Caminhos de uma vida fértil

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Artigo Inaugural da obra Notações de um Percurso Pessoal e Acadêmico – VM

A Ciência é o cemitério das ideias mortas.
(MIGUEL DE UNAMUNO)

Prof. Raimundo Mariano.

Antes de adentrar, com elevada satisfação, os escólios a respeito do autor deste livro, o cientista piauiense, militante das Ciências da Terra – Geologia e seus ramos disciplinares, internacionalmente conhecido e apreciado, intento preparar os solos, com seus horizontes texturais, a fim de melhor assentar meus motivos condutores das notas, procedendo a informações propedêuticas sobre minha inserção na mesma Casa de Saber onde opera o autor da obra sob comento, publicado pela Expressão Gráfica – o pesquisador Prof. Dr. Raimundo Mariano Gomes Castelo Branco.

Na qualidade de cearense, sob o prisma do conhecimento e da cultura – embora infinitamente abaixo do estatuto acadêmico do produtor desta obra –  minha referência fundamental assenta na Universidade Federal do Ceará, conjunto acadêmico modelar fundado pelo extraordinário Prof. Antônio Martins Filho, no recuado ano de 1954, ao congregar algumas faculdades e escolas isoladas de Fortaleza, concedendo-lhes caráter universitário.

Universidade – não demora reiterar – conforma uma instituição de ensino e procura da informação ordenada, constituída por um conjunto dos mencionados institutos, destinados a promover a formação profissional e científica em nível superior, bem como efetivar demanda teórica e prática na maioria das vertentes da recepção do saber humanístico, artístico e tecnológico, bem como proceder à divulgação de seus resultados a  uma vasta comunidade receptora.

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Caminhos

GISELDA DE MEDEIROS, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 16

Não sei por onde ir…
Sou trêmula rosa
pendente da haste
ou pássaro implume
esquecido da trajetória.

Os caminhos abrem-se em labirintos,
e não tenho o mapa do destino
nem o fio de Ariadne.

Há muito estou aqui
no meio deste tempo sem história.
Cansa-me procurar a saída
nestes vales úmidos de espanto.

A fuga açula-me a solidão,
esta companheira
sempre à minha espreita
com quem divido meus medos,
minhas angústias inexoráveis.

Vou e retorno sobre meus próprios passos,
tímidos e lassos,
sobre a minha própria busca…

Sei que seguir é imperativo,
ficar é presente,
retornar é passado.

… E o futuro? Deverei buscá-lo?
Será ele um tempo? Ou um vento?
Mas, preciso seguir, mesmo sabendo
que, ao fim de tudo, acabarei pendente,
pétalas caídas, sob a frágil haste
que me sustentou a efêmera vida,
que era apenas tu.

Espirituosidade comedida

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

(Para o Prof. Ítalo Gurgel, da UFC e ACLP)

Vinum bonum et suave, /Bonis bonum, pravis prave,
Cunctis dulcis, sabor, ave Mundana laetitia!
(Fragmento de uma canção do séc. XIV). **

Jamais fui achegado à carraspana,
Na cotidiana marcação da história;
Mas a memória freud-ferencziana
Guarda chicana sem fastos de glória.

Em concessória ensancha de bacana,
Não se me empana a retentiva inglória
Da inibitória – hoje, não me ufana –
Lembrança plana de rasca irrisória.

Ao fluido espirituoso sou afeito:
Guimarães, Douro, Murça, Porto ou Minho;
Tête de Boeuf, Sem Nome, qualquer jeito.

Com o mais suave e estreme carinho,
Tomo a botelha, entorno e depois deito
Mui preciosos martelos de vinho.

* Vinho bom e agradável; bom para os bons, ruim para os malvados; de agradável sabor para todos. Viva a alegria mundana!

A MAIS LÍRICA HERANÇA DE PETRARCA

Italo Gurgel
(Membro titular da ACLP – Cadeira nº 17)

O soneto é uma forma de poema rigorosamente codificada. Comporta 14 versos, abrigando dois quartetos e dois tercetos. É obrigatória a rima. Também é necessário que todos os versos tenham o mesmo número de acentos poéticos (ictos). No caso do soneto acima transcrito, a mim dedicado, generosamente, pelo escritor e poeta Vianney Mesquita, apresentam-se 10 acentos nos 14 versos. Percebam-se as rimas no meio dos versos dos quartetos – a chamada rima encadeada, que concede especial estesia à conformação poética.

ORIGENS – Acredita-se que o soneto (do italiano sonetto) nasceu nos tempos da chamada “escola siciliana”, que orbitava a corte do imperador Frederico II (1194-1250). Atribui-se sua “invenção” a Giacomo da Lentini, um dos cortesãos, que criava tais peças para serem cantadas, e não declamadas.

Francesco Petrarca (1304-1374) tornou célebre o soneto em sua “Canzoniere”, sendo, para alguns, o verdadeiro criador dessa expressão poética. Filólogo, poeta e humanista, Petrarca é tido como o Pai do Humanismo, mas foram os sonetos, redigidos pioneiramente em língua italiana, que o elevaram ao pedestal da glória.

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Até

CLAUDER ARCANJO, Membro Correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

— Até agora, não tenho a resposta.

Ouviu aquilo e resolveu sair; nem sequer quis saber de mais nada. Aquilo lhe bastava.

Trouxera com ela a certeza do aceite dele. Fora uma proposta tentadora. Logo, julgara, ela receberia o “de acordo” sem mais delongas.

Ao pôr os pés na estrada, revisitou, no caminho de volta, as palavras que usara ontem. “Será que fui clara?” Ela sempre a colocar a dúvida em si, nunca no outro. Desde pequena, segundo sua parentada, era aquele o seu jeito de agir. Não seria diferente depois de velha e surrada pela vida.

Entre as passadas pequenas, a cena e o diálogo correram frente à sua vista, embaçada pelo início da catarata. “Não! Eu fui muito clara e direta. Era pegar ou largar! Mas, ele pedira um tempo. Até porque ele é homem já entrado nos trinta e, segundo soube, metido com as letras e as sabenças dos doutores. Não, não se tratava de ter colocado mal as palavras!”

Com pouco, uma nuvem encobriu o sol que se fazia forte. Com a mão direita em pala, ela visou o nascente; velha mania de ver se viria chuva. Resmungou uma rabugice de si para si. “Tome tento, mulher! Estamos ainda em outubro. Onde já se viu!?…”

Na curva seguinte, a casa velha se apresentou. Teve a impressão de ver Mariquinha no alpendre, ansiosa pelo desfecho. A coitadinha, de mala pronta, já passara a noite em claro. “Comadre, ele vai aceitar, não vai!?”. Da boca seca, ela ainda conseguira fazer sair: “Durma, minha filha! Deus é grande, Deus é pai!”.

Parou, enxugou o porejado do suor na testa larga, ajeitou o grampo grande que prendia-lhe o cocó no cocuruto e abriu, decidida, a porteira.

A carreira desabalada de Mariquinha ao seu encontro espantou a criação que pastava no quintal. Quando ela estancou em sua frente, ouviu da boca da velha, como se em arte de ventríloqua:

— Até agora, não tenho…

E, crivando as unhas nas carnes das mãos secas, ela proferiu, entredentes:

— Até agora; mas, de amanhã, Mariquinha, isso não passa. Ah!, que não passa, não passa!

Texto Científico Plenamente Decodificável por Leigos

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

A Ciência é o grande antídoto do veneno do entusiasmo
e da superstição
. (ADAM SMITH – filósofo e economista grão-britano
– Escócia. Kilkcardy, 5.6.1723; Edimburgo, 17.7.1790 – 67 anos).

Transitei pela agradável experiência de deparar para ler os originais do livro Impactos Ambientais da Implantação de Parques de Energia Eólica no Brasil, constante de dezenove capítulos defendidos por um pugilo de investigadores das Ciências da Terra, em sua maioria docentes da Universidade Federal do Ceará, de projeção internacional.

O volume, organizado – e também escrito – pelos professores doutores Adryane Gorayeb Nogueira Caetano, Antônio Jeovah de Andrade Meireles e Christian Brannstrom (este visitante), do Departamento de Geografia da mencionada Academia, encontra-se no prelo, nas oficinas da Imprensa Universitária dessa Instituição, e vai ser editado com o sinete da legendária Edições UFC, como parte da Coleção de Estudos Geográficos dessa Universidade.

Os assinantes dos capítulos são pesquisadores de elevado renome no concerto de altos estudos da Ciência Geográfica e de seus variados ramos disciplinares, todos acreditados pelos órgãos de apoio no âmbito da investigação ordenada desse conjunto de saberes, como CNPq, FINEP, CAPES et reliqua.

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Chanz!

SEBASTIÃO VALDEMIR MOURÃO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 19

Nada havia ao redor. Deserto de casas, de prédios, de poluição. Cheio, todavia, de um vazio puro: uma paisagem absurda de tranquilidade, um sonho real, uma verdade a ser alcançada por qualquer um. Olhei pra cada lado e não vi coisa alguma, a não ser um horizonte longínquo, ora azul, às vezes cinzento; noutras pardo, noutro instante  colorido, porém distante. Não havia fim nem nada. Um templo moderno, talvez construído naquele instante. A estrutura antiga manifestava um estilo entre colonial, gótico, romano. Invulgar… muito esquisito, mas calmo. Inspirava‑me concórdia.

– Chanz!

Assim chamei o templo, sem querer, ao contemplá-lo. Não sei o que significa, nem se há em alguma língua.

– Chanz!

– C h a n z… a n z… a n z…

Ecoava, caso o chamasse ou o mentalizasse. O que se dissesse, ou se passasse na mente, ressoava.

Chanz me fez sentir força de contemplação, análise do mundo, do homem… aí entrei com o passo de urubu malandro. Lá dentro, a beleza excedeu‑se, me causou estranheza e me fez sentir convicção interior. O meu conhecimento não foi suficiente pra detalhar; é indescritível o sobrenatural, e isto só pode ser alguma obra divina.

Mirei tudo curioso e vagarosamente, meneando a cabeça, parando em cada minúcia. Tinha a forma de ele. Não encontrei imagem alguma, nem mesmo religiosa. Sem luxo, entretanto belo, limpo e confortante; sem recepção, porém acolhedor; sem ninguém, no entanto houve diálogo: como, não sei, mas teve. A cada pensamento, em toda análise, nas conclusões em que chegava, sentia me renovar.

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