2019 – Ano 148 da produção queirosiana (Um Pobre Homem da Póvoa do Varzim)

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37, tendo como patrono Estêvão Cruz.

Em nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete
linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas,
os homens praticam todas as ações – mesmo as boas.
(José Maria EÇA DE QUEIRÓS).

1 A JEITO DE EXPLICAÇÃO

Celebram-se, no decurso de 2019, 148 anos do início produtivo literário de José Maria Eça de Queirós, talvez o mais célebre literato português, filho de brasileiro, iniciado com a realização (1871) das célebres Conferências do Cassino Lisbonense.

EQ é um dos mais fecundos literatos de Língua Portuguesa e celebrado escritor na contextura internacional, nascido em Póvoa do Varzim, norte de Portugal, em 25 de novembro de 1845, e que foi habitar a dimensão edênica no dia 16 de agosto de 1900, em Paris.

Importa informar o leitor do fato de que este escrito foi objeto de intensivas modificações relativamente à versão providenciada em 1980, quando se era, em concomitância, docente e estudante. Tal aconteceu porque estavam esgotadas duas obras que lhe serviram de suporte: a Revista de Letras, contendo o segmento O Jornalista do Distrito de Évora, Fortaleza: UFC, v.34, n. 21, pp. 184-198; e o capítulo de igual título, no livro Impressões – Estudos de Literatura e Comunicação. Fortaleza, Edições Agora, 1989. Então, com vistas a conceder informações adicionais ao assunto, providenciou-se esta versão, publicada em Nuntia Morata (MESQUITA, 2014) e, agora (fevereiro de 2019), com modificações insertas por motivos temporais.

A pesquisa foi composta, originariamente, no mencionado ano, com vistas a concorrer ao prêmio literário Elos-Eça de Literatura para universitários – do qual obteve o primeiro lugar – promoção do Elos Clube de Fortaleza, da Empresa M. Dias Branco S.A., organização nacional de grande porte, de controller com sede em Fortaleza, em conjunto com a Embaixada de Portugal acreditada no Brasil, ao tempo do embaixador Sr. Dr. José Eduardo de Menezes Rosa.

Com efeito, o escrito, ora bastante alterado, afasta-se evidentemente da pretensão de aportar grandes novidades à historiografia relativa à produção de Eça de Queirós, máxime ao se considerar o que logo à frente exprime o escritor maranguapense Joaquim Braga Montenegro. Restou incluso aqui na intenção, adrede, de conduzir o escolar, notadamente o secundarista, a tomar contato com os produtos editoriais deste imenso escritor lusitano.

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Colo de mãe

ANIZEUTON LEITE, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

O colo de mãe é lugar sagrado que acolhe, aconchega, embala e acalenta. Lugar seguro que o filho procura nos momentos de dor, medo ou dúvida. Conforto que traduz sem palavras a linguagem inequívoca do amor, da atenção e do benquerer. Quem nunca sentiu o aconchego e a proteção do colo materno é um órfão ainda que tenha mãe.

O choro cessa, a tristeza dissipa, o medo desaparece e a paz se faz presente com a presença maternal. Fortaleza que ampara, consola, aconselha, reza e sofre junto. Mãe e amiga que conhece a linguagem do olhar, pois possui a sensibilidade dos poetas. Sensibilidade para compreender as palavras que não são ditas, o pedido de ajuda que não é verbalizado.

A figura materna transmite amor, sabedoria, paciência e misericórdia. Mãe é doação. Doação que faz esquecer suas dores e tomar para si o sofrimento do outro. Ser mãe é ter sempre uma atitude altruísta; é enxergar seus filhos sempre como criança.

A escultura Pietá, de Michelangelo, retrata, de maneira belíssima, o cuidado e o colo da mãe. Mãe que pega seu filho no colo, que limpa as feridas e que o acalenta em seus braços pela última vez. Braços que tantas vezes pegaram sua cria, conduziram, abraçaram e aconchegaram em seu peito. Mãe que sofre, mas que não se desespera. Mãe que permanece junto até o fim.

O colo de mãe pode ser entendido também como a metáfora do zelo, do cuidado e do amor oferecidos por esse ser, humano e divino, que sabe amar sem pedir nada em troca. Mãe é sinônimo de sabedoria, paciência e carinho. Mãe é um ser que dicionário ou poeta algum é capaz de descrever. Ser mãe é ser, antes de tudo, indefinível.

Promoção de saúde na escola

Vianney Mesquita (1)

Um pobre são, e alentado de forças, vale mais do que
um rico fraco, e atormentado de doenças.
A saúde da alma em santidade de justiça é melhor do que todo ouro
e prata, e o corpo robusto vale mais do que imensos bens.
Não há riquezas maiores do que as da saúde do corpo,
nem contentamento que seja igual à alegria do coração.
(ECLO., 30-14, 15-16).

Reiteram-se nos derradeiros anos, sem explicação plausível para a ocorrência (porquanto, quase sempre, espécimes distantes das nossas linhas de exame), os convites para que descerremos o conteúdo de obras com teor didático-científico lavradas na ambiência acadêmica, procedentes de tarefas formais de programas de mestrado e doutorado, resultados exitosos de experimentos laboratoriais, artigos, relatórios de pesquisas e escritos assemelhados, produzidos na contingência universitária do Ceará, todos eles, afortunadamente, de supina qualidade.

A verdade referida por derradeiro – convém dizer, e com o máximo regozijo – é denotativa do estudo adrede, sério e denodado desenvolvido pelo nosso episcopado acadêmico, ao entregar para a comunidade científica mais alargada, configurada nos receptores afins às matérias, de outros Estados-Membros do Brasil, bem como do Exterior, um conjunto de saberes sistematizados, tomados pela observação, identificação, busca e explicação de certas categorias de fenômenos e fatos, acolhidos com supedâneo no método e na razão.

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FÁBULAS – Manchetes Históricas e Versão Tupiniquim

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37 (patrono: Estêvão Cruz)

Os escritores superficiais, como as toupeiras,
julgam frequentemente ser profundos, quando estão,
no entanto, demasiadamente perto da superfície.
(WILLIAM SHENSTONE, poeta e paisagista inglês.
Helesowen – UK, 18.11.1714 – 11.02.1763)

As fábulas revestem uma ordem textual literária, narração alegórica, em língua prosa ou em versos, cujos protagonistas são animais transfigurados em pessoas (in anima nobili), com falas, costumes e outros haveres humanos. Em geral, são produzidas para crianças e dotadas, no seu término, de fundo moral e teor instrutivo.

O vocábulo tem étimo latino e regista narrativa muito extensa e rica, radicada no sânscrito – grupo de línguas e dialetos indo-áricos antigos do norte da Índia, sendo o védico e o sânscrito de conteúdo clássico os mais conhecidos, de onde procedem  as fábulas indianas, popularizadas pela tradução árabe do século VIII, e que a tradição atribui a autores lendários, como Pilpay e Lochman (HOUAISS; VILLAR SALLES. Dicionário… São Paulo: Objetiva, 2005).

Essas produções remontam, por intermédio de uma versão pélvi (língua iraniana derivada do antigo persa), a um original sanscrítico – o Pantchatantra (os cinco livros), obra de Vixenu Sharma (indiano nascido na Caxemira), uma das mais antigas coleções de fábulas do Mundo.

Como se pode verificar na imensa quantidade de vertentes librárias sob domínio público, de libérrima e gratuita compulsação – hoje, também, em suportes eletrônicos – o gênero fabular tem curso na maioria das literaturas mundiais e, em grande parte, abrange repetições, modificadas, aumentadas, transpostas de lugar, com base na possível produção de Esopo, fabulista grego (séc. VII e VI a.C.), de existência sublendária, na expressão dessa vertente, “[…] gago, feio e corcunda, porém, com o espírito engenhoso e sutil”. (LELLO & LELLO. Lello Universal – Dicionário…Porto: 1983, p. 886).

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Cemitério de galinhas

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37 (patrono: Estêvão Cruz)

Dize-me o que comes e dir-te-ei quem és.
(ANTHELME BRILLAT – SAVARIN, cozinheiro francês).

Sempre me comprazeu o fato de haver recebido de meus pais (Maria de Lourdes Campos de Mesquita e Vicente Pinto de Mesquita) instrução religiosa rígida e determinação comportamental esmerada no âmbito doutrinário e da Igreja Católica, Apostólica e Romana.

Desde o uso da razão, estava no Catecismo, na Palmácia dos ’50, Paróquia de São Francisco de Assis, então sob o vigariato do Cônego Joaquim Alves Ferreira, seu titular, de 10 de fevereiro de 1946 a 1 de março de 1956, coadjuvado por seu irmão, Monsenhor Pedro Alves Ferreira (meu padrinho de batismo).

Jamais nos afastamos – meus onze irmãos e eu – desta orientação eclesial de conteúdo tridentino, continuada na Freguesia de Nossa Senhora de Nazaré, desde que aqui a Fortaleza chegados em 2 de agosto de 1960. Hoje, dez homens e duas mulheres, casados com os mesmos cônjuges desde a celebração matrimonial, moramos em Fortaleza, exceto a irmã mais nova – Lília Mesquita Reyntjens – que reside na cidade de Overijse, Bélgica – União Europeia (bem vizinha a Bruxelas), com o marido, Dirk Reyntjens, e os filhos Paulo e Peter.

Constantemente, também, na obediência à sentença bíblica Servite Domino in laeticiae (Salmo 99,2 – Serve a Deus com alegria), recorro ao bom humor cearensês e me vejo alegre, relembrando passagens brejeiras da vida nordestina – ordinariamente pretextos para piadas e crônicas – sempre ataviadas de complementos da industriosidade cômica regional, ao mesmo tempo em que pretendo servir ao Senhor, conforme o versículo do salmista.

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Maria, Maria… Ou as vozes das Marias

MARIA GORETE OLIVEIRA DE SOUSA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 1

“Maria, Maria…
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta”.

Disse o poeta, e a beleza poética é muita, mas não apaga a verdade cruel de sua letra, nem pode abafar a voz de quem, do outro lado da canção, puxa um grito, lá de dentro dos pulmões e quer dizer o contrário:

– Sou Maria sim, e essa é a grandeza de minha vida! Sou Maria sim, mas me recuso a aceitar as doses de veneno que me querem forçar, goela abaixo. Sou Maria sim, mas não quero trocar meu riso por choro, nem vice-versa! Quero rir sim, mas rir, porque rir é bom, não rir do meu desespero, nas horas de infortúnio. Não quero rir para fingir que não choro, ou pior, para satisfazer a uma tirania que me bate, e depois diz “engole o choro”. Quero ter o direito de chorar também. E por que não? Chorar faz parte, e eu quero expressar minha alma pelos olhos quando, assim, o momento requerer. Quero ter o direito de ser coerente e leal às minhas entranhas, e rir meu riso, e chorar meu pranto, como disse  outro poeta. Sou Maria sim, e quero viver, e viver feliz, porque tenho direito à felicidade, e não apenas aguentar a vida, porque isso não é vida. Apenas aguentar é morrer além morte! E eu quero poder transbordar as gotas insubstituíveis de uma alegria de viver, para poder, de mim, florescerem outras vidas com a mesma porção de alegria e equilíbrio, e banir de vez essa cultura do fingir, do corromper, do adulterar. Não quero uma máscara de fortaleza sobre a minha fraqueza. Quero a prerrogativa de equilibrar a minha humanidade entre essas duas dimensões. Eu rejeito a máscara falsa de “superser humano” que me querem colocar aqueles que, intimamente, não me dão senão a pecha de “subser humano”. Não quero ser sobrenatural, desejo simplesmente ser natural, e caber na medida de minha natureza, ou extrapolar esses limites, quando assim me der na telha. Não para provar que sou capaz de ir além, e angariar a concessão de ser vista. Quero minhas metas e limites medidos pelos meus sonhos, não pela hipocrisia que vem de fora. Sou Maria! Ser Maria é ser mulher? Ah, eu sou Maria sim!

Homenagem desta cronista a todas as lindas amigas Marias, que levam nas costas as batalhas desta vida: carregam o piano quando é preciso, e nem sempre dançam conforme a música, porque há bailes que nos obrigam a dançar fora do tom. E há tons que não combinam com o canto dessas Marias! Marias não pelo batismo, necessariamente, mas Marias porque trouxeram do nascimento a marca de ser Mulher!