Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1)

FREI HERMÍNIO BEZERRA OLIVEIRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 27

INFORMAÇÃO PRELIMINAR

Com tantos problemas que já temos, o assunto Acordo Ortográfico torna-se secundário. Mas tem o seu valor. Por isso, a ACLP abre espaço para uma série de 10 postagens, abordando o assunto de modo sucinto, claro e objetivo.

Será apresentado o essencial do Acordo: pontos obscuros, as dificuldades, o fracasso no seu objetivo principal, que era unificar a língua na sua grafia, em todos os países em que ela é a língua oficial.

Roteiro dos assuntos a serem abordados:

01 – Informação Histórica sobre o português – Os três Acordos
02 – Divergências e omissões do Acordo Ortográfico
03 – A confusão criada com grafias diversas
04 – Acento duplo opcional
05 – A Grafia dupla opcional e suas contradições
06 – Termos advindos da mesma raiz com exceções
07 – A confusão no uso do hífen
08 – Palavras que podem vir a ser escritas com k, w, y
09 – Diferenças entre o VOLP de Portugal e o do Brasil
10 – Erros, limitações e palavras que faltam no VOLP.

Estas postagens são elaboradas por Frei Hermínio Bezerra de Oliveira, membro desta Academia, com supervisão do jornalista Zacharias Bezerra de Oliveira, da Academia de Letras de Crateús. Email para observações: freiherkol@yahoo.com.br 

AS FONTES USADAS:

OLIVEIRA, Frei Hermínio Bezerra de, e Zacharias Bezerra de – Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Editora Expressão Gráfica, Fortaleza, 2009

_________, Frei Hermínio Bezerra de, e Zacharias Bezerra de Acordo OrtográficoVocabulário das Palavras Modificadas. Edi. Armazém da Cultura, Fortaleza, 2012.

GALVÃO, Ramiz, Vocabulário Etimológico da Língua Portuguesa, Livraria Garnier, Rio de Janeiro, 1994.

VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Editora Global, 5ª edição- São Paulo, 2009.

VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, Editora Porto, (Porto) Portugal, 2009.

INFORMAÇÃO HISTÓRICA SOBRE O PORTUGUÊS

Portugal teve seu início, como povo, em 1139, com o pequeno Condado – região administrada por um Conde – com dois povoados: Porto e Coimbra. O início da língua portuguesa deu-se por volta de 1189, segundo Carolina Michaelis. Nossa língua é oriunda do galego, língua da Galícia. A etimologia mostra que 80% de nossas palavras vêm do latim, 16% do grego e 4% de outras línguas: sânscrito, gótico, árabe, provençal, espanhol, tupi, bantu, ioruba, hebreu, alemão, francês, inglês, italiano, holandês…

Até 1400 nossos documentos oficiais eram escritos em latim popular. Foi Fernão de Oliveira quem, em 1536 fez a primeira Grammatica de Lingoagem Portogueza. Passaram-se séculos sem que se cuidasse de organizar normas relativas à escrita e à pronúncia. Somente em 1904, o português Aniceto dos Reis G. Viana lançou o livro: Ortografia Nacional, onde ele propõe que se organize a grafia pela pronúncia e não pela etimologia. Assim se eliminam ou grupos: ll, ph, rh, th… de origem latina e grega.

A Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897, criou uma resolução concernente às publicações oficiais, em 1907, com 09 pontos, seguindo a etimologia. Em 1911, Portugal organizou uma série de normas, conforme a proposta de Aniceto dos Reis, seguindo a eufonia. O Brasil recebeu estas normas com relutância, e só adotou-as em 1915. Pressões da Academia Brasileira de Letras e de Universidades levaram o governo a abolir estas normas em 1919.

OS ACORDOS ORTOGRÁFICOS

I Acordo – A partir de 1929 foi criada uma Comissão luso-brasileira para criar normas para o uso da língua portuguesa em todos os países lusófonos. O Acordo foi selado em 1931. Este Acordo basicamente adotou a proposta de Aniceto dos Reis com normas privilegiando a eufonia, além de eliminar do alfabeto as letras: k, w, y. Em 1932 ocorreu a Revolução Constitucionalista e a Constituição de 1934 determinou que a ortografia do português no Brasil fosse a da Constituição de 1891.  Com isso voltamos à grafia de 1891 com as normas propostas pela ABL em 1907.

II Acordo – No início de 1940 Portugal e Brasil criaram uma Comissão para elaborar normas para um Acordo Ortográfico. Após longas discussões o Acordo de 1945, teve um impasse, pois o grupo do Brasil, antes adepto de uma organização pela etimologia = escrever conforme a origem das palavras, passou a dar prioridade à eufonia = escrever conforme se fala e Portugal antes adepto da organização pela eufonia passou a priorizar a etimologia. Esta dificuldade foi resolvida aceitando-se  palavras com dupla grafia e com duplo acento, opcionais. Assim, o Acordo que pretendia unificar, dividiu, criando as línguas: português e brasileiro.

III Acordo – No final da década de 1980 – pela 3ª vez – criou-se uma Comissão para a unificação da língua portuguesa. Dessa vez com a participação de 7 dos 8 países lusófonos, fora Timor Leste. O Acordo foi selado em 1990. Com XXI Bases, com 162 normas, sendo 141 delas, normas do II Acordo. Como novidades temos: a) a inclusão acertada em nosso alfabeto das letras k, w, y (retiradas em 1931); b) a lamentável abolição do trema, coisa que Portugal já tinha feito em 1945; c) a confirmação do acento  e da grafia duplos, que confirmam o fracasso no objetivo do Acordo Ortográfico, a unificação da língua portuguesa.

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