Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (2) – DIVERGÊNCIAS E OMISSÕES

FREI HERMÍNIO BEZERRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 27

É algo inútil discutir regras de gramática, pois segundo Heinrich Cornélius Agripa *1486 †1534, elas são capricho dos gramáticos que legislam. Ele desafia: O melhor gramático latino não será capaz de explicar logicamente, qual a razão do genitivo de Jupiter ser Jovi e não Jupiteris. (Como: Lucifer, luciferis = estrela da manhã: pulver, pulveris = pó;vésper, vesperis = noite (para César), tarde (p/ Cícero). (Cf. De Incertitudine et Vanitate Scientiarum (1529) = Tratado da Vaidade das Ciências).

A 1ª observação e crítica que eu faço é a autossuficiência e onipotência da Comissão. O texto da Comissão deveria ter sido enviado a Universidades, a Academias de Letras e estudiosos da língua, com solicitação de sugestões. E com certeza receberia boas e oportunas contribuições. O texto do Acordo Ortográfico tem limitações e inconsistências que poderiam ter sido evitadas. 

A 2ª constatação é um lapso curioso da Comissão, na Base XVI, 1 a OBS: Não se usa hífen com os prefixos des- e in-  quando o 2° elemento perdeu o “h” inicial.É curioso notar como ninguém na Comissão lembrou que o prefixo re- está incluído nesta norma, em palavras como: reabilitação, reabitação, reidratação e outras. Por isto, a consulta ao público interessado é muito importante.

A 3ª crítica é a criação de exceções injustificáveis por capricho da Comissão.  No uso do hífen – o ponto mais confuso do Acordo – e será tratado na postagem 08. A Base XV, 6 diz: Nas locuções de qualquer tipo, – em que há um elemento de ligação como (de, da, com, que) – não se emprega o hífen. Exceto:  água-de-colónia, arco-da-velha; cor-de-rosa, mais-que-perfeito; pé-de-meia… A razão dada: “são exceções já consagradas pelo uso”. Como “exceções” já consagradas, se são exceções que eles criaram? Expressões consagradas iguais a estas, elevadas a exceções, o leitor lembra facilmente: lua de mel, guia de cego, leva e traz, língua de trapos, mão de vaca, olho de sogra, pai dos burros, pé de moleque, queda de braço, véu de noiva, vira e mexe…    

A 5ª dolorosa lamentação é a eliminação do trema no português, (Base XIV). O termo é grego: τρῆμα = ponto. Consta de dois pontos postos em cima de uma vogal. A vogal tremada deve ser pronunciada separada e distintamente, pois ela não faz ditongo com a vogal ao lado. O trema é importante no português? Sim, pois sem ele, muitos pronunciam erradamente numerosas palavras. Exemplo: aghentar, akífero, bilínghe, caghetar, delinkente, ekestre, elokente, frekente, inikidade, kinkênio, kiproquó, linghiça, sanghinário, sekela, sekestro, trankilo, unilínghe… Sem o trema numerosas palavras serão deturpadas e até ficarão irreconhecíveis.

Email para observações: freiherkol@yahoo.com.br

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