Hoje eu vou me visitar

Anizeuton Leite *

Vivemos em mundo barulhento e iluminado. Presenciamos um corre-corre frenético das pessoas, que quase sempre, buscam algo material para preencher o vazio existencial.

Somos diariamente bombardeados com paredões de som que circulam constantemente em nosso meio e que agridem os nossos ouvidos não só pela quantidade de decibéis que lançam ao ar, mas também pela péssima qualidade das músicas. Também faz parte da nossa paisagem urbana os letreiros luminosos, os outdoors, a propaganda capitalista…

Nesse ambiente hostil (barulhento e iluminado) não tem sobrado espaço para a cultura do silêncio e do aconchego. O silêncio é propício para a reflexão e promove um bem estar na alma. Precisamos ter momentos de silêncio para ouvir e ser ouvido. E o silêncio mais revelador é o silêncio interior. Ele revela quem somos verdadeiramente. Acorda-nos para a beleza da vida e a urgente tarefa de viver bem e viver o bem.

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Reencontro benéfico

Vianney Mesquita*

Na adversidade é que se prova a fidelidade dos amigos. (Nicolau MAQUIAVEL).

Na semana passada, dirigi-me à Av. Virgílio Távora, 999 – Fortaleza, a fim de bacorejar as temáticas de algumas produções librárias mais novas, por via da leitura de suas guarnições, em particular, aquelas relativas a apreciações literárias, notadamente obras de autores cearenses.

Ao escalar o derradeiro degrau daquela culta escada da famosa Livraria Cultura, deparei no cafezinho o meu amigo Prof. Dr. Francisco Auto Filho, da Universidade Estadual do Ceará, a quem há muito não via. Com ele, tampouco, mantinha qualquer conversa, sequer por telefone ou correio eletrônico, palestra que me fazia bastante falta, pois estivera, então, abstido de suas tiradas racionais e doutrinações elevadamente pedagógicas, o que aprecio demasiado, máxime no terreno do comportamento cidadão no âmbito da vida em sociedade.

Intelectual de renome nacional, aggiornato ad oggi em relação a todas as modalidades informacionais, não apenas de Filosofia – substância que cultiva e transmite na Universidade – ele assim procede, pois intui que o saber parcialmente ordenado não é estanque, não é feito em pedaços e “pacotes”,  distinguindo, pois, o fato de inexistir saber particular  (Non datur scientia de individuo), como já se descortinava  no âmbito da Escolástica de Alberto Magno e tantos outros sábios, ainda no momento bastante respeitada naquilo que o tempo, impondo naturalmente  outros pensares, não houve por bem falsear e desmanchar.

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Elixir 914 – Artigo: Vianney Mesquita (Cadeira nº 37)

[Para o árcade novo José Pacceli Campos (1)]

Os remédios são mais lentos do que as doenças. (Públio Cornélio TÁCITO – historiador latino. Nasceu em 56; faleceu em 117).

Consoante informam os dicionários etimológicos da Língua Portuguesa, o vocábulo elixiral-iksir – decorre do árabe, que o recebeu do grego kserion/ou, e teve registo na Língua Portuguesa em 1726. É significativo de uma mistura de substâncias aromáticas, geralmente terapêuticas, mescladas em álcool, glicerina, vinho e outras essências líquidas e sólidas.

Durante a Idade Média – ciclo ocorrente de 476 a 1492 – eram atribuídas a tais poções propriedades sobrenaturais, conforme ainda hoje tem curso no entendimento popular, que admite à ingesta dessas infusões efeitos encantadores, sortilégios e milagres.

No Medievo, como “elixir da longa vida”, era um cozimento pretensamente medicinal produzido pelos alquimistas, com vistas a fazer rejuvenescer e assegurar uma dilatada existência das pessoas. Tal aspiração – impende expressar – via de regra, não se confirmava, haja vista a curta expectativa vital registada naquele período, comparativamente aos dias correntes (a esperança de vida chegando a 74 anos), quando atuam a Medicina e seus ramalhos científicos, com a cura de graves patologias e até extinção de enfermidades altamente letais, segundo ocorrem de ser, entre outras, a tuberculose, a SIDA e a maioria das cardiopatias. Impõe-se exprimir, ainda, o fato de que, se a estatística não contabilizasse as mortes por acidentes de veículos – em particular, de motocicletas – e os homicídios de todas as naturezas, a conjectura da idade humana no Brasil poderia chegar aos 80 anos.

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Imprimatur no jardim de Academo

(Para a História da Editoração Acadêmica no Ceará)

Vianney Mesquita*

 Oh! Bendito o que semeia livros a mancheias. E manda o povo pensar! (Antônio Frederico de CASTRO ALVES. * em Castro Alves-BA, 14.03.1847; + Salvador, 06.07.1871).

A primeira vez que tive notícia da palavra editora foi durante a alfabetização, sob a regência da histórica e extraordinária Professora Eunice Leite, na Palmácia dos ‘1950. Foi quando aprendi, decorado e de salto, as letras do alfabeto português, soletrando e escrevendo no Caderno Avante as primeiras sílabas componentes da cartilha Criança Brasileira, com o sinete da Livraria Agir Editora.

Anos depois, fui mais a fundo na noção, quanto tomei contato com a obra de José Bento Monteiro Lobato (1882-1948), jurista de Taubaté-SP que, ocasionalmente, se fez grande escritor, notabilizando-se, em particular, pelo incitamento por ele imprimido à literatura de teor infantil no País, tendo sido, também, editor.

O nome tipografia – impende reforçar – é hoje banido de uso corrente e dos dicionários, em decorrência das fulgurações modernistas e dos sempre renovados processos de composição e impressão introduzidos pela maravilha da Informática.

Conheci a primeira tipografia no ano de 1960, quando entrei para a Escola Industrial de Fortaleza. Ali era, ex-vi da legislação relativa ao ensino técnico-industrial, obrigado a transitar pelas Artes Gráficas, sob o comando do esquisito, mas bondoso, Prof. Antônio Siqueira Campos, de todos conhecido como Mestre Camarão.

Nos bancos da então EIF, hoje (2018) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IF-Ceará, descobri-me com pendores para a escrita, e lá redigia pequenos e enjambrados periódicos (não jornais, pois estes, a rigor e conforme o nome aponta, são diários) de número só, carregadíssimos de adjetivos desnecessários, defeito do qual me corrigi, em parte, por obra e graça do professor canindeense Mário Barbosa Cordeiro, a quem tive, aliás, a satisfação de cumprimentar, no dia 24 de julho de 2017, pela passagem dos seus 96 anos.

Uma vez jornalista de ofício, graduado pela Universidade Federal do Ceará em 1974, onde recebi aulas substanciosas ministradas pelo Prof. Heitor Faria Guilherme (de lembrança saudosa), a Professora Doutora Adísia Sá arranjou-me um emprego de redator na TV Educativa (hoje TV Ceará – Canal 5), ao tempo em que o sempre relembrado Carlos Neves D’Alge – também, como Adísia, jornalista e docente da UFC – era superintendente.

Por indicação do Professor Faria, de novo, entrou Adísia em cena e me levou para ministrar aulas no Curso de Comunicação da UFC, onde, depois, por seleção de títulos, fui efetivado, acumulando legalmente com o emprego da TV.

Após o fastígio dos 12 anos do Mestre Antônio Martins Filho como Reitor (fundador) da UFC, registou-se um hiato no progresso da Instituição, com uma seguinte administração muito fraca, acompanhada de duas, operosas, no entanto ameaçadas e tolhidas constantemente pela espada damoclesiana (Ovídio) da chamada revolução de março.

Seguiu-se o reitorado do intelectual e acadêmico coestaduano, Prof. Paulo Elpídio de Menezes Neto, o qual, então há pouco egresso de altos estudos realizados em França, homem culto e bem relacionado nacionalmente, reformulou totalmente o projeto de publicações da UFC, fazendo das Edições UFC (batizadas por ele) paradigma nacional na seara da editoração universitária, somente “rendendo homenagens” às editoras da UNB e da USP; mesmo assim, diferentemente das demais, os programas dessas instituições possuíam caráter comercial e visavam ao lucro.

Paralelamente às ações docentes, militei nas Edições UFC, onde fui secretário-executivo, ali me demorando oito anos, durante as administrações de Menezes Neto – e de José Anchieta Esmeraldo Barreto – de quem sou coautor em duas obras, o que me agrada e honra sobremodo. Na sequência, fui fazer parte da equipe do Reitor seguinte, Professor Raimundo Hélio Leite, como seu assessor especial.

Vivíssima e operosa, ainda está a Edições UFC, trabalhando a emprego total, arrimada em seriíssimos critérios de seletividade, sob o crivo de uma Comissão Editorial de alçada competência, e hoje encontra-se sob a direção editorial do Prof. Antônio Cláudio Lima Guimarães, profissional competente, produtivo e diligente, de caráter moral e intelectual inatacável.

Depois, então, desses compridos ganchos para introduzir o lance principal da estória, tem-se que, ao assumir a Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA, o novo Reitor – o pranteado Prof. José Teodoro Soares – cuidou, entre outras providências urgentes, de instituir as Edições UVA, tendo por fim precípuo conceder vazão editorial aos seus trabalhos de incutir nova cultura institucional junto a sua comunidade acadêmica, derivando, bem pouco tempo depois, para a edição de escritos de real valor, da colheita de seus docentes e pesquisadores.

De efeito, fruto de qualificação do conjunto de professores e investigadores da UVA, por ele estimulada, o acúmulo de originais de boa qualidade foi aumentando, motivo por que foi necessário instituir outros periódicos científicos que calçassem as opiniões e achados havidos como saber novo, produzidos no âmbito institucional. Um desses periódicos, ainda bem vivo, é denominado Essentia – Revista de Ciência e Cultura da Universidade Vale do Acaraú, dirigida, por muito tempo, pelo pesquisador e docente, com diversos livros publicados, Professor Doutor Teobaldo Campos de Mesquita (UFC e UVA).

Essentia sai semestralmente – hoje informatizada – de modo que já foram editados dezenas de números bastante alentados, cujo conteúdo recebe do público especializado no País os mais favoráveis conceitos, em razão da seriedade e mercê da responsabilidade como o seu Colegiado Editorial procede ao selecionar as matérias propostas, consoante ocorre, também, com os seus outros excelentes periódicos.

Em formato de livro, as Edições UVA publicaram centenas sob plural temática, coincidente com estudos de graduação, especialização e mestrado.

Como o óbvio às vezes se absconde – em especial, pro rata temporis – não será ocioso reafirmar a ideia de que o absoluto sucesso do Programa Editorial, como de resto toda a UVA, é creditado ao espírito então aberto, renovador e inovador que presidiu ao trabalho do saudoso Reitor Teodoro Soares, o qual, contando sempre com uma excepcional equipe, sempre dizia sim aos bons projetos e jamais rejeitava por completo os defeituosos, porém os devolvia, a fim de que deles os autores procedessem ao devido saneamento, voltando a oferecê-los à publicação.

Por todos esses resultados, o Programa Editorial da UVA constitui atividade ancilar de relevância, para que o desiderato do Reitor-Fundador de fazer da UVA uma academia de médio a elevado porte, agora, algum tempo depois de seu passamento para a outra dimensão, continue sendo materializado e à plenitude, o que já sucede, com certeza, haja vista a excelência dos seus programas e o aporte de mais projetos, a cada dia trazidos à Universidade, como o de que ora cuido, ocorrência do ano de 1996 (há 22 anos), o que chamo de Imprimatur no Jardim de Academo.

Literatura Filosófico-Científica Inusitada na Crônica da Profª Drª Graça Martins

Vianney Mesquita

Filosofia, doce leite da adversidade! (Guilherme Shakspeare).

A Natureza não dá saltos. (Godofredo Leibniz).

Para o observador menos devotado ao exame procedimental do trato científico, pode afigurar-se inacreditável – no mínimo, surpreendente – a ideia de ser possível a vinculação racional em vertentes de aparências dessemelhantes, de procedências tão supostamente díspares, como esta admirandamente comprovada pela Autora de O HOMEM nas Abordagens Mecanicista e Humanista da Administração e no Humanismo de Inspiração Cristã.

Maria da Graça Holanda Martins publicou o mencionado livro em ótima ocasião, propícia a excitar, ainda mais, a já efervescente reflexão, felizmente em uso atual na ambiência da nossa Academia. Isto porque – e ela de sobra conhece este suposto – o exame do conhecimento parcialmente ordenado não tem por objeto o saber particular, pois é inexequível reunir em insulado conceito, estabelecer apenas em uma lei, a enorme quantidade de detalhes e situações particulares, constitutivas do ser ou do fato individual: Omne individuum inefabile, conforme ensina a velha, revisada tantas vezes e, em muitos pontos ainda, acreditada Escolástica.

Nas alegações expressas nessa produção, eminentemente interdisciplinar, a Pesquisadora não perde o foco, portanto, das grandes ligações da totalidade do ser, deixando de assujeitar-se ao perigo de reduzir a visão a um apoucado domínio da técnica, em virtude do desdobramento dos objetos, o qual conduziu o debate da Ciência a uma progressiva especialização.

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