Dois poemas de Regina Barros Leal

Dor  

Esta dor que não se aparta! É a amarga solidão
Chega sempre ao anoitecer, repleta de emoção
Soluços na cama vazia, de sua plena brandura
Ausência do peito amante, carência de ternura

Mergulhada no mar de saudades e grande aflição
Procuro ouvir seu riso, nos ventos fortes de verão
Banho-me na cachoeira, das lágrimas já nascidas
Na esperança de gravar, as lembranças surgidas

Busco na nostálgica saudade, os abraços cativantes
Sussurrando, teço palavras, com fios brilhantes
Sinto no corpo um vácuo de afeição e amor
Ah! Nem sei mais fazer poemas, na copiosa dor.

Imortalidade

A alma se revela, em sua imortalidade
Filósofos distintos, ideias em unicidade
Dúvidas permanentes, místicas questões
Expressam harmonia, em sábias concepções

A razão lógica, hesita ao mistério mítico
Renuncia a alma, o Deus não definido
Recusa o Ser divino, e o espaço infinito
Renega aí, o imponderável mundo indizível

No mundo do tempo, do espaço e da forma
A razão cresce, na certeza da correta norma
O homem sofre, em duvidas inexauríveis
Aflição, prantos, vozes e silêncios intangíveis

Na transcendência do ser, surgem lembranças
Voeja a alma, liberta e ascendente em suas nuances
No trajeto mítico, abrolham reminiscências
Buscando o retorno, ao mundo das essências

Complexo e sutil é o mistério da vida
Quem somos para decifrar o enigma divino

Malinações em pleno expediente

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

A ociosidade é a mãe de todos os vícios.
(Dito lusitano).

A ociosidade é a mãe de todos os vices.
(Paródia do Mons. Francisco SADOC DE ARAÚJO.
Sobral, 17.12.1931).

De certa feita, abri a porta da Vice-Reitoria da Universidade Federal do Ceará, com o fito de cumprimentar, no modo ordinário de fazer, o então vice-reitor e meu amigo, Professor Doutor Ícaro de Sousa Moreira, hoje na Casa do Pai. Eis que, por mim inesperado, esse atilado arturo-scottiano dirigia uma “távola retangular” com umas quinze ou mais autoridades acadêmicas. Só depois, soube que o reitor, Professor Renê Teixeira Barreira, estava de viagem. Escabreado, ia fechando, quando ele disse:

– Entre, professor. Quer alguma coisa?

– Não. Apenas cumprimentá-lo. E a todos.

Então, para não passar batido, fiz esse comentário: – Magnífico: você está desdizendo a paródia cunhada pelo Monsenhor Sadoc!

– Qual é a paródia?

A ociosidade é a mãe de todos os vices. Risada geral.

Comentada para abrir estas lérias a dita paródia, remeto-me à crônica Folha de Dezembro, saída no medium da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, a fim de recordar o ócio praticado em expediente duro, porém gostoso e saudável, como escriba do Reitor Hélio Leite, coadjutor dos diretores de centros e faculdades, assistente dos pró-reitores, ajudante de docentes e funcionários e, como os portugueses exprimem, acólito “de toda a gente”.

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Livro revela página obscura da história: o dia em que Camões foi censurado no Brasil

ITALO GURGEL – membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 17

(Trabalho apresentado na “Hora do Vernáculo”, sessão de 28/05/2019)

O livro a que o título se reporta me foi presenteado por uma cunhada, a professora Neuma Cavalcante, aposentada do Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará, pesquisadora do manuscrito literário e ex-curadora do acervo de Guimarães Rosa, na USP. A preciosidade, ela recebeu do bibliófilo José Mindlin, industrial paulista, fundador da Metal Leve, fabricante de autopeças, e patrono do ex-libris que aparece na capa.

Ao longo de décadas, Mindlin, que faleceu em 2010, reuniu uma extraordinária biblioteca brasiliana que, em 2006, doou à Universidade de São Paulo. O conjunto é constituído por obras de literatura, história, relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários, documentos, periódicos, mapas, livros científicos e didáticos, iconografia e livros de artistas.

Num rápido adendo, vamos espiar o que Aurélio revela sobre o termo “ex-libris”: “Fórmula que se inscreve nos livros, acompanhada do nome, das iniciais ou de outro sinal pessoal, para marcar possessão. Pequena estampa, geralmente alegórica, que contém ou não divisa, e vem sempre acompanhada do próprio termo ex-libris e do nome do possuidor, a qual se cola na contracapa ou em folha preliminar do livro.”

A inscrição “ex-libris” pode aparecer carimbada, ou numa vinheta colada. No caso do Dr. Mindlin, seu lema, “Je ne fay rien sans gayeté” (“Não faço nada sem alegria”), foi extraído de um ensaio de Montaigne sobre os livros e explicita sua afinidade com aquela grande figura do humanismo francês. Só uma curiosidade: no dístico que temos aqui, o verbo faire (fazer) preservou sua grafia arcaica (fay).

Voltando à obra que trago aqui, eu diria que chama a atenção, de pronto, o esmero com que foi produzida. A caixa de cartolina que envolve dois pequenos volumes encadernados traz apenas a vinheta com o lema, seguida da informação: “Ex-libris José Mindlin”.

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Caminhos de uma vida fértil

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Artigo Inaugural da obra Notações de um Percurso Pessoal e Acadêmico – VM

A Ciência é o cemitério das ideias mortas.
(MIGUEL DE UNAMUNO)

Prof. Raimundo Mariano.

Antes de adentrar, com elevada satisfação, os escólios a respeito do autor deste livro, o cientista piauiense, militante das Ciências da Terra – Geologia e seus ramos disciplinares, internacionalmente conhecido e apreciado, intento preparar os solos, com seus horizontes texturais, a fim de melhor assentar meus motivos condutores das notas, procedendo a informações propedêuticas sobre minha inserção na mesma Casa de Saber onde opera o autor da obra sob comento, publicado pela Expressão Gráfica – o pesquisador Prof. Dr. Raimundo Mariano Gomes Castelo Branco.

Na qualidade de cearense, sob o prisma do conhecimento e da cultura – embora infinitamente abaixo do estatuto acadêmico do produtor desta obra –  minha referência fundamental assenta na Universidade Federal do Ceará, conjunto acadêmico modelar fundado pelo extraordinário Prof. Antônio Martins Filho, no recuado ano de 1954, ao congregar algumas faculdades e escolas isoladas de Fortaleza, concedendo-lhes caráter universitário.

Universidade – não demora reiterar – conforma uma instituição de ensino e procura da informação ordenada, constituída por um conjunto dos mencionados institutos, destinados a promover a formação profissional e científica em nível superior, bem como efetivar demanda teórica e prática na maioria das vertentes da recepção do saber humanístico, artístico e tecnológico, bem como proceder à divulgação de seus resultados a  uma vasta comunidade receptora.

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Valdemir Mourão autografa duas de suas obras, dia 19, no Shopping Benfica

A Associação Cearense de Escritores e o Shopping Benfica convidam para o lançamento de duas obras do Prof. Valdemir Mourão – “Reflexão e produção de textos” e “Valor simbólico das cores de Vidas Secas de Graciliano Ramos”. Será na Galeria BenficArte, no primeiro andar daquele centro de compras. O endereço é Av. Carapinima, 2200, bairro Benfica, em Fortaleza.

Valdemir Mourão é membro da Academia Cearense da Língua Portuguesa, onde ocupa a Cadeira n° 19, patroneada por José de Sá Nunes. Presidiu a ACLP no biênio 2016/2018 e, na atual Diretoria, é o Vice-Presidente.

Caminhos

GISELDA DE MEDEIROS, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 16

Não sei por onde ir…
Sou trêmula rosa
pendente da haste
ou pássaro implume
esquecido da trajetória.

Os caminhos abrem-se em labirintos,
e não tenho o mapa do destino
nem o fio de Ariadne.

Há muito estou aqui
no meio deste tempo sem história.
Cansa-me procurar a saída
nestes vales úmidos de espanto.

A fuga açula-me a solidão,
esta companheira
sempre à minha espreita
com quem divido meus medos,
minhas angústias inexoráveis.

Vou e retorno sobre meus próprios passos,
tímidos e lassos,
sobre a minha própria busca…

Sei que seguir é imperativo,
ficar é presente,
retornar é passado.

… E o futuro? Deverei buscá-lo?
Será ele um tempo? Ou um vento?
Mas, preciso seguir, mesmo sabendo
que, ao fim de tudo, acabarei pendente,
pétalas caídas, sob a frágil haste
que me sustentou a efêmera vida,
que era apenas tu.