Nasci coxa

Nasci coxa
Regine Limaverde

Existe apenas um único problema filosófico

realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida

vale ou não a pena ser vivida significa

responder à questão fundamental

da filosofia( Albert Camus) .

Nasci coxa.

Todos me olhavam quando eu passava.

Sentia-me feia.

Minha perna me fazia dançar num ritmo desalinhado.

Detestei-me desde a primeira hora em que me enxerguei.

Lembro-me de um espelho no quarto da minha mãe e a voz arrastada de uma empregada que havia na minha casa.

– O que você está olhando neste espelho? Espelho é pra gente bonita.

Você até que tem um rostinho engraçadinho, mas essa sua perna curta…. E sempre foi assim.

Minha perna era um defeito.

Talvez Deus não estivesse me olhando quando nasci.

Minha mãe era solteira. Casou com meu pai porque engravidou de mim.

Qual não foi a decepção que causei a todos quando o médico me puxou da entranhas de minha mãe e viram que eu tinha a perna esquerda mais curta.

– Coitadinha! Todos diziam ao me conhecer.

Tão bonitinha e com essa perna cotó! Esperaram-me andar.

Não me lembro desse tempo, mas minha madrinha me contou que no dia em que andei minha mãe pagou uma promessa a N.S. de Fátima. A diferença era grande entre a perna direita e a esquerda.

Meu pai era médico e tinha dinheiro.

Providenciou , quando eu ainda era pequena, uma cirurgia para aumentar o osso do meu membro aleijado.

De samba, passei a dançar bolero. Passo lento, desajeitado. Na escola, bullying. Chamavam-me de todos os apelidos que queriam.

Vivia de olhos inchados. Minha mãe era calada, mas muito delicada comigo.

Dizia-me sempre:

– um dia você não mais vai ligar para esse enfeite. Você é diferente e isso faz você ser você.

Completei 15 anos e não quis festa.

– Para quê? Não poderia dançar.

Pedi uma viagem de presente ao meu pai que nessa época era dono de hospital. Todos diziam que ele tinha muito dinheiro.

Eu via a fartura que havia na minha casa. Mas nada disso me fazia feliz. Era tristonha. Meu sorriso era meio sorriso. Nunca me ouviram gargalhar. Era ansiosa. Medrosa. Não ousava sair só.

Lembro que na viagem de 15 anos meus pais foram comigo. Pedi para ir aos Estados Unidos. Queria visitar Hollywood.

Meus olhos eram verde da cor do mar de Fortaleza e meu nariz muito arrebitado.

Todos falavam na minha beleza.

Mas…enquanto sentada. Ao me levantar, as opiniões mudavam e com elas crescia minha amargura.

Fui ficando triste, cabisbaixa, magra.

E aí de tanto me torturar, um dia tive um sonho. Sonhava que era perfeita. Minhas pernas eram compridas como as da Iracema, de José de Alencar.  Talvez nessa época tivesse 17 anos.

No sonho eu voava. E via os lagos e flores e a mata densa. Passava por bando de gaivotas e as seguia. Fiquei tão encantada com o sonho que acordei sorrindo.

Desde aquele dia quero dormir e sonhar. Não gosto da realidade. Não gosto do dia a dia. Não gosto de mais ninguém.

Durmo. Durmo 8, 9, 10 horas por dia. Quando não durmo espontaneamente roubo remédios para dormir das gavetas do meu pai.

Minha vida são os sonhos. Neles sou o que não sou acordada. Faço o que não tenho coragem de fazer. Ontem sonhei que morria. E hoje, vou transformar meu sonho em realidade.

Apuro

Apuro

Clauder Arcanjo

Beijava-a com sofreguidão e persistência. Manhã, tarde e noite.

— Deixe de tanto apuro, homem! — alertava-o a mãe, zelosa, ao presenciar tanto salamaleque.

Ele nem ligava. Quando perto dela, ele sentia um aperto tão gostoso no peito, um friozinho na espinha… Só sossegava o facho, quando, pelo menos, colava os lábios naquela pele macia, beijando-a vezes sem fim.

No trabalho, a lembrança dela arrancava-lhe um bocado de riso. Os colegas, ao flagrarem-no mergulhado naquele desatino, cutucavam-se, confidenciando-se, entre si:

— De tanto apuro… Homem!…

Não fechavam a sentença, como se com a conclusão ferrassem, para sempre, o destino daquele bom companheiro de labuta.

O bocado que ajuntava, nos serões extras, destinava-o, todos os parcos cobres, para os regalos dela. O comerciante da província, ao tempo em que comemorava a venda, soprava para o caixa, quando ele sumia na esquina do Mercado:

— Tanto apuro!…

E subentendia as suas conclusões naquelas reticências; a ficarem dispostas sobre o balcão e as chitas coloridas, num corte de preocupação, como se antevisse o fim daquela conta.

Nos finais de semana, o seu programa era o programa dela. Louco por futebol, ele deixava que ela roesse as unhas, frente ao seu rádio ABC, acompanhando as novelas de amor. “E perdição!…” — no julgamento do pároco, seu primo, antes de informá-lo acerca do resultado da partida.

A empregada espanava os móveis com uma raiva ferina, revoltada com tamanha submissão. Quando uma louça era sacrificada por aquele espavento, ela arrematava, sem pedir desculpas:

— Apuro… Homem.

Após o almoço, em que comia sempre o melhor pedaço — muitas vezes, ele roía-lhe as sobras —, ela dormia a tarde toda na rede disposta na varanda. Varanda esta encoberta por uma “sombra dadivosa” da goiabeira do vizinho. Ela encostava a porta que dava para a casa, e pedia (melhor, ordenava) a todos para não ser importunada.

— Tenho o sono leve. E estou um caco, sabia?… Não consegui dormir com os seus roncos!

O marido fazia-lhe guarda, para que ninguém lhe quebrasse o descanso.

***

Na cozinha, a empregada rodava a vassoura, como se espada nas mãos de uma ensandecida. Ao esfarinhar uma inocente louça, urrava, como uma louca:

— Homem! Homem!…

***

No fim da tarde longa daquele domingo, o galho da goiabeira não resistiu.

— O que foi, benzinho?

— Nada. Deixe de apuro.

Ele sentiu um aperto no peito, um frio na espinha…

Clauder Arcanjo

clauderarcanjo@gmail.com