Derrama de pérolas

GORETE OLIVEIRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 1.

Chorei as lágrimas que eu tinha
Mas não chorei todas ainda
Guardei uma nascente no veio da cacimba
Para o rio que mais tarde vinha.

Deixei correr o rio que vinha
Mas não dei vazão plena à corrente
Retive em mão translúcidos cristais de sal
Das pérolas que dos olhos caíam.

Colhi dos olhos as pérolas que caíam
Senti o aço cortando a frio sangue
O cetim da pele das pétalas da face

Onde corriam as lágrimas que espalhei
No limo branco das pedras que transformei
Em pérolas que aos porcos atirei.

Fortaleza, 15 de maio de 2019.

Apreciação Literocientífica: Idoso e qualidade de vida (Estudos em Profundidade)

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37, tendo como patrono Estêvão Cruz.

Tinha Moisés cento e vinte anos quando morreu;
jamais, porém, a vista se lhe diminuiu tampouco os
dentes se abalaram.
(BÍBLIA, Deuteronômio, 34-7).

Assistimos, com incomum sentimento de felicidade, à evolução de estudos, em quantidade e profundez científica, tendo por escopo a demanda pela saúde em todas as compreensões.

Seus temas envolvem pesquisa básica, gêneros e os próprios momentos etários, sexualidade, menarca, menstruação, gravidez, puerpério e parto, modalidades de atenção e acessibilidade, tecnologias de assistência, cirurgias, emprego holístico no acolhimento e no cuidado, bem como toda a vasta conjunção de fatores que maximizam as condições de higidez humana.

Por tais pretextos e como resultado da diligência de organismos internacionais, esforço comum dos Estados bem constituídos, e, em particular, réplica ao empenho das pessoas responsáveis pelo bem-estar geral, em ultrapasse à simples inexistência de doenças – como intenta a Organização Mundial e Saúde – eis que os números de óbitos definham nas estatísticas, ao mesmo passo em que se proporciona a probabilidade de vida ao nascer.

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Três plurais a serem explicados: alto-falantes, mapas-múndi e Ave-Marias

Prof. Raimundo Evaristo, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 40.

Há substantivos compostos que, desde muito tempo, têm despertado a atenção de estudiosos, em virtude de certas peculiaridades ausentes da maior parte dos demais, notadamente no âmbito da flexão de número. Isso é o que evidencia no caso de substantivos como alto-falante, mapa-múndi e ave-maria.

Conforme o Novíssimo CALDAS AULETE, Dicionário contemporâneo da Língua Portuguesa, edição de 2014, e o Dicionário de Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo, 14ª edição, os aludidos substantivos têm, respectivamente, no plural, as formas alto-falantes, mapas-mundi e ave-marias. As gramáticas tradicionais também os registram dessa maneira.

Diante disso, norteado por uma visão sincrônica, o estudante mais interessado em inteirar-se acerca dos motivos de tais flexões vai deparar-se de uma série de duvidas, que, dada a sua complexidade, requer dele um estudo mais aprofundado.

A primeira delas diz respeito à não flexão do suposto adjetivo alto; a segunda vincula-se à ausência de flexão do nome “mundi” e à grafia deste com um “i”, final; a terceira refere-se à falta de flexão do nome “ave”.

Pelo que se observa, esses aspectos de cunho linguístico ventilados suscitarão explicações calcadas na história da língua.

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2019 – Ano 148 da produção queirosiana (Um Pobre Homem da Póvoa do Varzim)

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37, tendo como patrono Estêvão Cruz.

Em nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete
linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas,
os homens praticam todas as ações – mesmo as boas.
(José Maria EÇA DE QUEIRÓS).

1 A JEITO DE EXPLICAÇÃO

Celebram-se, no decurso de 2019, 148 anos do início produtivo literário de José Maria Eça de Queirós, talvez o mais célebre literato português, filho de brasileiro, iniciado com a realização (1871) das célebres Conferências do Cassino Lisbonense.

EQ é um dos mais fecundos literatos de Língua Portuguesa e celebrado escritor na contextura internacional, nascido em Póvoa do Varzim, norte de Portugal, em 25 de novembro de 1845, e que foi habitar a dimensão edênica no dia 16 de agosto de 1900, em Paris.

Importa informar o leitor do fato de que este escrito foi objeto de intensivas modificações relativamente à versão providenciada em 1980, quando se era, em concomitância, docente e estudante. Tal aconteceu porque estavam esgotadas duas obras que lhe serviram de suporte: a Revista de Letras, contendo o segmento O Jornalista do Distrito de Évora, Fortaleza: UFC, v.34, n. 21, pp. 184-198; e o capítulo de igual título, no livro Impressões – Estudos de Literatura e Comunicação. Fortaleza, Edições Agora, 1989. Então, com vistas a conceder informações adicionais ao assunto, providenciou-se esta versão, publicada em Nuntia Morata (MESQUITA, 2014) e, agora (fevereiro de 2019), com modificações insertas por motivos temporais.

A pesquisa foi composta, originariamente, no mencionado ano, com vistas a concorrer ao prêmio literário Elos-Eça de Literatura para universitários – do qual obteve o primeiro lugar – promoção do Elos Clube de Fortaleza, da Empresa M. Dias Branco S.A., organização nacional de grande porte, de controller com sede em Fortaleza, em conjunto com a Embaixada de Portugal acreditada no Brasil, ao tempo do embaixador Sr. Dr. José Eduardo de Menezes Rosa.

Com efeito, o escrito, ora bastante alterado, afasta-se evidentemente da pretensão de aportar grandes novidades à historiografia relativa à produção de Eça de Queirós, máxime ao se considerar o que logo à frente exprime o escritor maranguapense Joaquim Braga Montenegro. Restou incluso aqui na intenção, adrede, de conduzir o escolar, notadamente o secundarista, a tomar contato com os produtos editoriais deste imenso escritor lusitano.

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Colo de mãe

ANIZEUTON LEITE, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

O colo de mãe é lugar sagrado que acolhe, aconchega, embala e acalenta. Lugar seguro que o filho procura nos momentos de dor, medo ou dúvida. Conforto que traduz sem palavras a linguagem inequívoca do amor, da atenção e do benquerer. Quem nunca sentiu o aconchego e a proteção do colo materno é um órfão ainda que tenha mãe.

O choro cessa, a tristeza dissipa, o medo desaparece e a paz se faz presente com a presença maternal. Fortaleza que ampara, consola, aconselha, reza e sofre junto. Mãe e amiga que conhece a linguagem do olhar, pois possui a sensibilidade dos poetas. Sensibilidade para compreender as palavras que não são ditas, o pedido de ajuda que não é verbalizado.

A figura materna transmite amor, sabedoria, paciência e misericórdia. Mãe é doação. Doação que faz esquecer suas dores e tomar para si o sofrimento do outro. Ser mãe é ter sempre uma atitude altruísta; é enxergar seus filhos sempre como criança.

A escultura Pietá, de Michelangelo, retrata, de maneira belíssima, o cuidado e o colo da mãe. Mãe que pega seu filho no colo, que limpa as feridas e que o acalenta em seus braços pela última vez. Braços que tantas vezes pegaram sua cria, conduziram, abraçaram e aconchegaram em seu peito. Mãe que sofre, mas que não se desespera. Mãe que permanece junto até o fim.

O colo de mãe pode ser entendido também como a metáfora do zelo, do cuidado e do amor oferecidos por esse ser, humano e divino, que sabe amar sem pedir nada em troca. Mãe é sinônimo de sabedoria, paciência e carinho. Mãe é um ser que dicionário ou poeta algum é capaz de descrever. Ser mãe é ser, antes de tudo, indefinível.

Encontro entre iguais

CLÁUDER ARCANJO, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

Desde o último infortúnio, lá se vão alguns meses, Companheiro Acácio andava sumido. Na certa, desconfio, metido em meditações mil. Sim, caro leitor, Acácio sempre foi tido como um sujeito afeito às filosofices e às análises mais aprofundidativas. Desculpe-me pelo neologismo, mas o Companheiro não é fácil de caber num dicionário comum. Pois bem. Continuemos.

Não é que ontem, ao dobrar uma das esquinas do Centro, bendita surpresa para uma insossa manhã, deparei-me com tal figura!?

— Acácio!…

Apesar da minha saudação com fumos de escândalo, ou penso que justamente por isso, ele não cessou os passos. Ao contrário, baixou um pouco a face e apertou os vários livros que levava ao peito, como a querer sumir na esquina seguinte. Eu, cabreiro, acelerei as passadas e pus minha mão sobre o seu ombro.

— Acácio!?… Por onde andavas? — interroguei-o, festivo.

— …

Reticenciou-me em seu silêncio de profundezas, ao tempo em que ajeitava um Nietzsche que quase ia ao chão.

Em seguida, Acácio enxugou a testa larga com sua impaciência assanhada, a fitar-me como se diante de um anticristo.

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