O Franzão e o Brás

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Podemos convencer os outros com as nossas
razões, porém somente os persuadimos com os
motivos deles. JOSEPH JOUBERT.
(*Montignac, 05.05.1754 – + Villeneuve-sur-Yonne, 04.05.1824).

Durante certo tempo em que o cratense Anselmo de Albuquerque Frazão, convidado pelo reitor Antônio Martins Filho, dirigia um dos órgãos suplementares da U.F.C. – a Imprensa Universitária – trabalhavam no ateliê de desenho da Casa os profissionais Assis Martins (cronista assíduo), Elísio Cartaxo, José Raimundo Monte – o Büí (falecido em acidente de motocicleta), e o Brás, este cujo nome completo me escapole da lembrança, já meio enfastiada de tanta solicitação.

Também militava ali, como parte de sua ação acadêmica, o Professor Geraldo Jesuino da Costa, acadêmico titular de três sodalícios do Ceará, ao chefiar a edição gráfica das revistas da Instituição, editar o Jornal Universitário (para o qual escrevíamos, também, eu e o Professor Ítalo Gurgel) desde o tempo do reitor Professor Paulo Elpídio de Meneses Neto, orientar seus estudantes na disciplina Editoração, ministrada para o Curso de Comunicação Social, bem assim desenvolver outras ações paralelas e afins. Posteriormente, sob os reitores Professor Antônio de Albuquerque Sousa Filho e Roberto Cláudio Frota Bezerra, exerceu por 12 anos múnus como Diretor da então excepcional Casa Publicadora, a qual, hoje, porque os órgãos de controle do País não permitem, está semelhante a peito em homem e ao “H” da Brahma: não serve para coisíssima nenhuma!

A tantos artesãos de uma arte maior, adiciono a incomparável figura do Alberon Soares, pintor e gravador da melhor felpa, muito recentemente desaparecido, cujos inteligentes e espirituosos chistes o faziam admirado ainda mais por parte de quem o conhecia, ajuntando-os, em complemento, aos seus dotes de artista das telas e gráfico a mancheias, antes das grandes fulgurações da Informática, divisora da já envelhecida taxinomia das Artes Gráficas em duas grandes fases diametralmente opostas – antes e depois do computador.

 Esse pugilo de grandes artistas, pois, quase diariamente era engrandecido pela comparência do Prof. Dr. José Liberal de Castro, da vizinha Arquitetura, onde entrava na discussão do futebol, rememorava as estórias engraçadas da Universidade e relatava, quase sempre com muita pimenta, os registos valiosíssimos do seu recheio casuístico, minucioso ao extremo.

Jamais me esqueço de uma vez ter ouvido do Alberon o fato de ele haver lido o convite para os 15 anos da Rosa Frazão – sobrinha do Anselmo, que também trabalhava da IU e não era mais essa juventude toda – reproduzido na seção O Povo há 50 Anos, mantida no periódico de Demócrito Rocha e Paulo Sarasate; dizia ter sido ela a bibliotecária que normalizou o Código de Hamurabi e amanuense redatora da ata da Ceia Larga, a qual, embora não tenha assistido ao dilúvio, pisou na sua lama.

Frazão é homem reto, verdadeiro, autêntico, sem evasivas enganosas nem justificativas matreiras, porém, às vezes, como marca de sua personalidade, meio ríspido, mas de uma severidade que termina na graça, resvala para o gracejo. Há pouco tempo, saía da Agência do Banco do Brasil da Reitoria, muito sério, reclamando das máquinas do Estabelecimento, que apenas soltavam dinheiro para quem tivesse saldo…

Conta, ainda, a canalha da UDN – nisto não acredito – ele haver indicado para um amigo, em viagem ao Rio de Janeiro, hospedar-se no “Hotel Zero Quilômetro”, na Rua Senador Dantas, 24 – Cinelândia. Nada menos do que o Hotel OK.

A proeminência destas linhas está, porém, neste fato derradeiro. Cuida-se do caso das férias concomitantes, ordenadas pelo Frazão, de Assis Martins, Elísio Cartaxo e Büí, deixando o Brás sozinho no ateliê, fato que a este aborreceu por demais. No segundo ou terceiro dia do isolamento do Brás, o Frazão adentrou a sala, desejou “bom dia”, sem resposta do funcionário. Tentou, outra vez debalde, entabular conversa.

Então, Frazão pensou consigo: “Tem mouro na costa”!

Indagou, pois: – o que está acontecendo, rapaz?

Seu Frazão, como o senhor me faz essa maldade de me deixar aqui sozinho, com tanto trabalho, isolado! Faz medo até alma!

– O que isso, Brás! A gente pensa que faz um giro e faz é jirau! Olhe: pelo fato de não ter direito ainda a férias, quis deixar você sozinho, por vários motivos: não tem quem lhe encha o saco; seu café é servido ligeiro, porque não tem outras pessoas; você pode cantar e assobiar à vontade, sem atrapalhar ninguém. Por fim, você pode até soltar um p.., que não há quem diga que foi você. Além do mais, o mau cheiro é somente seu…

O jeito que teve foi rir… E gargalharam ambos.

ACLP comemora o Natal em ambiente virtual

A festa de confraternização que, anualmente, reúne os membros da Academia Cearense da Língua Portuguesa realizou-se, no último dia 17, em ambiente virtual, com expressiva participação dos acadêmicos. O Presidente da ACLP, Prof. Marcelo Braga, comandou o encontro, abrindo espaço para que todos lessem uma mensagem ou expressassem de outra forma seus sentimentos, nesse momento em que, afrontando terrível pandemia, o mundo cristão celebra, com grande esperança, mais um Natal.

O próprio Prof. Marcelo se somou às manifestações de júbilo e resiliência cantando uma canção. Posteriormente, ele transmitiu aos companheiros uma mensagem de agradecimento: “Parabenizo a todos pelo Natal de nossa ACLP. Foi um momento espontâneo, intimista, fraterno e alegre. O sentimento de pertencimento tomou conta de nós. Estávamos próximos, mesmo distantes fisicamente. Cada um com seu jeito especial, sua singularidade, preencheu nosso universo afetivo de significado cristão. Os ausentes se fizeram presentes no cenário de abraços virtuais. Feliz Natal para todos que compõem a canção da Língua Portuguesa da ACLP”.

Seguem-se os textos apresentados na reunião de 17/12:

Natal 2020

Batista de Lima – Cadeira nº 36

Que este natal seja de ventura, sonhos e leituras. Pode vir até com os severinos cabralinos, mas sem esquecer, no entanto, alguns adjetivos suaves e até metáforas pomposas que falem de um menino que nasceu em Belém. Pode vir com a tosse do Bandeira mas sem esquecer meu carneiro jasmim que nunca se esqueceu de mim lá do rebanho do Barros Pinho. Que venha na garupa palustre e bela da vaca estrela o seu companheiro o boi fubá, patativando aquele alagoano de Lima na sua reinvenção de Orfeu. Que as veredas atravessem os sertões de Rosa, desbravando rios que sejam baldos, mas sem a dor e sem o diabo em mim, Diadorim!

Neste Natal se não quintanares um gaúcho passarinheiro, te acertarei com fios de ovos, clariceando o bacamarte de Maria Moura no Tatu de Fideralina, com muita malassada e pão-de-ló.

Neste Natal vamos aos verdes mares bravios de nossa terra querida, vamos visitar a loura que o sol desposou e agora procura a sombra de um cajueiro pequenino carregadinho de flor para descanso do seu cansaço.

Que este natal não seja só da praça, mas que invada quintais, canteiros, cantares e altares. Que gingobelle do Meireles à Sapiranga, do Alphaville ao Araturi, da Aldeota à Urucutuba. Mas não esqueçam o sinal vermelho nem aquela figura que atravessa a rua vestida de Papai Noel. Afinal ali vai Jesus tristinho de máscara e álcool gel, com um saco pesado às costas, com os presentes de que mais precisamos: saúde, paz, felicidade e fraternidade, pão na mesa e amor no coração. Que as sementes do natal invadam nossos corações e germinem carregadas de paz, amor e felicidade. Feliz natal para todos. Amém.

Mensagem de Natal à ACLP

Frei Hermínio Bezerra de Oliveira – Cadeira nº 27

Um filósofo contou que um grupo de pensadores ateus tentou planejar um mundo sem Deus e sem leis. Depois de longa discussão concluíram: sem Deus sim, mas sem leis, não! Seria o caos. Foram elaborar as leis básicas e, ao chegar na oitava lei, eles constataram que já tinham seis dos mandamentos da lei de Moisés.

O historiador hebreu Yuval Harari Yoak dá uma definição laica de religião como: “Um sistema de normas e valores humanos, que se baseia na crença em uma ordem sobrenatural ou sobre humana”. É claro que a prática religiosa não é importada diretamente do céu. Inspirada por Deus – para os que creem – ela passou por longo período de elaboração na comunidade e sempre teve “aggiornamento” = atualização.

Jean-Paul Sartre (*1905 †1980) filósofo, ateu e anarquista, era engajado pelo direito e pela ética. Ao morrer deixou um manuscrito de 2000 pp. “Cahiers pour une Morale”, (Gallimard, 1983), que acaba de ser traduzido em português, por Eliana Sales Paiva, profa. de Filosofia da UECE. Nele, Sartre afirma: “O homem não crê, ele acredita que crê!” (CPM, 154) E ainda: “O ser humano é condenado a ser livre!” (CPM, 447) Ele considera a liberdade, um peso enorme para o ser humano. Mas é pela liberdade que nossos atos têm seu valor. Ele considera que a moral é possível, mas ela exige do ser humano, um ato contínuo de conversão.

Neste tempo do Advento, em que nós cristãos nos preparamos para celebrar o Natal do Senhor. Os textos litúrgicos falam do fim do mundo criado e de vigilância. A liturgia insiste na “conversão”. Este termo, na navegação significa: “mudança de rota”, na ascese “mudança de vida, de comportamento, de atitude”. Para tanto, todos nós devemos “rever” e “prever”. Rever o ano sainte e prever o ano entrante, com possíveis mudanças e talvez “correção de rota”, em nossa vida.

O Natal é a celebração do nascimento de Cristo. Ele se encarnou para morrer na cruz e nos dar a oportunidade da salvação. Por sua morte, cada um de nós pode obter a salvação. Mas nós temos de fazer a nossa parte. Cristo – com a sua morte – não nos salva compulsoriamente. Santo Agostinho nos adverte: Qui creavit te, sine te, non salvabit te, sine te! = Aquele que te criou sem ti, não te salvará sem ti!

Nosso Papa Francisco – mestre em ensinamentos pontuais – nos adverte: “Não sejamos cristãos ritualistas, mas amemos de verdade!” Com frase simples ele chama atenção para o fato de que há cristãos preocupados com ritos. Jesus diz: “Nem todo aquele que diz: Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu pai” (Mt 7,21). Dizer Senhor, Senhor é repetir amiúde ritos, orações e louvores… tendo isto como o essencial, sem dar atenção à caridade, às obras de misericórdia para com o outro e aos atos concretos de amor.

Sigamos o conselho de São Paulo: “Ergo, dum tempus habemus, operemur bonum ad omnes” = Portanto, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos. (Gl 6,10).

Natal nordestino

(Ao Papa Francisco e ao Padre Cícero)

Italo Gurgel – Cadeira nº 17

Quero um Natal sem barbas ou sentimentos postiços,
Sem falsa neve caindo do céu tropical
E sem a falsa alegria
De papais noéis adiposos.

Quero um Natal de luzes lamparinas
Alumiando preces sertanejas.
Quero o silêncio dos jingobéus adocicados
Para ouvir as rabecas em oração.

Quero um Natal como Ele quis:
Sem mãos estendidas nas esquinas
E sem a cusparada da opulência
No rosto dos deserdados.

Quero o Natal festejado em Vaticano de taipa,
Sem faustos, tapetes ou dosséis,
Como era, no tempo da estrela guia,
A casa de José – a casa e a marcenaria.

Quero um Natal sem mantos dourados,
Mas também sem trapos nem farrapos,
Sem balas nem crianças perdidas
Nas esquinas do crack e da miséria.

Quero um Natal sem o preconceito
Que corrói o coração dos ignaros.
Quero um Natal nordestino, aberto a todos os abraços,
Um Natal francisco, como Francisco, certamente, sempre quis.

Que boa nova Ele nos trouxe?

Raimundo Holanda – Cadeira nº 22

A igreja celebra o advento, do latim, “adventus”, ou seja, aquele que está por vir. É um período de espera em alguém muito importante. Quem é esse alguém? A história desse alguém começa assim:

Um anjo anuncia a Maria que ela há de dar à luz a uma criança. A jovem espanta-se. E o anjo:

– Não temas, será um menino, que deverá receber o nome de Jesus. E o anjo prossegue:

– Bendita és tu, entre as mulheres, e bendito é o fruto que nascerá de ti e este fruto chamar-se-á Jesus. E Maria:

– Eis a serva do Senhor, faça-se conforme deseja o Pai. E ela:

– “Magnificat anima mea dominus”. Minha alma exulta ao Senhor.

Hoje é Natal. Festeja-se o nascimento de uma criança tão esperada. O berço foi uma manjedoura. Quantas crianças nascem sem agasalhos, muitas delas abandonadas. Outras, cujas mães não lhes amamentam, porque os seios estão vazios. Nas periferias das cidades, principalmente, e Fortaleza não se exclui, tem-se notícias de crianças abandonadas em saco de lixo, vitimas de bala perdida; vítimas de estupros. Neste momento nos confraternizamos, trocamos presentes, símbolos de fraternidade que há entre nós.   Que lições para nossa vida o Natal nos traz?

Neste momento, nossas residências enchem-se de luz. Nasce uma criança que se tornou um de nós, e veio com a missão de nos pregar a boa nova. Para Ela entoamos hinos de louvor e de embalo:

“Eis na lapa, Jesus nosso bem/dorme em paz, ó Jesus”.

Que boa nova Ele nos trouxe? Veio com a missão de tocar nossos corações. Daí Ele ter dito que o seu reino não é deste mundo.

Ao nascer em uma manjedoura, nos trouxe ensinamentos de humildade, de desapego ao luxo. Ele tornou-se um de nós, para firmar uma eterna amizade. Sua mensagem resume-se nesta palavra: AMOR.

Encerro esta mensagem transcrevendo as sábias palavras de São Paulo e do Papa Francisco:

“Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse AMOR, seria como o metal que soa ou como o sino que tine” (São Paulo).

“O poder deste menino, filho de Deus e de Maria, não é o poder deste mundo, baseado na força e na riqueza; é o poder do AMOR” . (Papa Francisco).

Oração retrospectiva 2020 – o conto de um ano difícil

Gorete Oliveira – Cadeira nº 1

O ano está indo embora. Resta-lhe pouco menos de quinze dias. Tenho pensado muito numa forma de agradecer a Deus. Queria ter um jeito bonito de agradecer a Deus! No retrospecto  que fiz, do réveillon até aqui, o espinho foi um só – o mesmo que nos aflige desde Sísifo – as dores foram muitas, mas aqui estou. Sobrevivi. As lágrimas vêm fortes, e a emoção me toca o coração quando a “fita” diante dos meus olhos relembra os momentos de quando eu em quedas emocionais, e Deus, a exemplo, do que fez na oração Pegadas na Areia, carregou-me no colo e colocou-me de pé em outro ponto do caminho. Obrigada, Senhor, por levantar-me! Desse outro ponto que Deus aumentou no meu conto, viria eu a fazer, refazer e contar outros tantos contos com os pontos que a costura do dia a dia me permitiu aumentar. É que um ano não é um engano ou desengano. Um ano é a soma dos resultados das nossas interações e contracenações. Ações nossas sobre os outros; ações dos outros sobre nós. A fita segue. E depois que atravessei a areia quente nos braços de Deus, estou aqui, forte, com saúde, neste quase Natal, dimensionando os passos. O ano foi também um ano de realizações. Obrigada, Senhor, pelas recompensas! E estas estão no meu próprio corpo. Obrigada, Senhor, pelos meus pés, que me levaram para longe de depressões em que eu poderia cair, mas não caí, e me conservaram no caminho da retidão, que sempre escolhi para andar; obrigada, Senhor, pela minha cabeça, que em momento algum produziu qualquer pensamento que não fosse justo, bom ou correto, mesmo quando as dores e as dificuldades me turvavam as ideias, e por ter tido a capacidade de estudar muito para realizar mais; obrigada Senhor, por minhas mãos porque foram hábeis em escrever bastante e continuam escrevendo muitas coisas que poderão mudar positivamente a vida de muita gente; obrigada, Senhor, por meu corpo inteiro, que nunca faltou a nenhum compromisso, não desfalcou nenhum grupo, conjunto ou equipe de trabalho, não deixou nenhuma aula vaga, não deixou ninguém esperando em vão, não deixou de atender ou ajudar a quem de mim precisou, não negou nenhum abraço; obrigada, especialmente, Senhor, por meu coração, que sempre dedicou meus atos e feitos a Ti, como um louvor! E agora, neste exato momento, agradeço-Te, Senhor, por minhas palavras, que sempre foram pródigas em desejar o bem para as pessoas, em falar de paz, falar como extensão de uma conduta pacífica. E, como vem aí 2021, que ele venha tal qual uma revoada de pombas brancas para todos os que fazem parte do mundo do meu coração: minha família, meus colegas, meus amigos e amigas, meus alunos e alunas, meus confrades e confreiras. Sou-te, Senhor, agradecida, por todos nós que conseguimos chegar até aqui sem sermos ceifados pela terrível pandemia que a tantos roubou o ar, até não poderem mais respirar, e deixarem para sempre esta vida,  partindo desesperadamente  em busca do oxigênio da eternidade. Sou, ainda, grata pelas luzes da ciência, que acenam para o mundo uma esperança a mais em forma de vacina. Glória, Senhor, por estarmos juntos, em expectativa, rezando pelo novo ano que se avizinha!

Uirapuru

Prof. ASSIS HOLANDA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 22

Toda a mata silencia quando ele canta. É um canto melodioso, fino, que encanta até humanos. Habita aquela região da floresta desde priscas eras, portanto, propriedade sua, com papel passado em cartório. Mas a mão predadora do homem, de quando em vez, aprisiona-o, e negocia a venda com estrangeiro. A viagem é sem volta. Ao chegar a algum país europeu, o uirapuru emudece. Permanece macambúzio, feito um casmurro.

Certa vez, o predador consegue vender um casal a um italiano que se encantou ao ouvir o cantar mavioso deste pássaro brasileiro. O casal de estrangeiro embarca em avião da Alitália, levando o inocente prisioneiro.

Na nova morada, no centro de Roma, o casal italiano expõe dourada gaiola no jardim da casa. O casal de uirapuru saltita por toda a gaiola, em busca de fuga. Quem vivia em um universo de céu aberto, imagina-se o que se passa na alma deste casal de uirapuru.

O casal europeu noticia aos amigos a chegada do importante casal. Anuncia aos quatro cantos da vizinhança que lhe faz companhia um casal da família dos Tyranidae ou certhiidae, o uirapuru.

Após uma semana em terra estranha, o casal de pássaro emudece. Não dá um pio. Nem de longe é aquele pássaro de canto demorado, afinado que emudece toda a floresta amazônica.

Diante desse quadro de tristeza, de depressão, sim, animais também têm depressão, o casal toma uma solução de devolver os pássaros a seu habitat. O casal italiano fez o mesmo percurso de volta ao Brasil, trazendo a tiracolo o casal de passarinho.

Já na floresta, os dois estrangeiros abrem a porta da prisão e o casal de uirapuru dá um voo tão alto e pousa no olho de uma frondosa árvore e felizes pela liberdade agradecem aos italianos com um fino e longo canto.

Na vida, às vezes, não sabemos dar valor à liberdade que gozamos e ao lugar onde nascemos.

Fortaleza, 12/07/2020

É saudade

ANIZEUTON LEITE, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa em Jucás/CE

É saudade quando dormimos cheirando a roupa da pessoa amada, quando ligamos ou mandamos mensagem tarde da noite na esperança de ouvir a voz de alguém do outro lado da linha. É saudade quando guardamos os pertencem da pessoa que partiu provisória ou definitivamente. Também é saudade quando escrevemos um poema ou rabiscamos o nome da pessoa amada no caderno; quando enxugamos as lágrimas no banheiro ou beijamos calorosamente alguém quando este regressa de viagem.

É saudade quando ouvimos a voz ou sentimos o cheiro da pessoa amada com um simples fechar de olhos. É saudade quando sonhamos acordados e dormimos sonhando em estar ao lado de quem amamos. É saudade quando o coração acelera com a possibilidade da separação; quando a lágrima molha a face ao pronunciar o nome de alguém. É saudade quando o pensamento viaja enquanto o corpo está parado na estação; é saudade quando o  olho brilha e o sorriso desponta ao ver a pessoa ou o objeto do nosso desejo.

A saudade foi a maneira que Deus encontrou de parar o tempo e eternizar os momentos vividos e as pessoas que amamos. E há vários tipos de saudade. Há saudade da infância – das brincadeiras, do colo da avó, dos banhos de chuva ou dos primeiros anos da vida escolar. Momentos que gravamos na parte mais profunda da nossa memória. Há saudade da inundação de sentimentos da adolescência – do primeiro beijo, da rebeldia, dos sonhos idealizados e das escolhas que fizemos ou deixamos de fazer.  Há também a saudade dolorida; ferida cicatrizada que vez por outra arrebenta e sangra novamente. Saudade do filho ausente; da mãe que morreu tão repentinamente ou do irmão que se afastou e hoje não passe de um mero conhecido.

Saudade é bom e ruim. É bom quando se pode sentir o cheiro, ouvir a voz de quem se ama ainda que distante e desejar ardentemente o reencontro. É bom quando lembramos com carinho e nostalgia aquilo que vivemos. É bom quando ela é alma gêmea do amor. É ruim quando dói e se torna um espinho. Espinho que rompe a carne e se instaura na alma. Dor que não tem remédio ou cura.  Saudade: a ferida e o remédio do nosso cotidiano.

29 de fevereiro de 2020 – ano bissexto

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Mil, dez mil anos não passa de simples
ponto que nos não é dado ver.
SIMÔNIDES DE CEOS. (*Lulis-Ceos, 586 a.t.c. + Agrigento-Itália, 488 a.t.c.).

Depois de 2016, conforme o Calendário Gregoriano, ora vigente na banda ocidental, este ano é o primeiro bissexto, pois hoje, 29 de fevereiro – só ocorrente de quatro em quatro anuênios – significa o fato de que o exercício fluente possuirá 366 dias, ao passo que os três anteriores perfizeram somente 365 períodos de 24 horas.

Ocorreu de amigos e pessoas modestas a mim chegadas, nomeadamente não muito afeitos ao trato literário, me perguntarem, com recorrência, acerca dessa dicção, empregada a miúdo com relação aos poetas e escritores pouco produtivos ou de produção apenas singular, ou seja, “por que Fulano é considerado poeta bissexto?”

Lembro-me de que, em 2012, conforme referido há pouco, penúltimo bissexto sucedido – o derradeiro foi 2016 –  as indagações mais afluíram, de modo que passo a narrar o assunto, evidentemente, sem profundidade científica, louvado apenas no conhecimento do senso comum adquirido à extensão temporal, na vida e na escola, o qual também se encontra à disposição de qualquer pessoa, em obras de referência de domínio público, facilmente acessíveis, como dicionários e enciclopédias.

 Colhi, então, a informação de que, no tempo do Império Romano, sob Caio Júlio César, consoante conta Caio Plínio Segundo, o Velho, o ano vulgar possuía 365 dias. Como o movimento de translação anual da Terra à volta do Sol somente se completa após 365 dias mais um quarto, as seis horas restantes ensejavam divergências entre o ano civil e o moto dos corpos celestes – estrelas, planetas, nebulosas, cometas etc.

Júlio César, então, convocou o astrônomo Sosígenes, de Alexandria, e contratou com ele a solução do problema. O Sábio egípcio, então, decidiu estabelecer que, de quatro em quatro anos, seria acrescentado um dia ao mês de fevereiro, resultado da soma das horas sobrantes de 365 nesses anos. Tal significa dizer que, após um período de 366 dias (bissexto = duas vezes sexto), se seguem três de 365 e um de 366. De tal maneira, não parece correto se dizer que um ano perfaz 365 dias e seis horas, dada a decisão do Astrônomo alexandrino de somar às 18 horas as seis do tempo bissexto para completá-lo, porém, com 366 conjuntos de 24 x 60 minutos.

Curioso é notar o fato de que todos os anos cuja expressão numérica é divisível por quatro são bissextos, com 366 dias, como nos casos de 1.600, 1.200, 800 e 2.000.

Os anos seculares, salvante esses do exemplo e outros cujos dois algarismos iniciais não se expressam como exatamente divisíveis por quatro, não resultam bissextos, razão por que o ano secular de 1.900 não o foi.

Em alusão a essa periodicidade do tricentésimo sexagésimo sexto dia, inventou-se, no Brasil, uma locução, desusada noutras nações lusófonas – poeta bissexto/escritor bissexto.

A palavra bissexto, bemcomootermo bissêxtil, de há muito deixaram de ser neologismos, pois dicionarizados em 1946. Tencionam, então, conotar o estado daquele, particularmente do poeta, dedicado excepcionalmente à literatura, fazendo poucos versos, o que sugere se evocar, em razão dessa escassez de produção, o dia bissexto de fevereiro (29) e os anos bissêxteis.

Ocorre, exempli gratia, com EUCLIDES Rodrigues Pimenta DA CUNHA, celebrado autor nacional das letras, no terreno social, bem como nas áreas histórica e política. O Autor fluminense produziu extraordinárias obras nestas fertílimas searas, internacionalmente conhecidas e acatadas, como, nestes quatro exemplos, Peru versus Bolívia, Contrastes e Confrontos, À Margem da História e o admirável Os Sertões, além doutras de fecunda inspiração e lúcidas ilações.

Euclides da Cunha (*Cantagalo-RJ, 20.01.1866 ; + Rio de Janeiro, 15.08.1909) achou de escrever, em meio às produções do seu gênero, o Soneto sequente, intitulado Dedicatória, que extraí de Os mais Belos Sonetos Brasileiros, livro de Edgard Resende (Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1945):

Se acaso uma alma se fotografasse,/De sorte que nos mesmos negativos/A mesma luz pusesse em traços vivos/O nosso coração e a nossa face …

E os nossos ideais, e os mais cativos/De nossos sonhos … se a emoção que nasce/Em nós também nas chapas se gravasse/Mesmo em ligeiros traços fugitivos …

Amigo! Tu terias com certeza/A mais completa e insólita surpresa/Notando – deste grupo bem no meio

Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente/Destes sujeitos é precisamente/O mais triste, o mais pálido e o mais feio.

Muitos dos literatos nacionais fizeram versos assim, bissextamente, conforme disse, certa vez, o intelectual-dentista Ivan César a respeito de meu amicíssimo Antônio Girão Barroso (o Toinho, meu irmão – como o chamava o Magdaleno), “o único poeta dispensado de fazer poesia”. Há alguns livros, especialmente de sonetos (duas estrofes de quatro versos = quartetos; e duas de três = tercetos ou trísticos), enfeixando a produção de poetas bissextos, o mais importante dos quais, pela sua contemporaneidade, é a Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos, organizada por MANUEL Carneiro de Sousa BANDEIRA Filho.

A produtiva industriosidade neológica brasileira – cearense, nomeadamente – já se serve de estender mais ainda o alcance de bissexto, de maneira que se diz, progressivamente, economista bissexto, administrador bissexto, articulista bissexto advogado, orador, comentarista e até bebedor bissexto; tudo isto sem remissão a fevereiro como o mês em que, por motivo óbvio – de acordo com a invencionice moleque do cearense – a mulher fala menos …

Não é o que ocorre, porém, no Brasil. com os “lavajatos”, que, infelizmente, não são bissextos…

Pílulas para o silêncio (Parte CXXXVIII)

CLAUDER ARCANJO, Membro Correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

O futuro é um punhado
de cinzas que o vento semeia.
(Francisco Carvalho, em “Futuro”)

Tentei antecipar minha passagem final, afoito e agoniado; mas, ao chegar diante de Caronte, o óbolo que lhe levava era uma moeda de papel. Nele, os rabiscos de um verso tosco e desenxabido. De lembranças, nenhum dito. Ele me olhou, com olhos de fúria e espanto, e me ordenou que cá voltasse. E, como castigo, prendeu-me aqui com elos de humildade a escrever, com fogo e sangue, tudo aquilo que eu julgava de todo esquecido.


Seu futuro terá o tamanho do metro do seu presente. E, acredite, a mesma marca do tecido do passado.


As cinzas que jogares com fúria frente aos passos dos outros obstarão os olhos teus.

As cinzas as quais, com zelo e denodo, ofertares ao terreno de outrem, estas, suprema graça, adubarão as árvores que ofertarão os frutos que alimentarão os teus.


Todo futuro nasce na esquina de outrora, no passo lento do agora. O tempo verdadeiro não suporta o mal-agradecido que teima em driblá-lo com atalhos.


Vem cá, mergulha no meu silêncio, e vê se ainda estou aqui. Se não escutares nada, saibas: eu cá comigo estou.


Notei que Caronte, antes de retornar, me deixou uma passagem aberta de volta, mas me pediu para escolher a data. Desde então, Hades corre lentamente no fundo do meu esquecimento.