Uirapuru

Prof. ASSIS HOLANDA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 22

Toda a mata silencia quando ele canta. É um canto melodioso, fino, que encanta até humanos. Habita aquela região da floresta desde priscas eras, portanto, propriedade sua, com papel passado em cartório. Mas a mão predadora do homem, de quando em vez, aprisiona-o, e negocia a venda com estrangeiro. A viagem é sem volta. Ao chegar a algum país europeu, o uirapuru emudece. Permanece macambúzio, feito um casmurro.

Certa vez, o predador consegue vender um casal a um italiano que se encantou ao ouvir o cantar mavioso deste pássaro brasileiro. O casal de estrangeiro embarca em avião da Alitália, levando o inocente prisioneiro.

Na nova morada, no centro de Roma, o casal italiano expõe dourada gaiola no jardim da casa. O casal de uirapuru saltita por toda a gaiola, em busca de fuga. Quem vivia em um universo de céu aberto, imagina-se o que se passa na alma deste casal de uirapuru.

O casal europeu noticia aos amigos a chegada do importante casal. Anuncia aos quatro cantos da vizinhança que lhe faz companhia um casal da família dos Tyranidae ou certhiidae, o uirapuru.

Após uma semana em terra estranha, o casal de pássaro emudece. Não dá um pio. Nem de longe é aquele pássaro de canto demorado, afinado que emudece toda a floresta amazônica.

Diante desse quadro de tristeza, de depressão, sim, animais também têm depressão, o casal toma uma solução de devolver os pássaros a seu habitat. O casal italiano fez o mesmo percurso de volta ao Brasil, trazendo a tiracolo o casal de passarinho.

Já na floresta, os dois estrangeiros abrem a porta da prisão e o casal de uirapuru dá um voo tão alto e pousa no olho de uma frondosa árvore e felizes pela liberdade agradecem aos italianos com um fino e longo canto.

Na vida, às vezes, não sabemos dar valor à liberdade que gozamos e ao lugar onde nascemos.

Fortaleza, 12/07/2020

É saudade

ANIZEUTON LEITE, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa em Jucás/CE

É saudade quando dormimos cheirando a roupa da pessoa amada, quando ligamos ou mandamos mensagem tarde da noite na esperança de ouvir a voz de alguém do outro lado da linha. É saudade quando guardamos os pertencem da pessoa que partiu provisória ou definitivamente. Também é saudade quando escrevemos um poema ou rabiscamos o nome da pessoa amada no caderno; quando enxugamos as lágrimas no banheiro ou beijamos calorosamente alguém quando este regressa de viagem.

É saudade quando ouvimos a voz ou sentimos o cheiro da pessoa amada com um simples fechar de olhos. É saudade quando sonhamos acordados e dormimos sonhando em estar ao lado de quem amamos. É saudade quando o coração acelera com a possibilidade da separação; quando a lágrima molha a face ao pronunciar o nome de alguém. É saudade quando o pensamento viaja enquanto o corpo está parado na estação; é saudade quando o  olho brilha e o sorriso desponta ao ver a pessoa ou o objeto do nosso desejo.

A saudade foi a maneira que Deus encontrou de parar o tempo e eternizar os momentos vividos e as pessoas que amamos. E há vários tipos de saudade. Há saudade da infância – das brincadeiras, do colo da avó, dos banhos de chuva ou dos primeiros anos da vida escolar. Momentos que gravamos na parte mais profunda da nossa memória. Há saudade da inundação de sentimentos da adolescência – do primeiro beijo, da rebeldia, dos sonhos idealizados e das escolhas que fizemos ou deixamos de fazer.  Há também a saudade dolorida; ferida cicatrizada que vez por outra arrebenta e sangra novamente. Saudade do filho ausente; da mãe que morreu tão repentinamente ou do irmão que se afastou e hoje não passe de um mero conhecido.

Saudade é bom e ruim. É bom quando se pode sentir o cheiro, ouvir a voz de quem se ama ainda que distante e desejar ardentemente o reencontro. É bom quando lembramos com carinho e nostalgia aquilo que vivemos. É bom quando ela é alma gêmea do amor. É ruim quando dói e se torna um espinho. Espinho que rompe a carne e se instaura na alma. Dor que não tem remédio ou cura.  Saudade: a ferida e o remédio do nosso cotidiano.

29 de fevereiro de 2020 – ano bissexto

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Mil, dez mil anos não passa de simples
ponto que nos não é dado ver.
SIMÔNIDES DE CEOS. (*Lulis-Ceos, 586 a.t.c. + Agrigento-Itália, 488 a.t.c.).

Depois de 2016, conforme o Calendário Gregoriano, ora vigente na banda ocidental, este ano é o primeiro bissexto, pois hoje, 29 de fevereiro – só ocorrente de quatro em quatro anuênios – significa o fato de que o exercício fluente possuirá 366 dias, ao passo que os três anteriores perfizeram somente 365 períodos de 24 horas.

Ocorreu de amigos e pessoas modestas a mim chegadas, nomeadamente não muito afeitos ao trato literário, me perguntarem, com recorrência, acerca dessa dicção, empregada a miúdo com relação aos poetas e escritores pouco produtivos ou de produção apenas singular, ou seja, “por que Fulano é considerado poeta bissexto?”

Lembro-me de que, em 2012, conforme referido há pouco, penúltimo bissexto sucedido – o derradeiro foi 2016 –  as indagações mais afluíram, de modo que passo a narrar o assunto, evidentemente, sem profundidade científica, louvado apenas no conhecimento do senso comum adquirido à extensão temporal, na vida e na escola, o qual também se encontra à disposição de qualquer pessoa, em obras de referência de domínio público, facilmente acessíveis, como dicionários e enciclopédias.

 Colhi, então, a informação de que, no tempo do Império Romano, sob Caio Júlio César, consoante conta Caio Plínio Segundo, o Velho, o ano vulgar possuía 365 dias. Como o movimento de translação anual da Terra à volta do Sol somente se completa após 365 dias mais um quarto, as seis horas restantes ensejavam divergências entre o ano civil e o moto dos corpos celestes – estrelas, planetas, nebulosas, cometas etc.

Júlio César, então, convocou o astrônomo Sosígenes, de Alexandria, e contratou com ele a solução do problema. O Sábio egípcio, então, decidiu estabelecer que, de quatro em quatro anos, seria acrescentado um dia ao mês de fevereiro, resultado da soma das horas sobrantes de 365 nesses anos. Tal significa dizer que, após um período de 366 dias (bissexto = duas vezes sexto), se seguem três de 365 e um de 366. De tal maneira, não parece correto se dizer que um ano perfaz 365 dias e seis horas, dada a decisão do Astrônomo alexandrino de somar às 18 horas as seis do tempo bissexto para completá-lo, porém, com 366 conjuntos de 24 x 60 minutos.

Curioso é notar o fato de que todos os anos cuja expressão numérica é divisível por quatro são bissextos, com 366 dias, como nos casos de 1.600, 1.200, 800 e 2.000.

Os anos seculares, salvante esses do exemplo e outros cujos dois algarismos iniciais não se expressam como exatamente divisíveis por quatro, não resultam bissextos, razão por que o ano secular de 1.900 não o foi.

Em alusão a essa periodicidade do tricentésimo sexagésimo sexto dia, inventou-se, no Brasil, uma locução, desusada noutras nações lusófonas – poeta bissexto/escritor bissexto.

A palavra bissexto, bemcomootermo bissêxtil, de há muito deixaram de ser neologismos, pois dicionarizados em 1946. Tencionam, então, conotar o estado daquele, particularmente do poeta, dedicado excepcionalmente à literatura, fazendo poucos versos, o que sugere se evocar, em razão dessa escassez de produção, o dia bissexto de fevereiro (29) e os anos bissêxteis.

Ocorre, exempli gratia, com EUCLIDES Rodrigues Pimenta DA CUNHA, celebrado autor nacional das letras, no terreno social, bem como nas áreas histórica e política. O Autor fluminense produziu extraordinárias obras nestas fertílimas searas, internacionalmente conhecidas e acatadas, como, nestes quatro exemplos, Peru versus Bolívia, Contrastes e Confrontos, À Margem da História e o admirável Os Sertões, além doutras de fecunda inspiração e lúcidas ilações.

Euclides da Cunha (*Cantagalo-RJ, 20.01.1866 ; + Rio de Janeiro, 15.08.1909) achou de escrever, em meio às produções do seu gênero, o Soneto sequente, intitulado Dedicatória, que extraí de Os mais Belos Sonetos Brasileiros, livro de Edgard Resende (Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1945):

Se acaso uma alma se fotografasse,/De sorte que nos mesmos negativos/A mesma luz pusesse em traços vivos/O nosso coração e a nossa face …

E os nossos ideais, e os mais cativos/De nossos sonhos … se a emoção que nasce/Em nós também nas chapas se gravasse/Mesmo em ligeiros traços fugitivos …

Amigo! Tu terias com certeza/A mais completa e insólita surpresa/Notando – deste grupo bem no meio

Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente/Destes sujeitos é precisamente/O mais triste, o mais pálido e o mais feio.

Muitos dos literatos nacionais fizeram versos assim, bissextamente, conforme disse, certa vez, o intelectual-dentista Ivan César a respeito de meu amicíssimo Antônio Girão Barroso (o Toinho, meu irmão – como o chamava o Magdaleno), “o único poeta dispensado de fazer poesia”. Há alguns livros, especialmente de sonetos (duas estrofes de quatro versos = quartetos; e duas de três = tercetos ou trísticos), enfeixando a produção de poetas bissextos, o mais importante dos quais, pela sua contemporaneidade, é a Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos, organizada por MANUEL Carneiro de Sousa BANDEIRA Filho.

A produtiva industriosidade neológica brasileira – cearense, nomeadamente – já se serve de estender mais ainda o alcance de bissexto, de maneira que se diz, progressivamente, economista bissexto, administrador bissexto, articulista bissexto advogado, orador, comentarista e até bebedor bissexto; tudo isto sem remissão a fevereiro como o mês em que, por motivo óbvio – de acordo com a invencionice moleque do cearense – a mulher fala menos …

Não é o que ocorre, porém, no Brasil. com os “lavajatos”, que, infelizmente, não são bissextos…

Pílulas para o silêncio (Parte CXXXVIII)

CLAUDER ARCANJO, Membro Correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

O futuro é um punhado
de cinzas que o vento semeia.
(Francisco Carvalho, em “Futuro”)

Tentei antecipar minha passagem final, afoito e agoniado; mas, ao chegar diante de Caronte, o óbolo que lhe levava era uma moeda de papel. Nele, os rabiscos de um verso tosco e desenxabido. De lembranças, nenhum dito. Ele me olhou, com olhos de fúria e espanto, e me ordenou que cá voltasse. E, como castigo, prendeu-me aqui com elos de humildade a escrever, com fogo e sangue, tudo aquilo que eu julgava de todo esquecido.


Seu futuro terá o tamanho do metro do seu presente. E, acredite, a mesma marca do tecido do passado.


As cinzas que jogares com fúria frente aos passos dos outros obstarão os olhos teus.

As cinzas as quais, com zelo e denodo, ofertares ao terreno de outrem, estas, suprema graça, adubarão as árvores que ofertarão os frutos que alimentarão os teus.


Todo futuro nasce na esquina de outrora, no passo lento do agora. O tempo verdadeiro não suporta o mal-agradecido que teima em driblá-lo com atalhos.


Vem cá, mergulha no meu silêncio, e vê se ainda estou aqui. Se não escutares nada, saibas: eu cá comigo estou.


Notei que Caronte, antes de retornar, me deixou uma passagem aberta de volta, mas me pediu para escolher a data. Desde então, Hades corre lentamente no fundo do meu esquecimento.

O capão

RAIMUNDO DE ASSIS HOLANDA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 22

Minha mãe criava galinhas, galinhas de capoeira, para uns, galinha pé duro, para outros. Não conto as vezes em que saboreamos galinha à cabidela, com pirão de farinha de mandioca. Prato apreciado em todo o nordeste brasileiro. Ingredientes deste prato: pedaços de várias partes da galinha, ensanguentados com o sangue da penosa.

Mamãe sabia com maestria preparar um capão. Coitado do franguinho. Com faquinha bem amoladinha, ela extraía os quimbas do galinho. Ficava este confinado no chiqueiro, para engorda.

Miguelino adora capão. Mora ele nas brenhas do sertão nordestino, em casa de taipa, construída em um capão de mato. Era homem trabalhador, da roça. Ágil no manuseio do machado e da foice. De repente, o roçado estava pronto para a semeadura de milho e feijão. Jerimum e melancia cresciam no barreiro, depositário de casca de banana, manga, caju, formando, com o tempo, composto orgânico. Daí, os nutridos jerimuns caboclos e de leite, e melancia, doce que nem mel.

Miguelino, de namoro firmado com Roseli, moça fagueira, cabelos de graúna, caídos até a cintura. Os pais consentem namoro, mas Miguelino não ia amassar banco por muito tempo. O fato é que logo casaram.

Os noivos foram festejados com dois saborosos pratos: galinha à cabidela e cevado capão.

Nos idos do século XX, nas brenhas do sertão nordestino, era costume: a noiva ficava uma semana retida na casa dos pais. Lua de mel só depois desse período.

Roseli era perita nos bilros. Tecia lindos Ós, rendas, de vários desenhos. A venda do produto auxiliava na manutenção da casa. Os meses foram passando, na contagem da vizinhança, mais de nove meses, e nada de a barriga de Roseli aumentar. Aí começam os titis. Onde estará o problema? Nele ou nela?

Em segredo com as amiguinhas, confidenciava ela que o ritual era seguido à risca.

Nesses dez meses de casada, mensalmente, a regra aparecia.

Roseli consegue convencer Miguelino a procurar médico. Teria que se deslocar até a cidade mais próxima, distante cinquenta quilômetros.

-Home, procura um médico, aliás, vamos os dois. O médico nos examinará e descobriremos se o “defeito” está em mim ou em ti. E assim foi feito.

Após o exame de Roseli, o diagnóstico sugere que ela não tem nada que impeça uma gravidez.

Causa da infertilidade está em Miguelino. O médico chama-o de lado e diagnostica:

– Miguelino, o amigo é capão.

Retorna à casa, junto com a mulher, mas muito capiongo. Uma tristeza que fazia dó. O dilema: o que vou dizer para Roseli?

Um dia, tomou coragem, chama a mulher na camarinha e dá-lhe a notícia. Roseli arregala os olhos, cheia de surpresa, sai-se com esta pérola:

– Foi tua mãe quem fez isso quando tu eras garotinho?

(Assis Holanda – Agosto de 2019)

Malinações em pleno expediente

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

A ociosidade é a mãe de todos os vícios.
(Dito lusitano).

A ociosidade é a mãe de todos os vices.
(Paródia do Mons. Francisco SADOC DE ARAÚJO.
Sobral, 17.12.1931).

De certa feita, abri a porta da Vice-Reitoria da Universidade Federal do Ceará, com o fito de cumprimentar, no modo ordinário de fazer, o então vice-reitor e meu amigo, Professor Doutor Ícaro de Sousa Moreira, hoje na Casa do Pai. Eis que, por mim inesperado, esse atilado arturo-scottiano dirigia uma “távola retangular” com umas quinze ou mais autoridades acadêmicas. Só depois, soube que o reitor, Professor Renê Teixeira Barreira, estava de viagem. Escabreado, ia fechando, quando ele disse:

– Entre, professor. Quer alguma coisa?

– Não. Apenas cumprimentá-lo. E a todos.

Então, para não passar batido, fiz esse comentário: – Magnífico: você está desdizendo a paródia cunhada pelo Monsenhor Sadoc!

– Qual é a paródia?

A ociosidade é a mãe de todos os vices. Risada geral.

Comentada para abrir estas lérias a dita paródia, remeto-me à crônica Folha de Dezembro, saída no medium da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, a fim de recordar o ócio praticado em expediente duro, porém gostoso e saudável, como escriba do Reitor Hélio Leite, coadjutor dos diretores de centros e faculdades, assistente dos pró-reitores, ajudante de docentes e funcionários e, como os portugueses exprimem, acólito “de toda a gente”.

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