Encontro entre iguais

CLÁUDER ARCANJO, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

Desde o último infortúnio, lá se vão alguns meses, Companheiro Acácio andava sumido. Na certa, desconfio, metido em meditações mil. Sim, caro leitor, Acácio sempre foi tido como um sujeito afeito às filosofices e às análises mais aprofundidativas. Desculpe-me pelo neologismo, mas o Companheiro não é fácil de caber num dicionário comum. Pois bem. Continuemos.

Não é que ontem, ao dobrar uma das esquinas do Centro, bendita surpresa para uma insossa manhã, deparei-me com tal figura!?

— Acácio!…

Apesar da minha saudação com fumos de escândalo, ou penso que justamente por isso, ele não cessou os passos. Ao contrário, baixou um pouco a face e apertou os vários livros que levava ao peito, como a querer sumir na esquina seguinte. Eu, cabreiro, acelerei as passadas e pus minha mão sobre o seu ombro.

— Acácio!?… Por onde andavas? — interroguei-o, festivo.

— …

Reticenciou-me em seu silêncio de profundezas, ao tempo em que ajeitava um Nietzsche que quase ia ao chão.

Em seguida, Acácio enxugou a testa larga com sua impaciência assanhada, a fitar-me como se diante de um anticristo.

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A mulher missiva

CLÁUDER ARCANJO, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa.

O dia não raiava, nem o tempo sarava do choro da noite. Sim, a madrugada como se derramara em lágrimas naquela chuva fina e renitente. Eu, as horas em claro, acompanhando a goteira; os pingos caindo dentro do balde posto no meio do quarto. Maldito gotejado!

Confesso que a insônia não vinha só do gotejar. Não, este apenas tornava mais viva a ferida da decepção. Aberta quando rasguei o envelope amarelo, tipo comercial, e me pusera a correr os olhos pelas letras cursivas, dispostas no papel branco e pautado. Recado direto e claro. Faca afiada no peito da esperança.

— Maldita missiva!

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