Hoje eu vou me visitar

Anizeuton Leite *

Vivemos em mundo barulhento e iluminado. Presenciamos um corre-corre frenético das pessoas, que quase sempre, buscam algo material para preencher o vazio existencial.

Somos diariamente bombardeados com paredões de som que circulam constantemente em nosso meio e que agridem os nossos ouvidos não só pela quantidade de decibéis que lançam ao ar, mas também pela péssima qualidade das músicas. Também faz parte da nossa paisagem urbana os letreiros luminosos, os outdoors, a propaganda capitalista…

Nesse ambiente hostil (barulhento e iluminado) não tem sobrado espaço para a cultura do silêncio e do aconchego. O silêncio é propício para a reflexão e promove um bem estar na alma. Precisamos ter momentos de silêncio para ouvir e ser ouvido. E o silêncio mais revelador é o silêncio interior. Ele revela quem somos verdadeiramente. Acorda-nos para a beleza da vida e a urgente tarefa de viver bem e viver o bem.

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Reencontro benéfico

Vianney Mesquita*

Na adversidade é que se prova a fidelidade dos amigos. (Nicolau MAQUIAVEL).

Na semana passada, dirigi-me à Av. Virgílio Távora, 999 – Fortaleza, a fim de bacorejar as temáticas de algumas produções librárias mais novas, por via da leitura de suas guarnições, em particular, aquelas relativas a apreciações literárias, notadamente obras de autores cearenses.

Ao escalar o derradeiro degrau daquela culta escada da famosa Livraria Cultura, deparei no cafezinho o meu amigo Prof. Dr. Francisco Auto Filho, da Universidade Estadual do Ceará, a quem há muito não via. Com ele, tampouco, mantinha qualquer conversa, sequer por telefone ou correio eletrônico, palestra que me fazia bastante falta, pois estivera, então, abstido de suas tiradas racionais e doutrinações elevadamente pedagógicas, o que aprecio demasiado, máxime no terreno do comportamento cidadão no âmbito da vida em sociedade.

Intelectual de renome nacional, aggiornato ad oggi em relação a todas as modalidades informacionais, não apenas de Filosofia – substância que cultiva e transmite na Universidade – ele assim procede, pois intui que o saber parcialmente ordenado não é estanque, não é feito em pedaços e “pacotes”,  distinguindo, pois, o fato de inexistir saber particular  (Non datur scientia de individuo), como já se descortinava  no âmbito da Escolástica de Alberto Magno e tantos outros sábios, ainda no momento bastante respeitada naquilo que o tempo, impondo naturalmente  outros pensares, não houve por bem falsear e desmanchar.

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Imprimatur no jardim de Academo

(Para a História da Editoração Acadêmica no Ceará)

Vianney Mesquita*

 Oh! Bendito o que semeia livros a mancheias. E manda o povo pensar! (Antônio Frederico de CASTRO ALVES. * em Castro Alves-BA, 14.03.1847; + Salvador, 06.07.1871).

A primeira vez que tive notícia da palavra editora foi durante a alfabetização, sob a regência da histórica e extraordinária Professora Eunice Leite, na Palmácia dos ‘1950. Foi quando aprendi, decorado e de salto, as letras do alfabeto português, soletrando e escrevendo no Caderno Avante as primeiras sílabas componentes da cartilha Criança Brasileira, com o sinete da Livraria Agir Editora.

Anos depois, fui mais a fundo na noção, quanto tomei contato com a obra de José Bento Monteiro Lobato (1882-1948), jurista de Taubaté-SP que, ocasionalmente, se fez grande escritor, notabilizando-se, em particular, pelo incitamento por ele imprimido à literatura de teor infantil no País, tendo sido, também, editor.

O nome tipografia – impende reforçar – é hoje banido de uso corrente e dos dicionários, em decorrência das fulgurações modernistas e dos sempre renovados processos de composição e impressão introduzidos pela maravilha da Informática.

Conheci a primeira tipografia no ano de 1960, quando entrei para a Escola Industrial de Fortaleza. Ali era, ex-vi da legislação relativa ao ensino técnico-industrial, obrigado a transitar pelas Artes Gráficas, sob o comando do esquisito, mas bondoso, Prof. Antônio Siqueira Campos, de todos conhecido como Mestre Camarão.

Nos bancos da então EIF, hoje (2018) Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – IF-Ceará, descobri-me com pendores para a escrita, e lá redigia pequenos e enjambrados periódicos (não jornais, pois estes, a rigor e conforme o nome aponta, são diários) de número só, carregadíssimos de adjetivos desnecessários, defeito do qual me corrigi, em parte, por obra e graça do professor canindeense Mário Barbosa Cordeiro, a quem tive, aliás, a satisfação de cumprimentar, no dia 24 de julho de 2017, pela passagem dos seus 96 anos.

Uma vez jornalista de ofício, graduado pela Universidade Federal do Ceará em 1974, onde recebi aulas substanciosas ministradas pelo Prof. Heitor Faria Guilherme (de lembrança saudosa), a Professora Doutora Adísia Sá arranjou-me um emprego de redator na TV Educativa (hoje TV Ceará – Canal 5), ao tempo em que o sempre relembrado Carlos Neves D’Alge – também, como Adísia, jornalista e docente da UFC – era superintendente.

Por indicação do Professor Faria, de novo, entrou Adísia em cena e me levou para ministrar aulas no Curso de Comunicação da UFC, onde, depois, por seleção de títulos, fui efetivado, acumulando legalmente com o emprego da TV.

Após o fastígio dos 12 anos do Mestre Antônio Martins Filho como Reitor (fundador) da UFC, registou-se um hiato no progresso da Instituição, com uma seguinte administração muito fraca, acompanhada de duas, operosas, no entanto ameaçadas e tolhidas constantemente pela espada damoclesiana (Ovídio) da chamada revolução de março.

Seguiu-se o reitorado do intelectual e acadêmico coestaduano, Prof. Paulo Elpídio de Menezes Neto, o qual, então há pouco egresso de altos estudos realizados em França, homem culto e bem relacionado nacionalmente, reformulou totalmente o projeto de publicações da UFC, fazendo das Edições UFC (batizadas por ele) paradigma nacional na seara da editoração universitária, somente “rendendo homenagens” às editoras da UNB e da USP; mesmo assim, diferentemente das demais, os programas dessas instituições possuíam caráter comercial e visavam ao lucro.

Paralelamente às ações docentes, militei nas Edições UFC, onde fui secretário-executivo, ali me demorando oito anos, durante as administrações de Menezes Neto – e de José Anchieta Esmeraldo Barreto – de quem sou coautor em duas obras, o que me agrada e honra sobremodo. Na sequência, fui fazer parte da equipe do Reitor seguinte, Professor Raimundo Hélio Leite, como seu assessor especial.

Vivíssima e operosa, ainda está a Edições UFC, trabalhando a emprego total, arrimada em seriíssimos critérios de seletividade, sob o crivo de uma Comissão Editorial de alçada competência, e hoje encontra-se sob a direção editorial do Prof. Antônio Cláudio Lima Guimarães, profissional competente, produtivo e diligente, de caráter moral e intelectual inatacável.

Depois, então, desses compridos ganchos para introduzir o lance principal da estória, tem-se que, ao assumir a Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA, o novo Reitor – o pranteado Prof. José Teodoro Soares – cuidou, entre outras providências urgentes, de instituir as Edições UVA, tendo por fim precípuo conceder vazão editorial aos seus trabalhos de incutir nova cultura institucional junto a sua comunidade acadêmica, derivando, bem pouco tempo depois, para a edição de escritos de real valor, da colheita de seus docentes e pesquisadores.

De efeito, fruto de qualificação do conjunto de professores e investigadores da UVA, por ele estimulada, o acúmulo de originais de boa qualidade foi aumentando, motivo por que foi necessário instituir outros periódicos científicos que calçassem as opiniões e achados havidos como saber novo, produzidos no âmbito institucional. Um desses periódicos, ainda bem vivo, é denominado Essentia – Revista de Ciência e Cultura da Universidade Vale do Acaraú, dirigida, por muito tempo, pelo pesquisador e docente, com diversos livros publicados, Professor Doutor Teobaldo Campos de Mesquita (UFC e UVA).

Essentia sai semestralmente – hoje informatizada – de modo que já foram editados dezenas de números bastante alentados, cujo conteúdo recebe do público especializado no País os mais favoráveis conceitos, em razão da seriedade e mercê da responsabilidade como o seu Colegiado Editorial procede ao selecionar as matérias propostas, consoante ocorre, também, com os seus outros excelentes periódicos.

Em formato de livro, as Edições UVA publicaram centenas sob plural temática, coincidente com estudos de graduação, especialização e mestrado.

Como o óbvio às vezes se absconde – em especial, pro rata temporis – não será ocioso reafirmar a ideia de que o absoluto sucesso do Programa Editorial, como de resto toda a UVA, é creditado ao espírito então aberto, renovador e inovador que presidiu ao trabalho do saudoso Reitor Teodoro Soares, o qual, contando sempre com uma excepcional equipe, sempre dizia sim aos bons projetos e jamais rejeitava por completo os defeituosos, porém os devolvia, a fim de que deles os autores procedessem ao devido saneamento, voltando a oferecê-los à publicação.

Por todos esses resultados, o Programa Editorial da UVA constitui atividade ancilar de relevância, para que o desiderato do Reitor-Fundador de fazer da UVA uma academia de médio a elevado porte, agora, algum tempo depois de seu passamento para a outra dimensão, continue sendo materializado e à plenitude, o que já sucede, com certeza, haja vista a excelência dos seus programas e o aporte de mais projetos, a cada dia trazidos à Universidade, como o de que ora cuido, ocorrência do ano de 1996 (há 22 anos), o que chamo de Imprimatur no Jardim de Academo.

Abecedário aliterante

Vianney Mesquita

(Professor-Adjunto IV da Universidade Federal do Ceará. Acadêmico-titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa, da Academia Cearense Literatura e Jornalismo e da Arcádia Nova Palmaciana. Escritor e jornalista.)

Márcio Catunda

(Escritor e diplomata. Bacharel em Direito.)

RESUMO

Exercício de versificação em estâncias decassilábicas portuguesas, com o emprego da aliteração e de outros tropos linguísticos. Seu produto configura 23 quartetos, tendo por base igual número de letras do alfabeto da Língua Portuguesa – uma quadra para cada letra (sem k, y e w) – com suporte na literatura de metrificação poética reconhecida no Brasil e em Portugal, conhecimento obtido ao longo do tempo, sem, no entanto, particularizar nenhum autor, embora sejam indicados alguns na Bibliografia para demanda por parte dos leitores (AZEVEDO, 1970, 1997; CAMPOS, 1960; NASCIMENTO, 1995;  e CARVALHO,1991). Em razão de, na peça, poder alguém enxergar os estilos preciosista e bestialógico, descarta-se essa possibilidade, com explicações plausíveis.

Palavras-chave: Decassílabos Portugueses. Aliteração. Preciosismo. Bestialogia.

Keywords: Portugueses Three-syllable. Alliteration. Stylistic reasons. Nonsense style.

Notações Essenciais

O escrito sob relação, composto em parceria biautoral, é um exercício de versificação, com emprego do verso decassilábico português, cuja intenção descansa em exercitar o espírito, demonstrar a possibilidade de proceder à versificação em obediência às técnicas ratificadas ao longo dos estudos, desde a Escola Siciliana, no século XIII, transitando por Francesco Petrarca e Francisco Sá de Miranda, e, num nível de estesia pouco comum, recorrendo-se, na totalidade, ao expediente da aliteração.

Também assenta, decerto, na expectação de recolher dos consultantes opiniões abalizadas a respeito da propriedade ou não das alocuções registadas, a fim de, se for azada a oportunidade, apropriar-se de tais contribuições, refazendo a operação, após o que se poderá reeditar a peça, com os possíveis adendos.

Antes de se adentrar o Abecedário Aliterante, composto de um quarteto de paragramatismos para cada letra da língua lusa (tirante k, y e w), em que se manobram as informações propedêudicas atinentes a esse poema, perfazem-se explicações rimadas na mesma grade – estâncias com dez acentos – a fim de facilitar sua leitura e decodificação.

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SÃO FRANCISCO DE ASSIS MAGNIFICAMENTE REVISITADO

SÃO FRANCISCO DE ASSIS MAGNIFICAMENTE REVISITADO

Maria Célia Mesquita Molinari*

 

Confesso que, ao receber o convite para fazer a matéria inaugural deste livro, Francisco de Assis – Alegria e Santidade na Pobreza, de Socorro Lima Mesquita, senti um misto de timidez, insegurança e talvez fraqueza.
Veio-me, então, espontânea a vontade de parafrasear a nossa querida Regina Elisabeth Jaborandy de Mattos Dourado Mesquita, e responder: não posso, não sei, meu estudo é pouco.
Depois, concordei com o autor Teoria da Relatividade, Albert Einstein, para quem Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos. Fazer ou não fazer algo só depende da nossa vontade e perseverança.
Senti, então, que não me podia furtar a essa tarefa, ainda mais ao me reportar a São Francisco de Assis, de quem me confesso apaixonada.
Na verdade, todas as vezes que reflito sobre bondade, humildade, piedade e tantas outras virtudes, penso em Francisco, que, na minha maneira de entender as coisas do Alto, foi figura fiel do próprio Cristo.
Enche-me de alegria saber que Socorro Mesquita decidiu escrever um livro sobre a vida de um santo, especialmente numa época de permissividade como a que vivemos, quando valores morais, religião, oração, pureza, respeito a Deus e ao próximo são coisas “ultrapassadas”, que significam agir na contramão dos ensinamentos terrenos.
O ser humano parece completamente alheio à sua finitude e se preocupa somente com o que é material e passageiro. A fragilidade da vida terrena semelha que atinge somente os outros.
A santidade de Francisco de Assis, tão bem reconfigurada pela Autora, foi radical, uma graça do Espírito Santo, tendo ele recebido e assumido esse favor divino com todas as forças.
Depois da vida mundana que levara, São Francisco abriu os ouvidos e o coração somente para a voz de Deus, a Palavra, o Cristo e nEste para o irmão, amando-o de coração e tendo assim a dignidade de receber no próprio corpo as chagas de Jesus.
Quem tiver a graça de ter nas mãos este volume deixe-se guiar por esta mercê de Cima e medite com profundidade na obediência de Francisco à Palavra, fruto de suas reflexões do Evangelho.
Esta aquiescência franciscense é cópia da atitude de Maria que, ante o anúncio do anjo de que seria mãe do Salvador, em profunda obediência – fruto de oração e interiorização – se lançou nas mãos de Deus e, sem temer o que lhe pudesse acontecer, respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” – a célebre expressão escritural Ecce ancilla Domini fiat mihi secundum verbum tuum, expressa no Evangelho de São Lucas, capítulo 1, versículo 38.
Ainda se pode louvar na vassalagem de São José Operário, então seu prometido em casamento, que renunciou incontinenti aos seus planos de um consórcio comum, uma família (Jesus, Maria e José), sua oficina de carpinteiro, enfim, um sonho normal de todo jovem.
São José, então, ao ser avisado em sonho, por um anjo de que o Filho gerado em Maria o foi pela ação do Espírito Santo, abandonou tudo e a conduziu para sua casa. Passou, também ele, por todas as vicissitudes experimentadas pela mãe e assumiu essa paternidade com responsabilidade e amor ímpar. E, por último, é salutar a prática de meditar na obediência do próprio Jesus que, mesmo

[…] sendo de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.

Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a gloria de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor. (Fl2 , 6-11).

Muitas vezes, ao evocar São Francisco, eu imaginava como conseguiria um ser humano alcançar a salvação, por não serem as pessoas capazes de imitá-lo em suas virtudes. A certeza da misericórdia do Pai, entretanto, que ama infinitamente a todos os seus filhos e distribui a cada um os seus dons, nos faz ter esperanças e confiar na Sua imensa bondade conhecedora de nossas fraquezas e limites.
Erramos, vacilamos, mas, se abrirmos o coração, tenhamos a certeza de que Deus jamais nos abandona, […] “nunca se cansa de perdoar-nos; nós é que cansamos de pedir perdão”, como diz o Papa Francisco, verdadeiro arauto do Evangelho de Cristo.
É oportuno expressar o argumento de que o nome deste novo Príncipe de Roma para designar o Pastor do Cristianismo, o qual segue os passos de São Francisco, foi escolhido pelo próprio Espírito Santo e, mais do que nunca, podemos sentir viva essa presença, convidando à conversão, suscitando evangelizadores sacerdotes e leigos a ajudar esse Embaixador da Santíssima Trindade a conduzir o rebanho para “verdes prados e fontes de águas puras”, a fim de lhe restaurar as forças ( Sl 22, 2-3).
Percebe-se claramente no mundo uma verdadeira batalha entre o bem e o mal: guerras, violência, crimes, sexualidade exacerbada, filhos trazidos ao mundo de maneira irresponsável, êxodo de populações em busca de paz em países estranhos de língua e cultura diferentes. Não que isto seja uma novidade, pois é mesmo uma situação que se repete ao longo dos séculos.
É notório, porém, o fato de que, ao lado de tudo isto, há também um como que “aquecimento” espiritual. Veem-se pessoas desejosas de aprender e viver a Palavra de Deus, uma expressiva quantidade de jovens que procuram a Palavra (Jornada Mundial da Juventude), muitas pessoas que ingressam em programas de voluntariado para ajudar o próximo, e um grande numero de santos contemporâneos elevados à honra dos altares.
Temos a alegria de contar entre os santos um João XXIII, João Paulo II, Tereza de Calcutá, Faustina Kowalska, como também pessoas que, mesmo não tendo sido elevadas ao múnus da santificação, restam por demais conhecidas as suas obras pelo bem comum, como Helder Câmara, Zilda Arns, Chico Xavier, Irmã Dulce e tantos outros que optaram por pautar suas vidas seguindo a pobreza do Evangelho tão amada por São Francisco.

No contexto evangélico, o pobre é a pessoa honrada, piedosa, espiritualizada, justa (praticante da justiça, ajustado diante de Deus), aberto a Deus e por isso feliz.

O Reino é deles porque, vivendo assim, realizam o pedido de Jesus: Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo (Mt 4,17). O mundo, todavia, faz uma contraposição a essa mensagem e assinala: felizes os que têm dinheiro e sabem usá-lo para comprar influências, comodidades, poder, segurança e bem-estar (MESQUITA, 2016).

Todos os escritos de São Francisco, ele não os atribuía como de sua autoria e sim de inspiração divina; por isso toda a sua obra é fundamentada nas Escrituras, sobretudo, nos Evangelhos. São frutos da profunda vivência interior, do diálogo com Deus. Ele próprio considera sua produção literária como palavra de Deus e solicita a todos que leiam, conservem e divulguem, trata-se de uma leitura espiritual. (MESQUITA, 2016, citando FASSINI).
É necessário, por conseguinte, aprendermos com o Santo a ter uma vida mais simples e regrada, evitando os desperdícios, com vistas a debelar o consumismo. É possível viver com pouco; amar bem mais o próximo, não ter preconceitos e buscar fazer algo de útil em seu favor, sobretudo dos mais necessitados. É premente a ocasião de amarmos e preservarmos a Natureza, desfrutando a vida em sintonia com o nosso Planeta (IDEM).
*Maria Célia Mesquita Molinari é professora aposentada, imortal da Arcádia Nova Palmaciana (Cleonice Danae), titular da Cadeira número 14.

CABOTINISMO

CABOTINISMO

COMPORTAMENTO ABOMINÁVEL

Vianney Mesquita*

O orgulho que almoça vaidade janta desprezo. (BENJAMIN FRANKLIN, cientista, diplomata, inventor e intelectual eclético do Estados Unidos. 1706-1790).

O nome cabotino, adjetivo e substantivo de ambos os gêneros, significa, em acepção original, mau comediante, ator histrião, personagem bufo, cômico teatralmente desqualificado. Consoante sugere Antônio Geraldo da Cunha, no seu Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa (2. ed., Rio de Janeiro, 2001), “parece” aludir ao nome de um ator burlesco de categoria inferior (Cabotin), o qual teria atuado no tempo de Luís XIII, em França.

Figurativamente, entretanto – e esta é a significação preferida e mais conhecida no Brasil – denota a ideia de […] indivíduo presumido, afetado, que procura chamar a atenção, ostentando qualidades reais ou fictícias (CUNHA, 2001), com registo lexicográfico no século XIX (1807), sendo controversa a origem dos seus sentidos expressos em glossários, segundo gizado no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001), de Mauro Salles Villar e Antônio Houaiss.

Este escrito é a continuação de viagem feita na boleia de matéria aqui veiculada recentemente, sob o título de Em qual cabeça assenta este chapéu? – onde expressei indignação com os autores autoproclamados mentores da sociedade, os quais se louvam no expediente da apologia aos protagonistas de suas obras, sem desvinculá-los dos nomes reais como escritores, com vistas à obtenção do aplauso, atitude repreensível, mesmo se o louvor restar merecido, e – pior ainda – caso não sobeje o elogio justo.

A desqualificada significação desta unidade de ideia – cabotinismo – experimenta trajeto bastante comum no decurso na sociedade dos mais diversificados lugares e em tempos totais, conforme, amiudemente, a História relata, submetendo ao risco de sua instalação todos aqueles que não se vacinaram contra a picada da mosca azul – consoante a reflexão de Frei Beto, no livro do mesmo nome – expondo-se, dadivosos, ao seu voraz apetite.

A soberba, a importância e a indispensabilidade quase patológicas dos afagos ao ego sugestionado por Sigmund Freud parecem invadir o controle da volição, determinante da vontade de cada qual, neste caso, concernente a orientar as pessoas na trilha certa, conduzindo-as ao comportamento adequado no âmbito moral, na contextura da decência e no contorno das atitudes saudáveis que devem presidir aos nossos procederes. A isto a sociedade inteira almeja, porém, se descuida de armar anteparos e, com frequência, se descortina subordinada a um inimigo oculto, o qual se arrima até na nossa inteligência, como, por exemplo, na capacidade de escrever bons textos, a fim de operar seu desiderato e nos exibir aos pares com defeito de tanta monta, configurado no recurso nefasto do exibicionismo, sinônimo de ostentação, correspondente a encômio barato e presunção despropositada.

É determinante, por conseguinte, um cuidado redobrado, a fim de as pessoas não se subordinarem às investidas constantes do cabotinismo, mormente quando são alçadas a posições de destaque, por via da Política, Religião, manifestações artísticas e demais haveres dotais impressos pela Providência Divina, como, exempli gratia, a Literatura, a Pintura e as outras quatro artes.

Estas expressões da indústria humana, por efetivo, consuetudinariamente, concedem visão pública e midiática aos produtores e intérpretes, granjeando para seus palcos de shows e outros ambientes de assistência, em catarse aristotélica – de cariz estético – uma multidão apaixonada, desorganizada e desprovida de pensamento racional, condutora do artista aos apogeus da glória, circunstância fácil de ligeiramente enviesar para o senhorio da cabotinagem, de atuação ligeira junto aos que não se abasteceram de defesas rápidas contra opositor de exercício tão desembaraçado e veloz.

O complexo inteiro da Humanidade está sujeito aos tentáculos dos comportamentos charlatães, de tal sorte que se deve permanecer em atalaia contínua contra suas arremetidas. Há que se postar avesso, entretanto, aos pruridos exagerados de simplicidade, como, por exemplo, o autor deixar de assinar uma produção, resignar-se perante a omissão de seu nome de uma ficha técnica, calar-se ante a supressão de referência por parte de alguém em evento cuja efetividade dependeu de sua participação etc., fatos que somente atestam a bobice e a sujeição infantil, também doentias, no polo oposto da ideação do teor cabotino.

Guardo, constantemente, sobrado cuidado com as acometidas desse vilão moral, deontológico e ético, para não ser vergado pelos seus impulsos poderosos (Flexo, sed non frango = envergo, mas não quebro). Ele circula à solta em meio aos desavisados, mormente na ambiência dos inocentes e pretensos credores do reconhecimento e presumidos donos de uma arte maior, definitiva, quando, em muitos lances, representam apenas jejunos e claudicantes aprendizes, visitantes de assuntos sobre os quais estão ainda bastante apartados do domínio.

Estas pessoas merecem de seus próximos – parentes, amigos e circunstantes com quem tenham alguma ligação – os corretivos oportunos, as regulagens apropriadas, a fim de que não habitem o patamar dos artistas deserdados morais que, mesmo sendo bons, ainda acham necessário aparecer, conforme expressei na matéria indicada no terceiro parágrafo desta escrita, como os primeiros entre os pares, feitos luminares refalsados do preparo intelectual e notáveis ilusórios da sabedoria.

Lamentavelmente, não conhecem, ou jamais divisaram, a ideia do cientista de Österreich, naturalizado inglês, Carlos Raimundo Popper (Viena, 28.07.1902 – Kenley, 17.09.1994), para quem todos somos cegos convencidos de que saber e ignorância são vizinhos.