Autocídio frustrado

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37, tendo como patrono Estêvão Cruz.

É próprio do covarde desejar a morte.
(Públio OVÍDIO Nasão).

Agora, quando perfaz o tempo de 50 anos da edição do Ato Institucional número 5 (13 de dezembro de 1968), transfiro esta estória – sem ocorrência confirmada, é claro – de um rapaz de 24 anos que, de mal com a vida, tentava de todas as maneiras perpetrar a autoinflição. Em decorrência, entretanto, de circunstâncias alheias à sua vontade, por mais que tenha tentado, esta não se consumava.

Experimentou, por várias vezes, operar o auto-óbito, mas sem sucesso para seu decesso. Em certa oportunidade, achou de contar a melódia para alguns elementos de sua matula, alguns dos quais bastante gaiatos – coisa, aliás, consabida como muito comum da molecagem cearense – que conversavam na calçada d’A Miscelânea, na rua Pedro Borges, Praça do Ferreira, em Fortaleza. Isto sucedeu no dia 19 de dezembro do ano à frente expresso, quando se desenvolviam as preliminares natalinas de enfeites das ruas e ornato das coisas em preparo para as circunstâncias de final de ano.

Corria, vagaroso, o fatídico 1968, com a ocorrência de motos populares em todo o Mundo – principalmente em França, e na China, no terceiro ano da Revolução Cultural empreendida por Mao-Tse-Tung, desde 1966 e estendida a 1976.

No Brasil, transcorria o quinto aniversário da gloriosa, no fim do qual fora assinado o citado e famoso AI – 5, componente mais pesado dos 17 decretos firmados durante o governo civil-militar instalado em 1964. O chamado golpe dentro do golpe, pelo jornal Correio da Manhã, teve a assinatura (com o polegar direito, almofada e mata-borrão perto – diz a rafameia do PSD) encabeçada pelo presidente, Marechal Arthur da Costa e Silva, acolitado por seu Ministério. (Os estudantes do Liceu, que andavam nos ônibus do seu Oscar Jathay Pedreira, diziam que o Marechal só andava com as mãos nos bolsos, exatamente, para conservar a ditadura!)

O Elisiário, protagonista desta estória, contabilizara no passivo uma série de desencantos, como o passamento do Eliseu, seu irmão, a perda do emprego nas Lojas Novail, onde trabalhara por seis anos, e algumas outras decepções carregadas, como o “belo par” com o qual a ex-namorada, Ritinha, havia enfeitado sua cabeça, principalmente (veio a saber, depois, pelo Fernando Siqueira) porque, dissera ela, o pretexto ter sido a quebradeira que, de inopino, se abatera sobre o Filho do seu Elísio, agora liso.

Naquele tempo, há cinquenta anos, Fortaleza ainda não era essa metrópole toda, como ocorria com Recife, Salvador e BH, por exemplo. Não tinha supermercado, a não ser o Sino, na rua 24 de Maio, tampouco agência de banco, senão no Centro, Tv em cores, aparelho celular etc. Edifícios – então – “altos” somente o IAPC, São Luís, Diogo e Sul-América. Nessas circunstâncias, a negrada ainda tinha a oportunidade de frequentar a Festa na Caiçara, do Augusto Borges, na PRE-9 (rua Sena Madureira) e o Fim de Semana na Taba  (Irapuan Lima – Rádio Iracema), como também de cursar as conversas ali, na frente do São Luís, na porta da A Espingarda, na calçada da Cabana, nos bancos da mais famosa praça da Capital – perto da Coluna da Hora etc. etc.

Nas lérias que mantivera com seu pessoal em frente à A Miscelânea, há pouco referidas, Eli, tocado profundo pelos dissabores e mágoas a si impostos como um fado, disse que, certa vez, no seu primeiro tentame à busca da Foice, deu cem mil cruzeiros a um amigo que trabalhava como contínuo na Faculdade de Medicina da então Universidade do Ceará para subtrair de um pesquisador de lá, fora do expediente, um frasco com  estricnina (C21 H22 N2 O2). Seria termo vital certo, sem nenhuma dúvida, ao ingerir esse mortal alcaloide cristalino!

Tomou e, enquanto pedia perdão a Deus por ato tão insólito, ficou esperando os efeitos letais do chumbinho, os mal-estares, os embrulhos, tonturas, dores, angústias, macacoas de toda ordem; e a queda derradeira …; mas, cadê? Parecia haver ingerido água!

Eis que, no outro dia, o conhecido do Eli viu o morfologista (meu amigo da UFC; Deus o tenha!) e professor doutor Aprígio Mendes Filho (conhecido como Carcará), procurando feito louco a proveta com um dos líquidos de seu experimento! O menino, em vez de pegar o veneno propriamente dito, recolheu foi o vaso com a preparação neutra, sem qualquer efeito farmacológico, o que em pesquisa científica da área se chama placebo.

Deitou-se, uma vez, às sete da manhã no meio da avenida João Pessoa, esquina com o Beco do Segundo (rua Prof. Costa Mendes), ali perto da casa do meu co-palmaciano, pintor e ator Ivani Gomes, para ver se, pelo menos, uma das camionetas da Parangaba o estraçalhava; todos, porém, paravam e, já naquele tempo, causou enorme engarrafamento, principalmente, de ônibus e camiões, passando pelo Bar Avião e indo até o começo da Sete de Setembro, perto da Igreja-matriz da Paróquia de Bom Jesus dos Aflitos.

No terceiro ensaio, Elisiário muniu-se de uma corda grossa, quase um camelo, subiu numa goiabeira do quintal de sua casa, amarrou ao pescoço e pulou. Levou boa queda, porém o cabo não lhe acochou o gargalo: além de o cordame ser comprido e muito fornido, a goiabeira, bastante dúctil, flexível, cedeu com o seu peso.

No derradeiro ensejo, encheu uma espingarda com 28 caroços de chumbo médios, carregou na pólvora, pois, em vez de só um polvorinho, botou dois (porque não era para caçar nambu!) e foi para os fundos de sua casa, embaixo duma jaqueira velha. Esticou a mão até alcançar o cão da lazarina e apertou o gatilho. Aconteceu o quê? – A espoleta estava resfriada e bateu catolé…

Logo após contar sobre a última tentativa, o Paulino Inácio (também meu conterrâneo (Palmácia, filho da Dona Júlia), que fazia parte da matula, logo arrumou um jeito de resolver o assunto.

– Eli, do jeito que vou lhe sugerir, é sem escapatória! Não digo que pode marcar a Missa de Sétimo Dia porque o padre não celebra – pelo menos o Padre Franciné, o meu vigário (Francisco Franciné Ferreira, de 1963 a 1969), pois a Igreja ainda não aceita esse tipo de expediente; nem O Nordeste, Santuário de São Francisco (Semanário de Canindé) publicam matérias de suicídio. Mas vou falar como você faz…

Todos os dias, às oito da manhã, ali no Quartel General da Décima Região Militar, o general Oscar Jansen Barroso, seu comandante, passa em revista a tropa da caserna inteira, com hasteamento da Bandeira, canto do Hino Nacional, atuando a banda, e todos os praças – de recruta a segundo tenente – e a totalidade dos oficiais armados até o talo.

Como a solenidade é aberta ao público, dê um jeito de ficar bem perto do General. Você bem sabe que o Marechal-Presidente pôs em vigor, agora no dia 13 deste mês, o AI- 5, e que estamos no quinto ano da fase de exceção, de absoluta perseguição aos comunistas.

Quando ele passar, você vai gritar, assim – bem alto – “Viva o comunismo!” […]. Não. Digo melhor: como propalam por aí que o general Jansen é também um catolicão, você vai vociferar, rasgando a goela: – VIVA O COMUNISMO ATEU! Acrescente “ateu”. Aí, amigo velho, providencie caixão e carpideira…

– Rapaz, como não pensei nisto? Vai ser batata!

Então, pelo fato de já ser sexta-feira à tarde, o Eli se preparou para a revista de segunda-feira próxima.

Às 7 horas do dia 22 de dezembro de 1968, ele já estava lá na Praça de Nazaré, esperando o ônibus, a “lata velha da Muribeca” – como chamava meu Pai, seu Mesquita. Às 7h50min, Elisiário já adentrara o quartel, que se enchia de gente para cantar o Hino Nacional e assistir à solenidade inteira.

Às 7h55min, chegou o jipão com o Comandante, que logo se aprestou e foi fazer a revista.

Quando ele chegava bem pertinho, o Eli fez exato como o Paulino Inácio ensinou. Então, rasgou:

– Viva o  c-o-m-u-n-i-s-m-o  a-t-e-u !

A soldadesca inteira, o público, os oficiais e o mundo ficaram olhando para o gen. Jansen Barroso, o qual, vagarosamente, olhou para um lado e para outro e respondeu:

–  V I V A !

*Vianney Mesquita é acadêmico-titular da Cadeira número 37, tendo como patrono Estêvão Cruz.

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