Até

CLAUDER ARCANJO, Membro Correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

— Até agora, não tenho a resposta.

Ouviu aquilo e resolveu sair; nem sequer quis saber de mais nada. Aquilo lhe bastava.

Trouxera com ela a certeza do aceite dele. Fora uma proposta tentadora. Logo, julgara, ela receberia o “de acordo” sem mais delongas.

Ao pôr os pés na estrada, revisitou, no caminho de volta, as palavras que usara ontem. “Será que fui clara?” Ela sempre a colocar a dúvida em si, nunca no outro. Desde pequena, segundo sua parentada, era aquele o seu jeito de agir. Não seria diferente depois de velha e surrada pela vida.

Entre as passadas pequenas, a cena e o diálogo correram frente à sua vista, embaçada pelo início da catarata. “Não! Eu fui muito clara e direta. Era pegar ou largar! Mas, ele pedira um tempo. Até porque ele é homem já entrado nos trinta e, segundo soube, metido com as letras e as sabenças dos doutores. Não, não se tratava de ter colocado mal as palavras!”

Com pouco, uma nuvem encobriu o sol que se fazia forte. Com a mão direita em pala, ela visou o nascente; velha mania de ver se viria chuva. Resmungou uma rabugice de si para si. “Tome tento, mulher! Estamos ainda em outubro. Onde já se viu!?…”

Na curva seguinte, a casa velha se apresentou. Teve a impressão de ver Mariquinha no alpendre, ansiosa pelo desfecho. A coitadinha, de mala pronta, já passara a noite em claro. “Comadre, ele vai aceitar, não vai!?”. Da boca seca, ela ainda conseguira fazer sair: “Durma, minha filha! Deus é grande, Deus é pai!”.

Parou, enxugou o porejado do suor na testa larga, ajeitou o grampo grande que prendia-lhe o cocó no cocuruto e abriu, decidida, a porteira.

A carreira desabalada de Mariquinha ao seu encontro espantou a criação que pastava no quintal. Quando ela estancou em sua frente, ouviu da boca da velha, como se em arte de ventríloqua:

— Até agora, não tenho…

E, crivando as unhas nas carnes das mãos secas, ela proferiu, entredentes:

— Até agora; mas, de amanhã, Mariquinha, isso não passa. Ah!, que não passa, não passa!

Chanz!

SEBASTIÃO VALDEMIR MOURÃO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 19

Nada havia ao redor. Deserto de casas, de prédios, de poluição. Cheio, todavia, de um vazio puro: uma paisagem absurda de tranquilidade, um sonho real, uma verdade a ser alcançada por qualquer um. Olhei pra cada lado e não vi coisa alguma, a não ser um horizonte longínquo, ora azul, às vezes cinzento; noutras pardo, noutro instante  colorido, porém distante. Não havia fim nem nada. Um templo moderno, talvez construído naquele instante. A estrutura antiga manifestava um estilo entre colonial, gótico, romano. Invulgar… muito esquisito, mas calmo. Inspirava‑me concórdia.

– Chanz!

Assim chamei o templo, sem querer, ao contemplá-lo. Não sei o que significa, nem se há em alguma língua.

– Chanz!

– C h a n z… a n z… a n z…

Ecoava, caso o chamasse ou o mentalizasse. O que se dissesse, ou se passasse na mente, ressoava.

Chanz me fez sentir força de contemplação, análise do mundo, do homem… aí entrei com o passo de urubu malandro. Lá dentro, a beleza excedeu‑se, me causou estranheza e me fez sentir convicção interior. O meu conhecimento não foi suficiente pra detalhar; é indescritível o sobrenatural, e isto só pode ser alguma obra divina.

Mirei tudo curioso e vagarosamente, meneando a cabeça, parando em cada minúcia. Tinha a forma de ele. Não encontrei imagem alguma, nem mesmo religiosa. Sem luxo, entretanto belo, limpo e confortante; sem recepção, porém acolhedor; sem ninguém, no entanto houve diálogo: como, não sei, mas teve. A cada pensamento, em toda análise, nas conclusões em que chegava, sentia me renovar.

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Encontro entre iguais

CLÁUDER ARCANJO, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

Desde o último infortúnio, lá se vão alguns meses, Companheiro Acácio andava sumido. Na certa, desconfio, metido em meditações mil. Sim, caro leitor, Acácio sempre foi tido como um sujeito afeito às filosofices e às análises mais aprofundidativas. Desculpe-me pelo neologismo, mas o Companheiro não é fácil de caber num dicionário comum. Pois bem. Continuemos.

Não é que ontem, ao dobrar uma das esquinas do Centro, bendita surpresa para uma insossa manhã, deparei-me com tal figura!?

— Acácio!…

Apesar da minha saudação com fumos de escândalo, ou penso que justamente por isso, ele não cessou os passos. Ao contrário, baixou um pouco a face e apertou os vários livros que levava ao peito, como a querer sumir na esquina seguinte. Eu, cabreiro, acelerei as passadas e pus minha mão sobre o seu ombro.

— Acácio!?… Por onde andavas? — interroguei-o, festivo.

— …

Reticenciou-me em seu silêncio de profundezas, ao tempo em que ajeitava um Nietzsche que quase ia ao chão.

Em seguida, Acácio enxugou a testa larga com sua impaciência assanhada, a fitar-me como se diante de um anticristo.

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A mulher missiva

CLÁUDER ARCANJO, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa.

O dia não raiava, nem o tempo sarava do choro da noite. Sim, a madrugada como se derramara em lágrimas naquela chuva fina e renitente. Eu, as horas em claro, acompanhando a goteira; os pingos caindo dentro do balde posto no meio do quarto. Maldito gotejado!

Confesso que a insônia não vinha só do gotejar. Não, este apenas tornava mais viva a ferida da decepção. Aberta quando rasguei o envelope amarelo, tipo comercial, e me pusera a correr os olhos pelas letras cursivas, dispostas no papel branco e pautado. Recado direto e claro. Faca afiada no peito da esperança.

— Maldita missiva!

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