ACADEMIA CEARENSE DA
LíNGUA PORTUGUESA

dulcisonam et canoram linguam cano

ACLP define data de escolha da nova Diretoria – Hora do Vernáculo discute BNCC

Italo Gurgel

A Academia Cearense da Língua Portuguesa (ACLP) realizou nessa quinta-feira, 3, através de plataforma virtual, sua reunião ordinária do mês de setembro. Na ocasião, foi marcada para o dia 8 de outubro a realização da assembleia geral que elegerá a nova Diretoria da entidade para o biênio administrativo 2020/2022.

Na Hora do Vernáculo, a acadêmica Eulália Leurquin (Cadeira nº 33) apresentou trabalho de sua autoria e da confreira Margarete Fernandes (Cadeira nº 13) sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que define o conjunto de habilidades e competências a serem desenvolvidas por todo jovem brasileiro ao longo de sua vida escolar.

A BNCC começou a ser discutida em 2015, tendo recebido milhares de contribuições em consultas e audiências públicas. A sociedade participou com mais de 12 milhões de contribuições na primeira versão, sendo que metade delas veio de 45 mil escolas. Em 2016, a segunda versão viajou por todos os estados. Através de seminários estaduais, cerca de 9 mil pessoas, entre educadores e alunos, debateram o documento em detalhes. Em abril de 2017, a terceira versão foi entregue ao Conselho Nacional de Educação (CNE), que ouviu opiniões em uma nova rodada de seminários regionais. Por fim, em dezembro de 2017, a BNCC foi homologada pelo MEC e passou a vigorar em todo o Brasil.

Segue-se o texto apresentado ontem pela Profª Eulália Leurquin:

A Base Nacional Comum Curricular: uma reflexão introdutória sobre língua portuguesa

Eulália Leurquin (Cadeira nº 33) e Margarete Fernandes (Cadeira nº 13)

  1. Considerações gerais sobre a Base Nacional Comum Curricular

A  Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é apresentada como um documento de caráter normativo. Ela “define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica”. (BRASIL, 2017, p. 7)

De acordo com esse documento, a língua portuguesa é um dos componentes curriculares, mas também é o idioma dos brasileiros. Entender que ela possui dupla função é um avanço significativo que pode trazer desdobramentos importantes para a sala de aula. Enquanto idioma, ela é também parte da cultura do povo, identidade linguística do brasileiro, responsável pelas interações e pela aprendizagem de todos os componentes curriculares e organizadora do pensamento; representa uma nação e a nação se representa nela e através dela. Conhecer a língua possibilita lutar, em melhores condições, pelos direitos. Enquanto um componente curricular, a língua portuguesa precisa ser aprendida. Talvez, a sua primeira função seja a maior justificativa para a existência da segunda.

Língua portuguesa faz parte da área Linguagens e suas tecnologias, juntamente com os componentes curriculares Arte, Educação Física e Língua Estrangeira (a língua inglesa). Na apresentação do componente curricular língua portuguesa, observamos o destaque dado para as práticas de linguagem leitura/escuta, oralidade, produção de texto e análise linguística/semiótica. Estas práticas de linguagem estão situadas em contextos sociais, alinhados aos cinco campos de atuação (Campo da vida cotidiana, Campo artístico-literário, Campo das práticas de estudo e pesquisa, Campo da vida pública e Campo jornalístico-midiático). Nelas, acontecem as interações de onde emergem textos (orais, escritos e multissemióticos) nos diferentes gêneros textuais.

Ao apresentar este formato de organização das práticas de linguagem, a BCNN apresenta o texto como a centralidade do ensino e aprendizagem, ratificando a posição tomada pelos PCN, em 1998. Assumindo tal posicionamento, o documento expõe os objetos de conhecimentos e as trezentas e noventa e quatro habilidades que devem estar alinhadas aos dez objetivos específicos de língua portuguesa. Destacamos aqui o objetivo que ressalta a concepção de língua adotada neste documento:

Compreender a língua como fenômeno cultural, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso, reconhecendo-a como meio de construção de identidades de seus usuários e da comunidade a que pertencem. (BRASIL, 2017, p. 87) (grifos nossos)

Compreender a língua como um fenômeno mutável, a depender de seu contexto, e como meio de construção de identidade está completamente coerente com a proposta de ensino e aprendizagem apresentada a partir da introdução deste documento. Proposta que está muito bem marcada na apresentação das práticas de linguagem e alinhada aos demais componentes constitutivos da BNCC.

O recorte necessário que fazemos, neste momento, mostra o apagamento do ensino da gramática e faz sobressair a prática de análise linguística, terminologia e ação adotadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais e agora ampliada – Análise linguística/Semiótica. Ao trazer a semiótica para a discussão, é sugerida uma revisão da própria concepção de texto. O argumento que dá base a esse posicionamento aponta para o fato de que o ensino da gramática distante da funcionalidade da língua não contribui para ampliar as competências comunicativas.

  • Configuração da prática de linguagem Analise linguística/Semiótica

A prática de linguagem Análise Linguística/Semiótica se apresenta de maneira articulada com os dois eixos: Leitura e Produção de texto. Esta articulação garante que o ensino da língua aconteça de maneira contextualizada, porque a atividade de Análise Linguística/Semiótica 

 envolve os procedimentos e estratégias (meta)cognitivas de análise e avaliação consciente, durante os processos de leitura e de produção de textos (orais, escritos e multissemióticos), das materialidades dos textos, responsáveis por seus efeitos de sentido, seja no que se refere às formas de composição dos textos, determinadas pelos gêneros (orais, escritos e multissemióticos) e pela situação de produção, seja no que se refere aos estilos adotados nos textos, com forte impacto nos efeitos de sentido. (BRASIL, 2017, p. 77).

A partir desse entendimento, precisamos estar atentos a três orientações:

  1. Formas de composição dos textos (coesão, coerência e progressão temática e ritmo, altura, intensidade, clareza de articulação, variedade linguística adotada, estilização etc. –, assim como os elementos paralinguísticos e cinésicos – postura, expressão facial, gestualidade etc);
  2. Estilo (léxico e de variedade linguística ou estilização e alguns mecanismos sintáticos e morfológicos);
  3. Textos multissemióticos formas de composição e estilo de cada uma das linguagens que os integram (cor, plano/ângulo/lado, figura/fundo, profundidade e foco, cor e intensidade nas imagens visuais estáticas, acrescendo, nas imagens dinâmicas e performances, as características de montagem, ritmo, tipo de movimento, duração, distribuição no espaço, etc).

Um outro esclarecimento relevante feito pela BNCC vai tratar dos conhecimentos grafofônicos, ortográficos, lexicais, morfológicos, sintáticos, textuais, discursivos, sociolinguísticos e semióticos. De acordo com as orientações dadas, estes conhecimentos estão, concomitantemente, sendo construídos a partir das práticas de Leitura/Escuta e Produção de textos que oportunizam situações de reflexão sobre a língua e as linguagens

(…) em que essas descrições, conceitos e regras operam e nas quais serão concomitantemente construídos: comparação entre definições que permitam observar diferenças de recortes e ênfases na formulação de conceitos e regras; comparação de diferentes formas de dizer “a mesma coisa” e análise dos efeitos de sentido que essas formas podem trazer/ suscitar; exploração dos modos de significar dos diferentes sistemas semióticos etc. (BRASIL, 2017, 79).

O passo mais adiante do ensino e aprendizagem da língua portuguesa, quando enfatizamos a Análise linguística/Semiótica, também faz emergir a necessidade de pensar os campos dos conhecimentos linguísticos e, assim sendo, ampliar o olhar sobre esta atividade de linguagem. Eles estão relacionados à ortografia, à pontuação, aos conhecimentos gramaticais (morfológicos, sintáticos, semânticos), entre outros, e são apresentados de maneira a articular habilidades, eixos e conhecimentos, conforme podemos observar no exemplo seguinte.

Exemplo:

Morfosintaxe

• Conhecer as classes de palavras abertas (substantivos, verbos, adjetivos e advérbios) e fechadas (artigos, numerais, preposições, conjunções, pronomes) e analisar suas funções sintático-semânticas nas orações e seu funcionamento (concordância, regência). • Perceber o funcionamento das flexões (número, gênero, tempo, pessoa etc.) de classes gramaticais em orações (concordância). • Correlacionar as classes de palavras com as funções sintáticas (sujeito, predicado, objeto, modificador etc.

Como podemos observar, as articulações entre as práticas de linguagem com os demais elementos apresentados em nossas reflexões precisam ser feitas. O grande desafio do professor parece ser, justamente, saber como assegurar as articulações, mobilizando um saber para ensinar, sem perder de vista as especificidades do saber ensinar.

Como podemos constatar, há uma proposta renovada para o ensino e aprendizagem da língua portuguesa desenhada na BNCC. Ela é ousada, complexa e depende de muitos fatores para que possamos obter resultados positivos.

Nesta reflexão, optamos por priorizar a prática de linguagem Análise linguística/semiótica, sem desmerecer as demais práticas, pois elas precisam ser refletidas.

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