Maria, Maria… Ou as vozes das Marias

MARIA GORETE OLIVEIRA DE SOUSA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 1

“Maria, Maria…
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta”.

Disse o poeta, e a beleza poética é muita, mas não apaga a verdade cruel de sua letra, nem pode abafar a voz de quem, do outro lado da canção, puxa um grito, lá de dentro dos pulmões e quer dizer o contrário:

– Sou Maria sim, e essa é a grandeza de minha vida! Sou Maria sim, mas me recuso a aceitar as doses de veneno que me querem forçar, goela abaixo. Sou Maria sim, mas não quero trocar meu riso por choro, nem vice-versa! Quero rir sim, mas rir, porque rir é bom, não rir do meu desespero, nas horas de infortúnio. Não quero rir para fingir que não choro, ou pior, para satisfazer a uma tirania que me bate, e depois diz “engole o choro”. Quero ter o direito de chorar também. E por que não? Chorar faz parte, e eu quero expressar minha alma pelos olhos quando, assim, o momento requerer. Quero ter o direito de ser coerente e leal às minhas entranhas, e rir meu riso, e chorar meu pranto, como disse  outro poeta. Sou Maria sim, e quero viver, e viver feliz, porque tenho direito à felicidade, e não apenas aguentar a vida, porque isso não é vida. Apenas aguentar é morrer além morte! E eu quero poder transbordar as gotas insubstituíveis de uma alegria de viver, para poder, de mim, florescerem outras vidas com a mesma porção de alegria e equilíbrio, e banir de vez essa cultura do fingir, do corromper, do adulterar. Não quero uma máscara de fortaleza sobre a minha fraqueza. Quero a prerrogativa de equilibrar a minha humanidade entre essas duas dimensões. Eu rejeito a máscara falsa de “superser humano” que me querem colocar aqueles que, intimamente, não me dão senão a pecha de “subser humano”. Não quero ser sobrenatural, desejo simplesmente ser natural, e caber na medida de minha natureza, ou extrapolar esses limites, quando assim me der na telha. Não para provar que sou capaz de ir além, e angariar a concessão de ser vista. Quero minhas metas e limites medidos pelos meus sonhos, não pela hipocrisia que vem de fora. Sou Maria! Ser Maria é ser mulher? Ah, eu sou Maria sim!

Homenagem desta cronista a todas as lindas amigas Marias, que levam nas costas as batalhas desta vida: carregam o piano quando é preciso, e nem sempre dançam conforme a música, porque há bailes que nos obrigam a dançar fora do tom. E há tons que não combinam com o canto dessas Marias! Marias não pelo batismo, necessariamente, mas Marias porque trouxeram do nascimento a marca de ser Mulher!

Crônicas de viagem – Carona oportuna

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37 (patrono: Estêvão Cruz)

As viagens são a parte frívola da vida das
pessoas sériase a parte séria na vida
das pessoas frívolas
. [ANA SOFHIA SWETCHINE
(ou Sofia Petrovna Soymonova) – Moscou, 1782-1857)].

Os predicados de quem pratica a oralidade, no discurso pronunciado ou grafado, conferem ao bom leitor a habilidade de saber, de antemão, o perfil do escritor – ruim, sofrível, bom, excepcional. Até a credibilidade, por parte do decodificador, sobeja, de algum modo, dependente dessa feição de quem comunica, ao falar ou redigir.

Já experimentei o lance de exprimir a ideia de que, agradáveis aos ouvidos, deleitosos para os olhos e benignos ao coração, os escritos e falas expressos ao compasso da boa elocução estimulam a audiência, manobrando o ouvinte e o leitor a prosperarem na atenção até o remate do discurso, deste recolhendo o sumo precioso de uma ideação bem refletida.

No mesmo passo, se contiverem impropriedades elocutórias, vícios de linguagem, repetições desnecessárias, frases feitas e anacrônicas, manias, chavões, redundâncias, modismos e tolices – sem se fazer remissão a deslizes gramaticais e a entendimentos flagrantemente equívocos – o público ledor, de qualidade, vai largar tais escritos e seus produtores, rejeitando-os para sempre.

Crônicas de ViagemPasseio pelo Mundo, do facultativo e literato cearense José Fábio Bastos Santana, veste, qual uma luva, a primeira das duas circunstâncias ora explícitas, em razão da expressividade verdadeira de seu autor, que dirige a matéria com um português direto, escorreito e simples, com vistas a  se achegar aos leitores de regular a excelente nível de entendimento.

Em sua narrativa, entretanto, ele procura não descender a qualquer degrau da vulgaridade discursiva, tampouco, em passagem nenhuma, subir aos páramos do pensamento dito, erroneamente, douto e enciclopédico, o qual somente se presta a impedir uma descodificação perfeita da mensagem, travando e chegando até a cifrar a intenção de quem escreve e tenciona ver compreendidas suas reflexões por parte de quem as aprecia.

A exposição literária de suas viagens mundo afora traz manifesta a capacidade de um literato “artista” da Medicina e médico “cientista” da Literatura, pois demanda ambas as coisas com alçado saber e habilidade.

Aqui, então, fora do consultório e de seus desdobres profissionais, faz entrevistas com clássicos portugueses em Lisboa, afina violinos de musicistas eruditos da Europa e conta estórias claras dos lugares por ele percorridos, sempre aportando achegas históricas, geográficas, científicas e de outras ordens, fato denotativo de sua qualificada escolaridade por todos os sítios do conhecimento, o que representa uma glória para a Arte Literária cearense.

Além das aulas de enologia e gastronomia, Fábio Santana ajunta aos cabedais dos leitores desta obra uma literatura de alevantado poder de conquista, pois – insisto – vazada em estilo saboroso, singelo e sem tom de vulgaridade, conquanto em elocução elevada, porém, deseixada dos intentos de erudição, contra-dotes próprios dos pseudossábios, dos quais a Literatura está repleta.

Caros leitores: peguem carona com ele neste comodíssimo veículo literário!

Diferenças

ANA PAULA DE MEDEIROS RIBEIRO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 12

Ser professor universitário é sempre uma oportunidade de observar os anseios e pensamentos da juventude sobre as coisas do mundo.

Ontem, foi o primeiro dia de aula do semestre – um momento de expor aos estudantes a dinâmica da disciplina, a regras institucionais e de convivência. Ao final disso tudo, houve a rodada de apresentações em que os estudantes puderam se apresentar e dizer algo de si.

Nesta pequena incursão ao universo discente, no primeiro dia de aula, podem ser identificados aqueles mais extrovertidos e engraçados, os mais tímidos e reservados, aqueles que já trabalham e aqueles que ainda não possuem experiências profissionais. Estes, no entanto, ainda são maioria. Muitos declararam que ainda não trabalham.

No contexto atual, ter a possibilidade de dedicar-se exclusivamente aos estudos e ainda estar em uma Universidade pública é um grande privilégio. Isso provocou em mim várias reflexões porque relembrei uma conversa que tive com Nino, meu sogro, um homem de 80 anos, ali, ao lado de sua oficina, espaço que o possibilita ainda ser muito produtivo.

Em meio a uma conversa bastante agradável, ele me disse:

– Se eu tivesse tido a oportunidade que meus filhos tiveram de estudar e de se formar, eu teria sido um profissional melhor, de mais saberes e conhecimentos. Eu sempre tive muita vontade de progredir nos meus estudos e, um dia, eu tomei coragem e me aproximei de meu pai fazendo o pedido para que ele me permitisse estudar. Embora eu gostasse muito do ambiente das oficinas e de tudo o que eu fazia por lá, era meu desejo saber mais, ler mais para poder entender mais e trabalhar melhor. Mas, após meu pleito, meu pai deu um longo suspiro e, olhando-me de modo melancólico, disse: “Eu poderia lhe dar a oportunidade para continuar seus estudos, mas eu, necessariamente, teria que dar também para todos os outros filhos”. E, espalmando ambas as mãos, nomeou um filho em cada dedo.

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