Soneto encadeado

compor um poema

Vianney Mesquita, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa, Cadeira 37

Soneto Encadeado

PSEUDOCONHECIMENTO

                                           Vianney Mesquita*

A Ciência não passa do bom senso exercitado e organizado.

                                                                             (Thomas Huxley).

RESUMO

Demanda facilitar a leitura do poema expresso no final do texto, recorrendo ao conhecimento geral obtido em estabelecimentos formais de ensino médio e universitário lato e stricto sensu, sem nomear nenhum autor, por desnecessário. Indicam-se as diversas escalas do saber, com suporte, principalmente, nas lições do filósofo das ciências Karl Raimund Popper, ao se reportar à ideia de Platão, conformada na Teoria dos Mundos.

Palavras-chave: Saber popular. Conhecimento Científico. Três Mundos, de Popper.  

ABSTRACT

It seeks to facilitate the reading of the poem below, resorting to general knowledge obtained in formal high school and university lato and stricto sensu establishments, without particularizing any author, for being unnecessary. Several scales of knowledge are indicated, with support, mainly, in the lessons of the philosopher of science Karl Raimund Popper, when referring to Platos’s Theory of Worlds.

Kew words: Know Popular. Scientific Knowledge. Three Worlds by K. R. Popper.

1 Senso Comum

      No tentame de facilitar a leitura e a decodificação do poema-título desses comentários, procedemos a lábeis interpretações atinentes aos diversos saberes, com suporte no nosso semiaparelhamento didático-histórico, haurido em estudos acadêmicos formais, em sala de aula e leituras plurais de domínio público, de sorte que, para esta escrita, não nos louvamos em quaisquer peças autorais a que legalmente devamos referência.

      Aparentemente, talvez, resulte sobejo exprimir, para audiências tão bem aparelhadas como soem ser nossos leitores – porém não perfaz nenhum ato transgressor – o fato de que o senso comum ou communis opinio significa a maneira de se entender as coisas, denotando ideações comumente acatadas pelo maior contingente de pessoas.

      O modelo retrata o conhecimento granjeado pelo ser humano, com amparo em observações do seu ambiente em todos os tempos. O senso geral – assim também divisado – assinala-se por conhecimentos rotineiros (empíricos) durante a vida inteira de uma pessoa, que, a seu turno, transmite essas ideias, recebidas de seus antecessores, aos próprios sucessores, de geração em geração, as quais comunicam à sua descendência e, deste modo, sucessivamente.

Dito saber (componente do Mundo 1, pressentido pelo filósofo da Ciência, o austríaco Karl Raimund Popper, com suporte na Teoria dos Mundos, de Platão) não está assentado em metodologias nem inferências oriundas da ciência – o chamado saber ordenado – mas é adquirido na assimilação de informações e saberes procedentes da vida cotidiana, sendo, entretanto, fonte de procura da ciência, presidida pelo método.

2 O Senso Crítico

      Convém adiantar, por ensejado, a noção de que o senso comum difere daquele de teor crítico, este assentado no pensamento reflexivo e na demanda de caráter científico por parte dos pesquisadores.

      Como manancial para a ciência, a qual, também, normalmente, não é definitiva na maioria dos seus sub-ramos, o saber geral o é apenas por enquanto, nunc enim, passível de ser desacreditado pela intervenção de um fato novo advindo das investigações procedidas pelo ordenamento epistemológico, eo ipso, transitadas pela metodologia no âmbito dos ditames da Filosofia das Ciências, da Epistemologia.

      Feito reflexão acerca do real latente (Mundo 1)então, o saber comum é transferível para o estádio do Mundo 2 popperiano, pois, nesse patim, já experimenta curso a concepção de um juízo, a conceição de um discernimento dotado de circunstâncias históricas.

      A communis opinio resulta, pois, assistemática, porquanto despossuída de organização prévia, sem amparo em postulados, teorias, leis e outros segmentos de procura científica lógicos, congruentes, sem conservar ligações comunicativas. Estas circunstâncias, de que o senso comum é órfão, pertencem, por conseguinte, ao conhecimento sistemático (já postado no Mundo 2 popperiano), constituinte de base da ciência. Esta, por sua vez, possui (ou não) comprovados, por via de uma conjunção de experimentos e exames sob metodologias, seus sistemas (ou teorias), proposições e suposições prováveis – estas, as hipóteses.

3 O Estatuto de Ciência

      Quando, então, o resultado de um pensamento ou da indústria etnológica de cada um assume configuração de peça socializada, tecida em mensagem massivamente propagada, passa a ter existência própria, como um produto objetivo e excogitado pelo próprio ensaísta-pesquisador, sujeito, portanto, a uma análise crítica, porém, passível de defeitos, suscetível, por conseguinte, de revisões, adendos, consertos e aperfeiçoamentos, recriações, enfim, a ciência, sujeita a esses percalços; bem menos o são, todavia, as ditas exatas, como, verbi gratia, os conhecimentos matemáticos. São as chamadas Coisas Imperfeitas, as quais habitam já o Mundo 3 de Karl Raimund Popper.

4 A Teoria dos Três Mundos 

(exageradamente sucinta)

Karl Raimund Popper, austríaco e naturalizado inglês (Viena, 28.07.1902 – Kenley – UK, 17.09.1974), desenvolveu esse sistema, na esteira da ideação platoniana da Teoria dos Mundos, com o escopo de esclarecer a relação corpo-mente. Então, neste passo, sem dever se examinar com profundidade os meandros desse sistema – e até pelo fato de a expressa teoria não haver logrado fazer com que se entenda na totalidade esse vínculo – resulta a ideia de que o Mundo 1 é o locus das ocorrências físicas, das substâncias, dos campos e do que há de material no Globo, onde residem, também, os entendimentos do senso comum ou a mais de uma vez aqui referida communis opinio.

      Na sequência do Mundo 2, descansam as ocorrências reflexivas, as práticas conscientes, subordinadas aos cinco sentidos (visão, audição, tato, olfato e gosto). Aí está, principalmente, a cabeça, o cérebro, afirmando-se toda a consciência, evidentemente, humana, onde se aloca, para o objetivo dessas linhas, o conhecimento sistemático, por assim exprimir, o prelúdio do saber de ciência, a “pré-ciência”. Vem o terceiro estádio, configurado no Mundo 3, das criações objetivas do cérebro, incluindo os feitos estáveis das realizações do ser humano, como depuração dos dois mundos anteriores. Aqui se dispõe a atividade de procura e descoberta dos fatos científicos – o Universo Popperiano Três.

      Com este apressado, incompleto e talvez desasado comentário, tenta-se facilitar ao leitor a decodificação do soneto à frente, com rimas encadeadas – o que concede mais estesia aos pés consoados – o qual constitui um dos recheios de produtos da mente, como expressão linguística aposta no derradeiro estádio da (mal) escoliada teoria de Popper.

PSEUDOCONHECIMENTO

Fantasias, mentiras sob lógicas,
Isagógicas sobre as audiências
Pseudociências fenomenológicas,
Morfológicas desobediências.

Conheceres fingidos das potências,
Carências antropossociológicas,
Filológicas falsas congruências,
São coerências amplamente alógicas.

A tal grade, v.g., estão avessos
Os adereços da Ciência Exata,
O cimo, a nata do saber mundano.

E, neste plano, saltam os endereços,
Sem desapreço nem quaestio (vexata),
N’ata do Mundo 3 popperiano.

HOMENAGEM AOS ACADÊMICOS FALECIDOS NO BIÊNIO 2020/2021

Ítalo Gurgel, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa, Cadeira 17

Instituição centenária, afeita aos rituais e paramentos, a Academia sempre alimentou o mito da imortalidade, atribuindo a seus membros esse dom divino. Quando Machado de Assis fundou a Academia Brasileira de Letras, em 1897, o lema adotado foi ad imortalitatem. Mera cópia, em tradução latina, do que o cardeal Richelieu mantou gravar, em 1635, no selo oficial da Academia Francesa: à l’immortalité.

Para o bem de todos, porém, a supracitada imortalidade bafeja apenas a instituição, não aqueles que nela tomam assento. Imortal não é o homem, mas sua obra. Morre o homem, fica a fama, como propunha o inesquecível Ataulfo Alves. Assim, cabe a nós cultuar a lembrança e reconhecer os méritos daqueles que se foram, compreendendo e acatando, ao mesmo tempo, o inevitável desfecho que aguarda todo ser humano. A Academia, neste caso, se presta como locus da reverência. Por sua solidez como instituição pétrea, isenta, que atravessa os tempos, e pela credibilidade que costuma amealhar, é nela que o pedestal da memória repousa com mais firmeza.

Daí se estabelecer, muito espontaneamente, nos chamados “sodalícios”, a prática da relembrança. Evocar a memória dos que nos precederam é tarefa que abraçamos com respeito e gratidão, por entendermos que é nesses momentos que se forjam os elos da verdadeira eternidade. A Academia, afinal, se constrói como uma grande corrente que enlaça virtudes, idiossincrasias, talentos reunidos naquilo que é talvez sua marca mais notável e que encontra sua síntese na palavra “convívio”.

Quero aqui, companheiras e companheiros, reforçar a têmpera de três elos dessa ditosa cadeia que compomos, reportando-me ao brilho que vieram agregar a esta casa, em vida e depois dela. Refiro-me a Paulo Bonavides, Luiz Geraldo de Miranda Leão e Mário Barbosa Cordeiro, três personalidades distintas, três nomes queridos e respeitados em nosso meio, que, no biênio de 2020 a 2021, nos fizeram provar, em tragos amargos, a experiência da orfandade intelectual.

Agradeço ao presidente Marcelo Braga a honra que me ofereceu de homenagear, em nome de todos, os três queridos confrades, no momento em que a Academia celebra mais um ano de sua história, ano difícil, em que se colocou à prova nossa força, nossa resiliência, nossa capacidade de sobreviver em meio a uma tragédia nacional e universal.

No espaço de tempo que se faz razoável em evento desta natureza, não haveria como traduzir, em profuso e profundo panegírico, as virtudes todas dos companheiros que partiram. Assim, peço que me aceitem parcimonioso em meus comentários, pois me impus o exercício da síntese, ainda que atento ao propósito de traduzir com fidelidade o nosso luto e saudade.

Todos eles integraram aquela caravana precursora que, a 28 de outubro de 1977, criou nossa Academia. Todos, portanto, se tornam patronos eméritos da cadeira que ocuparam durante mais de quatro décadas. O jurista Paulo Bonavides, falecido a 30 de outubro de 2020, transferiu seu fulgor para a Cadeira nº 29, que tem como patrono o polímata Rui Barbosa. O jornalista, professor, escritor, crítico de cinema e enxadrista Miranda Leão, que nos deixou a 2 de abril do corrente ano, aportou seu talento ocupando a Cadeira nº 26, patroneada pelo grande estudioso da fala nordestina Mário Marroquím. Complementando o trio de perdas, vem Mário Barbosa, que partiu no último dia 11 de junho. Nosso bom Mário tomava assento na décima cadeira, cujo patrono, o mineiro Eduardo Carlos Pereira, teve sua Gramática Expositiva reeditada 153 vezes.

Ninguém encarnava melhor o status de Doutor do que Paulo Bonavides, apesar daquela simplicidade natural, tão própria dos verdadeiros gênios. Maior constitucionalista brasileiro, como cientista político, foi um social democrata e um incansável defensor da democracia. Aplaudido nas universidades de Colônia, Tennessee e Columbia, ao discutir Teoria do Estado e Ciência Política, enfatizava convicto as virtudes do constitucionalismo moderno, voltado para a melhoria das condições de vida do povo.

Miranda Leão era um apaixonado pelo cinema, pelo jornalismo, pelo estudo do Português e do Inglês. O fascínio pela Sétima Arte vinha desde o dia em que, na década de quarenta, na praia do Mucuripe, assistiu à gravação de “It’s all true”, de Orson Welles. Muito escreveu, muito publicou sobre os temas que povoam a grande tela e que, mundo afora, levam multidões às salas de cinema.

Mário Barbosa será lembrado pela finesse e pela riqueza interior, embora escondesse, zelosamente, os dotes intelectuais sob o véu da discrição, quiçá da timidez. Professor de Língua e Literatura Francesa, Português, Espanhol e Latim, era um colecionador de habilidades. Quem diria que, nos idos de 1955, lecionou Desenho de Máquinas e Eletrotécnica! Amante do Francês, apaixonado pela França de Balzac, Flaubert, Hugo, Stendhal, Baudelaire, Zola, Maupassant… Mário Barbosa parece ter-se abeberado nas mais límpidas fontes para cultivar aquela elegância e fidalguia, aquela nobreza de caráter que somente pode brotar de um grande coração.  

Amigas confreiras, amigos confrades, vivemos tempos de saudades. O mais angustiante é a sensação de que todas as nossas perdas foram irreparáveis. Quando se vai um Paulo, um Miranda, um Mário, temos todo o direito de externar inconformismo, aniquilamento, desesperança. Ainda bem que existe a Academia para perpetuar-lhes a memória. Ainda bem que estamos aqui, feito elos entrelaçados, assegurando a continuidade dessa corrente de memória cuja vocação é atravessar os séculos.

Para concluir, gostaria de evocar, nos três companheiros desaparecidos, o dom da simplicidade, que avulta em qualquer apuração que se faça de seus predicados. Entendo as academias como centros de atividades vivificadoras do pensamento e não como espaços para o desfile de egos na superficialidade dos salões. Muitos, efetivamente, se deixam encantar pela suposta glória acadêmica, olvidando o projeto da Academia viva, e atuante, e transformadora.

A propósito, a Academia Francesa, sempre exemplar, parece ter erigido um “alerta aos deslumbrados”, quando instalou, no lugar mais visível do salão de entrada, em sua sede, uma estátua do dramaturgo Molière, que jamais pertenceu àquela casa. No local, uma placa reluz com oportuna lição de humildade: “Nós não fazemos falta à sua glória. Mas ele faz falta à nossa”.

HISTÓRIA DE TAUÁ ENOBRECIDA

Vianney Mesquita, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira 37

Todos sabem fazer História, entretanto apenas os grandes logram escrevê-la.  [OSCAR Fingel O’Flahertie Wills WILDE – escritor, poeta e dramaturgo irlandês. 16.10.1854 – 30.11.1900].

Ensaísta da melhor crase na senda científica, com produções de erguido valor, editadas para fecundar o mealheiro da História do Ceará e seus ramalhos disciplinares e afins, o professor da UECE [nascido em Ibaretama-CE] e imortal-titular de uma cátedra da Academia Tauaense de Letras, doutor João Álcimo Viana Lima, vem, outra vez, aditar ao recheio das nossas averbações literárias um volume de imponente valia para complementar o enredo histórico do seu sítio de trabalho, antigo São João do Príncipe, o conhecido, adiantado e celebrado Município de Tauá – Ceará.

Sob amparo das diligentes táticas de busca na seara do saber parcialmente ordenado – conforme se expressou o filósofo, biólogo e antropólogo grão-britano Herbert Spencer a respeito do conhecimento  – como prova inconteste do preparo intelectual obtido ao largo de seu caminho como estudioso afeito e obediente aos ditames da Metodologia Científica e Filosofia da Ciência, o Autor estendeu ao enredo narrativo dos seus locis de atuação [Tauá e suas parcelas municipais] o volumoso conjunto de trinta e cinco documentos oficiais.

Mencionadas peças, buscadas com o desvelo peculiar ao operário diligente da demanda investigativa, procedem de autoridades reinóis lusitanas, anteriores à chegada da Família Real ao Brasil, em 8 de março de 1808 [há exatos 213 anos], bem como de tempos pós-Independência do País, no decurso do Império, complementadas, empós a Constituição de 1891, com escrituras provenientes de alçadas da República e, enfim, preceituações advindas de próceres estaduais, como os governadores do Estado do Ceará.

Na transferência desses referenciais para o livro Documentos Históricos dos Distritos de Tauá, convém exprimir, além de eles assentarem coerentemente como rememorações de grande distinção para o leitor conhecer e apreciar a evolução do Município sob argumento – com seus termos, fogos e almas – estão pormenorizados com apreciável exatidão em notas nas bases das páginas. Estas vêm acrescidas de minudentes informações complementares, concedendo ao público ledor, mormente de Tauá e dos Inhamuns,  a oportunidade de engrandecer seus haveres culturais atinentes à matéria, ajuntando à mera comunicação expressa na sua conformação, em português já não estilisticamente usado, a estesia da modernidade e o modo ameno, espontâneo, singelo e rico como se exprime o Acadêmico autor desta referência de leitura.

Acresce fazer alusão a um proveito singular no modus operandi do Escritor para reproduzir as trinta e cinco disposições legais, luminosa ideia para melhorar o nível de recepção das mensagens insertas nos ditos diplomas legais. É que ele, parece que sagradamente inspirado, achou de amatar a aspereza do Português ali empregado, em decisão absolutamente legal e justa e inteligente e produtiva, transportando para a boa linguagem hoje em curso a acentuação, a grafia e a pontuação da escrita, levando o consultante a decodificar as ideações das autoridades, sem restritivas intercorrências de cariz interpretativo. É esta, induvidosamente, mais uma vantagem, uma das obrigações intelectuais de um artífice competente à procura de evento novo, a ser evidenciada pela Filosofia da Ciência.

 E, por conseguinte,  para regozijo da conjunção cearense produtora de achados científicos, bem como a fim de trazer júbilo àqueles que se vão servir de tão alteado produto da agricultura deste investigador a mancheias, Documentos Históricos dos Distritos de Tauá está bem sortido de excelências.

Como é salutar expressar esse entendimento!

A PONTUAÇÃO VAI ALÉM DOS PONTOS…

José Olímpio, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira 21

Quando se fala em pontuação, de imediato se pensa no emprego do ponto, da vírgula, do ponto de interrogação, do travessão, etc. Isto é pontuação, sim, porém num sentido restrito. Pontuação, num sentido amplo, abrange toda a estruturação e organização de um texto, através de sinais e procedimentos convencionados.

Assim, além do emprego dos sinais tão conhecidos, temos como casos de pontuação: o emprego de alíneas e de incisos; o uso do hífen; os grifos em geral (itálico, negrito, sublinhado, etc.); os parágrafos; o tamanho da letra; o formato do texto, margens, espaços, divisões, subdivisões… Enfim, – reforçamos – todo e qualquer recurso utilizado para a distribuição, organização e estruturação do texto; e que, consequentemente, concorre de forma decisiva para a sua clareza, coesão, coerência e elegância (que são os objetivos principais da pontuação).

Falemos um pouco desses elementos da pontuação, no sentido amplo…

O parágrafo.

Os textos em prosa (redações escolares, cartas, ofícios, monografias, reportagens, etc.) são habitualmente estruturados em parágrafos. O parágrafo corresponde a cada parte do texto formada por um grupo de ideias afins. Consta de uma ideia principal (ideia-núcleo), à qual podem-se juntar outras ideias secundárias, para complementar, reforçar, justificar, delimitar, enfim, desenvolver essa ideia principal.

O parágrafo é tradicionalmente marcado pela mudança de linha, acompanhado geralmente com um avanço de margem. Mas nem sempre se usa o avanço; nesse caso, é aconselhável, por questão de clareza e estética, uma separação linear entre os parágrafos. O autor e a finalidade a que se propõe o texto definem a escolha do procedimento adequado. Neste texto, optei pelos dois procedimentos, para reforço do tema.

Ilustremos com este exemplo, retirado do Jornal Tribuna do Norte (Natal, 25/06/2011): 

            O número de praias urbanas que estavam impróprias para banho, que chegou a seis na semana passada, caiu para três, segundo anunciou o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente.

            Agora, as praias impróprias para banho em Natal são: o Morro do Careca, em Ponta Negra; a dos Artistas, em frente ao Centro de Artesanato; e na Redinha, em frente às barracas.

            A situação mais preocupante é com relação ao trecho das barracas da Redinha, que está nessas condições há cinco semanas, sofrendo poluição por causa de coliformes fecais.

            O geólogo Ronaldo Fernandes Diniz, um dos coordenadores do Programa Água Azul, explica que em períodos de chuva, como as que vêm caindo em Natal, aumenta o risco de vazamento de esgotos e até de rompimento de galerias. (Jornal Tribuna do Norte, Natal, 25/06/2011)

O parágrafo, em geral, é simbolizado[1] por §.

São também chamados de parágrafos os detalhamentos, ressalvas /e esclarecimentos dos artigos, apresentados à parte, nos textos legais (leis, decretos, pareceres, etc.).

Nos textos legais, quando há apenas um parágrafo, em vez do símbolo, usa-se a expressão “Parágrafo Único”. Confira nos dois trechos (Art. 9º e 44 da Constituição da República Federativa do Brasil, Edição Saraiva, 2006.):

Art. 9.º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.

  • 1º A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.
  • 2º Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei. (…)

Art. 44. O Poder Legislativo é exercido pelo Congresso Nacional, que se compõe da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

Parágrafo Único.  Cada legislatura terá a duração de quatro anos.

           Lembremos que, em obras metodicamente estruturadas, as divisões do conteúdo costumam organizar-se em parágrafos numerados. É o caso da Gramática Metódica da Língua Portuguesa, de Napoleão Mendes de Almeida.

Alíneas e incisos.

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua portuguesa, inciso e alínea significam:

  • Inciso: “subdivisão de um artigo de lei, que, por sua vez, pode ser subdividido em alíneas”:
  • Alínea:cada uma das subdivisões de um artigo de lei, decreto, contrato e similares (…)”.

As alíneas e os incisos ajudam na estruturação do texto, na redação legal e nas obras sistematizadas. São indicados por numerais ou letras, acompanhados de ponto, travessão ou parênteses (as duas partes deste símbolo ou só o fechamento). Como neste exemplo (também da Constituição da República Federativa do Brasil):

 

CAPÍTULO IV

DOS DIREITOS

Art. 14.  A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:

I – plebiscito;

II – referendo;

III – iniciativa popular.

  • 1.º O alistamento e o voto são:

I – obrigatórios para os maiores de dezoito anos;

II – facultativos para:

  1. a) os analfabetos;
  2. b) os maiores de setenta anos;
  3. c) os maiores de dezesseis e os menores de dezoito anos.

Os grifos.

Podemos usar de vários procedimentos para grifar, dar destaque a uma palavra, uma expressão ou um trecho:

  • letra inicial maiúscula;
  • todas as letras da palavra, expressão, trecho, em maiúsculo;
  • letra em tamanho menor ou maior, versal, versalete[2];
  • sublinhado, negrito, itálico, etc.;
  • cores;
  • aspas;
  • às vezes, com dois desses procedimentos juntos.

             E por que ou para que grifamos? Veja esses motivos, acompanhados de exemplificações…

  • Para destacar, ou dar um sentido especial a uma palavra ou a um termo. Veja nestes exemplos:

 

A vendedora da AVON me chamou de DONA, Zé!… Ah! DONA MÁRCIA, esse o seu marido vai gostar, garanto!… Sente o perfume, sente? Quando é o aniversário dele, DONA MÁRCIA?… DONA pra cá, DONA pra lá!…Achei uma graça, Zé!… (C. A. Lopes da Silva, O Desmanche; in: Concursos Literários 2006, p. 154.)

Todas, salvo a pessoa e a ação, assumem uma forma gramatical a que se dá o nome de adjuntos adverbiais ou de orações adverbiais (causais, finais, concessivas ou de oposição, etc.). (Othon M. Garcia, Comunicação em Prosa Moderna, p. 48.)

Era a Dama das Camélias. Lia muitos romances […](Eça de Queirós, O Primo Basílio, p.12.)

Fora a íntima amiga da mãe de Luísa e tomara aquele hábito de ir ver a pequena aos domingos (idem, p. 23).

Na última quinta-feira, 5, opinaram no Jornal O Povo sobre a seguinte questão: “A cirurgia de mudança de sexo muda o sexo?”. (Jornal O Povo, 07/04/12, p. 3.)

  • Para destacar ironias, gírias, neologismos, estrangeirismos. Confira:

E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um Major do Exército, sobrinha de um Coronel e filha de um General. Morou?

(Fernando Sabino, A Mulher do vizinho; in: Para gostar de ler, v. 5, p. 39.

Que negócio é esse? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse a casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: “dura lex”! (idem.)

Perdeu, porque o four do Capitão João Magalhães era de reis. (Jorge Amado, Terra do sem fim, p. 22.)

  • Para destacar citações.

Assim se cumpriu a Escritura: Nenhum dos seus ossos será quebrado (Ex, 12,46).

(Bíblia Sagrada Ave-Maria. Jo 19,36.)

E chega um tempo em que eu começo a reviver aquela palavra de Jesus: “Esta é a tua mãe” (Jo 19,27).

(Fr. Elias Vella, Sob o Sopro do Divino Espírito, p. 15)

(Aqui, aspas e itálico simultaneamente.)

              Os procedimentos e sinais de pontuação em sentido lato são muitos, e se multiplicam com a evolução das artes gráficas e visuais. Mas, para não deixar o texto muito longo, colocamos os casos acima, que, acredito, fundamenta a assertiva inicial do ensaio.

[1] O símbolo §, interposição vertical de dois esses (ss), representa  a abreviatura da expressão latina signum sectionis (= sinal de separação ou de seção).

[2] Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, ‘versalete’ é uma forma de letra escrita em maiúsculo no mesmo tamanho da minúscula. Já ‘versal’ tem dois sentidos: 1) o mesmo que letra maiúscula; 2) diz-se dessa letra de tamanho maior que a minúscula e formato próprio.

Novo Acordo IX

Frei Hermínio, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira 27

                         Diferenças entre o VOLP de Portugal e o do Brasil (09)

          Os 21 países de habla española têm um Dicionário Oficial, aceito e seguido por todos eles, editado pela RAE = Real Academia Espanhola. Este traz as palavras mais significativas usadas especialmente em cada um dos países do bloco. 

            A partir do II Acordo Ortográfico 1943/1945 existe o VOLP = Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Temos um editado no Brasil (2009) com 877 pp + XCVIII pp de anexos e um em Portugal (2009) com 643 pp com anexos não paginados. Uma comparação da quantidade de palavras contidas nas letras k, w, y dá uma ideia clara desta diferença: VOLP de Portugal nas letras: K, 88 pal. W, 78 pal. Y, 21 palavras. Nós constatamos no VOLP do Brasil nas letras: K, 236 pal. W, 239 pal. Y, 31 palavras. Nestas três letras o VOLP do Brasil tem 319 palavras a mais, do que o de Portugal.

            Usa-se hífen em palavras/locuções compostas que não contêm elementos de ligação… (Cfr. Base XV, 1, a). Os dois VOLP discordam com frequência nesta regra. O VOLP (PT) traz 86 expressões de dois termos, iniciando com “não”, de não-absorvente a não-volátil, todas com o hífen, seguindo a regra. O VOLP (BR) traz 60 expressões de dois termos iniciando com “não”, de não agressão a não vocálico, todas sem o hífen. As expressões inicial e final do VOLP (PT), não constam no VOLP (BR) e neste faltam 26 expressões constantes no VOLP de Portugal.

            Casos semelhantes:

1 – No VOLP (BR) tem mais-valia e não valia; o VOLP (PT) não traz a expressão não valia, mas certamente grafaria não-valia, com hífen, como todas as desta série. No VOLP (BR): fru-fru; xi-xi-xi… no VOLP (PT) elas são grafadas frufru e xixixi. No VOLP (BR) na letra X constam 1049 termos, no VOLP (PT) apenas 766 termos.

2 – No VOLP (BR) consta centroafricano = relativo à República Centro-Africana e centro-africano = relativo à África central. O VOLP (PT) traz apenas centro-africano. Há aí um contrassenso: o termo sem hífen refere-se ao nome com hífen e vice-versa. Conforme a Base XV, 2 deve ser centro-africano, como registra o VOLP (PT). O VOLP (BR) traz grafia única para úmido; o VOLP (PT) traz húmido e úmido. O VOLP (BR) traz zigue-zigue o VOLP (PT) grafa ziguezigue. O VOLP do Brasil traz “imexível” – termo que em 1990 celebrizou o Ministro Antônio Rogério Magri – mas o de Portugal ignora esta palavra.

3 – O VOLP (PT) traz sitiirgia, o do Brasil siti-irgia. As duas formas são inapropriadas. Trata-se da junção de duas palavras gregas, σιτία = alimentos + εἰργία = repulsão. Mais correto seria: sitieirgia ou melhor ainda, siteirgia. Eu me baseio em Ramiz Galvão (op. cit. Postagem 01). Os dicionários: A. Houaiss, Aurélio, A. Nascentes, Álvaro Magalhães, Frei Domingos Vieira, J. Mesquita de Carvalho, Silveira Bueno e Simões da Fonseca, não registram esta palavra. Se eu digo, paraliva e paravário, você terá dificuldade de compreender, mas se eu digo, paraoliva e paraovário, você compreende logo. Por isso, a palavra paralímpico – que nos teria sido imposta pelo COI em 2016 – para substituir paraolímpico, dói em nossos ouvidos. É técnica e sábia a norma de que na junção de dois termos haja mudança somente no 1° termo, do contrário, a compreensão torna-se difícil.

            Seria enfadonho multiplicar os exemplos: A confusão entre os VOLP do Brasil e o de Portugal é tamanha, que até nos faz lembrar o texto de Sérgio Porto:    “O Samba do louro doido”.

  E-mail para observações: freiherkol@yahoo.com.br

Novo Acordo – VIII

Frei Hermínio, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira 27

Palavras que podem vir a ser escritas com k, w, y (08)

            Com a volta das letras k, w, y – excluídas em 1931 – palavras portuguesas poderão vir a ser escritas com estas letras, se o povo passar a usá-las assim e a nossa Academia Brasileira de Letras sancionar. Muitos já estão grafando kilo, kilômetro… por simplificação. Mas é o uso quem vai definir. Em nosso livro VOCABULÁRIO… (Ver postagem 01) indicamos cerca de 1500 termos greco-latinos de origem, com k e/ou y.

Exemplos: acólyto, alektoromancia, anályse, apócryfo, barýtono, butyrômetro, cályce, cysne, dactilioteca, dynamite, eclypse, embryão, farynge, fylófago, fýsica, glycose, glyptoteca, hypoteca, hysteria, kaos, karáter, kassia, katecismo, kerigma, kiromancia, labyrinto, lágryma, lyra, lýrio, mártyr, mesófryo, myalgia, mycetografia, mytologia, nyctógrafo, nyctotyflose, nynfa, nynfoide, obeliscolýcnio, octógyno, ófryo,  polyglota, psycrofobia, pyrilampo, rizofylo, rytmo, sybarita, sycomancia, sycofanta, sýlaba, symbiose, sýmbolo, sympatia, synagoga, syndérese, synédoque, synérese, synfonalaxia, synfonia, sýnodo, sýstole, urocyanina, xantofyla, xyloide, xylólatra, xylomancia, xystóforo, zelotypia, zéfyro, zygodactilia, zygoma, zygomorfo, zygostata, zigoteca…

Atenção: quando acima eu disse “poderão” não foi no sentido de “deverão”. Com certeza não teremos um uso generalizado de termos grafados com k, w, y, apenas uma palavra ou outra e ao longo do tempo. Isto porque a tendência mais forte é seguir a eufonia e porque em numerosos casos, a etimologia não simplifica a palavra.

            Termos do alemão, árabe, hebreu, holandês, inglês, japonês, russo, sânscrito, turco: criket, folklore, harakiri, hokey, ianke, ikebana, karaokê, karatê, karateca, karma, kastina, kefir, kermesse, kibutz, kimomo, kiosque, perestroika, troika, uisky, yoga…

            Termos de tupi, guarani e de línguas nativas, onde temos palavras com k, w, y. Para facilitar a compreensão de alguns nomes menos usados eu fiz a divisão em classes.

Animais: katita, kururu, kutia, jakaré, kaninana, kapívara, mokó, mukura, paka…

Abelhas: iray, jatay, jaty, mandaguary, mandassaya, moskito, mundury…

Alimentos: karibé, karimã, katolé, mandioka, mukunã, paçoka, tapioka, tukupy…

Aves: akauã, bakurau, jaku, jurity, kaboré, maguary, sabaku, sokó, tukano, tuyuyu…

Cidades: Akary, Aracaty, Kamucim, Kanindé, Krateús, Jukás, Pirakuruka, Ykó, Ypu…

Frutas: aratikum, bakaba, bakury, katolé, kupu, mandakaru, marakujá, matury, peki…

Insetos: karapanã, kupim, marakajá, muriçoka, mutuka, taioka, tapiukaba, trakuá…

Objetos: arapuka, arataka, kicé, koité, kuia, pataku, tapiry, tipity, tipoya, tukum…

Peixes: akará, araku, baku, jukiá, jurupoka, kará, paku, piraruku, tambaki, tukunaré…

Plantas: jakarandá, jekitibá, juká, kamará, katanduva, kopaíba, oitisika, takuara…

Tribos: amawaka, kaetés, kanela, kapíxaba, karajás, karakaraí, kariri, karioka, tikuna…

Vários: kaiçara, kaipora, kauim, kunhã, kurumim, kurupira, maraká, tokaia, ypueira…

             

            Termos do banto, ioruba, kicongo, kimbundo e umbundo:

kabaça, kadiado, kaju, kandeia, kalundu, kalunga, kanjica, kapoeira, karuru, katimba, katinga, kiabo, kilombo, kizila, kitute, kizumba, kimbanda, kindim, komboio, maka, makina, mukama, yansã, yorubá, xikote…

A lista é extensa. (Vide VOCABULÁRIO… op. cit. na Post. 01, pp 239  a 245). Disponível na Editora Armazém da Cultura, Fortaleza.

Email para observações: freiherkol@yahoo.com.br