Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (3) – A CONFUSÃO CRIADA COM GRAFIAS DIVERSAS

FREI HERMÍNIO BEZERRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 27

Uma língua na sua expressão falada e escrita é organizada pela etimologia e pela fonética. A etimologia baseia-se na origem das palavras, a eufonia segue o modo como são pronunciadas as palavras. Embora os dois sistemas estejam presentes em qualquer língua, o comum é que um deles predomine sobre o outro.

O francês começou a organizar-se ainda no século XVII dando ênfase à etimologia, por isso ele tem tanto PH, RH, TH, oriundos do grego, do latim, do frâncico e do celta. Línguas que se organizaram mais tardiamente como o espanhol e o italiano fizeram opção pela fonética. Nenhuma língua usa meio a meio etimologia e fonética. (Cf. E. Banfi – N. Grandi, Lingue D’Europe, Ed. Carocci, Roma, 2003, pp 41-59).

O português – como já vimos – só começou elaborar normas quanto à grafia e à pronúncia, na primeira década do século XX. Até então prevalecia a etimologia e por isso, escrevia-se: cysne, lágryma, lýrio, cavallo, gallo, propheta, pharmácia, philosophia, rhombo, rhonco, theologia…  A primeira proposta oficial veio de Portugal em 1912 e privilegiava a eufonia. Esta foi recebida no Brasil com reserva, mesmo assim, foi adotada em 1915, mas foi cassada em 1919.

O I Acordo Ortográfico de 1931 adotava a eufonia como padrão, mas saiu de uso 1934. O II Acordo Ortográfico foi desastroso, pois Portugal, até então adepto da eufonia, passou a adotar a etimologia e o Brasil, simpático à etimologia, optou pela eufonia. Como nenhuma das partes cedeu, o Acordo foi assinado dando liberdade a cada parte de adotar a eufonia ou a etimologia. Além de criar duas línguas, uma em Portugal e outra no Brasil, ele tem duas datas: 1943 no Brasil e 1945 em Portugal.

O III Acordo Ortográfico, de 1990, só foi adotado em fase experimental em 2009 para entrar em vigor em 2013, mas só entrou em vigor em 01/01/2016. Embora o texto não diga explicitamente, deduz-se pelo conteúdo e a duplicidade de normas, que houve o mesmo impasse do II Acordo, entre etimologia e eufonia. Como nenhuma parte cedeu, a solução foi a mesma: normas duplas e cada país faz como quiser. Foi obnubilado o sonho da unificação da nossa língua portuguesa.

O normal é que haja uma opção clara pela etimologia (como fez o francês), ou pela eufonia (como fez o italiano). O sistema “misturado” do III Acordo Ortográfico, desagrada tanto à “senhora etimologia”, quanto à “senhora eufonia”. Normas contra a unificação: 1 – Base IV, 1 c: Conservam-se ou eliminam-se facultativamente… (consoantes)… Ex.: facto, sector (PT) ou fato, setor (BR). 2 – Base VIII, 1 a, OBS: metro, judo (PT) e metrô, judô (BR). 3 – Base IX, 2 a, OBS: Admite a duplicidade: sémen, fémur (PT) e sêmen, fêmur (BR). A mesma coisa na Base IX, 2 b, OBS: pónei, ónix (PT) e pônei. ônix (BR). Note-se: o estranho é que em – contradictio in terminis –  as OBS, anulam as normas dadas. 4 – Base XI, 3, diz: Levam acento agudo ou circunflexo as palavras proparoxítonas… (que em Portugal têm pronúncia aberta e no Brasil fechada). Exemplo: acrimónia, acrónimo (PT) e acrimônia, acrônimo (BR). Esta última norma é de todo inútil, já que não é possível controlar pronúncia, pois as regras dadas não conseguem determinar fielmente a eufonia de uma palavra.

 Voltarei a este assunto, com exemplificações nas duas próximas postagens.

Email para observações: freiherkol@yahoo.com.br 

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