29 de fevereiro de 2020 – ano bissexto

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Mil, dez mil anos não passa de simples
ponto que nos não é dado ver.
SIMÔNIDES DE CEOS. (*Lulis-Ceos, 586 a.t.c. + Agrigento-Itália, 488 a.t.c.).

Depois de 2016, conforme o Calendário Gregoriano, ora vigente na banda ocidental, este ano é o primeiro bissexto, pois hoje, 29 de fevereiro – só ocorrente de quatro em quatro anuênios – significa o fato de que o exercício fluente possuirá 366 dias, ao passo que os três anteriores perfizeram somente 365 períodos de 24 horas.

Ocorreu de amigos e pessoas modestas a mim chegadas, nomeadamente não muito afeitos ao trato literário, me perguntarem, com recorrência, acerca dessa dicção, empregada a miúdo com relação aos poetas e escritores pouco produtivos ou de produção apenas singular, ou seja, “por que Fulano é considerado poeta bissexto?”

Lembro-me de que, em 2012, conforme referido há pouco, penúltimo bissexto sucedido – o derradeiro foi 2016 –  as indagações mais afluíram, de modo que passo a narrar o assunto, evidentemente, sem profundidade científica, louvado apenas no conhecimento do senso comum adquirido à extensão temporal, na vida e na escola, o qual também se encontra à disposição de qualquer pessoa, em obras de referência de domínio público, facilmente acessíveis, como dicionários e enciclopédias.

 Colhi, então, a informação de que, no tempo do Império Romano, sob Caio Júlio César, consoante conta Caio Plínio Segundo, o Velho, o ano vulgar possuía 365 dias. Como o movimento de translação anual da Terra à volta do Sol somente se completa após 365 dias mais um quarto, as seis horas restantes ensejavam divergências entre o ano civil e o moto dos corpos celestes – estrelas, planetas, nebulosas, cometas etc.

Júlio César, então, convocou o astrônomo Sosígenes, de Alexandria, e contratou com ele a solução do problema. O Sábio egípcio, então, decidiu estabelecer que, de quatro em quatro anos, seria acrescentado um dia ao mês de fevereiro, resultado da soma das horas sobrantes de 365 nesses anos. Tal significa dizer que, após um período de 366 dias (bissexto = duas vezes sexto), se seguem três de 365 e um de 366. De tal maneira, não parece correto se dizer que um ano perfaz 365 dias e seis horas, dada a decisão do Astrônomo alexandrino de somar às 18 horas as seis do tempo bissexto para completá-lo, porém, com 366 conjuntos de 24 x 60 minutos.

Curioso é notar o fato de que todos os anos cuja expressão numérica é divisível por quatro são bissextos, com 366 dias, como nos casos de 1.600, 1.200, 800 e 2.000.

Os anos seculares, salvante esses do exemplo e outros cujos dois algarismos iniciais não se expressam como exatamente divisíveis por quatro, não resultam bissextos, razão por que o ano secular de 1.900 não o foi.

Em alusão a essa periodicidade do tricentésimo sexagésimo sexto dia, inventou-se, no Brasil, uma locução, desusada noutras nações lusófonas – poeta bissexto/escritor bissexto.

A palavra bissexto, bemcomootermo bissêxtil, de há muito deixaram de ser neologismos, pois dicionarizados em 1946. Tencionam, então, conotar o estado daquele, particularmente do poeta, dedicado excepcionalmente à literatura, fazendo poucos versos, o que sugere se evocar, em razão dessa escassez de produção, o dia bissexto de fevereiro (29) e os anos bissêxteis.

Ocorre, exempli gratia, com EUCLIDES Rodrigues Pimenta DA CUNHA, celebrado autor nacional das letras, no terreno social, bem como nas áreas histórica e política. O Autor fluminense produziu extraordinárias obras nestas fertílimas searas, internacionalmente conhecidas e acatadas, como, nestes quatro exemplos, Peru versus Bolívia, Contrastes e Confrontos, À Margem da História e o admirável Os Sertões, além doutras de fecunda inspiração e lúcidas ilações.

Euclides da Cunha (*Cantagalo-RJ, 20.01.1866 ; + Rio de Janeiro, 15.08.1909) achou de escrever, em meio às produções do seu gênero, o Soneto sequente, intitulado Dedicatória, que extraí de Os mais Belos Sonetos Brasileiros, livro de Edgard Resende (Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1945):

Se acaso uma alma se fotografasse,/De sorte que nos mesmos negativos/A mesma luz pusesse em traços vivos/O nosso coração e a nossa face …

E os nossos ideais, e os mais cativos/De nossos sonhos … se a emoção que nasce/Em nós também nas chapas se gravasse/Mesmo em ligeiros traços fugitivos …

Amigo! Tu terias com certeza/A mais completa e insólita surpresa/Notando – deste grupo bem no meio

Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente/Destes sujeitos é precisamente/O mais triste, o mais pálido e o mais feio.

Muitos dos literatos nacionais fizeram versos assim, bissextamente, conforme disse, certa vez, o intelectual-dentista Ivan César a respeito de meu amicíssimo Antônio Girão Barroso (o Toinho, meu irmão – como o chamava o Magdaleno), “o único poeta dispensado de fazer poesia”. Há alguns livros, especialmente de sonetos (duas estrofes de quatro versos = quartetos; e duas de três = tercetos ou trísticos), enfeixando a produção de poetas bissextos, o mais importante dos quais, pela sua contemporaneidade, é a Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos, organizada por MANUEL Carneiro de Sousa BANDEIRA Filho.

A produtiva industriosidade neológica brasileira – cearense, nomeadamente – já se serve de estender mais ainda o alcance de bissexto, de maneira que se diz, progressivamente, economista bissexto, administrador bissexto, articulista bissexto advogado, orador, comentarista e até bebedor bissexto; tudo isto sem remissão a fevereiro como o mês em que, por motivo óbvio – de acordo com a invencionice moleque do cearense – a mulher fala menos …

Não é o que ocorre, porém, no Brasil. com os “lavajatos”, que, infelizmente, não são bissextos…

Pílulas para o silêncio (Parte CXXXVIII)

CLAUDER ARCANJO, Membro Correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

O futuro é um punhado
de cinzas que o vento semeia.
(Francisco Carvalho, em “Futuro”)

Tentei antecipar minha passagem final, afoito e agoniado; mas, ao chegar diante de Caronte, o óbolo que lhe levava era uma moeda de papel. Nele, os rabiscos de um verso tosco e desenxabido. De lembranças, nenhum dito. Ele me olhou, com olhos de fúria e espanto, e me ordenou que cá voltasse. E, como castigo, prendeu-me aqui com elos de humildade a escrever, com fogo e sangue, tudo aquilo que eu julgava de todo esquecido.


Seu futuro terá o tamanho do metro do seu presente. E, acredite, a mesma marca do tecido do passado.


As cinzas que jogares com fúria frente aos passos dos outros obstarão os olhos teus.

As cinzas as quais, com zelo e denodo, ofertares ao terreno de outrem, estas, suprema graça, adubarão as árvores que ofertarão os frutos que alimentarão os teus.


Todo futuro nasce na esquina de outrora, no passo lento do agora. O tempo verdadeiro não suporta o mal-agradecido que teima em driblá-lo com atalhos.


Vem cá, mergulha no meu silêncio, e vê se ainda estou aqui. Se não escutares nada, saibas: eu cá comigo estou.


Notei que Caronte, antes de retornar, me deixou uma passagem aberta de volta, mas me pediu para escolher a data. Desde então, Hades corre lentamente no fundo do meu esquecimento.

O capão

RAIMUNDO DE ASSIS HOLANDA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 22

Minha mãe criava galinhas, galinhas de capoeira, para uns, galinha pé duro, para outros. Não conto as vezes em que saboreamos galinha à cabidela, com pirão de farinha de mandioca. Prato apreciado em todo o nordeste brasileiro. Ingredientes deste prato: pedaços de várias partes da galinha, ensanguentados com o sangue da penosa.

Mamãe sabia com maestria preparar um capão. Coitado do franguinho. Com faquinha bem amoladinha, ela extraía os quimbas do galinho. Ficava este confinado no chiqueiro, para engorda.

Miguelino adora capão. Mora ele nas brenhas do sertão nordestino, em casa de taipa, construída em um capão de mato. Era homem trabalhador, da roça. Ágil no manuseio do machado e da foice. De repente, o roçado estava pronto para a semeadura de milho e feijão. Jerimum e melancia cresciam no barreiro, depositário de casca de banana, manga, caju, formando, com o tempo, composto orgânico. Daí, os nutridos jerimuns caboclos e de leite, e melancia, doce que nem mel.

Miguelino, de namoro firmado com Roseli, moça fagueira, cabelos de graúna, caídos até a cintura. Os pais consentem namoro, mas Miguelino não ia amassar banco por muito tempo. O fato é que logo casaram.

Os noivos foram festejados com dois saborosos pratos: galinha à cabidela e cevado capão.

Nos idos do século XX, nas brenhas do sertão nordestino, era costume: a noiva ficava uma semana retida na casa dos pais. Lua de mel só depois desse período.

Roseli era perita nos bilros. Tecia lindos Ós, rendas, de vários desenhos. A venda do produto auxiliava na manutenção da casa. Os meses foram passando, na contagem da vizinhança, mais de nove meses, e nada de a barriga de Roseli aumentar. Aí começam os titis. Onde estará o problema? Nele ou nela?

Em segredo com as amiguinhas, confidenciava ela que o ritual era seguido à risca.

Nesses dez meses de casada, mensalmente, a regra aparecia.

Roseli consegue convencer Miguelino a procurar médico. Teria que se deslocar até a cidade mais próxima, distante cinquenta quilômetros.

-Home, procura um médico, aliás, vamos os dois. O médico nos examinará e descobriremos se o “defeito” está em mim ou em ti. E assim foi feito.

Após o exame de Roseli, o diagnóstico sugere que ela não tem nada que impeça uma gravidez.

Causa da infertilidade está em Miguelino. O médico chama-o de lado e diagnostica:

– Miguelino, o amigo é capão.

Retorna à casa, junto com a mulher, mas muito capiongo. Uma tristeza que fazia dó. O dilema: o que vou dizer para Roseli?

Um dia, tomou coragem, chama a mulher na camarinha e dá-lhe a notícia. Roseli arregala os olhos, cheia de surpresa, sai-se com esta pérola:

– Foi tua mãe quem fez isso quando tu eras garotinho?

(Assis Holanda – Agosto de 2019)

Malinações em pleno expediente

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

A ociosidade é a mãe de todos os vícios.
(Dito lusitano).

A ociosidade é a mãe de todos os vices.
(Paródia do Mons. Francisco SADOC DE ARAÚJO.
Sobral, 17.12.1931).

De certa feita, abri a porta da Vice-Reitoria da Universidade Federal do Ceará, com o fito de cumprimentar, no modo ordinário de fazer, o então vice-reitor e meu amigo, Professor Doutor Ícaro de Sousa Moreira, hoje na Casa do Pai. Eis que, por mim inesperado, esse atilado arturo-scottiano dirigia uma “távola retangular” com umas quinze ou mais autoridades acadêmicas. Só depois, soube que o reitor, Professor Renê Teixeira Barreira, estava de viagem. Escabreado, ia fechando, quando ele disse:

– Entre, professor. Quer alguma coisa?

– Não. Apenas cumprimentá-lo. E a todos.

Então, para não passar batido, fiz esse comentário: – Magnífico: você está desdizendo a paródia cunhada pelo Monsenhor Sadoc!

– Qual é a paródia?

A ociosidade é a mãe de todos os vices. Risada geral.

Comentada para abrir estas lérias a dita paródia, remeto-me à crônica Folha de Dezembro, saída no medium da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo, a fim de recordar o ócio praticado em expediente duro, porém gostoso e saudável, como escriba do Reitor Hélio Leite, coadjutor dos diretores de centros e faculdades, assistente dos pró-reitores, ajudante de docentes e funcionários e, como os portugueses exprimem, acólito “de toda a gente”.

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2019 – Ano 148 da produção queirosiana (Um Pobre Homem da Póvoa do Varzim)

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37, tendo como patrono Estêvão Cruz.

Em nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete
linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas benditas,
os homens praticam todas as ações – mesmo as boas.
(José Maria EÇA DE QUEIRÓS).

1 A JEITO DE EXPLICAÇÃO

Celebram-se, no decurso de 2019, 148 anos do início produtivo literário de José Maria Eça de Queirós, talvez o mais célebre literato português, filho de brasileiro, iniciado com a realização (1871) das célebres Conferências do Cassino Lisbonense.

EQ é um dos mais fecundos literatos de Língua Portuguesa e celebrado escritor na contextura internacional, nascido em Póvoa do Varzim, norte de Portugal, em 25 de novembro de 1845, e que foi habitar a dimensão edênica no dia 16 de agosto de 1900, em Paris.

Importa informar o leitor do fato de que este escrito foi objeto de intensivas modificações relativamente à versão providenciada em 1980, quando se era, em concomitância, docente e estudante. Tal aconteceu porque estavam esgotadas duas obras que lhe serviram de suporte: a Revista de Letras, contendo o segmento O Jornalista do Distrito de Évora, Fortaleza: UFC, v.34, n. 21, pp. 184-198; e o capítulo de igual título, no livro Impressões – Estudos de Literatura e Comunicação. Fortaleza, Edições Agora, 1989. Então, com vistas a conceder informações adicionais ao assunto, providenciou-se esta versão, publicada em Nuntia Morata (MESQUITA, 2014) e, agora (fevereiro de 2019), com modificações insertas por motivos temporais.

A pesquisa foi composta, originariamente, no mencionado ano, com vistas a concorrer ao prêmio literário Elos-Eça de Literatura para universitários – do qual obteve o primeiro lugar – promoção do Elos Clube de Fortaleza, da Empresa M. Dias Branco S.A., organização nacional de grande porte, de controller com sede em Fortaleza, em conjunto com a Embaixada de Portugal acreditada no Brasil, ao tempo do embaixador Sr. Dr. José Eduardo de Menezes Rosa.

Com efeito, o escrito, ora bastante alterado, afasta-se evidentemente da pretensão de aportar grandes novidades à historiografia relativa à produção de Eça de Queirós, máxime ao se considerar o que logo à frente exprime o escritor maranguapense Joaquim Braga Montenegro. Restou incluso aqui na intenção, adrede, de conduzir o escolar, notadamente o secundarista, a tomar contato com os produtos editoriais deste imenso escritor lusitano.

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Colo de mãe

ANIZEUTON LEITE, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

O colo de mãe é lugar sagrado que acolhe, aconchega, embala e acalenta. Lugar seguro que o filho procura nos momentos de dor, medo ou dúvida. Conforto que traduz sem palavras a linguagem inequívoca do amor, da atenção e do benquerer. Quem nunca sentiu o aconchego e a proteção do colo materno é um órfão ainda que tenha mãe.

O choro cessa, a tristeza dissipa, o medo desaparece e a paz se faz presente com a presença maternal. Fortaleza que ampara, consola, aconselha, reza e sofre junto. Mãe e amiga que conhece a linguagem do olhar, pois possui a sensibilidade dos poetas. Sensibilidade para compreender as palavras que não são ditas, o pedido de ajuda que não é verbalizado.

A figura materna transmite amor, sabedoria, paciência e misericórdia. Mãe é doação. Doação que faz esquecer suas dores e tomar para si o sofrimento do outro. Ser mãe é ter sempre uma atitude altruísta; é enxergar seus filhos sempre como criança.

A escultura Pietá, de Michelangelo, retrata, de maneira belíssima, o cuidado e o colo da mãe. Mãe que pega seu filho no colo, que limpa as feridas e que o acalenta em seus braços pela última vez. Braços que tantas vezes pegaram sua cria, conduziram, abraçaram e aconchegaram em seu peito. Mãe que sofre, mas que não se desespera. Mãe que permanece junto até o fim.

O colo de mãe pode ser entendido também como a metáfora do zelo, do cuidado e do amor oferecidos por esse ser, humano e divino, que sabe amar sem pedir nada em troca. Mãe é sinônimo de sabedoria, paciência e carinho. Mãe é um ser que dicionário ou poeta algum é capaz de descrever. Ser mãe é ser, antes de tudo, indefinível.