Abecedário aliterante

Vianney Mesquita

(Professor-Adjunto IV da Universidade Federal do Ceará. Acadêmico-titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa, da Academia Cearense Literatura e Jornalismo e da Arcádia Nova Palmaciana. Escritor e jornalista.)

Márcio Catunda

(Escritor e diplomata. Bacharel em Direito.)

RESUMO

Exercício de versificação em estâncias decassilábicas portuguesas, com o emprego da aliteração e de outros tropos linguísticos. Seu produto configura 23 quartetos, tendo por base igual número de letras do alfabeto da Língua Portuguesa – uma quadra para cada letra (sem k, y e w) – com suporte na literatura de metrificação poética reconhecida no Brasil e em Portugal, conhecimento obtido ao longo do tempo, sem, no entanto, particularizar nenhum autor, embora sejam indicados alguns na Bibliografia para demanda por parte dos leitores (AZEVEDO, 1970, 1997; CAMPOS, 1960; NASCIMENTO, 1995;  e CARVALHO,1991). Em razão de, na peça, poder alguém enxergar os estilos preciosista e bestialógico, descarta-se essa possibilidade, com explicações plausíveis.

Palavras-chave: Decassílabos Portugueses. Aliteração. Preciosismo. Bestialogia.

Keywords: Portugueses Three-syllable. Alliteration. Stylistic reasons. Nonsense style.

Notações Essenciais

O escrito sob relação, composto em parceria biautoral, é um exercício de versificação, com emprego do verso decassilábico português, cuja intenção descansa em exercitar o espírito, demonstrar a possibilidade de proceder à versificação em obediência às técnicas ratificadas ao longo dos estudos, desde a Escola Siciliana, no século XIII, transitando por Francesco Petrarca e Francisco Sá de Miranda, e, num nível de estesia pouco comum, recorrendo-se, na totalidade, ao expediente da aliteração.

Também assenta, decerto, na expectação de recolher dos consultantes opiniões abalizadas a respeito da propriedade ou não das alocuções registadas, a fim de, se for azada a oportunidade, apropriar-se de tais contribuições, refazendo a operação, após o que se poderá reeditar a peça, com os possíveis adendos.

Antes de se adentrar o Abecedário Aliterante, composto de um quarteto de paragramatismos para cada letra da língua lusa (tirante k, y e w), em que se manobram as informações propedêudicas atinentes a esse poema, perfazem-se explicações rimadas na mesma grade – estâncias com dez acentos – a fim de facilitar sua leitura e decodificação.

De tal modo, nestes escólios de abertura, é sucedido um conjunto de justificações em língua-prosa, numérica e conteudisticamente correlativos aos vinte quartetos conditos à frente, com o intento de aclarar possíveis obscuridades escondidas às sombras poéticas, liberando o leitor de imagináveis dificuldades de entendimento.

Desta arte, a sugestão dirigida aos pesquisantes deste conjunto textual é de que procedam, primeiramente, à observação dos sequentes textos prosados e, ao cabo da leitura de cada qual, os cotejem com as quadras numeradas, pondo em paralelo seus conteúdos, tanto para coadjuvar a compreensão, quanto a fim de possibilitar a expressão de conceitos, os quais poderão originar acertos no rumo desta desambiciosa demanda na senda da metrificação.

1 Tratamento da Língua Portuguesa

A iluminação do espírito pela via poética está no afeto dedicado pelo produtor de versos, inserto num código linguístico de raros haveres no âmbito das línguas latinas e outras codificações de todo o orbe. Assim, acolhem os poetas e prosadores de boa cepa a ideia de que não há de a Última flor do Lacio, inculta e bela, consoante a poética bilaquiana, receber afrontas e ser alvo de descomposturas, ao conviver com o trato de pés mal assentes, dilates linguísticos e toleimas de toda ordem, razão por que as composições devem concertar teores qualitativos, tanto no estro de quem as produz como na sensatez expressa na beleza retratada em possível português, ao mesmo tempo, inteligível e castiço.

2 Aproveitamento de Anástrofes

Também denominada sínquise e hipérbato, compõe a prática do metro abecedário sob exame o expediente da anástrofe, denotativa de um tropo de Gramática e Eloquência (Retórica, Oratória), configurada na ordem natural de dois vocábulos no interior de um mesmo sintagma – unidade de análise sintática com núcleos para constituir a oração. Para inscrever o destino do conjunto, ainda servem de auxílio as metáforas, que, em Retórica e por extensão estilística, denotam a mudança de sentido, do próprio ao figurado (HOUAISS; VILLAR, 2001).

3 Decassílabos Portugueses

A linha de dez acentos (ou ictos) tem história rica, procedente da Provença, com sua poética semelhada na Europa civilizada inteira. Não assenta, contudo, propício, no momento, delinear sua caminhada histórica, não demorando, todavia, exprimir com rapidez suas manchetes. O soneto, por exemplo, em provençal, sonet – consoante informa Mesquita (2013, pp. 178-9), com suporte na literatura – foi experimentado por nomes famosos da arte literária pré-humanista, no curso da Renascença e depois deste faustoso período.     A craveira compositiva, de que é parte o exemplar aqui tratado, com a diferença de que este não traz os trísticos, transitou por demoradas fases de transformação, impondo-se considerar o estabelecimento de uma configuração fixa, sucinta e atraente, sob o norte de um conjunto de poetas sicilianos, cujo chefe foi Jacopo da Lentini. Esse mesmo grupo, que Dante denominou, na Eloquência Vulgar, Escola Siciliana, se reunia em torno de Frederico II (imperador da Alemanha e rei da Sicília), mecenas cujo secretário foi Pietro delle Vignes (suicida no Inferno, da Divina Comédia), e se constituía, entre outros, de Cielo d’Alcomo, o mencionado Lentini, Ruggiero Apugliese e Giaccomo Pugliese, todos adeptos do soneto.

Francesco Petrarca utilizou-se desse formato para exprimir, nas Rimas, os amores a Laura de Novis, a bela mulher de Hugo de Sades, por quem se apaixonou à prima vista. Incorreto, entretanto, será atribuir a esse extraordinário Erudito de Arezzo o achado da conformação decassilábica, definida e fixada em Portugal (e no Brasil), pois conduzida para seu País, desde a Itália, por Francisco Sá de Miranda (irmão do terceiro Governador Geral do Brasil, Mem de Sá), na primeira metade do século XVI, onde tomou configuração definitiva, considerando-se as diversas variantes advindas com seu emprego.

Conforme divisa o leitor na quadra 3, esta consoa o primeiro verso com o quarto e o segundo com o terceiro, na ordem A-B-B-A. Tal conformação é consagrada e bem utilizada, ainda hoje, no Brasil. Impende dizer-se, contudo, que ela restou aqui esquecida durante um alargado lapso, decerto, por conta dos exageros pandêmicos de usança (a que Cassiano Ricardo, in AZEVEDO, 1985, chamou de Sonetococcus brasiliensis), rechaçados pelas ideações poéticas originárias da Semana da Arte Moderna em fevereiro de 1922.

4 Acentuação

Nos moldes do tabique português dessas composições, estas obedecem, neste passo, aos ditames do dito gradeado, relativamente à acentuação dos pés, trazendo os dez ictos por ele determinados. Em decisão bipessoal, escolheu-se essa modalidade, pois não se guarda servidão a outras ordenações, tanto de verso claro – sem consonar – como das disposições mais antigas, pois são os autores evictos, isto é, liberados dessa subjugações. Aplicou-se esse adjetivo nesse sentido, malgrado seu aproveitamento repousar mais no léxico da Ciência do Direito, porém, não somente, pois o Português sobra como língua admiravelmente polissêmica, conquanto, também, sincrética.

5 Não Repetição de Palavras

Uma das cautelas da qual se muniu, com vistas a oferecer agradável e fértil artefato, fixou-se em não reiterar vocábulos, em particular, com o fito de demonstrar o fausto machadiano, a multiplicidade de sentidos de termos e dicções, evitando-se o risco de desacreditar o concerto, nomeadamente na zona dos consulentes mais bem apercebidos.

6 Rimas em cada Quadra

Notória e subitamente, resulta a preferência pela rimação apenas em cada quarteto, esperando-se que tal deciso autoral não atrapalhe ou mesmo impeça a aceitação dos ledores. Sobra confesso o fato de que se nos afigura impossível, pelo menos no tempo escolhido para compor, mormente em certas letras do alfabeto, lograr o intento de consoar vinte e três estrofes aliterantes entre si. Salvante melhor raciocínio, compreendeu-se como dispensável um propósito de tal essência.

7 Aliterações

Segundo consabido pelos estudiosos (e até por diletantes) de Gramatica, Estilística e da Literatura, o aliteramento (aliteração e paragramatismo) consiste na reprodução de fonemas parecidos ou idênticos na mesma frase, com vistas a se conseguir efeitos elocutórios nos versos branco e rimado (no evento sob exame). É, também,a repetição, no começo de dois ou mais termos vizinhos, das mesmas letras ou sílabas, com vistas a conceder expressividade à elaboração frasal (língua prosa ou texto consoado).

Na nota de número um, no remate deste escrito, alude-se a uma composição paragramatista do excepcional poeta simbolista brasileiro Cruz e Sousa, o qual viveu apenas 38 anos (24.11.1831-19.03.1898) e que, mesmo assim, ao lado de Alphonsus de Guimaraens, entre poucos, legou excelsa obra, principalmente para exame desse pendor lítero-artístico, surgido em França como reação ao realismo e ao parnasianismo.

Vários escritores recorrentes às resoluções paragramatistas serviram como protótipos à efetivação do poema agora escoliado, como a) o escritor piauiense Vasques Filho e b) o português Garcia de Resende, com os sequentes: Verdes vales, vergeis, vinhedos, veigas, vargas,/Veredas vicinais de vedras vilas vimos[…] (VF) e Forte fiel façanhoso/ fazendo feitos famosos/florescente frutuoso/ fundando fins frutuosos/fama fé fortalezando/famosamente floresce/fidalguias favorece/francas franquezas firmando.I (G.R).

8 Leitores Zelosos

Os temas da produção ora esquadrinhada encontram-se, passim, na aplicação figurada de termos e dicções, o elemento da Estilística denominado tropo (aqui, figura), entre outras acepções distintas deste vocábulo, fato comprobativo, mais uma vez, da codificação polissêmica  myrsonlimiana.

Entrementes, faz-se solicitação aos examinandos deste trabalho literário para que, se lhes aprouver, se comportem como zeladores dos arranjos versados no Abecedário Aliterante.

9 Vinte e Três Letras e Igual Número de Quartetos

Cada uma das vinte e três letras do grupo alfabetário português, à exceção de ka, ípsilon e dáblio (são vinte e seis), compõe uma estância de quatro linhas, cuidando-se para que não se consignem impropriedades, tanto linguísticas quanto de coerência dialética, deseixadas, no mínimo que seja, de enganos conceituais, a fim de as ideações sobejarem exprimidas em linguagem elocutoriamente asseada e estilo decoroso e polido.

10-11-12 Dificuldades com V, X e Z

Pelo fato de a composição destinar-se a audiência seleta, bem apropriada com haveres dos chamados saberes pela Ciência da Pedagogia, tanto da experiência quanto da recepção de  conhecimento ordenado, é dela requerida atenção para a resistência denotada por essas letras, a fim de se perfazer a ideação/metrificação. Isto porque o quantitativo de suas unidades de ideia é bem distinto da maioria das outras vinte, pois sobra menos extenso e é de tal modo parcimonioso ao ponto de embaraçar a inventiva autoral, resultando de suceder versões cifradas e de  gosto aparentemente insosso – ou desenxabido de verdade – pelo que se lhes pede desculpa acaso sobrevenha tal acontecimento. É, ainda, oportuno se atentar para a ideia de que, não somente com x, v e z, é possível dar-se a igual das outras conformações literais, valendo, então, as mesmas escusas pedidas há pouco.

Pelos pretextos ora manifestos, resta inevitável que, nos referidos módulos complexos do alfabeto, seus conteúdos se aproximem – sem que o logrem ser – da elocução anarco-surrealista à André Breton.

(Na intenção de afastar dúvidas quanto à aplicação, no começo deste segmento, do termo audiência, explica-se que a acepção conotada, devidamente dicionarizada, diz respeito ao público dos meios de propagação coletiva, como os jornais, revistas, rádio, TV, livros, sítios da rede mundial de computadores et reliqua).

13 Densos Obstáculos   

Em decorrência dos mencionados óbices ao preenchimento dos gradis com as ideias, pela quase-ausência de oportunidade para redigir, o jeito foi procurar expedientes, vias opcionais, visando a, com a devida coerência, chegar a modi operandi consentâneos, apropriados a leitura e decodificação, o que, no sentir autoral da peça sob comento, foi possível suceder.

14 Composições Estranhas

Tem curso no repositório poético do Brasil, diferentemente das elocuções preciosistas (como dizem ser algumas manifestações literárias, por exemplo, dos simbolistas, como Alphonsus de Guimaraens), o registo do estilo bestialógico. Enquanto no preciosismo os escritores recorrem ao vocabulário pouco comum, recheado de perífrases, circunlóquios e tropos literários de maneira geral, o discurso bestialógico exprime-se disparatado, lotado de termos e expressões esquisitas, com ou sem intenção, atulhado de “palavras” inexistentes, sem pé nem cabeça, conforme sucede com o soneto A Uma Deuza(sic), do maranhense Luiz Lisboa, consoante reproduzido e comentado na Nota 3, extraído do Pequeno Dicionário de Arte Poética, do intelectual espirito-santense (não capixaba, pois não nasceu em Vitória, a Capital, mas em José do Calçado) Geir Nuffer Campos (1960).

Evidentemente, pois, consoante o ledor deste título atesta liminarmente, por escapar-se lepidamente desses maus caracteres literários, ele está a anos-luz do resultado bestiológico, distando deste, também, a elocução com a pecha de preciosista.

Relativamente ao preciosismo (com o qual poderia parecer, mas não parece, o Abecedário Aliterante, por imposição compositiva das circunstâncias dificultosas de produção), não é ocioso exprimir haver sido recurso exercitado em algumas  sociedades literárias de França, no século XVII, também intensivamente criticado, conforme ainda sucede hoje, em que a preocupação ficava mais com a originalidade da forma, em detrimento do que se versava, com aplicação de linguagem figurativa quase constante.

Eis que, por extensão pejorativa da crítica, quer dizer exagero de afetação, elegância maneira, ausência de naturalidade; é o estado de espírito, caráter individual, cujos modos, linguagem e sentimentos da pessoa envolvem suavidade e refinamento postiço, irreal.

Para fecho do comentário, ilustra-se esta passagem, evocando-se o fato de que as participantes desse movimento, aparecido no Palácio de Catarina de Vivone, marquesa de Ramboilleut (1588-1665), eram conhecidas em França como preciosas, daí a denominação. Elas foram satirizadas na peça As Preciosas Ridículas, de Jean-Baptiste Poquelin, dito Molière (HOUAISS; VILLAR, 2001).

15 Parabéns aos Leitores

Por antecipado, nestes quatro versos, dirigem-se parabéns aos bons leitores, pelo fato, de ainda nas atuais circunstâncias desenvolvimentistas – quando as manifestações do espírito, mediante as artes e a literatura, se recolhem como jamais dantes, por conta da sobrelevação tecnológica – eles ainda procurarem apreciar as manifestações artisticas mediadas pela literatura poética.

16 Fulgurações da Rede Mundial de Computadores

Em adição ao item imediatamente anterior, reporta-se às fulgurações da Informática, mediadas pelo sistema mundial de computadores, incluindo, em especial, as redes sociais, que empanam e rejeitam as expressões espirituais.  Os consulentes, todavia, mesmo sob essas poderosas circunstâncias,  prosperam no respeito, cortesia e aplicação da l’arte de la poésie, a fim de abrandar a irradiação dos sofrimentos e da mágua, ao aquietar-lhe a propensão à ânsia e à constrição.

17 Agradecimentos

Neste quarteto, solicita-se que, por qualquer expediente ou veículo, o consultante, caso encontre um evento discrepante, resvalando para a incerteza, a incorreção e a inverdade, comente o ocorrido, de modo que, uma vez comprovado o lapso, seja possível consertar o escorrego e concertar (trazer à ordem exata) a construção frasal poética.

18  Pedido

De outra parte, pelo fato de se haver munido de muitos cuidados, também se requesta, aos ledores deste escrito, não se apressarem em apontar enganos, porquanto se impõe que examinem com desvelo as elaborações das estrofes e, somente após a detecção de erros e/ou impropriedades elocutórias, com absoluta convicção, informem suas reflexões conclusivas, a fim de se poder processar os ajustamentos necessários.

19-20 Desistência do Elucidário

Ab initio, se cogitou em oferecer, ao cabo da orquestração poemada do alfabeto português, um glossário dos termos de mais remoto emprego, com vistas a facilitar sua descodificação. Entendeu-se, entretanto, que, tirante melhor raciocínio, decerto, sobra mais racional deixar que o consultante, por si, demande os dicionários e se deleite com a riqueza polissêmica do código glossológico português, admiravelmente faustoso e sensacionalmente apaixonante.

1

Sói ser a inspiração apego, assesto

Certeiro às maravilhas desta Língua,

A qual não pode ser largada à mingua,

Tampouco maneada com doesto.

2

Aqui, neste poema abecedário,

Às anástrofes, às vezes se recorre

(Como às metáforas, também, se acorre)

Para inscrever seu rimado fadário.

3

Nestes decassílabos lusitanos,

Craveira petrarquista em que está,

Sua ordem consoa A-B-B-A,

Sancionada à extensão dos anos.

4

Nas metrificações agora expressas,

Cada um dos pés conta dez ictos,

Uma vez que os autores são evictos

De ordenações mais novas ou pregressas.

5

Acautelou-se, ainda, com desvelo,

Ao preparar-se a estese de uma lavra,

Cuidado de não repisar palavra

Conducente da peça ao desmazelo.

6

Por preferência – e desnecessidade –

Cada quadra foi rimada de per se,

De tal sorte que o fato não há de

Desalentar-lhe a aceitabilidade.

7

Socorre-se das aliterações

De Cruz e Sousa, vate compatrício,

No decurso de todo o exercício

Em maviosas contribuições. (1)

8

Em boa parte dos tropos (figuras)

Dessas estrofes se assentam os motes

Sejam (os consultores), pois, zelotes

Dos pés inteiros destas estruturas.

9

Sendo assim, cada letra do alfabeto

Constitui o arranjo de uma estância,

Com quatro versos e em observância

De um estreme Português correto.

10

A uma plateia bem apreendida

Reparar se roga para o aspecto –

Sem, no entanto, se mostrar prospecto

A obstar a leitura pretendida:

11

De que  das letras V, X e Z,  mormente,

De lacunoso e frugal glossário,

Inviável auferir corolário (elipse do verbo ser)

De construção frasal mais consequente.

12

Inevitavelmente, como tais,

Nos itens de alfabetação complexos

Aparentemente são seus nexos

Junjidos a estilos surreais.

13

Ex-vi, também, de densos obstáculos,

Exprimidos na falta de ensanchas (2)

Sobra forçoso alargar as canchas

Para expressar os teores vernáculos.

14

Há certas produções feitas à toa

De elocuções por demais esquisitas

Composições estranhas, inauditas,

Conforme o molde de Luiz Lisboa. (3)

15

Por conseguinte, leitor aprestado,

A ti levamos cordiais emboras,

Pelo fato de, ainda, nestas horas,

Às delícias do estro estar ligado,

16

Quando as fulgurações da Informática,

Súbito, enjeitam as cogitações

A serenar, ainda, os corações.

Sob a bendita inspiração temática.

17

Gratos, então, por esta cortesia,

Pedimos-te a nímia gentileza

De nos avisar da tua certeza

Se enganos encontrares na poesia.

18

Requestamos, aliás, na devoluta –

Porquanto bem previstos estes planos –

Não te apressares em indicar enganos

Sem a convicção absoluta.

19

Para melhor decodificação

De alguns termos de escasso emprego,

Poder-se-ía encontrar arrego

Em elucidário feito ilação.

20

Melhor raciocinando, entanto,

Decidimos  não fazer glossário

Para o leitor ir ao dicionário

E com sua língua se cobrir de encanto.

***

A

Antártida alvejam os albatrozes (4)

E em Aleganis alveiam adjacências

Amsterdam acolhe as aparências, (5)

Amansadas aves não atrozes.

B

Bendigo os bem-amados, bem-nascidos,

Bem-querentes, bem-postos, bendizentes,

Balizas de  bemóis beneficentes,

Bises de babilônios bem-trapidos.(6)

C

Como Ceres concede os cereais,

Cerdos cevados, corpudos carneiros,

Cada camarada, os companheiros,

Caminham sem cafangas (7) cardiais.

D

Destarte, a destra – domínio direito –

Didascalicamente dedicada –

Deflui não de destino com defeito:

Deriva de demanda devotada.

E

Expressão enviada ao Ente Eterno,

Evidência excedida de eficácia,

Expede o experimento  eviterno

Entregue à excelsa e eleita Engrácia.(8)

F

F na Física é força e frequência,

Fê, Fá, feito fã, fáxi frequente;

Fecundo fanal e  fluorescente,

Fausto febricitante de fluência.

G

Grafita guardada no gradil

Grafa grafites, grandevos gracejos

Grafitados por gurus gotejos,

Gnomos gratos em gestão gracil. (9)

H

Histórias de hostes humanitaristas,

Hercúleas, heráldicas e higiênicas,

Hegemônicas  quanto hemipolêmicas,

Historiam  os húmeis humoristas.

I

Ira irascível invadiu-me intensa, (advérbio)

Impôs-se, infame, de imediato,

Introduzindo-me, intimorato,

Inexprimível ideia, insânia  imensa.

J

Jeremias, jeremiou Jeremias,

Jubilado em Javeh, juradamente,

Jeoaquim-rei,  judio, justamente,

Jussivo, se justapôs a Josias. (10)

L

Lexicólogos, lestos lexicógraficos

Loquazes, leem as literaturas,

Lídimas e tão lícitas leituras,

Liberando-as a leitores lecto-agráficos.

M

Mandantes com mandatos malsinados

Manejam, manirrotos, os metais

Manifestamente manobrados,

(Manipulados) por moções mentais.

N

No nevoeiro, naco nacional,

Nunca, nonada nem nadou nitente

Nau da numisma e nume nubente

Numo nefasto do negror nadal. (11)

O

Ópio opíparo do opróbrio obreiro,

Ode ao odioso de opugnações,

Opúsculo opulento das operações

Ocorrentes no Orbe outrora ordeiro. (Brasil)

P

Patacudos políticos/patrões,

Patrocinados por partes potentes,

Puxam proventos para os proponentes

Pomposos pulhas, pelintras poltrões.

Q

Quiproquó quirógrafo, quizilado,

Que quimeriza a quota, o quinhão,

Quengo quedo sem qualificação,

Qual um quarteto quase quebrantado.

R

Refrão refrigerante, refrigério,

Refresco regozijo do regrado,

Reconstituinte e reduplicado

Reedição, recurso reparado.

 S

Sabe-se, sempre, à saciedade,

Sobre o ser sensabor do saberente;

Sabotador sabido, sagazmente,

Sáfaro solerte da sociedade.

T

Temperamento terno, temperante,

Tende, à testeira, ter tranquilidade;

Todo tendente à tenacidade

Tem um tempo tornado terminante.

U

Utilitária e usufrutuada,

Urbanidade é usança universal,

Ultramontana e ultralateral,

Ufaneadamente utilizada.

V

Vagabundos voláteis, virulentos,

Vândalos, vaporando-se vãmente,

Vagantes, vão viver, veementemente,

Velozes, vagamundos violentos.

X

Xampu do Xá, no Xauau e xabã,(12)

Xarapa em Xapecó (ou xarapim),(13)

Xerófilo xexeiro de Xaxim,

Xereta xexelento do xamã.

Z

Zorreiro zanzando em zunzunada,

Zurze-se o zuruó por zurupar,

Zurre o zunzunzum pra não zumbar,

Zureta é zumpado com zurbada.

N O T A S

1 Toda a composição – exceto as estâncias introdutórias – acompanha a produção Violões que Choram, de João da Cruz e Sousa, o Dante Negro, poeta catarinense da linha simbolista (Florianópolis 24.11.1861 – Pres. Antônio Carlos-MG, 19.03.1898): Vozes veladas, veludosas vozes,/Volúpias dos violões, vozes veladas,/Vagam os velhos vórtices velozes/Dos ventos, vãs, vulcanizadas.

2 Note o leitor o fato de que o verbo exprimir é abundante, entretanto, embora na opção aqui empregada (exprimido) esteja configurado o particípio regular, é de pouca aplicação, preferindo-se o formato irregular expresso. Muitas pessoas, aliás, pensam até que inexiste exprimido.

3 Maranhense, pseudo-poeta conhecido pela bestialogia A uma Deuza (sic), na qual comete uma série de desconchavos, com invenção de vocábulos até hoje não dicionarizados (ganírio, bartólio, pijom, rimpa, hartomogenério, calério e a maioria utilizada no soneto). Absolutamente ilegível, nem mesmo se pode dizer cuidar-se de peça de estilo preciosista – estilo configurado no emprego de termos pouco comuns, perífrases, metáforas e circunlocuções, rodeios, via de regra empregados por pessoas que intentam se exprimir ilustradas, mediante uma erudição que não possuem. (1 -Tu és o quelso do pental ganírio/Saltando as rimpas do fermim calério/Carpindo as taipas do furor salírio/Nos rúbios calos do pijom sidério. 2 – És o bartólio do bocal empírio/Que ruge e passa no festim sitério/Em ticoteios de partano estírio/Rompendo as gâmbias do hartomogenério. 3 – Teus lindos olhos que têm barlacantes/São camençúrias que carquejam lantes/Nas duras pélias do pegal balônio. 4 – São carmentórios de um carcê metálio/De lúrias peles em que pulsa obálio/Em vertimbáceas do pental perônio). Não escapole, também, dos autores deste trabalho a impressão de haver sido perpetrada uma brincadeira, chacota muito afeita a poetas.

4 Aqui se louvou na anástrofe ( sínquise ou, ainda, hipérbato), configurada na ordem de inversão de unidades de ideia no âmbito de um mesmo sintagma: na ordem direta – “Os albatrozes alvejam a Antártida”. (O oceano Glacial Antártico).

5 Neste verso, refere-se à ilha de Amsterdam, de procedência vulcânica, localizada no oceano Índico, porém com vulcão inativo. Os albatrozes-de-amsterdam, diversamente da espécie que habita o Antártico, são de plumagem escura. Os franceses denominaram a Ilha em homenagem à Capital do Reino dos Países Baixos.

6 No que pese a não haver registo deste vocábulo no VOLP em curso, empregou-se, sem recorrer ao expediente da licença poética, ao contrário da definição do  vocábulo malroupido, dicionarizado, igual a malvestido, maltrapilho, maltrapido, e perfeitamente dicionarizável.

7 Aplicada no senso de defeito, melindre, doença do coração, cardiopatia.

8 Alusão a Santa Engrácia de Zaragoza, mártir, santa das igrejas Católica e Ortodoxa, nascida em Braga – Portugal. Morreu na mencionada cidade espanhola, juntamente com outros 17 martirizados. Festa litúrgica em 16 de abril.

9 Gnomo – Dicção aplicada por Paracelso para os pequenos gênios deformados – anões -habitantes da Terra, por analogia com os thalassonómos, habitantes do mar.

10 Referências (esparsas) à Bíblia Sagrada, notadamente às Lamentações, de Jeremias. Nessa quadra, como a justificar a semi-indigência de b-b, consoando dois advérbios de modo, no primeiro verso, estão um adjetivo – este de pouquíssimo emprego – jeremias (= queixoso, lamuriante), o verbo jeremiar (= queixarse, lastimar-se) e o nome próprio Jeremias (o Profeta). Alusão é procedida a Jeoaquim, o mesmo Eliakim – décimo oitavo rei de Judá, filho de Josias, irmão de Joacaz. Joaquim (não Jeoaquim) é o mesmo Jeconias – décimo nono rei de Judá.

11 No negror natal, de sua terra, de onde nasceu.

12 Xauã é o décimo mês, de 29 dias, do calendário islâmico. Xabã é o oitavo, também com igual número dos dias.

13 Xapecó e Xaxim são municípios do Estado de Santa Catarina. 167 mil e 28 mil habitantes. Malgrado se veja, amiúde, a formação Chapecó, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa não regista esta esta grafia equívoca.

REFERÊNCIAS

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AZEVEDO, Sânzio de. Para uma Teoria do Verso. Fortaleza: Edições UFC, 1997.

AZEVEDO, Sânzio de. Poesia de todo o Tempo. Fortaleza: Edições Clã, 1970.

CAMPOS. Geir Nuffer. Pequeno Dicionário de Arte Poética. Rio de Janeiro: AGIR, 1960.

CARVALHO, Amorim de. Tratado de Versificação Portuguesa. Coimbra: Almedina, 1991.

CATUNDA, Márcio. Na Trilha dos Eleitos. Rio de Janeiro: Komedi, 2001.

HOUAISS, Antônio; VILLAR SALLES, Mauro. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Objetiva, 2005.

MESQUITA, Vianney. Arquiteto a Posteriori. Fortaleza: Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, 2013.

MESQUITA, Vianney. Esboços e Arquétipos. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2016.

NASCIMENTO, F.S. Teoria da Versificação Moderna. Fortaleza: Programa Editorial da Casa de José de Alencar – Universidade Federal do Ceará, 1995.

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