Tributo a Jorge de Lima

Batista de Lima (Membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 36)

Jorge, essa esperança, que pões nos braços dos meus combalidos sonhos, é uma embarcação embriagada que se esqueceu do porto de chegada. Antevejo-me chegando por aí e encontrando Murilíssimo ao lado de Deus e tu latejando épico do lado esquerdo divino. Por aqui não está fácil plantar jardins além da dor, nem contar estrelas verdes que se banham no leite profundo que do sonho emerge. Dos porões dos teus versos uma capoeira trescala mitos entre a água do açude e o fogo da fornalha em que se enterram sete lastros de perguntas.

Alagado de Alagoas, mergulhaste no Rio, criando peles para um mundo órfão de texto e teto, quase incurável de incertezas. Nesta manhã umbrosa em que te escrevo, um sol apodrecido borra as margens que a aurora fluviou. E teus pés amarrados de certitudes e certidões não torcicolaram as atitudes. Por isso que, no calor do dia, interrogavas por que, maduros pelos dias, cambitávamos o sol e o sal da terra que nos viu ver a vez primeira. É que no profundo das coisas, coisas outras se erguem em pedidos de socorro, querendo a palavra teto, carapaça protetora para enfrentar o mundo.

É, de Lima, teus cantos doem, corroem e limam nossos nós. Tu vês que no grande ser profundo, a musa intacta dorme e muita coisa palustre e bela mostra sua garupa. Basta, pois, de tocares a campainha, se não queres ingresso na choupana do simples. Sou feito de palavras ancestrais que se vitimam diante de teu arcabouço de novos signos. Naquela terra que me viu brotar, os cavalos adivinham as chuvas, os galos marcam as horas e os sapos festejam as chuvas. Por isso que, se nesses verbos, de mim sinto falta, culpo teu estro que me manda suspender a frase e engolir a fala.

És inúmero em encantamentos, poeta. Esse despir-se das coisas te fez ilha, onde um copo de água te faz marinheiro num veleiro sem velas. Do teu peito de cordas, plangem as epopeias de um passado desenterrado. Não é fácil fluviar entre cardumes de mitos, por isso perco meus braços com o peso dos teus manuscritos. Afinal, nas águas que sobraças, dançam peixes devassados. Nas águas que te verbam tudo é lícito e sagrado. Nas águas que salitras, tudo redura de retornos.

Prezado esculápio, tua febre felpuda, toda vestida de tardes, é a mão pesada de Orfeu em delação de coisas findas. Por isso que nessas horas despencadas, abrimos nossos bolsos de condutas e liberamos as musas que acabamos por matá-las. Mesmo assim serás dia onde a noite for reinar, pois teus versos não se abatem onde há trevas, nem têm medo da carranca das lonjuras. Por isso que dorme e sonha, no dentro escuro do teu poema, uma vertigem de longo sono, amarrada no silêncio do semblante. Quando lambes a placenta do signo, um cavalo, todo feito de léguas, interpreta, lendo comigo os teus versos. Daí que são fiéis as palavras e as dores que me ligam a ti.

Estimado vate, também gosto da hospitalidade da poesia, com seus mares de símbolos latentes, neste mundo de aconteceres procelosos. Enquanto a grande noite não me golfar de sombras e terrores, vou por aqui roendo tua poesia pelas beiradas do verso. Se a noite e a floresta se deitam juntas nos teus versos é porque os soluços da treva procuram falar pela garganta das coisas. Acho culminante quando, do âmago do nada, extrais cordilheiras para o leitor escalar sem freios. Acontece que também há momentos em que teu verso é tão amargo que espanta os passarinhos que no estômago guardamos.

Senhor menestrel das figurações, plantaste eternidades nos teus roçados verbais, e agora colhemos os frutos, fora aqueles bicados por incertezas que perdemos tragados pela pressa. Na união dos teus palmares, aquele cordão que te ligou à mãe por lá te espera ligando o céu à terra. Quanto aos ocasos, por lá eles vagueiam pelas asas dos insetos. Lá uma noite perdida sai vagando montanha acima, gritando teu nome e repetindo teus versos. Tuas imagens e melodias dançando entre o épico e o lírico vão pintando este Brasil de caboclo de mãe Chica e pai João. Por isso, ao tentar atravessar esse caudaloso rio de imagens que criaste, quase me afogo no meio dessa multidão de mitos e metáforas que inventaste.

Querido amigo Jorge de Lima, assim como os generais, também foste partido quando partiste. Agora as raízes das tuas terras perderam a rega que teu gênio alumiava. E enquanto teus olhos me espiam tristes pelas frechas das oitavas, ainda rastejo rascunhando meus quartetos coxos e canhotos. Assim, as palavras me devolvem seus silêncios, todas rouquenhas de por ti tão possuídas.  Portanto vou agora olhar a lua no seu banho sobre as águas, enquanto as palavras descansam como noivas depois que se lançam no teu colo. Enquanto isso, vou amando as pessoas e utilizando as coisas que nos enganam com seus pelos. Agora que o sol se põe triste em despedida, quero te dizer que se um dia perguntarem pela floração do meu plantio de símbolos, vou dizer que foi por teres inventado as sementes que plantei.

Hölderlin e dois sonetos decassilábicos

Hölderlin conseguiu sintetizar em sua obra o espírito da Grécia antiga.

Johann Christian Friedrich Hölderlin nasceu em 20 de março de 1770, em Lauffen, Alemanha, e morreu em 7 de junho de 1843, em Tübingen.

Amigo de Hegel e Schelling, na Universidade de Jena conheceu Schiller e Goethe. Tornou-se um dos grandes poetas de todos os tempos e, ao lado de John Keats, um dos mais influentes na modernidade. Com ele, a cristandade encontra a Hélade arcaica. Praticou, como poucos, a ode pindárica e os hinos órficos. O que era filologia clássica ou artifício poético consciente em Goethe e Schiller, transformou-se, para Hölderlin, em realidade. Seu classicismo parece mais real, porque o poeta acreditou, de fato, nos deuses e na interferência do destino. Como nos românticos, a natureza está presente em sua poesia, mas é uma outra natureza, ligada ao mundo mítico pagão da Grécia.

Aqui, o grande vate inspira, inicialmente, um soneto do poeta e diplomata Márcio Catunda, membro correspondente da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. No rastro dessa pequena joia, o poeta, escritor e jornalista Vianney Mesquita, membro da Academia Cearense de Língua Portuguesa, produz outro soneto, igualmente decassilábico, perquirindo a “versificação alentadora” do bardo amigo.

Hölderlin

Márcio Catunda

Hölderlin, em delírio, concebia
Os Alpes prateados como altares,
Tanto se dedicou à poesia,
Que fez dos deuses seus sublimes pares.

Com paixão férvida e neurastenia,
Sentiu a Grécia em todos os lugares.
Foi oráculo da mitomania.
Para Diotina fez os seus cantares.

De Empédocles veio todo o empenho
Começado na vida anterior.
Foi apenas um doido preceptor,

Conquanto demonstrasse o desempenho
De um mago celestial superior
Das benesses de Deus merecedor.

Hölderlin Catunda

Vianney Mesquita

Vê-se inopino em Márcio Catunda
Insuflação deífica, sedutora.
Metros de um bardo, medida fecunda,
De paz, à vida amarga concessora.

Em versificação alentadora,
Súbito alteiam a alma moribunda
Versos volantes, voz preceptora,
De rejeição à derrota rotunda.

De vez em quando supera Bilac,
E excede o percuciente Condillac,
A fim de agasalhar a glória fida.

Em fé cristã já se achegou a Isaac,
Fez bom liame com Honoré Balzac
E é dos melhores Hölderlins da vida!

Hoje eu vou me visitar

Anizeuton Leite *

Vivemos em mundo barulhento e iluminado. Presenciamos um corre-corre frenético das pessoas, que quase sempre, buscam algo material para preencher o vazio existencial.

Somos diariamente bombardeados com paredões de som que circulam constantemente em nosso meio e que agridem os nossos ouvidos não só pela quantidade de decibéis que lançam ao ar, mas também pela péssima qualidade das músicas. Também faz parte da nossa paisagem urbana os letreiros luminosos, os outdoors, a propaganda capitalista…

Nesse ambiente hostil (barulhento e iluminado) não tem sobrado espaço para a cultura do silêncio e do aconchego. O silêncio é propício para a reflexão e promove um bem estar na alma. Precisamos ter momentos de silêncio para ouvir e ser ouvido. E o silêncio mais revelador é o silêncio interior. Ele revela quem somos verdadeiramente. Acorda-nos para a beleza da vida e a urgente tarefa de viver bem e viver o bem.

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Reencontro benéfico

Vianney Mesquita*

Na adversidade é que se prova a fidelidade dos amigos. (Nicolau MAQUIAVEL).

Na semana passada, dirigi-me à Av. Virgílio Távora, 999 – Fortaleza, a fim de bacorejar as temáticas de algumas produções librárias mais novas, por via da leitura de suas guarnições, em particular, aquelas relativas a apreciações literárias, notadamente obras de autores cearenses.

Ao escalar o derradeiro degrau daquela culta escada da famosa Livraria Cultura, deparei no cafezinho o meu amigo Prof. Dr. Francisco Auto Filho, da Universidade Estadual do Ceará, a quem há muito não via. Com ele, tampouco, mantinha qualquer conversa, sequer por telefone ou correio eletrônico, palestra que me fazia bastante falta, pois estivera, então, abstido de suas tiradas racionais e doutrinações elevadamente pedagógicas, o que aprecio demasiado, máxime no terreno do comportamento cidadão no âmbito da vida em sociedade.

Intelectual de renome nacional, aggiornato ad oggi em relação a todas as modalidades informacionais, não apenas de Filosofia – substância que cultiva e transmite na Universidade – ele assim procede, pois intui que o saber parcialmente ordenado não é estanque, não é feito em pedaços e “pacotes”,  distinguindo, pois, o fato de inexistir saber particular  (Non datur scientia de individuo), como já se descortinava  no âmbito da Escolástica de Alberto Magno e tantos outros sábios, ainda no momento bastante respeitada naquilo que o tempo, impondo naturalmente  outros pensares, não houve por bem falsear e desmanchar.

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Elixir 914 – Artigo: Vianney Mesquita (Cadeira nº 37)

[Para o árcade novo José Pacceli Campos (1)]

Os remédios são mais lentos do que as doenças. (Públio Cornélio TÁCITO – historiador latino. Nasceu em 56; faleceu em 117).

Consoante informam os dicionários etimológicos da Língua Portuguesa, o vocábulo elixiral-iksir – decorre do árabe, que o recebeu do grego kserion/ou, e teve registo na Língua Portuguesa em 1726. É significativo de uma mistura de substâncias aromáticas, geralmente terapêuticas, mescladas em álcool, glicerina, vinho e outras essências líquidas e sólidas.

Durante a Idade Média – ciclo ocorrente de 476 a 1492 – eram atribuídas a tais poções propriedades sobrenaturais, conforme ainda hoje tem curso no entendimento popular, que admite à ingesta dessas infusões efeitos encantadores, sortilégios e milagres.

No Medievo, como “elixir da longa vida”, era um cozimento pretensamente medicinal produzido pelos alquimistas, com vistas a fazer rejuvenescer e assegurar uma dilatada existência das pessoas. Tal aspiração – impende expressar – via de regra, não se confirmava, haja vista a curta expectativa vital registada naquele período, comparativamente aos dias correntes (a esperança de vida chegando a 74 anos), quando atuam a Medicina e seus ramalhos científicos, com a cura de graves patologias e até extinção de enfermidades altamente letais, segundo ocorrem de ser, entre outras, a tuberculose, a SIDA e a maioria das cardiopatias. Impõe-se exprimir, ainda, o fato de que, se a estatística não contabilizasse as mortes por acidentes de veículos – em particular, de motocicletas – e os homicídios de todas as naturezas, a conjectura da idade humana no Brasil poderia chegar aos 80 anos.

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