2019 – Ano 148 da produção queirosiana (Um Pobre Homem da Póvoa do Varzim)

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37, tendo como patrono Estêvão Cruz.

Em nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete
linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas,
os homens praticam todas as ações – mesmo as boas.
(José Maria EÇA DE QUEIRÓS).

1 A JEITO DE EXPLICAÇÃO

Celebram-se, no decurso de 2019, 148 anos do início produtivo literário de José Maria Eça de Queirós, talvez o mais célebre literato português, filho de brasileiro, iniciado com a realização (1871) das célebres Conferências do Cassino Lisbonense.

EQ é um dos mais fecundos literatos de Língua Portuguesa e celebrado escritor na contextura internacional, nascido em Póvoa do Varzim, norte de Portugal, em 25 de novembro de 1845, e que foi habitar a dimensão edênica no dia 16 de agosto de 1900, em Paris.

Importa informar o leitor do fato de que este escrito foi objeto de intensivas modificações relativamente à versão providenciada em 1980, quando se era, em concomitância, docente e estudante. Tal aconteceu porque estavam esgotadas duas obras que lhe serviram de suporte: a Revista de Letras, contendo o segmento O Jornalista do Distrito de Évora, Fortaleza: UFC, v.34, n. 21, pp. 184-198; e o capítulo de igual título, no livro Impressões – Estudos de Literatura e Comunicação. Fortaleza, Edições Agora, 1989. Então, com vistas a conceder informações adicionais ao assunto, providenciou-se esta versão, publicada em Nuntia Morata (MESQUITA, 2014) e, agora (fevereiro de 2019), com modificações insertas por motivos temporais.

A pesquisa foi composta, originariamente, no mencionado ano, com vistas a concorrer ao prêmio literário Elos-Eça de Literatura para universitários – do qual obteve o primeiro lugar – promoção do Elos Clube de Fortaleza, da Empresa M. Dias Branco S.A., organização nacional de grande porte, de controller com sede em Fortaleza, em conjunto com a Embaixada de Portugal acreditada no Brasil, ao tempo do embaixador Sr. Dr. José Eduardo de Menezes Rosa.

Com efeito, o escrito, ora bastante alterado, afasta-se evidentemente da pretensão de aportar grandes novidades à historiografia relativa à produção de Eça de Queirós, máxime ao se considerar o que logo à frente exprime o escritor maranguapense Joaquim Braga Montenegro. Restou incluso aqui na intenção, adrede, de conduzir o escolar, notadamente o secundarista, a tomar contato com os produtos editoriais deste imenso escritor lusitano.

De tal sorte, a crítica e a história contidas no segmento ora no alcance do público foram hauridas dos registos de alguns autores, constituindo-se quase uma compulsação de indicadores históricos, inclusive pelo fato de não se haver vivenciado os eventos contados, com o escopo de apontar ao estudante dos cursos médios e mesmo dos superiores e de pós-láurea, bem assim aos diletantes que possam vir a ter interesse na obra eciana, a bibliografia propícia ao conhecimento e à leitura da produção e do momento histórico que caracterizaram Eça de Queirós.

Dois estudiosos, em particular, conquanto outros também hajam concedido norte ao texto, em auxílio à retenção de informações a que se procedeu em constantes leituras no decurso da vida, têm destaque, citados que são, amiúde, no decorrer da explanação – Carlos Alberto Iannone e Raul Moreira de Lellis. A estes, bem assim a todos aqueles a quem se recorreu, são consignados os necessários créditos, referenciados devidamente na penúltima seção deste módulo, nos termos do costume, fidelidade e legislação protetora da matéria.

2 INTRODUÇÃO

Torna-se por demais difícil ao leigo, não afeito ao pasticho nem à reprodução servil, enfocar tema tão rebatido em copiosos estudos em livros, além de centenas de monografias, dissertações de mestrado e teses de doutoramento e para concursos ou ascensão a títulos de carreiras universitárias, publicadas ou inéditas, a respeito da tecedura da obra queirosiana em todo o Mundo.

Reportando-se a esta suntuosa bibliografia, Salisbury Galeão Coutinho (*Curral del Rei, hoje Belo-Horizonte, 26.09.1897; † Serra do Parati –São Paulo – 17.09.1951 – acidente de avião), no Prefácio ao livro Crítica Social de Eça de Queirós, da autoria do maranguapense Djacir Lima de Meneses, refere-se à possível desconfiança que esse texto do Escritor de O Problema da Realidade Objetiva (1932) poderia suscitar, formulando a pergunta: “Mais um livro sobre Eça de Queirós? (MENEZES, 1962). (Djacir Lima de Menezes. *Maranguape, 16.11.1907; †Rio de Janeiro, 08.06.1996).

O cearense Joaquim Braga Montenegro (*Maranguape, 28.02.1907; †Buenos Aires, 20.11.1979), compadre do polígrafo coestaduano, Prof. Dr. Rafael Sânzio de Azevedo, um dos mais eminentes intelectuais da Arte Literária, exprime o juízo da sequência.

O assunto Eça de Queirós se me afigura, encarado do ponto de vista biográfico, senão inteiramente, pelo menos nos seus aspectos característicos um assunto esgotado. Tudo o que de agora em diante aparecer, neste particular, será como retoques ligeiríssimos a essa extraordinária figura que encheu mais de meio século de vida literária dos povos da língua portuguesa, e de tal maneira a obscurecer tantos e tão grandes valores que na órbita tocada de sua auréola nunca puderam ter o destaque de que eram merecedores. (MONTENEGRO, 1966, p. 259).

Fazendo, pois, absoluta fé nestes dois maranguapenses de nomeada – e cujas opiniões afluem aos comentários gerais da crítica – como é que se vai, como leitor comum, apenas tocado de maior curiosice acerca da profundidade da obra e das relações queirosenses, proceder a essa abordagem?

Este é um problema a ser solucionado aqui por quem buscou mourejar em terreno dessalinizado e desde há muito sem o humo do ineditismo, desprovido da riqueza química deste solo que perdeu a latência, revolvido pelos mais dignos e doutos exploradores.

Supondo-se, de saída, porém, a ideia de o pretenso desvelo que se porta poder sanar esse embaraço, surde outra complicação – a limitação do espaço para a feitura da investigação. Discorrer a respeito do compositor de De Port Said a Suez em apenas dez laudas é labor que obriga a um extraordinário poder de suma e subtrai do escrevinhador mais minudente, avesso à obscuridade, o lance de perscrutar, num discurso mais solto e menos telegráfico, as diversas facetas do parceiro de José Duarte Ramalho Ortigão (*Santo Ildefonso, 24.10.1936; †Lisboa, 27.09.1915).

Quiçá minima de malis haja presidido o pensamento dos organizadores do concurso Elos-Eça de Literatura, em limitando o número de linhas para confecção do ensaio, na pressuposição de que, se escrevendo menos, poucos erros serão observados.

Caso, entretanto, se logre, a for dos bons alunos de Aritmética, montar e resolver esses dois carroções, chegar-se-á ao cabo da lousa sem haver gastado todo o craião e, quem sabe, se ratificará o Chi molto parla spesso fala dos conterrâneos de Giovanni Verga (*Catânia, 1840; †1922), que, por sinal, na Itália, fez escola com Eça[1].

Procedidas a essas considerações propedêuticas, tem-se, ainda, a louvar a iniciativa do Elos Clube de Fortaleza na promoção desse concurso, o qual não pôde prescindir do adjutório do Cidadão de duas pátrias Manuel Dias Branco (*Angeja – Albergaria-a-Velha, 1904; †Aveiro, 26.06.1995), o qual doou o importe destinado à premiação da monografia, ganhada pelo escrito-base destes escólios, subordinada ao título Eça – Eclético e, sobretudo, realista, remunerada, então, com o importe de CR$30.000,00 (trinta mil cruzeiros).

O tema Eça de Queirós, pois, conquanto suficientemente conhecido por aqueles que lidam, de ofício ou por curiosidade, com Literatura, é ainda pouco sabido pelos estudantes, que o preterem em favor da especialização e ex vi do afogadilho em que vive o mundo moderno, mormente nas cidades, onde a febre da conquista, maquiavelicamente, justifica a competição, nas mais das vezes custosa e até desleal.

O estímulo desse concurso deu ensejo aos escolares deste Estado de demandarem pelo conhecimento, com profundez, não somente da vida e da obra do Jornalista do Distrito de Évora, mas também do relacionamento de sua figura e da escola por ele perfilhada com todas as literaturas de língua portuguesa, porquanto EQ foi par, continuador, reformador e mestre das ideações de Gustave Flaubert e Emile Zola, por sua via e influência difundidas no Brasil e aportadas ao Ceará. (Flaubert – *Rouen, 12.12.1821; †Croisset, 08.05.1880; Émile-Édouard-Charles-Antoine Zola – *Paris, 02.04.1840; †29.09.1902).

3 A VIDA – SUBSTRATO DA OBRA

Imagine-se, no segundo quartel dos Dezenove, num país de progênie católica, onde grassavam preconceitos de toda sorte, o que significava um filho natural…

Infira-se, considerada a lonjura dos anos, o que queria dizer uma pessoa ficar até os quatro anos alvo da maledicência, da ausência paterna e do remoque público por haver nascido à margem da relação matrimonial!

Considere-se, como ensinam os psicólogos infantis, louvados em estudiosos da Psicologia e da Educação – como Jean Piaget, Lev Semenovich Vygotsky, Alexander Romanovich Luria, Henri-Paul Hyacinthe Wallon e tantos outros – que os primeiros estádios da personalidade, aliás, os de maior relevo no cadinho psicológico, são constituídos na primeira infância. Em razão disso, pois, uma pessoa ajunta à sua personalidade todos os eventos adventícios, bons ou ruins, e os emprega ou não, dependendo das circunstâncias de sua evolução como ser.

Somem-se, depois, todos esses elementos e conclua-se o que deve ser concluso, apondo-se nesse estado o Menino de Póvoa do Varzim, o qual – na esteira do que noticia Lellis (1968) – privou da modéstia de família na Vila do Conde, no Minho, e, algum tempo depois de 1849 – quando se casaram os pais – ficou em Verdemilho, na convivência dos avós paternos, até 1855, quando lhe morreu a avó.

Ocorreram assim os primeiros anos de Eça, filho de José Maria de Almeida Teixeira de Queiroz e Dona Carolina Augusta Pereira Eça, nascido em 25 de novembro de 1845 e que veio a ser uma das figuras mais representativas das letras em todo o mundo.

Após haver sido interno no Porto, foi aprovado para a Faculdade de Direito de Coimbra, onde se bacharelou, tendo por cinzel as ideias materialistas de Ludwig Andreas Feurbach, Thomas Henry Huxley e Ernst Heinrich Augusto Haeckel, bem assim as ideações positivistas de Isidore Auguste Marie François Xavier Comte, Émile Maximilien Paul Littré e Hippolyte Adolphe Taine, tendências que gozavam de muito crédito na época (IDEM, IBIDEM).

No Colégio da Lapa, na Cidade do Porto, sob a direção de Joaquim da Costa Ramalho, pai do antecitado Ramalho Ortigão, conhecera este autor de Histórias cor de Rosa1870, tendo, então, […] nascido a férvida amizade que haveria de ligar para sempre os dois escritores. (IDEM, p. 312).

O fruto maior de sua estada na Faculdade de Direito foi seu relacionamento com Joaquim Teófilo Fernandes Braga, segundo Presidente de Portugal (*Ponta Delgada, 24.02.1843; †Lisboa,28.01.1924) e Antero Tarquínio de Quental (*Ponta Delgada,18.04.1842; †11.09.1891), tendo sido o escritor de Primaveras Românticas (1872) o líder da geração realista, pois Eça de Queirós não pontificou em Coimbra como aluno brilhante, de modo a ter assegurado bom futuro forense.

Na leitura de Feliciano Ramos (apud IANNONE, 1972), considerando o prisma acadêmico, Eça de Queirós foi escolar opaco, e de Coimbra e dos professores não lhe sobraram lembranças permanentes, de sorte que seu período na Faculdade de Direito não registra qualquer coisa de espetacular, sendo quase silente, sem nenhuma repercussão.

Prova o asserto, aliás, a indecisão do futuro escritor quanto à carreira que iria seguir, pois, instalada sua banca de solicitador causídico na Capital lusa, pouco tempo se demorou com tal atividade, repudiando-a por encará-la prosaica, rotineira e sem sentido.

Consoante informa a literatura queirosiana, a que se remeteu na seção l deste texto – A Jeito de Explicação, até aquele momento, EQ guardava na retentiva suas observações a respeito das pessoas e dos ambientes onde vivera, sem que nada de monta levasse a lume, salvante folhetins publicados nos anos de 1866 e 1867, na Gazeta de Portugal, abrindo a série de suas Notas Marginais.

Em 1867, esteve em Évora, onde fundou e foi diretor do Distrito de Évora, folha de oposição da qual se utilizava, também, para fins literários que diziam com os movimentos das letras de então. Neste mesmo ano, voltou a Lisboa e recomeçou sua colaboração na Gazeta, publicando O Milhafre (folhetim número 12).

Nessa oportunidade, constitui-se o grupo do Cenáculo, centro de convívio intelectual, do qual participaram, além de Eça e dentre outros, Antero de Quental, Jaime Batalha Reis (*Lisboa, 24.12.1847; †Torres Vedras, 24.01.1935) e Salomão Bensabat Sáraga (*Lisboa, 19.09.1842; †04.04.1900). (LELLIS, op.cit.).

Com remissão à mocidade estudantil do escritor de A Cidade e as Serras, extraiu-se de João Grave e Coelho Neto este fragmento:

[…] a mocidade de Eça de Queiroz foi concentrada.  Pertencente a uma geração inquieta e turbulenta, comprazia-se, em Coimbra, em reparar o que à sua volta ocorria, pensando já talvez em algumas personalidades de sua galeria futura. Não manifestou, como estudante, acentuadas preferências por qualquer gênero de arte; mas o teatro chegou a merecer-lhe uma simpatia de tal ordem que, nas récitas organizadas pela Academia, era ele quem desempenhava os papéis de galã e com extraordinário relevo. (S.d., p. 822).

Na perspectiva dos autores (Ibidem), tais ocorrências o familiarizaram com o diálogo, concedendo-lhe o entendimento das situações e a sutileza da lógica dos caracteres, aliando-lhe mais os dons de observador e de psicólogo. De tal sorte, o exercício dos palcos favoreceu amplamente ao promissor romancista.

Enquanto Eça estava em Coimbra, não desidiava de suas observações e tentativas, procedendo a repetidos ensaios de contos, novelas e romances, alfarrábios que imediatamente inutilizava, como a representar uma nova Caná, pois ainda lhe não havia chegado a hora.

Consoante o que historia Iannone (1972), em 1869, o pintor de O Primo Basílio compareceu, junto com o Conde de Resende (seu futuro sogro), à abertura do Canal de Suez, tendo visitado o Egito e a Palestina, viagem decisiva para sua carreira. De lá voltou com o manuscrito de O Egito, série de reportagens acerca daquela região. No ano sequente, publicou um conjunto de folhetins sob o título geral de De Port Said a Suez e, nesse mesmo ano, foi nomeado administrador do Concelho de Leiria.

Informa Iannone (Op. Cit.) que, de 24.06 a 27.09.1870, foi editado, em folhetins do Diário de Notícias, O Mistério da Estrada de Sintra. Aduz, ainda, que ele, tencionando cursar carreira na diplomacia, prestou exame para cônsul de primeira classe, na Sala do Corpo Diplomático do Ministério dos Estrangeiros, tendo sido classificado em primeiro lugar.

Prospera-se com as paráfrases – com adições – do Professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília- São Paulo – ao expressar que o ano de 1871 assinalou uma série de ocorrências de relevo, pois se efetivaram as historicamente celebradas Conferências Democráticas do Cassino Lisbonense. Eça foi o quarto conferencista, defendendo a dissertação intitulada Realismo como Nova Expressão da Arte. Foi dispensado do cargo da Administração de Leiria, tendo-se encaminhado para Havana a fim de exercer o múnus de Cônsul de primeira classe nas Antilhas Espanholas. 1873 foi o ano em que viajou aos EEUU da América em delegação oficial, e, na sequência, se transferiu (novembro do ano seguinte) para New Castle – Inglaterra. Eis que dá início à produção dos seus inaugurais romances de teor naturalista – O Crime do Padre Amaro (1875) e O Primo Basílio (1878).

Por dois anos (l877-78), foi periodista colaborador de Atualidade, da cidade do Porto, escrevendo as Cartas de Londres. As contingências culturais e diplomáticas restavam intensivas, pois, em série, se passou para o Consulado de Bristol – UK (1878), colaborou na Gazeta do Rio de Janeiro, editando, em seguida, no Diário de Portugal, o romance O Mandarim – 1880. No começo daquele ano, foi em gozo de férias a Portugal, ficando no País até junho. 1883 foi o ano em que se elegeu sócio correspondente da Academia Real de Ciências.  Numa estada em Paris (1885), avistara-se com Émile-Edouard Charles-Antoine Zola, principal do Movimento Naturalista de França (ID. IBID.).

Malgrado, todavia, a intensão de seus exercícios na qualidade de cônsul e literato, Eça de Queirós se achava sozinho. Travara conhecimento mais estreito, no verão de 1884, em Portugal (Praia da Granja), com dona Emília de Castro Pamplona Resende[2] (*09.06.1857; †05.06.1934 – Praia da Granja), filha do Quarto Conde de Resende, Dom António Benedito de Castro, décimo oitavo almirante de Portugal (CITI – UNIVERSIDADE NOVA – LISBOA, 2014).

Eça de Queirós conservava romance com Dona Emília, sustentado por intensiva correspondência. Com suporte, em parte, no relato decodificado (e acrescido) de Iannone (1972), informa-se que eles resolveram se casar; e eis que, em 10 de fevereiro de 1866, no Oratório particular da Quinta de Santo Ovídio, Cidade do Porto, após cinco meses de noivado, convolaram núpcias.

O casamento e, dois anos depois, a nomeação de Eça de Queirós para Cônsul em Paris, transformaram por completo suas vidas. A casa da família foi definitivamente instalada em Neuilly-Sur-Seine – Paris (Ile de France), ficando Eça a viver como burguês, entregando-se ao lar, ao grupo familiar e a sua produção intelectual. Empreendeu outra viagem a Lisboa e a outros lugares, tendo gerido a Revista de Portugal.

Em 1889, EQ se agregou ao grupo dos Vencidos da Vida, sendo partes desta trupe Joaquim Pedro Oliveira Martins (Lisboa, *30.04.1845; †24.08.1894), Abílio Manuel Guerra Junqueiro (*Freixo de Espada à Cinta – Trás-os-Montes, 17.09.1850; †Lisboa, 07.07.1923), Ramalho Ortigão, Antônio Cândido Ribeiro da Costa (*Amarante, Lufrei, São Faustino de Fridão, 29.03.1850; †Amarante-Candemil, 09.11.1922), entre outros.

Começou a publicar, em 1897, na Revista Moderna, A Ilustre Casa de Ramires. Doente, já havia algum tempo – contudo, de uma moléstia cuja diagnose a história não é unânime em apontar, malgrado várias opiniões divergentes, as quais deixam o estudante, o diletante e até mesmo o pesquisador sem rumo a obedecer – ele deixou Paris e se encaminhou, com Ramalho Ortigão e o intelectual brasileiro Eduardo Paulo da Silva  Prado (*São Paulo, 27.02.1860; †30.08.1901) ao sul de França e à  Suiça – nomeadamente Glion-Sur-Montreux, cantão de Vaud – incluindo três dias em Genebra.

Ali, procurou oportunidade para a cura de malária, cólon espástico, tumor no pâncreas, tuberculose pulmonar, tísica visceral ou supostas indicações patológicas outras, de uma doença não sabida que nos últimos tempos se agravou. (http://carreiradomato.blogspot.com.br./2020/08. Acesso em 01.07.2014).

Restando-lhe exacerbando o estado de saúde, regressou a Paris, onde lhe ocorreu o passamento, no dia 16 de agosto de 1901, às 16h30min, em sua casa, na Ile–de-France (Neuilly-Sur-Seine). No dia 17, a bordo do África, foi transportado para Lisboa, onde está sepultado no Cemitério do Alto de São João – Centro Histórico da Cidade.

Nessa efervescência de vida privada, diplomática e literária, formou-se e firmou-se a personalidade do excelso autor de A Ilustre Casa de Ramires, de quem resultou um extraordinário legado à Humanidade.

Entre a ribalta e o cenário estava o artista com sua verve criadora, estimulada pelas experiências e observações bebidas do cotidiano, plenas de valor social e carregadas de um criticismo, exacerbado para a época, todavia plenamente aceito na posteridade que lhe sobreveio de logo, porquanto realístico e sem os excessos próprios dos modismos, por natureza, inconsistentes.

Talvez não demore repetir, conquanto pareça trivial, o fato de que Eça de Queirós fez e revisionou escola, assimilando o que de fora adentrava, especialmente de França, antes joeirando o que de Zola, Balzac, Flaubert ou Maupassant não interessava às letras nacionais lusitanas, tampouco ao fio programático e ideológico do Realismo: colheu-lhes a nata e arremessou a lia.

4 AMBIÊNCIA HISTÓRICA DA PRODUÇÃO

Consoante restou de consenso entre os historiógrafos literários, o Realismo português experimentou, para sua implantação, dois momentos distintos – a Questão Coimbrã (1865) e as Conferências do Cassino Lisbonense (1871).

Presume-se, margeando a certeza, que a razão primeira de o realismo restar de tal modo apreciado radica na vera representação do objeto imaginado pelo escritor em sua imparcialidade na mimetização da realidade.

Não se cuida, impende ressaltar, de o artista anelar o verdadeiro, mas de somente, abastecido de certa inflexibilidade científica, perscrutar o real com imparcialidade e argúcia, à procura de pintar um quadro fiel daquilo divisado na sociedade, provido de engenho e talento.

A Escola Realista constitui – e isto não é novidade – uma das tendências sobresselentes da segunda metade do século XIX, aparecida em oposição às românticas conceições de Arte.

Liderado por Gustave Flaubert, cujo Madame Bovary assegurou a atuação exitosa desse sistema em França, o Movimento justapõe nomes de grande peso na cena da Literatura internacional – como o próprio Escritor sob exame, Balzac, Joaquim Maria Machado de Assis, Sthendal (Henri-Marie Beyle), George Eliot (Mary Ann Evans), Lev Nicolaievich Tolstoi, Charles John Huffa Dickens, Manuel Antônio de Almeida, Manuel de Oliveira Paiva e Raul d’Avila Pompeia – e ao Brasil veio do País de Zola, por meio de Portugal, onde José Maria Eça de Queiroz editara O Primo Basílio, o qual operou aqui verdadeiro estardalhaço.

Ao tempo de instalação do moto literário realístico, a Revolução Industrial, carregando progressos e inovações na seara da Ciência e da tecnologia, abalou profundamente a estrutura da sociedade europeia, mexendo com preconceitos atrelados a centúrias de tradição.

Consoante lembra Lellis (1968, p.301), na época, a ambiência lusa no campo da Literatura se acalorava, emulada por um par de pendores: de um lado, os autores lisbonenses – […] conservadores, tradicionalistas, completamente fechados a qualquer influência renovadora, a alimentar sua vaidade ao calor oficial do aplauso dos consagrados. De outra parte, os acadêmicos de Coimbra, livres, autocéfalos, agitados pelos credos científicos ou cientificistas que traçavam ou buscavam desenhar outro itinerário imaterial para o mundo. Com efeito, exprime Fidelino de Figueiredo (1940, p. 299):

No pequeno meio de Coimbra condensavam-se em corpo de ideias as influências mais díspares e de procedência mais heterogênea. O orientalismo, o folclore com intenções étnicas, a filologia e metafísica alemãs, o realismo francês, a Filosofia da História, o positivismo e as generosas teorias da confraternização e filantropia, todas essas novidades se confundiam, e excitavam naquela exaltada mocidade tendências mentais diametralmente opostas ao esgotado romantismo.

No relato de Raul Moreira Lellis (Op. Cit), António Feliciano de Castilho – o primus inter pares dos críticos e celebrado nas letras oficiais – no introito do livro Poema da Mocidade, de Manuel Joaquim Pinheiro Chagas (*Lisboa, 13.11.1842; †08.04.1895), reportava-se, sob troça e desdém […] àqueles jovens irrequietos que tinham a audácia de não lhe pedirem a bênção (CASTILHO, apud LELLIS, IBID, p. 301)… Estava ferida a A Questão Coimbrã, ou Bom Senso e Bom Gosto, assinalando, inextinguivelmente, a história literária de Portugal.

Tarquínio Antero de Quental, o mais fervoroso conimbricense, e Joaquim Teófilo Fernandes Braga, comparte do mesmo grupo, já tinham conduzido a lume alguns escritos na craveira do novo espírito e da então amodernada forma de elaboração.

Foi a estes dois paredros da reação antirromântica que Castilho dedicou parte da Carta-Prefácio.

Clodomir Viana Moog (1969, pp. 66-7) é quem conta, com desdobrada aptidão, este conjunto de sucessos, in verbis:

Nela Castilho fazia alusões aos perigos que ameaçavam as letras portuguesas e propunha, para remediar o mal, fosse criado um curso oficial de literatura, para cuja cadeira lembrava o nome do próprio Pinheiro Chagas. A severidade do futuro professor parecia-lhe suficientemente comprovada pelo fato de muitos novos já haverem sido acremente abjurgados por este aquilatador inexorável!

Para infortúnio do escritor, cego por sarampo na meninice, autor de Presbitério na Montanha (1844) e Cartas de Eco e Narciso (1821) – continua o Escritor gaúcho:

[…] a carta, a certa altura traía-lhe demasiadamente os recalques, resvalando para o terreno das invetivas contra Antero e Teófilo, no estilo amaneirado da escola por ele chefiada. Em suas apreciações, entrava também um pouco forçadamente Vieira de Castro, para que o golpe não doesse tanto.

A retaliação, violenta retaliação, chegou com Antero de Quental, por meio do folheto Bom Senso e Bom Gosto, denominação que evocava as principais qualidades denegadas por Castilho à turma coimbrã.

A violência do panfleto conduzia toda a indignação dos novos contra a encanecida cabeça de Castilho que, ferido em sua dignidade e pundonor, deixou de treplicar. Em sua defesa, apareceu Ramalho Ortigão, realista ao depois, com um artigo exasperador no Jornal do Porto, tachando, inclusive, Antero de Quental de covarde, por ser Castilho idoso e cego. Daí o por demais célebre duelo de Antero de Quental e Ramalho Ortigão (LELLIS, Op. Cit).

No ano 1871, recrudesceu o movimento com o conjunto de conferências organizadas por Antero de Quental, no Cassino Lisbonense. O estardalhaço da Questão Coimbrã conferiu primazia maior a essas palestras. Consoante narra o retromencionado autor, com o salão-mor lotado, Antero de Quental foi o primeiro palestrante de uma série de quatro preleções a respeito das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos, tendo como pretexto o Catolicismo decorrente do Concílio de Trento, o absolutismo e o desdobramento irracional das conquistas (ID. IBID.).

No meio das outras conferências, veio a vez de Eça de Queirós, ao discorrer acerca do Realismo na Arte. Na perspectiva do Conferencista, o qual, com o grupo, solidificava o Moto Realista, este não significa apenas um formato, porém representa outra filosofia do espírito do homem, pois traduz o banimento do ilusório e do concertado no exame crítico da espécie humana, porquanto objetiva estigmatizar o vício, desvestindo-o, pois é o instrumento de restauração da sociedade, que demanda, pelo medo do mal, instituir a reverência do bem.

Quando estava para ser proferida, por Belisabat Salomão Sáraga, a quinta audiência em torno de Os Historiadores Críticos de Jesus, o Governo determinou o fechamento das Conferências democráticas.

Os protestos não produziram qualquer efeito e as reuniões não mais se efetivaram.

Em 1865, a luta processava-se apenas no plano literário; a proibição das conferências nada mais era do que o prolongamento dessa mesma luta no terreno político e social. (IDEM, p. 305).

5 A OBRA E A CRÍTICA

5.1 A Obra

Não é razoável, tampouco propício, ao termo desta abordagem, fazer sobrar juízo crítico-comparativo no tocante à produção queirosiana. Isto se constitui, no lapso de cento e cinquenta e anos, tarefa para os especialistas e analistas de mister, mormente havendo-se em linha de conta o que exprimiram Salisbury Galeão Coutinho e Joaquim Braga Montenegro, mencionados no começo destes escólios.

O Ne sutor supra crepidam, de Plínio, o Antigo, desanima a se empreender tamanha empreitada. O escopo deste incompleto escrito, pois, é reunir, sucintamente, os principais lances da vida e os mais preeminentes momentos da produção do autor de A Relíquia, conectando-os à contextura literária do Brasil, inclusive à Literatura cearense, sobre a qual o escritor sob nota influiu, máxime no pertinente à Escola Realista.

Eça de Queirós escreveu romances, contos e escritura de viagem, tendo militado, ainda, com certo sucesso, na atividade jornalística, conforme sucedeu quando redigiu para o Distrito de Évora.

Mesmo sua obra se mostrando bastante eclética, porquanto se exibiu como epistológrafo, crítico, hagiógrafo, cronista, jornalista e polemista, ocorreu de ser no conto e no romance que se constituiu e se destacou como o mais eminente escritor luso do século XIX e um dos maiores compositores literários de Língua Portuguesa.

Na sua produção, observam-se três estádios distintos. O primeiro, de iniciação ou fase romântica, está contido de 1866 a 1875, e vai desde os folhetins da Gazeta até O Crime do Padre Amaro, seu primo rebento do Realismo.

Mais tarde, Jaime Batalha Reis reuniu esses trabalhos no volume Prosas Bárbaras, salvante O Crime do Padre Amaro. Nesse período, depreende-se, há lugar maior para o fantástico, por intermédio do inusitado, sobrenatural e macabro. Nítida é a influência do satanismo do autor de Flores do Mal – Charles-Pierre de Baudelaire (*Paris, 09.04.1821; †31.08.1867), bem como das ideias tétricas de Edgar Allan Poe (*Boston, 19.01.1809; †Baltimore, 07.10.1849).

Os trabalhos desta quadra denotam um gosto pela linguagem complicada, com simbologia pessoal bastante complexa, emprego excessivo dos adjetivos e introdução de neologismos não dicionarizados e galicismos, motivo pelo qual restaram desabridamente censurados.

Constam da primeira fase, reunidos pelo retrocitado Jaime Batalha Reis, além das Prosas Bárbaras, O Mistério da Estrada de Sintra, em coautoria com José Duarte Ramalho Ortigão, e Uma Campanha Alegre, resultado de matérias coligidas e editadas em As Farpas, periódico que Ramalho Ortigão dirigia. O Mistério da Estrada de Sintra é uma espécie de romance policial, de enredo que prospera com origem na agressão praticada por pessoas encapuzadas a um médico que voltava de Sintra para Lisboa[3].

Como expressa Iannone (1972) – de quem se fazem paráfrases com acrescentamento de informações e ilações pessoais, consoante sucede em todo o texto – alguns analistas vislumbram nesse argumento a intenção estudada de falar mal dos livros do autor de Amor de Perdição (Camilo Castello Branco), peça inserta no segundo período do Romantismo, em que o amor é passível de conduzir até as consequências derradeiras – a própria morte, por exemplo – não sendo defeso, neste passo, informar o leitor de que nos romances de Camilo pontilham esses tipos de móvel literário.

A segunda fase, aquela da plenitude realista (1867-1887), é ferida com a edição de O Crime do Padre Amaro, “escrito em 1871 e lido a alguns amigos em 1872, mas somente publicado em 1875, terminando com Os Maias.” (ID., IBID., p. 15).

Neste período,

[…] aderindo às teorias do Realismo iconoclasta a partir de1871, Eça coloca-se sob a bandeira da República e da Revolução, e passa a escrever, em coerência com as ideias aceitas, obras de combate às instituições vigentes (Monarquia, Igreja, Burguesia) e de ação e reforma social. (MOISÉS, 1968, p. 195).

Pertencem à segunda fase O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, O Mandarim, A Relíquia e Os Maias, sendo que O Mandarim é havido como o menos realista, pois, consoante entende o Prof. Dr. Carlos Alberto Iannone,

É, antes, um volume de fantasias em que Eça pretendeu demonstrar que o dinheiro ganho honestamente, com o suor do trabalho, é o único que pode trazer felicidade e satisfação ao homem. (1972, p. 15).

O Crime do Padre Amaro, primeiro rebento realista-naturalista do Escritor, tem fio parecido com O Crime do Abade Mouret, de Émile Zola.

Na inteligência de Carvalho (1940, p. 558), […] O Crime do Padre Amaro foi obra que se procurou inculcar de plágio da de Zola (sabe-se que Machado de Assis foi um desses críticos) e que seria ainda motivo para discussão se não provasse ter sido publicada antes.

Aliás, é o próprio Eça a expressar, na nota da segunda edição do livro:

[…] E no Brasil e em Portugal escreveu-se (sem todavia aduzir prova efetiva) que O Crime do Padre Amaro era uma imitação do romance do Sr. Zola –  La Faute de L’Abbé Mouret; ou que este livro do autor de Assommoir e de outros magistrais estudos sugeriria a ideia, os personagens, a intenção de O Crime do Padre Amaro.

Eu tenho algumas razões pra crer que isto não é correto, O Crime do Padre Amaro foi escrito em 1871, lido a alguns amigos em 1872 e publicado em 1874. O livro do Senhor Zola, La Faute de L’Abbé Mouret, (que é o quinto volume da série Rougan Macquart), foi escrito e publicado em 1875. (QUEIRÓS, 1880. PREFÁCIO)[4].

Narrativa de costumes e de atualidades – O Crime do Padre Amaro tencionou indigitar a decomposição em curso no ambiente eclesiástico de então – cujo “filme” se depara de novo na atualidade – […] num retrato fiel e minucioso da sociedade leiriense, muito influenciada pelos membros do clero, como é comum, aliás, entre a gente dos pequenos aglomerados de província. (IANNONE, 1872, p. 15).

O Primo Basílio, por sua vez, tem como palco a Capital lisboeta, sendo reais os protagonistas, com personalidades diversas das de O Crime do Padre Amaro. Sempre vergastando os românticos, EQ aspirou a evidenciar o fato de uma educação nos moldes românticos resultar falha, porquanto a protagonista Luísa, afeita aos ideais do romantismo, no termo da estória, se faz adúltera, conquanto haja se oposto às insinuações e arremetidas de Basílio, diversamente das resistências timoratas e até covardes de Amaro e Amélia (ID. IBID.).

Relativamente ao romance A Relíquia, crítica social, é relevante produto editorial do Realismo lusíada. Nesta estória-História legitimista, EQ arremete contra os fingimentos e refalsadas devoções num tom sarcástico e dirigindo as carapuças às cachimônias certas. Importa dizer que diversos estudiosos apõem A Relíquia no terceiro estádio realista, ao lado de Os Maias, A Cidade e as Serras (publicação póstuma) e Correspondência de Fradique Mendes.

Na perspectiva de comentadores distintos, Os Maias é peça naturalista do maior valor, pelo fato de encerrar uma crítica à sociedade lisbonense dos derradeiros anos do século XIX, pois está afeta a um evento incestuoso – amor físico – entre dois irmãos, desvendado no final do volume.

A respeito de Os Maias, recorre-se à opinião do ensaísta literário português António José Barreiros (1989, p. 237), para quem Eça de Queiroz, no livro,

Quis pintar […] a Sociedade portuguesa, tal qual fez o Constitucionalismo de 1830, como expressamente disse em carta a Teófilo Braga. Porque teria de abranger todas as infraestruturas dessa sociedade, política e finanças, religião e moral [sic], literatura e jornalismo, festas e jogos e espetáculos, amizades e relações entre famílias, a obra resulta muito complexa.

A terceira fase – esta da maturação estilística – é lindada pela edição de Os Maias e vai até 1900. Eça, então, dá início aos temas de teor social e nacionalista. Eis que

Adquire mais interesse pelos problemas intelectuais, estéticos e históricos. Vendo que pouco ou nada adiantava com a sátira ao vício, abandona-a e ergue uma obra de sentido construtivo, contactando com o outro lado do mundo que ainda não estava podre. É uma fase em que atinge a maturidade intelectual. (IANNONE, 1972, p. 15).

Este representou o período em que o Escritor adquiriu imortalidade mediante o fulgor estético de suas peças, as quais dele fizeram exemplar sem igual no âmbito do Moto Realista e das letras portuguesas. Conforme se antecipou alhures, este estádio é representado, em especial, por três produções – A Ilustre Casa de Ramires, A Correspondência de Fradique Mendes e A Cidade e as Serras, este publicado post mortem.

N’A Ilustre Casa de Ramires, EQ dirige anátemas ao declínio lusitano do século imediatamente anterior, ao cotejar Portugal de então com o da Idade Média e início do Renascimento, no período da Revolução Comercial. Gonçalo Ramires é o principal protagonista, oriundo de boas cepas, mas que sobrevive de rendimentos, sem qualquer produção meritória.

A Correspondência de Fradique Mendes é composta de duas partes – uma em que EQ exprime a personalidade do protagonista do livro, Fradique, e outra demonstrando as missivas encaminhadas a conhecidos escritores de então, como Oliveira Martins, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro, em meio a outras expressões da literatura lusa e internacional.

EQ usa a correspondência a fim de mostrar suas ideias acerca de religião, política, Literatura e Filosofia, conquanto, no romance, ainda seja expressa a crítica social do intitulado período de fastígio do Realismo.

Postulando a ideia de que o homem, à Rousseau, somente pode ser verdadeiramente feliz à margem da civilização, na vida rural simples, em contato direto com as coisas naturais, foi publicado, depois do passamento de EQ (1901), A Cidade e as Serras, decerto a Opus Magnum do derradeiro período.

Ilustrado como era, no seu ecletismo não muito comum no Portugal da época, Eça de Queirós escreveu outras obras que não se compadecem às fases delineadas aqui, pelo menos sob o prisma didático, consoante ocorre, por exemplo, com as Cartas da Inglaterra, Contos e outros trabalhos referidos em passagem anterior deste escrito.

5.2 A Crítica

Constitui tarefa impraticável, a curto ânimo, contabilizar todas as pessoas, em todo o mundo, que revelaram admirar a obra queirosiana e desta empreender críticas, a mor parte apologéticas, porquanto não sobram mais quaisquer dúvidas relativas à grandiosidade e grandiloquência do Escritor da Povoação varzinista.

Atualmente, por mais que se descubram lances novos na obra eciana que ensejem a elaboração analítica por ângulo inédito, logo, com a pesquisa a fundo e a compulsação de documentos, o veio “novo” se dilui, porquanto os estudiosos, eçófilos, se encarregaram, durante esses anos todos, de prover de apreciações a crítica literária sobre nosso Autor e sua produção multiface.

Expressar, verbi gratia, a ideia – consabida – de que José Maria Eça de Queirós representa um dos mais excelsos estetas da escrita realista do século XIX em todo o mundo; ou que ele tonificou a Língua de José Rebouças Macambira (conterrâneo – Palmácia – e patrono do autor destas notas em uma das cátedras da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo), conformando-a aos reclamos dos jeitos modernos de tornear, de sorte a concorrer, como ninguém seu coetâneo, a fim de trazer encanto e prestígio literário para sua descendência – é submeter-se ao risco de ser repetitivo, fastidioso, paulificante, até.

Como, entretanto, o escopo do texto sob relação não é empreender, por inexequível, novo estudo ou crítica original atinente à vida e à produção do atilado repórter da série De Port Said a Suez, e sim proceder a uma epítome geral das principais ocorrências com ele relacionadas – segundo o objetivo expresso nos prelúdios deste artigo – é conveniente, para conhecimento ou rememoração de quem vir essas referências, mencionar algumas passagens de escritos que acerca dele fizeram autores e mais autores, jamais portugueses e brasileiros.

O intelectual, político e escritor português, que foi reitor da Universidade de Coimbra, Joaquim Mendes dos Remédios (*Nisa-Portalegre, 21.09.1867; †Santo Varão-Montemor-o-Velho, 30.09.1932), exprime acerca de José Maria Eça de Queirós:

Na história do romance nacional o seu nome, independentemente do juízo que venha a fixar-se a respeito da obra, ficará para sempre perdurável pelo caminho novo que rasgou no campo do naturalismo e pela influência decisiva que à sua maneira criou e exerceu […] Em todos os seus trabalhos não é só o entrecho que prende e seduz o leitor, mas principalmente a magia do estilo vivo, novo, de riquíssima policromia. (MENDES DOS REMÉDIOS, apud MESQUITA, 1989, pp.74-75).

Estêvão Cruz, patrono da Cadeira número 37, da Academia Cearense da Língua Portuguesa, a qual se experimenta a honra de ocupar, em sua Antologia da Língua Portuguesa (1934), expressa a noção de que o Jornalista do Distrito de Évora deixou nos seus livros:

[…] tal poder de observação, uma ironia tão cintilante, um estilo tão vivo, tão belo, tão inconfundível e ondeante na sua policromia, que em toda a parte teria sido um grande e apreciadíssimo escritor. Nessa prosa equilibrada, colorida, luminosa, exuberante de relevo, de cor, de vida, vestindo a ideia ao de leve numa diafaneidade de gás […] soube como ninguém dizer e exprimir tudo – e se na sua obra se podem encontrar defeitos como o do seu constante pessimismo tão exagerado e prejudicial, ninguém até hoje [leia-se 1934] contestou a sua beleza e a sua decisiva influência sobre os modernos escritores portugueses e brasileiros. (Pp. 817-18).

Outro dos mais bem aquinhoados analistas pátrios, o crítico literário e ensaísta fluminense-paraibense Agripino Grieco (*Paraíba do Sul, 15.10.1888; †Rio de Janeiro, 25.08.1973), vem com este maravilhoso torneio:

[…] Sua prosa lépida, translúcida, moderna, pôs em debandada os arqueólogos da língua, que nunca mais reconquistaram o terreno perdido. É nervoso, elétrico, versátil, brilhante, gostando da análise febril, um tanto cínico no sarcasmo e um tanto acanalhado na ternura. (Apud CARVALHO, 1940, p. 558).

6 INFLUÊNCIAS DE EÇA E DOS REALISTAS NA LITERATURA BRASILEIRA – SEÇÃO DERRADEIRA

Também no Brasil, inclusive muito bem no Ceará, foram sentidos os influxos do novo pensamento europeu, sacudido pelo então recente modus operandi imprimido pela Revolução Industrial, no que concerne, também, ao pensamento científico e à reflexão filosófica, com origem no terceiro quartel dos Dezenove.

Neste ponto, sobreleva referir a uma influência das mais significativas e largas atuantes na intelecção brasileira do tempo – exatamente a do escritor José Maria Eça de Queiroz.

As altercações entre o realismo então surgente e o romantismo decrépito feriam-se em Portugal desde 1865, com a aparição e desenvolvimento das Conferências – já mencionadas – do Casino Lisbonense, em 1871, a cuja frente estava, sobranceiro, Antero Tarquínio de Quental.

Em um Brasil cativo do sentimentalismo, descendente direto do estilo manemolente e irreal do romantismo de António Feliciano de Castilho e José Martiniano de Alencar, bem assim com a vida literária ainda claudicante, sem personalidade própria e indefinida, restou de grandes proporções a repercussão experimentada pela recepção da mensagem dos realistas, via Eça de Queirós, sobre a literatura aqui exercitada. Ocorreu, sem dúvida, de EQ constituir um dos mais preeminentes fautores da transformação operada no País naquela quadra.

A publicação dos dois livros – O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio – significou a efetivação da estética realista-naturalista na ficção. Mediante essas duas peças e por via das ligações sem intermitências mantidas com o Brasil pelos jornais, bem assim por meio do estreito relacionamento com o universo literário, apôs-se o autor de O Egito como uma espécie de tutor da vida intelectual brasileira, no tocante às atividades literárias.

Em todas as regiões do País, a influência realista – com a intermediação de EQ e, em particular, com aqueles dois veículos das ideações realísticas – se fez sentir com sobrante intensidade.

Ainda atualmente, o influxo do Realismo-Naturalismo faz trilho nas ideias dos escritores de tendências nacionais, no modo de tornear, na ironia, no uso de neologismos e emprego de galicismos, bem como em certo toque de licenciosidade do realismo eciano.

Entre os cearenses, a reação à subjetividade romântica operou-se, permutatis, permutandis, na mesma época, singularmente na prosa, pois produziu escritores que demandaram os problemas biológicos, psicopatológicos e doutros jaezes cientificistas para a produção de seus escritos, bem ao feitio temático da Escola Realista-Naturalista.

Na década iniciada em 1880, foi fundado em Fortaleza o Clube Literário, agrupando escritores românticos em coexistência com outros já adeptos do renovado caminho indigitado por Balzac, Zola, Flaubert, Alphonse Daudet, Guy de Maupassant, Eça, Teófilo Braga, Antero de Quental e, já, Machado.

Manuel de Oliveira Paiva (*Fortaleza, 12.07.1861; † 29.09.1892), Adolfo Ferreira dos Santos Caminha (*Aracati, 29.05.1897; †Rio de Janeiro, 01.01.1897), Domingos Olímpio Braga Cavalcante (*Sobral, 18.09.1851; †Rio de Janeiro, 07.10.1906), Rodolfo Marcos Teófilo (*Salvador,06.05.1853; †Fortaleza, 02.07.1932) e Antônio Papi Junior (*Rio de Janeiro, 28.08.1854; Fortaleza,30.11.1934), todos eles com escritos cientificistas, concediam feição ao Realismo-Naturalismo na contextura cearense, quer bebido diretamente de Eça de Queirós e de outros realistas europeus, que por intermédio de realistas-naturalistas pátrios, como, exempli gratia, Aluísio Tancredo Belo Gonçalves de Azevedo (*São Luís, 14.04.1857; † Buenos Aires, 21.01.1913), cujo O Homem ensejou a publicação de dois artigos de louvação à nova corrente literária, assinados por Oliveira Paiva n’A Quinzena, de 15 e 30 de janeiro, respectivamente. (AZEVEDO, 1976). (5).

BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO, Sânzio de. Literatura Cearense. Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 1976.

BARREIROS, António José. História de Literatura Portuguesa –Séc. XVII-XX. Braga: Editora Pax, 1989.

CARVALHO, José Mesquita de. História da Literatura. Porto Alegre: Globo, 1940.

CITI – CENTRO DE INVESTIGAÇÃO PARA TECNOLOGIA E INTERACTIVIDADE. Lisboa: Universidade Nova de Lisboa. http//www.citi.pt. Acesso em 01.07.2014.

CRUZ, Estêvão. Antologia da Língua Portuguesa. Porto Alegre: Globo, 1934.

FIGUEIREDO, Fidelino de. Literatura Portuguesa. Rio de Janeiro: A Noite, 1940.

GRAVE, João; COELHO NETO, H.M. Eça de Queirós (verbete). In: Lello Universal. Porto, Lello $ Irmão, s.d.

http://carreirodonato.blogspot.com.br./2020/08. Acesso em 01.07.2014.

IANNONE, Carlos Alberto. In: QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. São Paulo: Editora Três, 1972 (Obras Imortais de nossa Literatura (2).

LELLIS, Raul Moreira de. Português no Colégio. 10. ed. São Paulo: Nacional, 1968.

MATOS, A. Campos (organizador da obra e autor do verbete) O Crime do Padre Amaro. Dicionário de Eça de Queirós. 2 ed. Lisboa: Caminho, 1988, pp.242-3.

MESQUITA, Vianney. O Jornalista do Distrito de Évora. In:  Impressões – Estudos de Literatura e Comunicação. Fortaleza: Ágora, 1989.

MESQUITA, Vianney. O Jornalista do Distrito de Évora. Revista de Letras UFC. V.34, n. 21, pp.184-198, 1980/1981.

MENEZES, Djacir Lima. Crítica Social de Eça de Queirós. 2 ed. Fortaleza: Imprensa Universitáriia da UFC, 1962.

MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa. São Paulo: Saraiva, 1968.

MONTELLO, Josué. Santos de Casa: Estudos de Literatura. Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 1966.

MONTENEGRO, Joaquim Braga. Correio Retardado: Estudo de Crítica Literária. Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 1966.

MOOG, Clodomir Vianna. Eça de Queirós e o Século XX. 2. ed. Porto Alegre: Globo, 1969.

QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. 2. ed. (Prefácio) Lisboa, 1880.

QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. São Paulo: Editora Três, 1972 (Obras Imortais de Nossa Literatura) (2).

QUEIRÓS, Eça de. A Ilustre Casa de Ramires. Rio de Janeiro: Ed. de Ouro, s.d.

QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. São Paulo: Brasiliense, 1961.

QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Rio de Janeiro BUP, 1963.

NOTAS

4 De acordo com o que noticia A. Campos Matos, no seu Dicionário de Eça de Queirós, 2. ed., Lisboa, Caminho, 1998, pp.242-3, a versão inaugural e truncada de O Crime do Padre Amaro foi publicada na Revista Ocidental, em 1875. A primeira edição em volume recebeu o custeio do pai do Escritor, Sr. José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, reformada e ampliada, com 800 exemplares, Porto, Edit. Chardon, 1876. É no Prefácio da segunda edição em volume, de 1880, versão bem maior do que a anterior, que Eça de Queirós se defende da acusação inverdadeira de plágio da Faute de L’abbé Mouret, de Émile Zola, expressa, dentre outros, por Joaquim Maria Machado de Assis. Esta é a edição que se referencia aqui, no sítio próprio.

5 Dirige-se agradecimentos à professora doutora Maria Aparecida Ribeiro, da Universidade de Coimbra, a qual, a instâncias do professor doutor Rafael Sânzio de Azevedo, da Universidade Federal do Ceará e seu ex-colega de doutoramento na Universidade Federal do Rio de Janeiro, em atenção a pedido que se lhe encaminhou (ele jamais deixou de volver positivamente qualquer solicitação no decurso de muitos anos), dispensou valiosas informações de registo bibliográfico, capitais para o bom andamento destes despretensiosos comentários.

[1] Decidiu-se, para registo comprobatório de transformação semântica de tal monta, em apenas 39 anos, conservar a linguagem da época, hoje em desuso, ante o desenvolvimento da Informática, e em fidelidade à natural diacronia da Língua Portuguesa.

[2] Eça de Queirós conhecia Dona Emília desde pequena, pois o irmão, Manuel Benedito de Castro, era seu amigo de adolescência, quando ambos estudavam no Colégio da Lapa. Emília tinha por mãe Dona Emília Balbina Pamplona Carneiro Rangel Veloso Barreto de Miranda e Figueiroa, descendente em primeiro grau do Primeiro Visconde de Beire, Dom Manuel Carneiro Rangel Barreto de Miranda e Figueiroa (*Vila Nova de Gaia, Canelas, 03.10.1774; †Porto, 12.05.1849). (Confer Campos Matos, 1998, pp.242-3).

[3] No trânsito de hoje – intenso – é possível percorrer, de Sintra a Lisboa, seus 28 quilômetros, de automóvel, em mais ou menos 26 minutos. Foi este o tempo exato despendido em viagem, feita em 2008, quando se esteve em Portugal (Lisboa, Sintra, Cascais, Bucelas, Queluz e outros lugares) para assistir à defesa de tese de doutorado, na Universidade de Lisboa, do Prof. Dr. Arnaldo Santos, juntamente com o Prof. Dr. Roberto Martins Rodrigues (um dos membros da Banca), o Prof. Dr. Rui Martinho Rodrigues, também da UFC (orientador brasileiro da pesquisa), e os filhos do Dr. Arnaldo – João Pedro, Arnaldo e Tiago.

[4] Conforme está na informação de A. Campos Matos, no seu Dicionário de Eça de Queirós, 2. ed., Lisboa, Caminho, 1998, pp.242-3, a versão inaugural e truncada de O Crime do Padre Amaro foi publicada na Revista Ocidental, em 1875. A primeira edição em volume recebeu o custeio do pai do Escritor, Sr. José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, reformada e ampliada, com 800 exemplares, Porto, Edit. Chardon, 1876. É no Prefácio da segunda edição em volume, de 1880, versão bem maior do que a anterior, que Eça de Queirós se defende da acusação inverdadeira de plágio da Faute de L’abbé Mouret, de Émile Zola, expressa, dentre outros, por Joaquim Maria Machado de Assis. Esta é a edição que se referencia aqui, no sítio próprio.

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