A ESTRUTURA DESMONTADA[1]

Giselda Medeiros – Cadeira nº16

Apresentar A Estrutura Desmontada, em sua segunda edição, é para mim tarefa honrosa, ao mesmo tempo que difícil. Ter sido meu nome escolhido pelo autor para esta incumbência envaideceu-me. No entanto, o como atingir às expectativas causou-me assombro, porquanto sou apenas uma discípula de Érato e Polímnia.

Desse modo, querido escritor, somos dois mundos paralelos: eu persigo ilusões que se perdem ou se modificam na voracidade do tempo, como incansável semeadora de sonhos, que teima em desenhar esperanças nas alvas fímbrias de cada manhã. E vós, caro escritor, avivais cores e luzes que não morrem, porque eternizadas sob o vosso cinzel de crítico consagrado. Ambos nos ligamos por caminhos distintos ao nosso fazer literário. Contudo, não deixamos de ser autênticos, pois “nenhuma beleza esgota a múltipla fecundidade da arte”.

Diante disso, é que me encorajei e aqui vim para falar-vos com o coração, com a alma genuflexa diante de dois nomes notáveis: Durval Aires, autor das novelas “Barra da Solidão” e “Os Amigos do Governador”; e F. S. Nascimento, autor de “A Estrutura Desmontada”.

O crítico mineiro Fábio Lucas, em se reportando à 1ª edição de “A Estrutura Desmontada”, assim se pronunciou: “O que pretendeu F. S. Nascimento com essa obra foi proceder a uma organizada investigação intrínseca de duas ‘novelas-reportagens’, de Durval Aires, Os Amigos do Governador e Barra da Solidão, procurando iluminá-las de todos os lados, no encalço dum modelo crítico integral. Tanto quanto possível, isentou-se de juízos de valor, principalmente de juízos prévios que maculam o pronunciamento crítico de subjetivismo e arbítrio”.

Realmente, F. S. Nascimento, com a destreza da palavra e a segurança nos raciocínios, começa a virar e a revirar as estruturas narrativas das novelas citadas, desmontando-lhes as partes como se fossem pedras de um genial quebra-cabeça para oferecê-las ao leitor, a quem caberá a função, quase lúdica, de reconstituição do todo.

E, assim, o autor delineia o seu trabalho: “[…] começamos por questionar o problema do enredo, argumento ou assunto, daí evoluindo, ingressivamente, até chegar aos enfoques da unidade vocabular, da estrutura verbal e das peculiaridades estilísticas, estágios em que, sob o ponto de vista formal, repousa a individualidade da criação literária”.

Desse modo, na introdução do ensaio, o autor, fundamentado em extensa lista de críticos nacionais e internacionais, constrói uma inovada avaliação estética da obra de Durval Aires, com alentado depoimento teórico acerca da essência da narrativa, sempre se assenhoreando de que “criticar é rasgar novos horizontes de compreensão”.

As atitudes das personagens, bem como seu padrão, aspirações, visão de mundo, tudo é submetido a profundo estudo, visando-se vislumbrar o controvertido interior da criatura humana, na pele de personagens que se chocam e se entrelaçam no universo imaginativo da ficção de Durval Aires. Também as mutações temporais são meticulosamente examinadas pelo crítico, sob uma técnica incomum e ousada em sua execução estrutural.

O instrumental linguístico, o poder gradativo das perífrases, as peculiaridades da sintaxe fracionada, a estrutura rítmica da frase e o diálogo compõem as partes finais do estudo de F. S. Nascimento. Ressaltem-se a polidez do crítico, o cuidado com a linguagem, uma vez que o crítico deve buscar atingir a alma do livro com responsabilidade, com a convicção de que deve ser franco, sem cometer injustiças, nem cair no falso caminho da bajulação. Vejamos o que diz Machado de Assis a esse respeito: “[…] eis o melhor meio de convencer, não há outro que seja tão eficaz. Se a delicadeza das maneiras é um dever de todo homem que vive entre homens, com mais razão é um dever do crítico, e o crítico deve ser delicado por excelência. Como a sua obrigação é dizer a verdade, e dizê-la ao que há de mais suscetível neste mundo, que é a vaidade dos escritores, cumpre-lhe, a ele sobretudo, não esquecer nunca esse dever. De outro modo, o crítico passará o limite da discussão literária, para cair no terreno das questões pessoais […]”. O ensaísta e ficcionista mineiro Rui Mourão, também, adverte: “A obra é uma estrutura objetiva, uma entidade que se classifica entre os viventes de natureza literária e, para sua compreensão, só devemos partir de um ponto de vista lingüístico, estilístico e literário”.

Ao concluir seu ensaio crítico, F. S. Nascimento enfatiza com propriedade: “O que norteou a presente análise foi, sobretudo, o propósito de verificar a funcionalidade do mundo novelístico de Durval Aires, identificar-lhe as peças determinadoras de seu equilíbrio interno e desvendar-lhe as particularidades mais íntimas de sua realidade construída de formas simbólicas”.

F. S. Nascimento, esse homem simples, porque simples e bela é toda obra maior da natureza, nasceu em Pernambuco. Ao vir para o Ceará, radicou-se em Crato, onde estudou e diplomou-se. Fez parte do Grêmio Literário e Cívico José de Alencar, época em que se iniciou nas lides jornalísticas. No periódico “A Classe”, do qual foi redator-secretário, passou a editar seus artigos, sonetos em decassílabos e até poemas em versos livres.

Em 1953, juntamente com Florival Matos, lançou a revista “A Província”, prestando, desse modo, sua homenagem à cidade do Crato, que comemorava, naquela data, seu primeiro centenário. Transferindo-se para Fortaleza, deu prosseguimento às lides de redator, publicando no jornal O Povo artigos e reportagens de cunho literário. Foi Diretor da Imprensa Universitária e da Divisão de Intercâmbio Cultural.

Com a publicação, em 1972, de A Estrutura Desmontada, que alcançou grande repercussão no meio cultural de Fortaleza, obteve a indicação de seu nome para a Academia Cearense de Letras, cuja eleição se deu em 1973, passando a ocupar a cadeira número 38.

Figura de distinção nacional como um dos mais importantes críticos literários do Ceará, F. S. Nascimento publicou: A Estrutura Desmontada – 1ª edição – (1972); Três Momentos da Ficção Menor (1981); O Quadrilátero da Seca (1988); Apologia de Augusto dos Anjos e Outros Estudos (1990); Teoria da Versificação Moderna (1995); Praíbas do Cauípe e Clã Bezerra de Menezes (1997); História Política de Juazeiro e Crato – Lampejos Políticos e Culturais (1998); Mártires da Religiosidade Popular (2000); Fundamentos do Nordeste Agrário (2003); Diretrizes da Linguagem Poética (2005) e, agora, a segunda edição de A Estrutura Desmontada.

O filósofo alemão Karl Jaspers, ao iniciar uma homenagem a Max Weber, assim se manifestou: “A maneira de honrar a um grande homem está em apropriar-se de sua obra e tentar trabalhar em suas idéias para prosseguir a realização, que ele tornou possível, de cada uma de suas distintas partes”.

Seguindo o raciocínio do conceituado filósofo, senhoras e senhores, tenho a satisfação de vos dizer: eis aqui um grande homem – F. S. Nascimento – a quem honramos. Eis aqui sua obra, merecedora de nossa reverência e de nosso aplauso!

[1] Texto de apresentação do livro A Estrutura Desmontada (2ª edição), do Acadêmico F. S. Nascimento, no Centro Cultural OBOÉ.

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