A Gramática no Texto

Prof. José Ferreira de Moura – Cadeira nº 20

A finalidade deste trabalho é tecer comentários sobre as múltiplas teorias que abordam os diferentes significados da palavra gramática e das abordagens diversificadas de descrição do português.

Nas aulas de português, há descrições terminológicas, cujo interesse centra-se mais no professor que no estudante. Estas descrições devem ser reestruturadas, pois o ensino da língua não deve resumir-se a regras que, muitas vezes, vão de encontro ao uso cotidiano ou uma terminologia gramatical quase sempre inacessível ao estudante, ou a quem pretende compreender melhor o português e falar com desenvoltura.

Tornar-se-ia produtiva uma política do idioma (hoje se fala tanto de política disso ou política daquilo) cuja descrição do uso se fundamentaria na apresentação de textos escritos e orais abordados em atividades, exercícios, tarefas, notícias, informações etc.

Há uma preocupação muito séria, tanto nos meios acadêmicos quanto nos de comunicação, relativo ao uso da norma e o empobrecimento do ensino e da aprendizagem da nossa língua. Essa crise, segundo estudiosos, não é peculiar à língua portuguesa, ela se verifica nos Estados Unidos, na Espanha, em Portugal, na América Latina e em outros países. Ela se manifesta em todas as áreas do conhecimento, em todos os níveis de escolaridade e em resultados de exames vestibulares e de tantos outros concursos. Nessas áreas de conhecimento de língua, encontram-se exemplos de desestruturação do ensino, resultante da aprendizagem de regras e de exceções. Para mudança desse perfil linguístico, é urgente que a língua contemporânea reflita a civilização, as crendices, os costumes, a gíria, enfim, seja ela expressão dos mais diversos grupos sociais. Nesse contexto, o ensino não deve propor-se em oferecer aos jovens um purismo da língua dissociado do dia a dia.

Através de pesquisas, sabe-se que os cursos de Letras estão reformulando seus programas de disciplinas orientados para a recuperação das deficiências do ensino fundamental e médio que geram uma formação fragmentária e desarticulada do professor.

Desse modo, a formação acadêmica do professor de português, em qualquer nível, deve ser repensada e modificada, para que ele possa apoiar-se no conhecimento, na compreensão e na interpretação das diferenças que existem hoje e notadamente as do futuro, estarão presentes na escola. Somente assim, poderá concretizar-se mudança de atitude do professor, caso ele respeite as condições socioculturais e a linguagem que o aluno já possui ao vir para a escola.

Já há uma nova produção de livros didáticos cuja reformulação dos conteúdos e dos procedimentos pedagógicos de ensino da língua, objetivando o domínio da norma culta, sem, no entanto, subestimar as variedades linguísticas adquiridas pelo aluno no processo natural de socialização.

Pelo fato de a nossa gramática ser exemplar do contexto da gramática no ocidente, como afirma Neves (2006), aquela se espelha em modelos de títulos clássicos, o que caracteriza as construções apresentadas para estudos das estruturas que devem fundamentar a gramática tradicional. Ainda de acordo com Neves (2006), nesse parâmetro de produção, a gramática se constitui como exposição e imposição de padrões. Se, realmente, foi a partir de modelos que a gramática foi produzida, lógico, ela só poderia ter origem modelar. Assim, podemos observar que a formação de estrutura e sequência discursiva de frases é depreendida dos exemplos oferecidos na gramática, transcritos de obras clássicas ou de autores reconhecidamente de boa linguagem nos órgãos de comunicação. Essa formação pedagógica de abordar a linguagem é ainda mais perniciosa com a presença da figura de “exceção”, muito comum no discurso da gramática normativa de textos do aluno.

As normas pedagógicas esclarecem a falta de organização e estruturação das frases, tornando a escrita incompreensível, sem coesão e sem coerência. A gramática deve ser um modelo que garanta a explícita organização e estruturação das frases, que mostra como devem ser tratadas e aprendidas, as classes gramaticais, a sintaxe, a semântica e, consequentemente, a sequência discursiva do texto.

Como se expressa Neves (2006), a gramática deve tratar das dimensões práticas e objetivas da língua, cujo escopo é um ordenamento de orientação teórica do pensamento injuntivo à linguagem.

A gramática normativa, portanto, segue parâmetros explícitos que devem ser claros em expressões como “use isto” “deve-se usar aquilo”. Ainda, a linguística argumenta que a gramática tradicional configurou-se, substancialmente, na gramática tradicional ocidental, pois esta se formulou a partir de padrões clássicos que, ainda hoje, perduram.

Segundo a lógica tradicional, a frase se constitui de três elementos: o sujeito, o verbo de ligação e o predicado. Esse esquema fixo facilitaria as operações linguísticas que cada falante desejaria realizar. Pode-se observar, no entanto, que se trata de um processo bastante artificial e não corresponde, portanto, às nuances emocionais do falante.

Hoje, os linguistas estudam a frase estruturada em dois elementos: o sujeito e o predicado. A frase “as crianças brincam”, o sujeito: as crianças, e o predicado: brincam. Na frase: “o aluno mais inteligente da turma ganhou a medalha de ouro na Olimpíada de Matemática”, o sujeito é composto das palavras que antecedem o verbo. Há uma tendência específica da língua materna, pois, para esses linguistas, ela é instrumento considerado como dom da natureza e da vida, consequentemente. A língua é aperfeiçoada na aprendizagem e no uso das ciências e das tecnologias.

Os linguistas concluem o seu pensamento, afirmando que um ensino de português deve fundamentar-se, em especial, numa reflexão sobre o sentido da língua e numa análise da dimensão linguística em que qualquer indivíduo esteja envolvido. Por isso, alguns autores mostram que o mestre não para nem termina de ensinar português, sempre o abordando ora na esfera da estrutura morfossintática, ora da semântica, ora da pragmática linguística que renovam, continuamente, a estrutura sistêmica da lingua(gem).

Portanto, existem muitos estudiosos da linguagem que estabelecem uma comparação das gramáticas antigas do Português com as de hoje, argumentando serem melhores estruturadas de acordo com a visão funcionalista sociointerativa em estudo da lingua(gem).

Referências
ABAURRE, M. B. M.; Rodrigues, A. C. S. (Org.) Gramática do português falado: novos estudos descritivos. – Campinas: Editora da Unicamp / Fapesp, 2002;
CEREJA, William; Cochrane, Thereza. Gramática reflexiva – texto, semântica e interação. 3ª. ed reformulada. – São Paulo: Atual, 2009;
MARTELOTTA, Mário Eduardo (Org.) Manual de Linguística. São Paulo: Contexto, 2008;
NEVES, Maria Helena de Moura. Texto e gramática – São Paulo: Contexto, 2006;
PERINI, Mário A. Para uma nova gramática do português. 3ª. ed. – São Paulo: Ática, 2006;
SCHOCAIR, Nelson Maia. Gramática moderna da língua portuguesa. – Niterói: Impetus, 2010;
SMITH, Frank. Como prevenir as dificuldades na expressão escrita. – São Paulo: Artmed, 2000;

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