Estudante em nosso espelho!

Profª RITACY AZEVEDO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 23

Quem é você, estudante?
Para si,
Para mim,
Para o outro?
Para o seu lugar?
Para o mundo?
Para si?!!

Que tamanho tem você no espelho, estudante?
Em quantos graus ele o amplia?
O que faz nele? Para quê? Para quem?
E por quê! E como faz? E por quê?

Quem é você no nosso espelho da vida?
Em que posição se vê?

Eu o vejo refletido, estudante!
Eu já o vi tanto em dúvida!
Eu já o vi levado no vento!
Eu já o vi rolando na onda!
Eu já o vi cansado e sem rumo!

Mas já vi outro em você!
Você crescido no espelho!

Finque o pé, estudante!
Pegue prumo!
Finque o pé!
Deixe passar o vento,
Com seus tantos outros seres, cenas e visões!

Finque o pé!
Fique um pouco!
Defina-se para tentar acertos!
E saia tirando firme o pé da areia frouxa que tentar retê-lo!
Segure o corpo bamba que tenta seguir a leva!

Finque o pé, estudante!
Você não mudará tudo!
Não mudará o vento, não mudará as ondas!
Não mudará a todos!
Mas poderá mudar a si!
Poderá mudar a mim e a tantos outros seres como tu!

Você mudará uma fatia do mundo!
Lute contra o vento!
Finque o pé!

Ritacy  Azevedo, 11/08/2020

Uirapuru

Prof. ASSIS HOLANDA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 22

Toda a mata silencia quando ele canta. É um canto melodioso, fino, que encanta até humanos. Habita aquela região da floresta desde priscas eras, portanto, propriedade sua, com papel passado em cartório. Mas a mão predadora do homem, de quando em vez, aprisiona-o, e negocia a venda com estrangeiro. A viagem é sem volta. Ao chegar a algum país europeu, o uirapuru emudece. Permanece macambúzio, feito um casmurro.

Certa vez, o predador consegue vender um casal a um italiano que se encantou ao ouvir o cantar mavioso deste pássaro brasileiro. O casal de estrangeiro embarca em avião da Alitália, levando o inocente prisioneiro.

Na nova morada, no centro de Roma, o casal italiano expõe dourada gaiola no jardim da casa. O casal de uirapuru saltita por toda a gaiola, em busca de fuga. Quem vivia em um universo de céu aberto, imagina-se o que se passa na alma deste casal de uirapuru.

O casal europeu noticia aos amigos a chegada do importante casal. Anuncia aos quatro cantos da vizinhança que lhe faz companhia um casal da família dos Tyranidae ou certhiidae, o uirapuru.

Após uma semana em terra estranha, o casal de pássaro emudece. Não dá um pio. Nem de longe é aquele pássaro de canto demorado, afinado que emudece toda a floresta amazônica.

Diante desse quadro de tristeza, de depressão, sim, animais também têm depressão, o casal toma uma solução de devolver os pássaros a seu habitat. O casal italiano fez o mesmo percurso de volta ao Brasil, trazendo a tiracolo o casal de passarinho.

Já na floresta, os dois estrangeiros abrem a porta da prisão e o casal de uirapuru dá um voo tão alto e pousa no olho de uma frondosa árvore e felizes pela liberdade agradecem aos italianos com um fino e longo canto.

Na vida, às vezes, não sabemos dar valor à liberdade que gozamos e ao lugar onde nascemos.

Fortaleza, 12/07/2020

Do aumentativo e do diminutivo

Prof. MYRSON LIMA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 14

Aumentativo – Diz-se do grau que acrescenta ao substantivo o caráter de aumento de dimensões. Indica geralmente tamanho, mas pode apontar também disformidade, brutalidade, falta de medida, desprezo, afeto. Emprega-se geralmente o sufixo – ão para o masculino e o sufixo – ona para o feminino: garotão, garotona; xerifão, xerifona. Outros exemplos: cavalão, gavetona, janelona, livrão.

Às vezes, o sufixo -ão é anexado a palavras femininas: cabeça-cabeção; caldeira-caldeirão; casa-casarão; loja-lojão; mulher-mulherão; porta-portão.

Alguns aumentativos, bem como os diminutivos, tendem a separar-se da palavra primitiva a tal ponto que o falante já não recorda sua procedência. Exemplos: barranco (de barro), montanha (de monte), peanha (de pé).

Alguns aumentativos apresentam forma especial sem o – ão, nem o – ona:

cabeçorra; bocarra; brancarrão; mulheraça; vozeirão.

Diminutivo – O substantivo, quanto ao grau, se flexiona em aumentativo e diminutivo. Existem    vários sufixos  para formar    o diminutivo. O mais frequente é o sufixo – inho  ( livrinho, portinha, Mateusinho) e  sua variante – zinho, usado com os vocábulos terminados em consoante (lugarzinho), nasal (nuvenzinha) ou vogal tônica (cafezinho).

Note-se quando o substantivo termina pela letra m, (como ocorreu em nuvem do exemplo acima), substitui-se essa letra pelo n.

Outros exemplos de diminutivos: coisinha, lapisinho, gatinho, bonequinho; cãozinho, pazinha, irmãozinho, fezinha, relampogozinho.

O diminutivo às vezes denota também carinho ou desprezo (paizinho, jornaleco). Há diminutivos que se desgarraram do étimo latino e se constituem novos substantivos com um significado especializado. Exemplos: glóbulo (de globo); ventrículo (de ventre); película (de pele); furúnculo (de furo); úvula (de uva); módulo (de modo); clavícula (de clave); porciúncula (de porção).

(Do livro “Português e algo mais para o dia a dia” a ser publicado depois da pandemia)

Nosso dolo, nossas culpas

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Somente o influxo da arte comunica
durabilidade à escrita. Apenas ele marmoriza
o papel e faz da pena escopro. (Rui Barbosa).

Parece-nos fenecer alegação lógica àqueles que inadmitem o emprego facultativo do plural em certos substantivos, quando expressos de par com as unidades vocabulares nosso, vosso e outros possessivos, em suas naturais e corretas variações desinenciais.

Em sua maioria, os nomes são passíveis de comportar modificações flexionais, maiormente em relação a número – flexão nominal ou verbal indicativa da existência de um ou mais.

Sucede, entretanto – e não raro – que a aplicação indiscriminada, na dependência da conformação fraseológica, do plural ou do singular, pode desfear o torneio e, dessarte, comprometer o escrito, no particular, em se cuidando de tecedura literária.

A Língua Portuguesa conserva em guarda extremos recursos, tanto no que concerne a sua impressionante polissemia, como no pertinente às incontáveis maneiras de estruturar a mensagem. É uma como expressão musical, cuja combinação das notas, dissonantes e outros aprestes da codificação desta Arte reverterá na gradação do belo, variando até o feio e, por vezes, descambando para o medonho.

Há tantos recursos, que existem tantos homens e igual quantidade de modos característicos de se escrever, rememorando a célebre asserção leclercana, quando o Conde de Buffon, Georges Louis de Leclerc, lobriga o estilo de acordo com a personalidade do estilista (Le style est l’homme lui-même).

Salvante escorrego de memória, foi durante o Concílio Vaticano II (11.10;1962-08.12.1965, sob o Papa João XXIII), que se achou por bem, exempli gratia, permutar do padre Nosso dos católicos – traduzido, no plural, do Livro Santo – a dicção “nossas dívidas” (perdoai as nossa dívidas assim como perdoamos nossos devedores) pela unidade de ideia “nossas ofensas” (… assim como nós perdoamos os que nos têm ofendido), com o pronome possessivo e o substantivo pluralizados. Bem que podiam ser, também, cunhadas as expressões, no primeiro número gramatical, “a nossa dívida”, “a dívida de todos”, isto é, o débito global, o passivo da Humanidade, com relação à falta geral (o pecado), ou – no segundo número – às faltas gerais (os pecados).

Entrementes, com o substantivo dolo (ô), na primeira e mais relevante acepção em Língua Portuguesa, quiçá resulte desaconselhável grafar dolos ou nossos dolos, exatamente pelo sensabor elocutório, conquanto gramaticalmente corretas ambas as locuções.

Para crime, que assume dolo e culpa, ex positis, entende-se indiferente aaplicação, no singular, como no plural, quando das generalizações, em nosso crime ou nossos crimes. “Nosso crime foi responsável pela Crucifixão”, isto é, a iniquidade humana levou Cristo à morte de cruz; ou em: “nossos crimes levaram Jesus Cristo à morte de cruz”, no plural, sem deslustrar e, tampouco, enriquecer a sentença.

Com a dicção culpa, nas variegadas intenções que conota (“violação ou inobservância de uma regra de conduta, que produz lesão do direito alheio”; ou “falta voluntária de diligência ou negligência, ato de imprudência ou imperícia, sem propósito de lesar, mas de que resultou a outrem dano ou ofensa de seus direitos […] pecado, delito, responsabilidade, causa de um mal etc – AURÉLIO), podem ser torneadas frases, em ambos os números, como na acepção do vocábulo “responsabilidade”, verbi gratia: “O Brasil constitui nação do Terceiro Mundo, Estado periférico, por culpa nossa” (responsabilidade nossa). A expressão é passível de ser conduzida, permutatis, permutandis, para o plural, inclusive a fim de adornar o estilo, quando menos para a fuga do trivial, como assim: “Nossas culpas nos responsabilizam pelo atual status do País”, ou, “Por culpas nossas, nosso País se encontra perto do caos”; “ de quem é a culpa?” “De quem são as culpas?” Sem nos arvorar de referência final no exame da matéria, modestamente entendemos que pluralizar ou permitir a permanência no singular, nos casos dos quais nos ocupamos, é, tão-só, um ponto de aprimoramento do estilo, porquanto, em um número como no outro, a língua do meu conterrâneo (Palmácia-CE) e patrono na ACLJ, José Rebouças Macambira perfaz-se devidamente respeitada.

É saudade

ANIZEUTON LEITE, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa em Jucás/CE

É saudade quando dormimos cheirando a roupa da pessoa amada, quando ligamos ou mandamos mensagem tarde da noite na esperança de ouvir a voz de alguém do outro lado da linha. É saudade quando guardamos os pertencem da pessoa que partiu provisória ou definitivamente. Também é saudade quando escrevemos um poema ou rabiscamos o nome da pessoa amada no caderno; quando enxugamos as lágrimas no banheiro ou beijamos calorosamente alguém quando este regressa de viagem.

É saudade quando ouvimos a voz ou sentimos o cheiro da pessoa amada com um simples fechar de olhos. É saudade quando sonhamos acordados e dormimos sonhando em estar ao lado de quem amamos. É saudade quando o coração acelera com a possibilidade da separação; quando a lágrima molha a face ao pronunciar o nome de alguém. É saudade quando o pensamento viaja enquanto o corpo está parado na estação; é saudade quando o  olho brilha e o sorriso desponta ao ver a pessoa ou o objeto do nosso desejo.

A saudade foi a maneira que Deus encontrou de parar o tempo e eternizar os momentos vividos e as pessoas que amamos. E há vários tipos de saudade. Há saudade da infância – das brincadeiras, do colo da avó, dos banhos de chuva ou dos primeiros anos da vida escolar. Momentos que gravamos na parte mais profunda da nossa memória. Há saudade da inundação de sentimentos da adolescência – do primeiro beijo, da rebeldia, dos sonhos idealizados e das escolhas que fizemos ou deixamos de fazer.  Há também a saudade dolorida; ferida cicatrizada que vez por outra arrebenta e sangra novamente. Saudade do filho ausente; da mãe que morreu tão repentinamente ou do irmão que se afastou e hoje não passe de um mero conhecido.

Saudade é bom e ruim. É bom quando se pode sentir o cheiro, ouvir a voz de quem se ama ainda que distante e desejar ardentemente o reencontro. É bom quando lembramos com carinho e nostalgia aquilo que vivemos. É bom quando ela é alma gêmea do amor. É ruim quando dói e se torna um espinho. Espinho que rompe a carne e se instaura na alma. Dor que não tem remédio ou cura.  Saudade: a ferida e o remédio do nosso cotidiano.

S.O.S Português de A a Z

Prof. SEBASTIÃO VALDEMIR MOURÃO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 19

almoços (ô) ou almoços (ó)– Este nome não aceita metafonia, ou seja, mudança de timbre no plural, portanto pronuncie com som fechado (ô) tanto no singular como no plural.

1) “Alguns preferem o Domingo, um dia mais fechado, mais familiar, pontuado de missas, pijamas, almoços solenes e avaliações.” (Juarez Leitão. Sábado estação de viver. p. 19, 2000).

2) (…) “outras festas e comemorações, eram festejadas com almoços e jantares sempre muito alegres…” (Regina Pamplona Fiuza, O Pão da Padaria Espiritual. p. 49, 2011).

Dicionário do Português da rua

belisco / abanar a cara

belisco – sm. – Diz-se de algo em pouca quantidade; o mesmo que beliscão; ato de comprimir a pele do outro com as pontas ou os nós dos dedos ou com as unhas, provocando dor intensa; 1ª pessoa do presente do indicativo do verbo beliscar; ato ou efeito de beliscar(-se); pessoa ou coisa muito pequena.

1. Quando pensei em comer do bolo, achei só um belisco.

2. Quando olhei para o berço, que vi aquela criaturinha tão pequena, disse: meu Deus, é um belisco de gente!

abanar a cara – Ameaçar alguém; agitar a mão à altura do rosto do outro como forma de ameaça.

1. Deu uma de valentão, abanando a cara do outro.        

2. Nunca abane a cara de um homem, se não tiver como se defender.