Companheiro Acácio: “perdido” dentro de si mesmo

CLAUDER ARCANJO, Membro Correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

Não o sabia em Fortaleza. Na madrugada deste sábado, tangido por uma insônia abissal, dirigi-me à Praia de Iracema, pois gosto (em caso de profundezas) de me encontrar frente às águas do oceano. Filho do sertão de Licânia, sempre considerei o mar como a melhor imagem (ou seria metáfora?) do infinito.

Lá chegando, dou com a sua presença. Um pouco mais gordo do que o costume, a careca cada vez mais avançada, sapato e calças sociais, e de camisa de mangas compridas.

— Companheiro Acácio!?…

Senti o silêncio como resposta. Não um silêncio qualquer, mas daqueles cavos de significados (que, na mão de um daqueles mestres da filosofia de boteco, daria o equivalente a um O Ser e o Nada. No número de páginas, lógico).

Encostei-me e percebi que ele estava sobraçado, como de hábito, com vários livros. Alguns deles, marcados por tiras finas de papel. É uma das suas manias; como adora e ama os livros, Acácio é incapaz de riscá-los, prefere marcar as páginas com tirinhas coloridas. Quanto melhor o livro mais o volume se assemelha a uma decoração junina, bandeirinhas de marcação a perder de vista.

Curioso como poucos, vi que um deles era um pequeno tomo de poemas: miniSertão, de Nonato Gurgel. Nunca ouvira falar nem do autor, nem da obra.

— Livro de poesia, Companheiro?… De autor estreante? — Interroguei-o, a querer romper-lhe a guarda, fechado pelotão postado nas ameias do pensamento.


Outro silêncio de fossas oceânicas, ao tempo em que um tomo quase escorregava da sua mão esquerda. Antes que ele caísse (digo, o livro), socorri-o.

Em seguida, Acácio agradeceu-me, educado.

— Grato. Vejamos. Sim e não. miniSertão é uma obra poética, e penso que, com a qualidade da lírica desse autor potiguar, hoje radicado na Cidade Maravilhosa, não deve ser o seu livro de estreia.

Desajeitado, Companheiro colocou os demais livros sobre um banco que havia ao nosso lado; sem pressa, ajustou os óculos e, como se lesse para si mesmo, bradou em tom de desabafo sertanejo:

Leio no dorso
da montanha acesa
o segredo
deste reino
que não
tem sim

Após uma pausa, levou os olhos para as ondas (que me deram a impressão de elevar o tom de suas vagas) e continuou, ainda mais professoral:

elas sussurram de amparo
pelos sertões sem
fecho nem autoria

Companheiro Acácio colocou o exemplar de Nonato Gurgel no colo e cuidou de aplaudi-lo, reverente. Em sinal de alumbramento e solidariedade, fiz-lhe companhia nos aplausos. Uma senhorita que passava, em trajes de exibição de academia (de ginástica, não de letras), concluiu que deveríamos ser os últimos pinguços da noite. E cuidou de afastar-se; na certa, desconfio, com receio dos achincalhes que, via de regra, os últimos eflúvios do álcool inspiram aos homens de viril vontade.

Sem perda de tempo, notei que ele sacou o tomo de Sartre, A idade da razão. Era, da pilha sobre o banco, o mais junino (pelo excesso de bandeirolas-marcadores a vazarem pela lombada).

— Há em Sartre, como em todo clássico, um quê de atualidade — confessou-me, sem rodeios.

Concordei com um aceno de lábios; e, sem delongas, Acácio leu-me uma passagem daquela obra, extraída de uma das páginas da parte inicial:

— Preste bem atenção nesta passagem, Clauder Arcanjo: “Mathieu parou de repente. Ele se via pensar, tinha horror a si próprio…” Para logo à frente, no parágrafo seguinte, Sartre arrematar, se é que se pode falar em arremate quando nos referimos aos clássicos: “Existir é isso: beber-se a si próprio sem sede.” — E mergulhou noutra onda de silêncio. Desta feita, cabisbaixo; para emergir, pouco mais, com voz trêmula e embargada.

— Imaginava-o longe de Sartre, Companheiro, depois que o vi, meses a fio, a ler e reler Camus — espetei-o.


Antes que tais reticências sepultassem a nossa alvorada-amiga, Acácio continuou, como se dirigisse mais a si próprio do que a mim:

— Meu amigo Clauder Arcanjo! Parafraseando A idade da razão, eu me digo, neste alvorecer de sábado, seis de julho de 2019: Cinquenta e seis anos. Há cinquenta e seis anos que eu me saboreio, e estou velho. Trabalhei, esperei… Está tudo acabado. Não quero mais nada.

E largou Sartre, os olhos marejados de angústia e sofrimento.

Não sabendo o que lhe dizer, nem o que lhe propor, resolvi analisar os outros livros que o acompanhavam: Brumas, de Geraldo Jesuino; Veredicto em Canudos, de Sándor Márai, e Um homem de jornal e uma história de amor, de Osvaldo Araújo.

Quase fomos atropelados por dois ciclistas que faziam uma rasa análise do momento político atual: “Mas o ministro é o nosso herói, não podemos deixar que o vazamento dessas informações o leve à renúncia…”

Afastamo-nos para uma posição mais segura no calçadão, o dia já se anunciava com o seu sanguíneo colorido. Ao folhear Brumas, outra passagem me prendeu os olhos: “Tantos sóis aqueceram e renderam homenagem àquela obstinada criatura, também senhor de pequeno universo…”

Mal concluí a leitura dessa passagem, quando ouvi a voz do companheiro Ernesto:

— Clauder Arcanjo, sempre acompanhado dos clássicos! Veredicto em Canudos, uma bela obra de Márai, o desafio do húngaro em escrever “aquilo que ficou de fora do relato de Euclides da Cunha”. E… O quê?! Como você conseguiu esse exemplar do livro de Osvaldo Araújo? Deixe-me vê-lo, pois…

Nesse exato momento, Companheiro Acácio tomou a decisão. Foi embora, largou tudo, percebia que não aguentaria mais ficar.

Gosto de respeitar seus rompantes, outro dia a gente se encontrará, bem sei.

Como sei também que, a despeito de todas as agruras, Acácio saberá que, apesar de tudo doer na alma pelos que ficam, “o corpo está firme, a mente está lúcida e calma”. E tal solidez, caro leitor, nos dias de sociedade líquida, não é coisa pouca.

Até

CLAUDER ARCANJO, Membro Correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

— Até agora, não tenho a resposta.

Ouviu aquilo e resolveu sair; nem sequer quis saber de mais nada. Aquilo lhe bastava.

Trouxera com ela a certeza do aceite dele. Fora uma proposta tentadora. Logo, julgara, ela receberia o “de acordo” sem mais delongas.

Ao pôr os pés na estrada, revisitou, no caminho de volta, as palavras que usara ontem. “Será que fui clara?” Ela sempre a colocar a dúvida em si, nunca no outro. Desde pequena, segundo sua parentada, era aquele o seu jeito de agir. Não seria diferente depois de velha e surrada pela vida.

Entre as passadas pequenas, a cena e o diálogo correram frente à sua vista, embaçada pelo início da catarata. “Não! Eu fui muito clara e direta. Era pegar ou largar! Mas, ele pedira um tempo. Até porque ele é homem já entrado nos trinta e, segundo soube, metido com as letras e as sabenças dos doutores. Não, não se tratava de ter colocado mal as palavras!”

Com pouco, uma nuvem encobriu o sol que se fazia forte. Com a mão direita em pala, ela visou o nascente; velha mania de ver se viria chuva. Resmungou uma rabugice de si para si. “Tome tento, mulher! Estamos ainda em outubro. Onde já se viu!?…”

Na curva seguinte, a casa velha se apresentou. Teve a impressão de ver Mariquinha no alpendre, ansiosa pelo desfecho. A coitadinha, de mala pronta, já passara a noite em claro. “Comadre, ele vai aceitar, não vai!?”. Da boca seca, ela ainda conseguira fazer sair: “Durma, minha filha! Deus é grande, Deus é pai!”.

Parou, enxugou o porejado do suor na testa larga, ajeitou o grampo grande que prendia-lhe o cocó no cocuruto e abriu, decidida, a porteira.

A carreira desabalada de Mariquinha ao seu encontro espantou a criação que pastava no quintal. Quando ela estancou em sua frente, ouviu da boca da velha, como se em arte de ventríloqua:

— Até agora, não tenho…

E, crivando as unhas nas carnes das mãos secas, ela proferiu, entredentes:

— Até agora; mas, de amanhã, Mariquinha, isso não passa. Ah!, que não passa, não passa!

Chanz!

SEBASTIÃO VALDEMIR MOURÃO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 19

Nada havia ao redor. Deserto de casas, de prédios, de poluição. Cheio, todavia, de um vazio puro: uma paisagem absurda de tranquilidade, um sonho real, uma verdade a ser alcançada por qualquer um. Olhei pra cada lado e não vi coisa alguma, a não ser um horizonte longínquo, ora azul, às vezes cinzento; noutras pardo, noutro instante  colorido, porém distante. Não havia fim nem nada. Um templo moderno, talvez construído naquele instante. A estrutura antiga manifestava um estilo entre colonial, gótico, romano. Invulgar… muito esquisito, mas calmo. Inspirava‑me concórdia.

– Chanz!

Assim chamei o templo, sem querer, ao contemplá-lo. Não sei o que significa, nem se há em alguma língua.

– Chanz!

– C h a n z… a n z… a n z…

Ecoava, caso o chamasse ou o mentalizasse. O que se dissesse, ou se passasse na mente, ressoava.

Chanz me fez sentir força de contemplação, análise do mundo, do homem… aí entrei com o passo de urubu malandro. Lá dentro, a beleza excedeu‑se, me causou estranheza e me fez sentir convicção interior. O meu conhecimento não foi suficiente pra detalhar; é indescritível o sobrenatural, e isto só pode ser alguma obra divina.

Mirei tudo curioso e vagarosamente, meneando a cabeça, parando em cada minúcia. Tinha a forma de ele. Não encontrei imagem alguma, nem mesmo religiosa. Sem luxo, entretanto belo, limpo e confortante; sem recepção, porém acolhedor; sem ninguém, no entanto houve diálogo: como, não sei, mas teve. A cada pensamento, em toda análise, nas conclusões em que chegava, sentia me renovar.

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Encontro entre iguais

CLÁUDER ARCANJO, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

Desde o último infortúnio, lá se vão alguns meses, Companheiro Acácio andava sumido. Na certa, desconfio, metido em meditações mil. Sim, caro leitor, Acácio sempre foi tido como um sujeito afeito às filosofices e às análises mais aprofundidativas. Desculpe-me pelo neologismo, mas o Companheiro não é fácil de caber num dicionário comum. Pois bem. Continuemos.

Não é que ontem, ao dobrar uma das esquinas do Centro, bendita surpresa para uma insossa manhã, deparei-me com tal figura!?

— Acácio!…

Apesar da minha saudação com fumos de escândalo, ou penso que justamente por isso, ele não cessou os passos. Ao contrário, baixou um pouco a face e apertou os vários livros que levava ao peito, como a querer sumir na esquina seguinte. Eu, cabreiro, acelerei as passadas e pus minha mão sobre o seu ombro.

— Acácio!?… Por onde andavas? — interroguei-o, festivo.

— …

Reticenciou-me em seu silêncio de profundezas, ao tempo em que ajeitava um Nietzsche que quase ia ao chão.

Em seguida, Acácio enxugou a testa larga com sua impaciência assanhada, a fitar-me como se diante de um anticristo.

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A mulher missiva

CLÁUDER ARCANJO, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa.

O dia não raiava, nem o tempo sarava do choro da noite. Sim, a madrugada como se derramara em lágrimas naquela chuva fina e renitente. Eu, as horas em claro, acompanhando a goteira; os pingos caindo dentro do balde posto no meio do quarto. Maldito gotejado!

Confesso que a insônia não vinha só do gotejar. Não, este apenas tornava mais viva a ferida da decepção. Aberta quando rasguei o envelope amarelo, tipo comercial, e me pusera a correr os olhos pelas letras cursivas, dispostas no papel branco e pautado. Recado direto e claro. Faca afiada no peito da esperança.

— Maldita missiva!

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