A R T I G O – História Literária Cearense

José Edmar da Silva Ribeiro*

No momento em que se aproximam a instalação e a posse dos primeiros árcades da recém-instituída Arcádia Nova Palmaciana (Palmam qui meruit ferat), cuja fundação foi aventada pelo escritor e agente principal deste artigo, em homenagem ao novel instituto cultural e científico, tenciono com o texto preencher uma lacuna relativa às informações (não equívocas, porém, incompletas) a respeito de fatos sem o devido e importante registro, o que é necessário para reempossar a história no seu verdadeiro lugar narrativo e comprometido com a verdade.

Embora até hoje se verifique o empenho dos historiadores palmacianos com vistas a transmitir a veracidade, incluindo as comunicações pertinentes à literatura local, na qualidade de curioso, noto que suas informações não exprimem com exatidão as narrativas atinentes à produção de obras editadas em livros e revistas científicas (e magazines mais populares) por parte de escritores da Terra, em decorrência de motivos de natureza vária, como, por exemplo, a falta de circulação das obras, em razão do pequeno número das tiragens – limitadas no teto em mil exemplares e tendo como piso publicações de até duzentos volumes – entre tantas outras razões.

De tal modo, esse claro se resume na ausência de visão pública das ocorrências editoriais, conquanto haja boa publicidade de tais acontecimentos nos chamados (talvez até impropriamente) meios de propagação em massa. Isto já sucede, por exemplo, com a progressão, sempre aumentada, na área do Direito Comercial, do escritor e árcade da Arcádia Nova (sodalício local recém-instituído), advogado e literato conterrâneo dos aqui referenciados, José Damasceno Sampaio, atual presidente da Academia Cearense de Letras Jurídicas – cujo ativo fixo já conta com uma dezena de livros, indicados em disciplinas de Direito Comercial em cursos jurídicos de todo o País – a quem é preciso se dar mais preeminência nas descrições informacionais e pedagógicas no âmbito da literatura de que cuido.

De jeito semelhante, particularmente na seara da criação científica, aconteceu com o acervo dos escritores naturais de Palmácia – CE – Prof.a Dr.a Maria Graziela Teixeira Barroso (Palmácia, 06.05.1926 – Fortaleza, 13.05.2011), Prof. Dr. Teobaldo Campos Mesquita, Prof. Dr. Kilmer Coelho Campos (filho do imediatamente seguinte), Prof. Dr. Robério Telmo Campos,  Prof.a Dr.a Inês Teixeira e Prof. MS Francisco Antônio Guimarães (todos da Universidade Federal do Ceará), bem como do engenheiro-MSc Francisco José Coelho Teixeira (atual secretário de Recursos Hídricos do Ceará).

Os produtos intelectuais – livros (Graziela, Teobaldo e Robério, vários) e dezenas de artigos científicos publicados em periódicos especializados por esses autores – inclua-se Pedro Eymard Campos de Mesquita (eng.o. agr.o do DNOCS) – aparecem repetidamente nos veículos de comunicação social, todavia escapa às demandas dos descritores da História palmaciana a identificação dos meios difusores onde devem ser procuradas essas informações: nas universidades, imprensa especializada, convites para lançamentos, media informáticos etc.

Têm bom curso nas notas atuais expressas nos mass comunications, principalmente na rede mundial de computadores, os atuais escritores serranos Rocildo Muniz (um dos seus produtos, dentre outros, é O Arraial das Palmeiras se fez Palmácia) e Iolanda Campelo Andrade, em bons livros, cujo excepcional poema Bordados Literários, que vai ser publicado em Reservas da minha Étagère – 2016 – do escritor palmaciano Vianney Mesquita, sobre quem me reportarei adiante, além de outras edições de alteado valor, e na Revista da Academia Cearense da Língua Portuguesa. Contabilizam-se, ainda, Gilardo Gomes (Deus Falando em Poesias), Antônio Carlos Sampaio de Oliveira e Junior Holanda, por exemplo, também como compositores de edições em infólios preparados por gráficas profissionais.

Porque bastante festejadas, com a máxima justiça e a mais supina honra para o Município de Palmácia, como intelectuais e escritores de visão estadual – e até nacional – são bastante conhecidos, apreciados e amados por aquele povo serrano, aparecendo vez por outra na imprensa e constantemente na internet, as doutas e inesquecíveis figuras dos Professores Vicente de Paulo Sampaio Rocha e José Rebouças Macambira, ícones da intelectualidade cearense, isto é, não somente palmaciana, em virtude de sua atuação no meio cultural da Terra das Palmeiras, havendo ambos deixado como herança aos seus conterrâneos realizações literárias e científicas de qualidade no campo da Língua Portuguesa, da qual eram docentes.

O Professor Vicente Sampaio, em bons tempos de completude de sua existência terrenal profícua e de benquerer à sua Cidade, quando voltou a ali morar, após reforma de sua atividade professoral ao longo de mais de 30 anos, viveu em profusão, sempre inserido ou à frente de seus motos culturais e científicos, havendo legado ao acervo literário palmeirense os livros Português nosso de cada dia (com parceria de Rosimir Espíndola Sampaio) e Dicionário de Etimologia, Pronúncia e Termos Jurídicos, de modo que seu nome não se pode desvincular, em tempo algum, do romaneio histórico do seu Município, pois filho estremecido que, à Palmácia do seu tempo, devolvia todo o carinho e a afeição a si dispensados, fatos que jamais podem deixar a lembrança dos seus conterrâneos.

José Rebouças Macambira, linguista, gramático e poliglota, após se mudar para Fortaleza, jamais voltou a residir na terra natal, onde nasceu em 17 de novembro de 1917, porém nunca deixou de visitá-la e de lhe dedicar atenção máxima, sempre se referindo a ela em suas peças de assinalada qualidade métrica e insuperável entusiasmo poético, como ocorreu com os poemas “Palmácia de Ontem” e “Bacamarte”, inseridos em Musa de Aquém e de Além.

Mencionado imortal, que pertenceu à Academia Cearense de Letras e à Academia Cearense da Língua Portuguesa, editou oito livros didáticos, no terreno científico do Código de Camões e na poesia, entre os quais Estrutura do Vernáculo (1986), Estrutura da Oração Reduzida (1971) e Musa de Aquém e de Além (1981), todos multicitados em trabalhos acadêmicos de críticos, jungidos às suas temáticas, tanto no Brasil como nos demais oito países onde tem curso a Língua Portuguesa (Portugal. Angola, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor Leste e Macau).

Como visto nas menções procedidas até aqui, não reside nenhuma dúvida, por conseguinte, quanto à precedência literária desses dois palmacianos de escol em relação aos demais escritores aqui mencionados, consoante resta cristalino nas composições procedidas por historiadores-literatos locais.

Para endireitar a via histórica, entretanto, impõe-se conceder destaque a outro escritor, cuja longa obra em livro foi iniciada em 1984, coetaneamente, portanto, às produções dos seus dois há pouco aludidos compatrícios. Este a quem me refiro, que é linguista, poeta, ensaísta, cronista e analista literocientífico, não tem o nome, inexplicavelmente, retratado nas alusões históricas da verve escritora da Cidade – conquanto reconhecido e celebrado em Fortaleza, em registros de mais de uma dezena de autoridades literárias – fato configurador de lacuna bastante grave, encobrindo, pois, a exatidão dos fatos e, injustamente, preterindo o fulgor de suas múltiplas produções, amplamente reconhecidas pelo universo crítico, no âmbito do Estado e do Brasil.

Cuidem, por consequência, os historiadores literários palmacianos de incluir Vianney Mesquita, escritor de cerca de duas dezenas de livros, espessos em continente e recheados do melhor conteúdo, objeto de apreciações de figuras como Genuíno Sales, Renato Casimiro, Francisco Carvalho, Pedro Henrique Saraiva Leão, Régis Kennedy Gondim Cruz, Batista de Lima, Adísia Sá, Neide Azevedo Lopes, Gilmar de Carvalho, Giselda Medeiros, Ítalo Gurgel – entre muitos do Ceará – e Márcia Siqueira (Minas Gerais) e Leilah Santiago Bufrem (Paraná), a primeira ao se reportar à A Escrita Acadêmica – Acertos e Desacertos (UFC) e a outra, em tese de doutorado, comentando acerca do primeiro livro escrito no Brasil a respeito de editoras universitárias – Sobre Livros – Aspectos da Editoração Acadêmica (Fortaleza:UFC/Brasília: Ministério da Educação, 1984), de sorte que o escritor sob comento também é ponto de destaque na história do livro no Brasil.

De tal modo, a fortuna crítica desse produtor editorial já é bem vasta, incluindo, também, um texto meu, como guarnições (orelhas) do seu derradeiro livro, editado em 2015, intitulado Reservas da minha étagère, onde expresso as qualidades ínsitas a ele – a quem conheço e da sua amizade privo há cerca de 35 anos na Universidade Federal do Ceará – em particular no terreno da crítica e das manifestações em língua portuguesa que, aliás, fogem do trivial e delimitam seu correto e inconfundível estilo.

João VIANNEY Campos de MESQUITA (Palmácia, 17.08.1946), jornalista e professor da Universidade Federal do Ceará, membro das Academias Cearense da Língua Portuguesa (da qual foi presidente por duas vezes) e Cearense de Literatura e Jornalismo, além da Arcádia Nova Palmaciana (sodalício por ele fundado), possui vários prêmios de Literatura e Comunicação em concursos promovidos por entidades culturais do Ceará. Compõe bloco do Dicionário da Literatura Cearense, de Raimundo Girão e Conceição Sousa (1987) e é autor, entre muitos mais, em 32 anos, desde o primeiro trabalho editorial (o dito Sobre Livros), de UFC – Ciência, Cultura e Tecnologia (com GURGEL, Í; MENESES NETO, 1984); Mecanismos de Promoção Editorial para as Universidades Federais do Nordeste (Plaqueta – Univ. Fed. da Bahia, 1982) Estudos de Comunicação no Ceará (com Gilmar de Carvalho- UFC, 1985); Impressões – Estudos de Literatura e Comunicação (UFC, 1989); Resgate de Ideias (UFC, com Fátima Portela Cysne -1996); A Fortuna Crítica de Carlos d’Alge, in D’Alge, C. O Sal da Escrita. (UFC, 1997); Os Versos Ecléticos de Vasques Filho – Estudo Introdutório. (UVA, 1998); Fermento na Massa do Texto (Edições Universidade Vale do Acaraú – UVA, 2001); Repertório Transcrito (UVA, 2003); … E o Verbo se Fez Carne (UVA, 2004); Para além das Colunas de Hércules (In BARRETO, A.; MOREIRA, Rui Verlaine. UVA, 2004); Arquiteto a Posteriori (UFC, 2013); R.H.F.- Tributo ao Mestre que Ensinou Fazendo (UFC, 2014 – com Karla Farias); Nuntia Morata, Expressão Gráfica, 2014); Reservas da minha Étagère – Aproximações Literocientíficas. (No prelo); e Contratualismo, Política e Educação – Estudo Introdutório – in VASCONCELOS, J. G.; MARTINHO RODRIGUES, R.; ALBUQUERQUE, J. Cândido, L. B. de. UECE, 2016).

Convém evidenciar o fato de que, além das obras em livro solo e com coautoria, escreveu dezenas de capítulos em coletâneas, artigos científicos em revistas da Universidade Federal do Ceará – Letras, Comunicação Social, Revista de Direito, Educação em Debate, Desafio – e de outras instituições acadêmicas, como a UFBA e a Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUCCAMP.

Sobra expressar, por fim, a ideia de que a ausência do seu nome da lista de palmacianos ilustres e de escritor consagrado representa, na realidade, um hiato não justificável e que não há de prosperar após esta intervenção, no alcance do meu raciocínio, absolutamente necessária e oportuna, porquanto Vianney Mesquita, não sobra nenhuma razão, é hoje o maior escritor da Terra das Palmeiras, na relação quantidade e qualidade, evidentemente, sem dos demais pretender, por totalmente descabido, subtrair a relevância qualitativa das suas produções.

Justiça seja feita, porém …

*Advogado e Escritor. Professor Universitário. Procurador da UFC e Assessor do Reitor. Membro do Conselho Editorial das Edições UFC.

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