Contagem de Oração

Evaristo, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 4o

A Língua Portuguesa tem mostrado, em suas situações de uso, determinados casos diante dos quais o docente, nas suas análises e no exercício dessa prática em sala de aula, vai ter de acionar certos conhecimentos nem sempre familiares ao discente, sobretudo no Ensino Médio. Neste, como é sabido, o ensino gramatical tem passado por profundas e nítidas transformações, no mais das vezes, questionáveis, a mais conhecida das quais é a própria restrição do referido estudo, o que parece por demais contraditório.

Nesta despretensiosa exposição, vamos deter-nos sobre algo aparentemente simples: a contagem de orações de um período, assunto ainda presente em provas de concursos.

É conhecido dos estudantes, por meio de compêndios gramaticais, que uma oração é formada por um componente verbal explícito ou implícito ou por perífrase verbal nessa mesma condição. A título de esclarecimento, perífrase verbal (= locução verbal) é a união de dois ou mais verbos, o primeiro dos quais é denominado auxiliar.

Observe-se esta série de exemplos:

  1. A escola deve cumprir o papel dela.
  2. O time vai viajar à Europa.
  3. O time deve estar viajando neste período.
  4. O livro já deve ter sido lido pelos alunos.
  5. O livro deve ter podido ser lido pelos alunos.
  6. O documento pode estar sendo avaliado pelo tabelião.

Como se evidencia, uma locução verbal pode ser constituída por até quatro ou cinco verbos, e o primeiro deles costuma vir flexionado.

Outro caso que se nos apresenta é o que se expressa com a presença de elipse consubstanciada por um zeugma, ou seja, verbo retrocitado, como aparece nestes versos antológicos de Gonçalves Dias: “Nossos bosques têm mais vida, nossa vida mais amores”.

Entretanto, em que pese à simplicidade revelada pelos casos vistos no que tange à contagem de orações, há outros, alguns dos quais vão ser explanados, que suscitam maior observação do analista.

1º Com verbo parecer no singular seguido de infinitivo flexionado;

Exs:

  1. As barcas parece voarem. (infinitivo flexionado)
  2. As crianças parecia chorarem. (infinitivo flexionado)

Em ambas as construções, os verbos pospostos ao parecer, o qual está na 3ª pessoa do singular, estão no infinitivo flexionado, o que sinaliza a existência de duas orações, sendo a segunda subordinada substantiva subjetiva, razão pela qual o primeiro verbo fica no singular. Se o primeiro estivesse no plural e o segundo não flexionado, haveria só uma oração, e a dupla de verbos formaria uma perífrase verbal.

2º Com pronome reto ou substantivo como sujeito com verbo implícito;

Exs:

  1. Tu na trave, não passa bola para as redes.
  2. Os repórteres no gramado, o jogo não começa.

Em ambas as construções, é possível a inserção do gerúndio teórico do verbo estar, com cuja presença se forma uma reduzida de gerúndio de caráter adverbial: “Estando tu na trave” e “Estando os repórteres no gramado”. Na segunda construção, mediante a anteposição da preposição com, o sujeito “os repórteres” passa a ser um adjunto adverbial de causa como termo, a saber: “Com os repórteres no gramado, o jogo não começa”.

3º Com adjetivo ou substantivo no início do período e não deslocável para depois do verbo explícito;

Exs:

  1. Rica, a baronesa não ajudava os pobres.
  2. Príncipe, ele conversava com os humildes.

Como se observa, as duas construções aceitam a inserção do gerúndio teórico sendo, que pode vir antecipado de mesmo ou ainda, advérbios de valor concessivo.

Note-se que tais nomes não são deslocáveis para depois dos verbos explícitos, o que reforça a ideia de que não funcionam como simples predicativo do sujeito conforme defendem alguns estudiosos. Em outros termos, trata-se de dois nomes com valor de oração, diferentemente do que ocorre nestes exemplos: “Irritada, a atriz deixou o palco”; “A atriz deixou o palco, irritada”; “Preocupado, o gerente leu a carta”; e “O gerente leu a carta, preocupado.”.

4º Com conjunção subordinativa sem verbo explícito;

Exs:

  1. Quando preocupado, o artista mostrava muita irritação.
  2. Embora estudioso, o estudante tinha dificuldade nas provas.

Percebe-se, no que toca às frases anteriores, que os segmentos, nos quais há conectivos subordinativos, aceitam, respectivamente, as formas verbais “estava” e “fosse”, o que sinaliza a ocorrência de orações com a elipse do ser, verbo copulativo.

5º Com a locução COMO SE ou pronome QUEM com valor hipotético;

Exs:

  1. O menino se comportou como se fosse um adulto.
  2. Ele fala como quem tem autoridade.

Nas duas construções, é possível inserir ou repetir o verbo da principal no futuro do pretérito, a saber: se comportaria e falaria, no que se configura o caráter hipotético nessas orações implícitas.

Vale ressaltar a ocorrência de braquilogia, emprego de uma expressão mais curta equivalente a outra mais ampla ou de estrutura mais complexa: Procedeu como se fosse um rei, (em lugar de: Procedeu como procederia se fosse um rei.)

Nota: a locução adverbial uma vez também pode trazer um verbo implícito, formando uma oração.

Ex: Uma vez doente, não saí de casa. (=Uma vez estando doente)

Pelo evidenciado dessa breve análise, o reconhecimento das orações revela algumas nuances (as) muitas vezes ofuscadas pela “pílula dourada”, ou seja, o didatismo em excesso, deixando o discente sem o conhecimento de certas estruturas sintáticas que repercutem na semântica dos enunciados.

Atente para as orações destacadas nos períodos, levando em consideração as que estão implícitas entre outros aspectos:

  1. “Capitu confessou-me um dia que esta razão acendeu nela o desejo de o saber.” (M.A, Dom Casmurro, pág.82)
  2. Uma vez no seu discreto quartinho, bateu a porta com força.” (A.C, A normalista, pág.71)
  3. “Não me atrevi a dizer nada; ainda que ajudasse, faltava-lhe língua” (M.A, Dom Casmurro, pág.88)
  4. “João da Mata caminhava devagar, automático, como quem vai com uma ideia fixa.” (A.C, A normalista, pág.41)
  5. “Como estava com a vista curta, falou sem levantar a cabeça, repetindo os conselhos que me dava quando eu era menino.” (G.R, São Bernardo, pág.57)
  6. “O sol declinava rapidamente e a noite, descendo do céu, envolvia a terra nas sombras desmaiadas que acompanhavam o ocaso.” (J.A, Cinco minutos, pág.39)
  7. Quando moça, tinha seus vinte anos, abrira casa na rua da Lampadosa.” (A.C, O Bom Crioulo, pág.41)
  8. “(…) deixei-me ficar na mesma posição e cismei que estava sentado perto de uma mulher que me amava e que se apoiava sobre mim.” (J.A, Cinco minutos, pág.12

Bibliografia

  1. Aguiar, Martins. Repasse Crítico da Gramática Portuguesa. Fortaleza: Casa de José de Alencar, Programa Editorial, 2ª edição, 1996.
  2. Ali, Manuel Said. Gramática Secundária da Língua Portuguesa. 7ª ed. São Paulo: Melhoramentos/s/d
  3. Azeredo, José Carlos de. Fundamentos da Gramática do Português. 3ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
  4. Arnauld, Antoine et al. Gramática de Port-Royal; Tradução Bruno Fregni Basseto, Henrique Graciano Muracho – São Paulo: Martins Fontes, 1992.
  5. Elia, Sílvio. Língua e literatura. 4ª ed. São Paulo. Companhia Editora Nacional, 1974.
  6. Jota, Zélio dos Santos. Dicionário de linguística. 2ª ed. Rio de Janeiro. Presença, 1981.
  7. Kuri, Adriano da Gama. Novas lições de análise sintática, 9ª ed, São Paulo, 2001. Ática.
  8. Barreto, Mário. Novos estudos da língua portuguesa. 3ª ed. Rio de Janeiro. Presença, 1980;
  9. Barreto, Mário. Últimos estudos. 2ª ed. Rio de Janeiro. Presença, 1986;
  10. Bechara, Evanildo. Lições de Português pela análise sintática. 16ª ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2001.
  11. Cunha, Celso. Gramática da Língua Portuguesa, 3ª ed. Rio de Janeiro, FENAME, 1976.
  12. Luft, Celso Pedro. Moderna Gramática Brasileira. 15ª ed. São Paulo: Globo, 2002.
  13. Macambira, José Rebouças. A estrutura da oração reduzida. Fortaleza: Imprensa Universitária, 1971.
  14. Macambira, José Rebouças. A estrutura do vernáculo. Fortaleza: Secretaria de Cultura e Desporto, 1986.

S.O.S. PORTUGUÊS de A a Z

todos, todas / caçar, cassar

todo(s), toda(s) Todo tem como plural todos que engloba masculino, feminino e LGBTI+, por isso não se deve usar em cumprimentos vocativos numa plateia todos e todas, visto que além de não ter respaldo do uso padrão, ainda discrimina ao excluir os demais, inclusive LGBTI+.  Use apenas todos.

caçar, cassar

  • caçar é fazer caçada; procurar.
  • cassar é anular, revogar (direitos políticos, mandatos, licenças, etc.). São formas homônimas homófonas com mesma pronúncia, mas escrita e significados diferentes: “Os corpos se caçaram num ritual selvagem e só se acharam quando se perderam.” (Carlos Roberto Vazconcelos. Mundo dos Vivos. p. 75, 2008).

Flor do Carpo

MARCELO BRAGA, membro efetivo da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 18

           Aiocó estava em festa. As chuvas, nos últimos dias, trouxeram à cidade vida nova, além de muitos mosquitos que se viam aos arredores dos lampiões. Os moradores riam-se com o tempo. Havia quatro anos que a seca castigava, era só sofrimento, luto, desespero e desesperança.

           O pequeno povoado já não existia, mas Deus existe e manda chuva. Chuva que caiu sobre Aiocó durante três dias, deixando a população frenética de alegria. Alguns, em frente à igreja, agradeciam a Deus, ajoelhados; outros, com uma garrafa de cachaça entre as mãos postas, olhavam para o céu e choravam compulsivamente.

            As chuvas, segundo a população daquele pequeno povoado, vieram graças a Mané do Carpo, um curandeiro que fora assassinado pelo Capitão Antoniano Linhares  por ter lhe negado um pedido. Diz-se que a filha do Capitão estava muito doente, então  mandou chamar o curandeiro. Este recusou.

           No dia seguinte, a moça faleceu. Inconformado, foi até a casa de Mané do Carpo, amarrou-o em seu cavalo e desceu ladeira abaixo arrastando o pobre curandeiro, amaldiçoando-o e culpando-o pela morte de sua filha.

            Após cinco dias da morte do velho Mané, o Capitão sofreu um acidente, caiu de seu cavalo, bateu com a cabeça em uma pedra, tendo morte imediata. O povo do lugarejo atribuíra a sua morte como obra do curandeiro que viera para se vingar.

            Aiocó dividia-se nas opiniões tentando justificar o motivo de tanta chuva assim tão repentinamente. Para a maioria dos aiocoenses,  era também obra do curandeiro, que, penalizado e conhecedor do sofrimento de todo povo, lhe mandou chuva. Para os mais católicos, era obra divina e tentavam explicar como sendo o resultado de muitas promessas feitas no período de quatro anos e meio. Para os que se diziam estudados de fenômenos naturais, Liberato e Dagoberto, nenhuma das hipóteses era verdadeira. Segundo eles, nada mais era, senão um caso isolado.

            As chuvas continuaram, os rios e açudes ficaram cheios, e ninguém conseguiu explicar o fenômeno. Os aiocoenses cuidaram de suas terras, plantaram e colheram. A cidade desenvolvera-se especialmente com a chegada diária de turistas, atraídos por uma possível aparição.

            No quintal da casa de Mané do Carpo, apareceu uma flor diferente de todas existentes na região, que recebeu o nome  “Flor do Carpo.”

           Após as chuvas cessarem, no lugar em que a flor nascera, o curandeiro apareceu para Tinó, um amigo fiel, talvez o único. O boato espalhou-se. No início, a cidade desacreditara na história, mas novas aparições surgiram e outras pessoas afirmaram tê-lo visto naquele local. Foi motivo suficiente para atrair pessoas de várias partes e não só da região.

            A casa de Mané do Carpo, ou melhor, o quintal de sua casa nunca mais fora o mesmo. Em vida, era vazio, pouco frequentado , um ou outro ia visitá-lo na tentativa de conseguir alguma cura para seus males. Salvo o fiel amigo Tinó. Este, sim, embora fosse falar-lhe de suas desilusões, considerava-o amigo. Após a sua morte, fora o único a colocar flores em seu túmulo. Depois de morto, gente, que nunca vira ou ouvira falar, visita-o, pede-lhe forças, faz-lhe versos, estatuetas, pequenos panfletos com oração que nunca  fez e foto que não condiz com a sua fisionomia em vida.

            A cidade crescia cada vez mais, já não era só um pequeno povoado, o dinheiro multiplicava-se deixando o prefeito folgazão, e a prefeitura, que sempre se encontrara desapercebida de recursos, engordava que era uma beleza. No período de eleições, os candidatos pediam votos em nome da “Flor do Carpo”. Prometiam mundos e fundos, inclusive ampliar o pequeno quintal, por não mais comportar tanta gente que ia ali para tocar a flor e conseguir uma graça. Vencia o mais burlador e prosador. O fato é que o atual   prefeito cumpriu o dito e ampliou o quintal. Tudo isso, segundo ele, seria para o bem do povo e para a memória do curandeiro que tinha que se manter viva.

            Em um certo dia de casa cheia. Desculpe-me por isso. Em um certo dia de quintal cheio, Mané do Carpo, já não mais aguentando tanta deificação, resolveu aparecer justamente no momento em que todos o aclamavam. Uma confusão generalizou-se, alguns gritavam “Aleluia! Aleluia!”; outros se ajoelhavam; uns desmaiavam. E dentre em pouco, todos, ao perceberem o que realmente estava acontecendo, correram. Mané do Carpo, sobre a flor, observava tudo calado. E, após alguns minutos, a paz reinou novamente no quintal vazio.

            Aiocó voltou a ser o que era. O local da aparição tornou-se mal-assombrado, e turista nenhum nunca mais pôs os pés naquele lugar que, aos poucos, deixava de existir. Mas a “Flor do Carpo” resistia. Não crescia, não murchava, não morria. Resistia.

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (5) – A GRAFIA DUPLA OPCIONAL E SUAS CONTRADIÇÕES

FREI HERMÍNIO BEZERRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 27

Antes eu relembro que na base da dupla grafia está a questão: dar prioridade à eufonia ou à etimologia, junto com a incapacidade da Comissão de achar o meio termo, pois as duas têm importância. Reconhecendo que em algum ponto eu posso estar desinformado pois não sei tudo, no final de cada postagem vai o email para questões.

Na Base IV, 1, a que diz: Consoantes a serem conservadas, por serem pronunciadas: adepto, apto, compacto, convicto, erupção, ficção, micção, pacto… O Acordo não fala em exceção, nesta regra, mas o VOLP (2009) traz exceções.

Na mesma Base IV, 1, b sobre a eliminação das consoantes c, p,  exemplos: ação, acionar, adoção, aflição, ato, batizar, coleção, coletivo, direção, exato, objeção… As exceções ocorrem, em geral, por questão de eufonia, de homonímia ou uso consagrado. O Acordo não se refere exceções, mas o VOLP traz muitas: fração ou fracção (do latim fractio, fractionis), mas seu derivado, difração é forma única. O esperado é que haja uma certa uniformidade e uma lógica.

Na Base IV, 1, c que diz: “Conservam-se ou eliminam-se, facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta da língua, ou quando oscilam entre a prolação e o emudecimento”. Norma facultativa deixa para decisão pessoal. Ela atinge centenas e centenas de palavras. Veja alguns exemplos relativos às normas da Base IV.

A: abjecto/abjeto; adactilia/adatilia; afectar/afetar; alecteromancia/aletoromancia…

B: bactéria/batéria; bactromancia/batromancia. baptismal/batismal; bijecção/bijeção…C: carácter/caráter; ceptro/cetro; coactar/coatar; colecção/coleção; colecta/coleta…

D: dactiloteca/datiloteca; dejectável/dejetável; detectar/detetar; dialectável/dialetável…

E: efracção/efração; ejecção/ejeção; exacto/exato; expectativa/expetativa…

F: factível/fatível; factorial/fatorial; fleugma/fleuma; fracção/fração; fricção/frição…

G: galáctico/galático; genuflectir/genufletir; gimnásio/ginásio; gimnopode/ginopode…

H: héctico/hético; heteroinfecção/heteroinfeção; hipodáctilo/hipodátilo…

I:  icterícia/iterícia/ incoctível/incotível; inflectir/infletir; infractor/infrator…

J: jactar/jatar; jacto/jato; jactancioso/jatancioso; jactoplanador/jatoplandor…

L: láctea/látea; láctico/lático; leccionar/lecionar; liquefáctico/liquefático… 

M: manufacto/manufato; microdáctilo/microdátilo; monodáctilo/monodátilo…

N: neptuniano/netuniano; nictófilo/nitófilo; noctívago/notívago…

O: objecção/objeção; omnímodo/onímodo; omnisciente/onisciente; óptimo/ótimo…  

P: pactear/patear; perempção/perenção; prospecto/pospeto; punctura/puntura…

Q: quimiorreceptividade/quimiorrecetividade; quimiotactismo/quimiotatismo…

R: rarefacção/rarefação; receptível/recetível; rectidão/retidão; ruptura/rutura…

S: secção/seção; sectorial/setorial; septífero/setífero; súbdito/súdito…

T: táctica/tática; táctil/tátil; técnico-táctico/técnico-tático; trissectriz/trissetriz…

U: urectomia/uretomia; uretrorrectal/uretrorretal; usufructo/usufruto…

V: vectação/vetação; vector/vetor; vindicta/vindita; vivisecção/viviseção…

Z: zigodactilia/zigodatilia; zigotáctico/zigotático; zootáctico/zootático…

Esta sucinta lista (de A-Z) não mostra a complexidade nem a sua extensão. Só as letras (J-N-Q-U-Z), têm poucas palavras, as outras têm dezenas e/ou centenas de palavras que são atingidas por esta norma.

Email para observações: freiherkol@yahoo.com.br

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (4) – O ACENTO DUPLO OPCIONAL

FREI HERMÍNIO BEZERRA OLIVEIRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 27

Em português o acento indica a sílaba forte na pronúncia da palavra. Não há razão plausível para o duplo acento. O tipo de acento – grave, agudo ou circunflexo – não influi na norma. A única explicação para esta regra está na birra e no capricho das partes, em não ceder e ainda faltou imaginação, pois a questão poderia facilmente ter sido resolvida por sorteio ou no par ou impar. Uma geração – no Brasil ou em Portugal – ia lamentar até se habituar à norma.

Com qualquer acento, a ênfase na fala é na sílaba acentuada. É uma questão de convenção. O nosso ponto e vírgula (;) é o ponto de interrogação em grego. Para os espanhóis é estranho que o português não coloque o ponto de interrogação invertido, antes de frase interrogativa. O francês escreve Pelé, mas pronuncia Pelê. Em português convencionou-se que um “s” entre duas vogais têm som de “z”, em espanhol não têm uma só palavra com “ss”  e não se faz confusão quando um “s” está entre duas vogais.

A Base VIII, 1 a, OBS institui o acento duplo (agudo ou circunflexo) em muitas palavras oxítonas terminadas em “e” tônico/tónico, em geral provenientes do francês. Exemplos: balancê ou balancé. baumê ou baumé; bebê ou bebé; bidê ou bidé; bilboquê ou bilboqué; cachê ou caché; cachenê ou cachané; canapê ou canapé; comitê ou comité; crochê ou croché; fricassê ou fricassé; giroflê ou giroflé; glacê ou glacé; glissê ou glissé; guichê ou guiché; guilochê ou guiloché; macramê ou macramé; matinê ou matiné; negligê ou negligé; nenê ou nené; patê ou paté; pavê ou pavé; purê ou puré. O Acordo aprova duas grafias e duas pronúncias (aberta em Portugal e fechada no Brasil).

O Acordo não menciona exceções a esta regra, mas pelo que consta no VOLP (2009), (Brasil) e no VOLP (2009), (Portugal), as palavras: consomê, flambê, laquê e negligê – que se enquadrariam nesta regra – têm apenas acento circunflexo. Ainda: a palavra “negligé” não consta no VOLP do Brasil, mesmo se está numa música de Nelson Gonçalves. Ainda, frapê (bebida gelada), só consta no VOLP do Brasil.

Vale ainda registrar o caso de duas palavras advindas do francês, que pelo uso já poderiam estar neste grupo, mas que constam em ambos os VOLP como estrangeiras: habitué = frequentador assíduo, e démodé = fora de moda, ultrapassado.

Após os exemplos de palavras terminadas em “e”, o texto emenda: O mesmo se verifica em formas como: cocó e cocô; ró e rô (17ª letra do alfabeto grego). O livro, Ortografia em mudançaVocabulário (ILTEC), Edit. Caminho, Rio Tinto, Portugal, 2008, traz duplo acento em palavras japonesas como, caratê e caraté; saquê e saqué. Aparecem com acento duplo palavras de origem tupi como: sapê e sapé (capim); sofrê e sofré (ave); tembê e tembé (grupo indígena tupi). Aparece com acento duplo até a palavra  grega: νηνία = nênia e nénia (canto fúnebre da Frígia).

Acho que basta, para sinalizar a grande confusão armada pelo III Acordo Ortográfico, com relação ao duplo acento. Seria repetitivo e fatigante expor a Base IX, 2, a Obs, que permite: sêmen ou sémen; xênon ou xénon, fêmur ou fémur… Bem como a Base XI, 3, permitindo: afônico ou afónico; biônico ou biónico; daltônico ou daltónico… Neste caso são milhares de palavras. E ainda temos que lutar contra a (in)correção automática dos laptops que no Brasil só aceitam o (^) e em Portugal o (´).

Para comentários: freiherkol@yahoo.com.br