltada para as mídias sociais. Recentemente, uma pesquisa revelou algo assustador sobre a relação entre os celulares e os jovens. A pesquisa apontou que mais de 50% dos jovens consideram o celular o seu melhor amigo.

As relações humanas têm esfriado. O abraço está menos demorado, o olho no olho transformou-se num emoticon, o diálogo está minguando e a vida dura e real está sendo substituída por anestésicos produzidos pela vida virtual. A alegria é postada nas redes sociais, mesmo que a tristeza seja uma companheira inseparável.  Enquanto isso, na frente do computador, um ser sem coração e alienado tecla mais uma mensagem.