Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (4) – O ACENTO DUPLO OPCIONAL

FREI HERMÍNIO BEZERRA OLIVEIRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 27

Em português o acento indica a sílaba forte na pronúncia da palavra. Não há razão plausível para o duplo acento. O tipo de acento – grave, agudo ou circunflexo – não influi na norma. A única explicação para esta regra está na birra e no capricho das partes, em não ceder e ainda faltou imaginação, pois a questão poderia facilmente ter sido resolvida por sorteio ou no par ou impar. Uma geração – no Brasil ou em Portugal – ia lamentar até se habituar à norma.

Com qualquer acento, a ênfase na fala é na sílaba acentuada. É uma questão de convenção. O nosso ponto e vírgula (;) é o ponto de interrogação em grego. Para os espanhóis é estranho que o português não coloque o ponto de interrogação invertido, antes de frase interrogativa. O francês escreve Pelé, mas pronuncia Pelê. Em português convencionou-se que um “s” entre duas vogais têm som de “z”, em espanhol não têm uma só palavra com “ss”  e não se faz confusão quando um “s” está entre duas vogais.

A Base VIII, 1 a, OBS institui o acento duplo (agudo ou circunflexo) em muitas palavras oxítonas terminadas em “e” tônico/tónico, em geral provenientes do francês. Exemplos: balancê ou balancé. baumê ou baumé; bebê ou bebé; bidê ou bidé; bilboquê ou bilboqué; cachê ou caché; cachenê ou cachané; canapê ou canapé; comitê ou comité; crochê ou croché; fricassê ou fricassé; giroflê ou giroflé; glacê ou glacé; glissê ou glissé; guichê ou guiché; guilochê ou guiloché; macramê ou macramé; matinê ou matiné; negligê ou negligé; nenê ou nené; patê ou paté; pavê ou pavé; purê ou puré. O Acordo aprova duas grafias e duas pronúncias (aberta em Portugal e fechada no Brasil).

O Acordo não menciona exceções a esta regra, mas pelo que consta no VOLP (2009), (Brasil) e no VOLP (2009), (Portugal), as palavras: consomê, flambê, laquê e negligê – que se enquadrariam nesta regra – têm apenas acento circunflexo. Ainda: a palavra “negligé” não consta no VOLP do Brasil, mesmo se está numa música de Nelson Gonçalves. Ainda, frapê (bebida gelada), só consta no VOLP do Brasil.

Vale ainda registrar o caso de duas palavras advindas do francês, que pelo uso já poderiam estar neste grupo, mas que constam em ambos os VOLP como estrangeiras: habitué = frequentador assíduo, e démodé = fora de moda, ultrapassado.

Após os exemplos de palavras terminadas em “e”, o texto emenda: O mesmo se verifica em formas como: cocó e cocô; ró e rô (17ª letra do alfabeto grego). O livro, Ortografia em mudançaVocabulário (ILTEC), Edit. Caminho, Rio Tinto, Portugal, 2008, traz duplo acento em palavras japonesas como, caratê e caraté; saquê e saqué. Aparecem com acento duplo palavras de origem tupi como: sapê e sapé (capim); sofrê e sofré (ave); tembê e tembé (grupo indígena tupi). Aparece com acento duplo até a palavra  grega: νηνία = nênia e nénia (canto fúnebre da Frígia).

Acho que basta, para sinalizar a grande confusão armada pelo III Acordo Ortográfico, com relação ao duplo acento. Seria repetitivo e fatigante expor a Base IX, 2, a Obs, que permite: sêmen ou sémen; xênon ou xénon, fêmur ou fémur… Bem como a Base XI, 3, permitindo: afônico ou afónico; biônico ou biónico; daltônico ou daltónico… Neste caso são milhares de palavras. E ainda temos que lutar contra a (in)correção automática dos laptops que no Brasil só aceitam o (^) e em Portugal o (´).

Para comentários: freiherkol@yahoo.com.br

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