ACADEMIA CEARENSE DA
LíNGUA PORTUGUESA

dulcisonam et canoram linguam cano

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (6) – TERMOS ADVINDOS DA MESMA RAIZ COM EXCEÇÕES

Frei Herminio

FREI HERMÍNIO BEZERRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira 27

Este é um ponto intricado e intrigante pelo fato do texto do Acordo não falar de modo explícito nele. Toma-se conhecimento do mesmo consultando a listagem VOLP = Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que é a relação oficial das palavras da língua. Problema: o VOLP mais recente é de 2009 e além disto, existem dois – um em Portugal e outro no Brasil – mas eles não são iguais. O que prova a não unificação da língua portuguesa. Trataremos dos VOLP (Brasil e Portugal), na postagem 09.

Vejamos palavras com os prefixos: eletro; nic/noc: noite; omni/oni: tudo/todo.

Existem cerca de 300 palavras iniciadas com o termo élektron (do grego, ἤλεκτρον), e do latim, electrum = electro. Nestas palavras nós temos três variações:

  1. a) grafia dupla: electrocirurgia ou eletrocirurgia; electrocópia ou eletrocópia;
  2. b) grafia única sem o c como: eletricidade, eletricismo, eletricista, eletricitário, eletrocísão, eletropirexia, eletrorradiologia, eletroválvula;
  3. c) grafia única com o “c” como: electrocirurgico, electrocopista, electofotófuro.

Cerca de 200 destas palavras estão no primeiro caso, admitindo a dupla grafia.

Como se explica esta tríplice grafia em palavras da mesma raiz? Não me parece que se enquadrem nos casos justificados: eufonia, homonímia e exceções consagradas.

Palavras com os prefixos (grego e latino), de noite. Em grego: νύξ, νυκτός = noite, daí temos: nictalopia, nictemeral, nictobata, nictofilia, nictofobia, nictúria… nenhuma tem forma dupla. Os termos derivados de nox, noctis = noite (que o latim foi buscar no grego) têm três modos diversos de grafia:

  1. a) grafia dupla, com e sem c: noctâmbulo ou notâmbulo e noctívago ou notívago;
  2. b) grafia sem o c: noturnal, noturnância, noturnidade, noturnizar e noturno.
  3. c) grafia só com c: noctífilo, noctífloro, noctífobo, noctífugo, noctívolo e noctúria.

Outro caso curioso é o das palavras com o prefixo latino omni = tudo/todo.

a)Têm grafia dupla: ômnibus ou ônibus; omnicolor ou onicolor; omnidirecional ou onidirecional; omniforme ou oniforme; omnilíngue ou onilíngue; omnímodo ou  onímodo; omnipalrante ou onipalrante; omniparente ou oniparente; omnipessoal ou onipessoal; omnipotência ou onipotência; omnipresença ou onipresença; omnisciente ou onisciente; omniscópio ou oniscópio; omnissapiência ou onissapiência; omnividência ou onividência; omnivoracidade ou  onivoracidade; omnívoro ou onívoro.

  1. b) Têm grafia única somente com oni: onifulgente; onifulgor; onígrafo; onipatente; oniprodutivo; oníssono; onívago e onívomo. Mas há divergências entre os dois VOLP.

Por quê? Qual o critério para tantas grafias em termos vindos da mesma raiz?

O dicionário de A. Houaiss (2009) no termo omni diz: ver oni e traz todas estas palavras só com oni. Para dirimir tantas divergências é preciso usar como livro de bolso o VOLP, que mede 28×20 centímetros, tem 877 páginas e pesa de 2,05 kg.

Portugal segue dando primazia à etimologia e o Brasil à eufonia. Uma sobrinha minha estudou no Ceará até terminar o segundo grau. Fez a prova de acesso para cursar Letras na Universidade de Vitória, no País Basco (Espanha). Escolheu o português (como língua estrangeira), mas quase foi reprovada, pois o professor que corrigiu a prova era de Portugal e tinha outro modo de conceber a nossa língua.

Email para observações: freiherkol@yahoo.com.br

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