FÁBULAS – Manchetes Históricas e Versão Tupiniquim

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37 (patrono: Estêvão Cruz)

Os escritores superficiais, como as toupeiras,
julgam frequentemente ser profundos, quando estão,
no entanto, demasiadamente perto da superfície.
(WILLIAM SHENSTONE, poeta e paisagista inglês.
Helesowen – UK, 18.11.1714 – 11.02.1763)

As fábulas revestem uma ordem textual literária, narração alegórica, em língua prosa ou em versos, cujos protagonistas são animais transfigurados em pessoas (in anima nobili), com falas, costumes e outros haveres humanos. Em geral, são produzidas para crianças e dotadas, no seu término, de fundo moral e teor instrutivo.

O vocábulo tem étimo latino e regista narrativa muito extensa e rica, radicada no sânscrito – grupo de línguas e dialetos indo-áricos antigos do norte da Índia, sendo o védico e o sânscrito de conteúdo clássico os mais conhecidos, de onde procedem  as fábulas indianas, popularizadas pela tradução árabe do século VIII, e que a tradição atribui a autores lendários, como Pilpay e Lochman (HOUAISS; VILLAR SALLES. Dicionário… São Paulo: Objetiva, 2005).

Essas produções remontam, por intermédio de uma versão pélvi (língua iraniana derivada do antigo persa), a um original sanscrítico – o Pantchatantra (os cinco livros), obra de Vixenu Sharma (indiano nascido na Caxemira), uma das mais antigas coleções de fábulas do Mundo.

Como se pode verificar na imensa quantidade de vertentes librárias sob domínio público, de libérrima e gratuita compulsação – hoje, também, em suportes eletrônicos – o gênero fabular tem curso na maioria das literaturas mundiais e, em grande parte, abrange repetições, modificadas, aumentadas, transpostas de lugar, com base na possível produção de Esopo, fabulista grego (séc. VII e VI a.C.), de existência sublendária, na expressão dessa vertente, “[…] gago, feio e corcunda, porém, com o espírito engenhoso e sutil”. (LELLO & LELLO. Lello Universal – Dicionário…Porto: 1983, p. 886).

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A mulher missiva

CLÁUDER ARCANJO, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa.

O dia não raiava, nem o tempo sarava do choro da noite. Sim, a madrugada como se derramara em lágrimas naquela chuva fina e renitente. Eu, as horas em claro, acompanhando a goteira; os pingos caindo dentro do balde posto no meio do quarto. Maldito gotejado!

Confesso que a insônia não vinha só do gotejar. Não, este apenas tornava mais viva a ferida da decepção. Aberta quando rasguei o envelope amarelo, tipo comercial, e me pusera a correr os olhos pelas letras cursivas, dispostas no papel branco e pautado. Recado direto e claro. Faca afiada no peito da esperança.

— Maldita missiva!

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