Novo Acordo IX

Frei Hermínio, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira 27

                         Diferenças entre o VOLP de Portugal e o do Brasil (09)

          Os 21 países de habla española têm um Dicionário Oficial, aceito e seguido por todos eles, editado pela RAE = Real Academia Espanhola. Este traz as palavras mais significativas usadas especialmente em cada um dos países do bloco. 

            A partir do II Acordo Ortográfico 1943/1945 existe o VOLP = Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Temos um editado no Brasil (2009) com 877 pp + XCVIII pp de anexos e um em Portugal (2009) com 643 pp com anexos não paginados. Uma comparação da quantidade de palavras contidas nas letras k, w, y dá uma ideia clara desta diferença: VOLP de Portugal nas letras: K, 88 pal. W, 78 pal. Y, 21 palavras. Nós constatamos no VOLP do Brasil nas letras: K, 236 pal. W, 239 pal. Y, 31 palavras. Nestas três letras o VOLP do Brasil tem 319 palavras a mais, do que o de Portugal.

            Usa-se hífen em palavras/locuções compostas que não contêm elementos de ligação… (Cfr. Base XV, 1, a). Os dois VOLP discordam com frequência nesta regra. O VOLP (PT) traz 86 expressões de dois termos, iniciando com “não”, de não-absorvente a não-volátil, todas com o hífen, seguindo a regra. O VOLP (BR) traz 60 expressões de dois termos iniciando com “não”, de não agressão a não vocálico, todas sem o hífen. As expressões inicial e final do VOLP (PT), não constam no VOLP (BR) e neste faltam 26 expressões constantes no VOLP de Portugal.

            Casos semelhantes:

1 – No VOLP (BR) tem mais-valia e não valia; o VOLP (PT) não traz a expressão não valia, mas certamente grafaria não-valia, com hífen, como todas as desta série. No VOLP (BR): fru-fru; xi-xi-xi… no VOLP (PT) elas são grafadas frufru e xixixi. No VOLP (BR) na letra X constam 1049 termos, no VOLP (PT) apenas 766 termos.

2 – No VOLP (BR) consta centroafricano = relativo à República Centro-Africana e centro-africano = relativo à África central. O VOLP (PT) traz apenas centro-africano. Há aí um contrassenso: o termo sem hífen refere-se ao nome com hífen e vice-versa. Conforme a Base XV, 2 deve ser centro-africano, como registra o VOLP (PT). O VOLP (BR) traz grafia única para úmido; o VOLP (PT) traz húmido e úmido. O VOLP (BR) traz zigue-zigue o VOLP (PT) grafa ziguezigue. O VOLP do Brasil traz “imexível” – termo que em 1990 celebrizou o Ministro Antônio Rogério Magri – mas o de Portugal ignora esta palavra.

3 – O VOLP (PT) traz sitiirgia, o do Brasil siti-irgia. As duas formas são inapropriadas. Trata-se da junção de duas palavras gregas, σιτία = alimentos + εἰργία = repulsão. Mais correto seria: sitieirgia ou melhor ainda, siteirgia. Eu me baseio em Ramiz Galvão (op. cit. Postagem 01). Os dicionários: A. Houaiss, Aurélio, A. Nascentes, Álvaro Magalhães, Frei Domingos Vieira, J. Mesquita de Carvalho, Silveira Bueno e Simões da Fonseca, não registram esta palavra. Se eu digo, paraliva e paravário, você terá dificuldade de compreender, mas se eu digo, paraoliva e paraovário, você compreende logo. Por isso, a palavra paralímpico – que nos teria sido imposta pelo COI em 2016 – para substituir paraolímpico, dói em nossos ouvidos. É técnica e sábia a norma de que na junção de dois termos haja mudança somente no 1° termo, do contrário, a compreensão torna-se difícil.

            Seria enfadonho multiplicar os exemplos: A confusão entre os VOLP do Brasil e o de Portugal é tamanha, que até nos faz lembrar o texto de Sérgio Porto:    “O Samba do louro doido”.

  E-mail para observações: freiherkol@yahoo.com.br

Novo Acordo – VIII

Frei Hermínio, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira 27

Palavras que podem vir a ser escritas com k, w, y (08)

            Com a volta das letras k, w, y – excluídas em 1931 – palavras portuguesas poderão vir a ser escritas com estas letras, se o povo passar a usá-las assim e a nossa Academia Brasileira de Letras sancionar. Muitos já estão grafando kilo, kilômetro… por simplificação. Mas é o uso quem vai definir. Em nosso livro VOCABULÁRIO… (Ver postagem 01) indicamos cerca de 1500 termos greco-latinos de origem, com k e/ou y.

Exemplos: acólyto, alektoromancia, anályse, apócryfo, barýtono, butyrômetro, cályce, cysne, dactilioteca, dynamite, eclypse, embryão, farynge, fylófago, fýsica, glycose, glyptoteca, hypoteca, hysteria, kaos, karáter, kassia, katecismo, kerigma, kiromancia, labyrinto, lágryma, lyra, lýrio, mártyr, mesófryo, myalgia, mycetografia, mytologia, nyctógrafo, nyctotyflose, nynfa, nynfoide, obeliscolýcnio, octógyno, ófryo,  polyglota, psycrofobia, pyrilampo, rizofylo, rytmo, sybarita, sycomancia, sycofanta, sýlaba, symbiose, sýmbolo, sympatia, synagoga, syndérese, synédoque, synérese, synfonalaxia, synfonia, sýnodo, sýstole, urocyanina, xantofyla, xyloide, xylólatra, xylomancia, xystóforo, zelotypia, zéfyro, zygodactilia, zygoma, zygomorfo, zygostata, zigoteca…

Atenção: quando acima eu disse “poderão” não foi no sentido de “deverão”. Com certeza não teremos um uso generalizado de termos grafados com k, w, y, apenas uma palavra ou outra e ao longo do tempo. Isto porque a tendência mais forte é seguir a eufonia e porque em numerosos casos, a etimologia não simplifica a palavra.

            Termos do alemão, árabe, hebreu, holandês, inglês, japonês, russo, sânscrito, turco: criket, folklore, harakiri, hokey, ianke, ikebana, karaokê, karatê, karateca, karma, kastina, kefir, kermesse, kibutz, kimomo, kiosque, perestroika, troika, uisky, yoga…

            Termos de tupi, guarani e de línguas nativas, onde temos palavras com k, w, y. Para facilitar a compreensão de alguns nomes menos usados eu fiz a divisão em classes.

Animais: katita, kururu, kutia, jakaré, kaninana, kapívara, mokó, mukura, paka…

Abelhas: iray, jatay, jaty, mandaguary, mandassaya, moskito, mundury…

Alimentos: karibé, karimã, katolé, mandioka, mukunã, paçoka, tapioka, tukupy…

Aves: akauã, bakurau, jaku, jurity, kaboré, maguary, sabaku, sokó, tukano, tuyuyu…

Cidades: Akary, Aracaty, Kamucim, Kanindé, Krateús, Jukás, Pirakuruka, Ykó, Ypu…

Frutas: aratikum, bakaba, bakury, katolé, kupu, mandakaru, marakujá, matury, peki…

Insetos: karapanã, kupim, marakajá, muriçoka, mutuka, taioka, tapiukaba, trakuá…

Objetos: arapuka, arataka, kicé, koité, kuia, pataku, tapiry, tipity, tipoya, tukum…

Peixes: akará, araku, baku, jukiá, jurupoka, kará, paku, piraruku, tambaki, tukunaré…

Plantas: jakarandá, jekitibá, juká, kamará, katanduva, kopaíba, oitisika, takuara…

Tribos: amawaka, kaetés, kanela, kapíxaba, karajás, karakaraí, kariri, karioka, tikuna…

Vários: kaiçara, kaipora, kauim, kunhã, kurumim, kurupira, maraká, tokaia, ypueira…

             

            Termos do banto, ioruba, kicongo, kimbundo e umbundo:

kabaça, kadiado, kaju, kandeia, kalundu, kalunga, kanjica, kapoeira, karuru, katimba, katinga, kiabo, kilombo, kizila, kitute, kizumba, kimbanda, kindim, komboio, maka, makina, mukama, yansã, yorubá, xikote…

A lista é extensa. (Vide VOCABULÁRIO… op. cit. na Post. 01, pp 239  a 245). Disponível na Editora Armazém da Cultura, Fortaleza.

Email para observações: freiherkol@yahoo.com.br

Flor do Carpo

MARCELO BRAGA, membro efetivo da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 18

           Aiocó estava em festa. As chuvas, nos últimos dias, trouxeram à cidade vida nova, além de muitos mosquitos que se viam aos arredores dos lampiões. Os moradores riam-se com o tempo. Havia quatro anos que a seca castigava, era só sofrimento, luto, desespero e desesperança.

           O pequeno povoado já não existia, mas Deus existe e manda chuva. Chuva que caiu sobre Aiocó durante três dias, deixando a população frenética de alegria. Alguns, em frente à igreja, agradeciam a Deus, ajoelhados; outros, com uma garrafa de cachaça entre as mãos postas, olhavam para o céu e choravam compulsivamente.

            As chuvas, segundo a população daquele pequeno povoado, vieram graças a Mané do Carpo, um curandeiro que fora assassinado pelo Capitão Antoniano Linhares  por ter lhe negado um pedido. Diz-se que a filha do Capitão estava muito doente, então  mandou chamar o curandeiro. Este recusou.

           No dia seguinte, a moça faleceu. Inconformado, foi até a casa de Mané do Carpo, amarrou-o em seu cavalo e desceu ladeira abaixo arrastando o pobre curandeiro, amaldiçoando-o e culpando-o pela morte de sua filha.

            Após cinco dias da morte do velho Mané, o Capitão sofreu um acidente, caiu de seu cavalo, bateu com a cabeça em uma pedra, tendo morte imediata. O povo do lugarejo atribuíra a sua morte como obra do curandeiro que viera para se vingar.

            Aiocó dividia-se nas opiniões tentando justificar o motivo de tanta chuva assim tão repentinamente. Para a maioria dos aiocoenses,  era também obra do curandeiro, que, penalizado e conhecedor do sofrimento de todo povo, lhe mandou chuva. Para os mais católicos, era obra divina e tentavam explicar como sendo o resultado de muitas promessas feitas no período de quatro anos e meio. Para os que se diziam estudados de fenômenos naturais, Liberato e Dagoberto, nenhuma das hipóteses era verdadeira. Segundo eles, nada mais era, senão um caso isolado.

            As chuvas continuaram, os rios e açudes ficaram cheios, e ninguém conseguiu explicar o fenômeno. Os aiocoenses cuidaram de suas terras, plantaram e colheram. A cidade desenvolvera-se especialmente com a chegada diária de turistas, atraídos por uma possível aparição.

            No quintal da casa de Mané do Carpo, apareceu uma flor diferente de todas existentes na região, que recebeu o nome  “Flor do Carpo.”

           Após as chuvas cessarem, no lugar em que a flor nascera, o curandeiro apareceu para Tinó, um amigo fiel, talvez o único. O boato espalhou-se. No início, a cidade desacreditara na história, mas novas aparições surgiram e outras pessoas afirmaram tê-lo visto naquele local. Foi motivo suficiente para atrair pessoas de várias partes e não só da região.

            A casa de Mané do Carpo, ou melhor, o quintal de sua casa nunca mais fora o mesmo. Em vida, era vazio, pouco frequentado , um ou outro ia visitá-lo na tentativa de conseguir alguma cura para seus males. Salvo o fiel amigo Tinó. Este, sim, embora fosse falar-lhe de suas desilusões, considerava-o amigo. Após a sua morte, fora o único a colocar flores em seu túmulo. Depois de morto, gente, que nunca vira ou ouvira falar, visita-o, pede-lhe forças, faz-lhe versos, estatuetas, pequenos panfletos com oração que nunca  fez e foto que não condiz com a sua fisionomia em vida.

            A cidade crescia cada vez mais, já não era só um pequeno povoado, o dinheiro multiplicava-se deixando o prefeito folgazão, e a prefeitura, que sempre se encontrara desapercebida de recursos, engordava que era uma beleza. No período de eleições, os candidatos pediam votos em nome da “Flor do Carpo”. Prometiam mundos e fundos, inclusive ampliar o pequeno quintal, por não mais comportar tanta gente que ia ali para tocar a flor e conseguir uma graça. Vencia o mais burlador e prosador. O fato é que o atual   prefeito cumpriu o dito e ampliou o quintal. Tudo isso, segundo ele, seria para o bem do povo e para a memória do curandeiro que tinha que se manter viva.

            Em um certo dia de casa cheia. Desculpe-me por isso. Em um certo dia de quintal cheio, Mané do Carpo, já não mais aguentando tanta deificação, resolveu aparecer justamente no momento em que todos o aclamavam. Uma confusão generalizou-se, alguns gritavam “Aleluia! Aleluia!”; outros se ajoelhavam; uns desmaiavam. E dentre em pouco, todos, ao perceberem o que realmente estava acontecendo, correram. Mané do Carpo, sobre a flor, observava tudo calado. E, após alguns minutos, a paz reinou novamente no quintal vazio.

            Aiocó voltou a ser o que era. O local da aparição tornou-se mal-assombrado, e turista nenhum nunca mais pôs os pés naquele lugar que, aos poucos, deixava de existir. Mas a “Flor do Carpo” resistia. Não crescia, não murchava, não morria. Resistia.

Tríptico literário [Releitura de três obras]

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Oh, morte, como é amara tua lembrança, como rápida é tua vinda, como são ocultos os teus caminhos, como é duvidosa tua honra, e como é universal teu domínio! (Frei Luís de Granada. * Granada, 1505; Lisboa, 1588 23 anos!).

1 TANATOLOGIA – Vida e Morte no Dia a Dia

Por via da tradição, talvez religiosa cristã e no decurso dos tempos, eram praticamente proibidas na cultura do Ocidente reflexões atinentes a este tão natural fenômeno do decesso corporal, trânsito anímico, trespasse, exício da vida, antônimo perfeito do nascimento, verdade implacável. Morte.

Tema eivado de tanto preconceito, matéria a que se atribui, ainda, caráter de interdito, hoje o assunto perde, a pouco e pouco, seu mistério e é concertado, com frequência, em várias ocasiões e diversos lugares, mormente na ambiência universitária, onde se examinam com profundidade a origem, produção, conservação, repasse e progresso do conhecimento na sua mais extensiva amplitude temática.

O argumento do ocaso vital, evento imprescritível para aquele que viu aparecer a luz, mostra inexoravelmente sua extinção, cedo ou tarde, normalmente ou de inopino, por caducidade natural ou morbidade, ao nos fazer divisar, entre o ser extinto e o vivo, a mesma diferença entre a matéria bruta e a substância ativa.

Diversamente dos fatos ocorrentes nos organismos unicelulares, nos quais não há, necessariamente, fatalidade, a morte dos seres complexos é consequência inevitável da maquinaria anímica, a qual, ajuntando nos tecidos produtos acessórios, lentamente destrui a energia dos aparelhos até a supressão total.

A fim de conduzir esta reflexão ao patamar da naturalidade dos tratos mais ordinários – como os relativos à vida e à ciência – a sociedade inteligente descortinou uma teoria ordenada no tocante à morte, suas causas e eventos, especialmente o estudo dos mecanismos psicológicos empregados para superar os efeitos do fenômeno nas mentes de quem prossegue ou está na iminência de finar-se.

Amparadas nas conjecturas da Tanatologia, sub-ramo científico da Psicologia, as equipes de saúde desenvolvem, diuturnamente, em nosocômios de todo o Mundo, esse custoso ofício/arte de conceder refrigério, transpondo o corpo doente, prestes a consumir-se, e dedicando auxílio e conforto às almas atormentadas pela proximidade do próprio fim ou martirizadas com a imediação do termo existencial de uma pessoa dileta.

Convergindo à regular quantidade de trabalhos literoacadêmicos referentes a este moto de ascensa relevância, no Brasil, e de indescartável aplicação prática, em particular nos hospitais, os professores Annatália Gomes e Erasmo Ruiz Miessa escreveram um livro oportuníssimo, no qual reflexionam, com esmerado preparo e zelo, sobre a relação correta a ser estabelecida entre os profissionais de saúde e os doentes de quem cuidam holisticamente, em especial os enfermos de moléstias em quadro terminal, numa demonstração cabal dos aprestos intelectuais e do desvelo humanitário de ambos, ora ao bom serviço dos seus pares.

A obra Vida e Morte no Cotidiano (EdUECE)reflexões com o profissional de saúde – constitui aditamento valioso à literatura nacional do gênero, razão por que há de ser adotado nos diversos programas universitários de graduação, mestrado e doutorado, onde se estuda a analogia vida-morte, bem assim na formação em serviço do pessoal dos hospitais e congêneres.

Seus consulentes terão neste volume o romaneio correto e seguro para o desempenho de suas nobilitantes ações de intermediação paciente/doença grave, extensivamente aos seus componentes familiares, cujo padecimento à beira do leito será sensivelmente mitigado com a recepção das ideias aqui veiculadas, magnificamente expressas.

Da morte a férrea lei não se derroga./ Nas páginas fatais é tudo eterno! O que se escreve ali jamais se risca. (Manuel Maria Barbosa Du BOCAGE. *Setubal, 1765-+1805).

2 O DRAMA DO PACIENTE TERMINAL

A literatura, recorrentes vezes, recomenda-nos certas cautelas para que, ante a excessiva especialização dos conhecimentos, não percamos de vista as grandes conexões da ciência. De tal sorte, a interdisciplinaridade é praticada sempre mais pelos compositores do saber novo, o que significa o aporte dos melhores resultados, devolvendo às ideias parcialmente unificadas pela ciência o caráter de horizontalidade.

O ideário científico, de efeito, sejam quais forem as vertentes e taxinomias, opera constantemente sob relações e a consorciação de saberes é natural no decurso investigativo em demanda à certeza relativa, consoante orienta a Filosofia da Ciência.

Dessa maneira, compreensões aliadas são, muita vez, necessárias para realização de novéis sub-ramos da indústria humana, como ocorre, verbi gratia, com Bioestatística, Fisico-Química, Sociologia Jurídica, Economia Política, Jusfilosofia, Biônica e tantas outras comunhões de interesses metodológicos a servirem às causas epistemológicas.

Na linha raciocinativa deste ensaio de apreciável força de pesquisa, da autoria da Professora Doutora Preciliana Barreto de Morais, ela se favoreceu da Ciência de Augusto Comte (*Montpellier, 19.01.1798; +Paris, 05.09.1857), bem como de saberes correlatos, para interpretar, ao lume da dita Sociologia, situações extremas de clientes portadores de males terminais, sob os cuidados das equipes multiprofissionais, nos leitos e, na crescente falta destes, até em macas e cadeiras, no desconforto final da vida no interior e umbrais das casas de saúde.

Pungente e contagiante é a dor de quem guarda a certeza de que se vai dentro em pouco. Preocupantes as dúvidas e impasses daqueles a quem se cometeu a tarefa de cuidar dos pacientes acometidos de moléstias, a maioria das quais a Medicina ainda não controlou, como certas síndromes e alguns cânceres.

Há, decerto, falhas de comunicação das equipes, particularmente em virtude de formações defeituosas. “Os livros somente ensinam sobre o comportamento do tumor” – queixa-se um sextanista, que remata: “E a conduta psicológica do doente?”

Faltam, na escolaridade e prática funcional de psicólogos, enfermeiros, médicos, fisioterapeutas e outros agentes do cuidado, informações relevantes de natureza interdisciplinar, quando não para a reabilitação impossível, pelo menos na direção de abreviar o transe ou diferir a vida por algum tempo.

Evidentemente, enquanto perdurar esta situação – configurada no fim da existência dos pacientes, vacilações e embaraços das equipes multifuncionais, sujeitos da pesquisa da Autora – esses clientes vão prosperar como atores na ribalta da tragédia. O livro de Preciliana de Morais – atual docente da Universidade Estadual do Ceará – constitui libelo responsável e claro ao sistema educacional e de atenção à saúde no País, sendo, por este pretexto, fonte de fé para alicerçar investigações similares e embasar novas e urgentes políticas públicas para o setor.

… Por isso, oh Morte! Eu amo-te e não temo./ Por isso, oh Morte, eu quero-te comigo./Leva-me à região da paz horrenda!/Leva-me ao Nada, leva-me contigo! (Luiz José de JUNQUEIRA FREIRE. *Salvador, 31.12.1832; +24.6.1855 – 23 anos!).

3 PACIENTE MUITO ESPECIAL

Resulta deveras compensador o fato de se exercitar constantemente a observação, para dar asas ao talento criador.

Das atividades seculares do espírito, a que mais enleia parece ser a boa leitura, que possibilita a produção de um escrito escorreito, de uma alocução bem concatenada, porquanto vazada em códigos precisos e significações perfeitamente arrazoadas.

Somente a prática dial do exame atento sobre as coisas, bem como o adjutório da ação de ler – sem o que a observação fica limitada – são suficientes para se estabelecer uma mensagem límpida, sem vieses nem ruídos, decomponível com a máxima lucidez por quem a recebe.

Obviamente, há estruturas textuais bem mais leves e fáceis, acessíveis a maior quantidade de pessoas, nomeadamente os esquemas verbais constituídos com suporte na opinião comum. Até aqui, a langue e a parole  saussureanas correm mais livres, obedientes apenas às muitas regras da Língua Portuguesa. (Ferdinand Saussure – *Genebra, 26.11.1857; + Morges, 22.02.1913).

A situação começa a complicar, porém, quando se joga com a certeza relativa do fato científico, não raro se misturando – em sua manifestação oral ou grafada – com as elucubrações espirituais, a fim de dar conformação ao estilo. Mais complexo, ainda, se configura o texto (ou a fala), se a manifestação da verdade científica disser respeito às relações Homem/Natureza. O embaraço se proporciona, consideravelmente, se este Ser for criança, e caso a criança seja doente, e essa moléstia tenha gravidade, dolorosíssima, fatal, óbito iminente …

O Mundo e a História, entretanto, estão cheios de artistas que receberam o dom evangélico e o sopro paráclito da escrita, com incidência menor da dificuldade de estruturação. Eis que, no livro sob escólio, dá-se o caso de uma socióloga, com a função principal de pequena empresária, que achou de estudar a freguesia de instituição especial – a Casa do Menino Jesus, em Fortaleza-CE, cujos clientes se acham em várias fases de C.A.

Rossana Guabiraba discorre sobre o meritório trajeto de acompanhamento dos pequenos enfermos, em texto deveras comovente, haja vista as condições dos sujeitos em relação na sua pesquisa de cunho acadêmico. Entre outras recomendações de ordem humana e humanitária, a Autora indica encarecidamente aos leitores a necessidade de se procurar conhecer os estertores e consequências da morte, a fim de que o transe do cliente e dos circunstantes seja abrandado com o aceite da realidade, abraçando a resignação ante um sucesso irrecorrente.

Nesse poema de amor amplo e celeste – lembrando o simbolismo poético de Alphonsus de Guimaraens (Ouro Preto, 24.07.1870; Mariana, 15.07.1921) – Rossana alcançou a composição de um escrito claro e correto, de leitura cristalina, no qual impôs o vigor de pesquisadora, estruturando-o teoricamente com especialistas acreditados perante a comunidade investigadora de temas afins, com a vantagem de haver evitado compromisso com as desproporções da tanatologia esotérica, não científica, a qual transita solta entre os desavisados.

O escrito de Rossana Guabiraba, embora tenha o continente rápido como o decurso da doença referida, pontilhada de tanta amargura, possui conteúdo de grande alcance, pelo que deve ser lido e debatido, pois, decerto, vai servir de norte a outros estudiosos que intentem revolver o tema sob ângulos mais diversificados.

Memórias esparsas – Flagrantes da Vida Real (Releitura Analítica)

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

A sorte serve-se, às vezes, dos nossos defeitos
para nos elevar. (FRANÇOIS, Duque de La Rochefoucauld –
*Paris, 15.09.1613; +17.03.1680).

“Memória como o único paraíso de onde não se pode ser expulso.”

1 INTRODUÇÃO – Inexistência de Total Saúde

Certamente não assiste razão a quem cogita na noção de uma humanidade dispensada de toda a doença, na ideal fruição de saúde. Contrariamente ao pretendido pela OMS (BUSS, 2000), ao prescrever ausência patológica total e gozo de bem-estar completo, sempre haverá um senão, seja um ai! no corpo ou mesmo um ui! na alma. Normalmente ocorre a afluência dos dois, via de regra multiplicados nos seus influxos negativos, ao residirem, sem nosso habite-se, tanto em meio corporal quanto no círculo anímico.

Este ponto é objeto de acuradas reflexões por parte de preclaras autoridades da Ciência Médica e seus esgalhos disciplinares e afins, merecendo ressalto o psiquiatra e pioneiro da Neurologia, facultativo estadunidense Walter Riese [Berlin, 30.06.1890; Richmond (Virgínia), 1976].

Em estudo de 1959 – A History of Neurology – como assinala aquele expoente, uma perfeita higidez física e mental faria menos rica a raça de hoje, porquanto um imenso campo de atividade lhe seria poupado e recusado.  Na intelecção de Riese, uma pessoa idealmente sã jamais nos ensinaria tudo de sua capacidade, até seu ponto maior de resistência, quando as moléstias, corpóreas e psíquicas, acham de acometê-la.

Entre vários exemplos reproduzidos pela História, sob tal aspecto, remeto-me a uma leitura feita na infanto-adolescência (a propalada aborrecência), salvante lapso rememorativo, na Nova Seleta, organizada pelo escritor cratense Romão Filgueiras Sampaio (18.11.1915 – 28.01.1994), sendo oportuno pinçar o caso de Helen Adams Keller (1880-1968), do qual procederei a relato ligeiro um pouco à frente, cotejando-a com Antônio de Araújo Costa Filho (2008), cujo Memórias Esparsas – Flagrantes da Vida Real termino de reler.

2 MEMÓRIA E REGRESSÃO

Aqui, procedo a uma digressão, em expediente mais parecido com um colchete ou até uma chave. Sem perder, entanto, o liame com as mencionadas defeituações materiais e da psique, peço a vênia do leitor para compor parêntese maior, a fim de me reportar à memória, cuja falta representa manifestação enfermiça peculiar, nas mais das vezes, à idade cronológica, sendo algo não muito fácil de entendimento, nomeadamente por parte de leigos nesta seara, conforme sou.

Nem todas as pessoas, evidentemente, são favorecidas com a propriedade de preservar e trazer à evocação certas situações de consciência há muito passadas e tudo aquilo quanto a elas está associado. Há algum tempo, exempli gratia, a pouco e pouco, me vinha o lapso de memória, o conhecidíssimo branco.

Agora, contudo, ao descer os degraus vitais, em obediência ao normalíssimo fim organísmico (consoante sucede com o fenômeno do nascimento) e ao qual a sociedade ocidental ainda não se habituou –  me aportam muitas dessas alvuras escurecedoras da lembrança, obstando-me o processamento dos dados.

Em sentença lapidar, de quando em vez repetida, Napoleão Bonaparte exprimiu: cabeça sem memória, cidadela sem guarnição. Entrementes, o escritor alemão, apreciado produtor do livro Titã e Héspero, João Paulo Frederico Richter, exprimiu a memória como o único paraíso de onde não se pode ser expulso.

A vida e a literatura estão, por conseguinte, pontilhadas de remissões a este conceito, e não somente renomeados autores, em todas as línguas literárias, registaram suas lembranças e as legaram à posteridade, pois, mesmo não sendo escritores de ofício, seres dotados desta faculdade, em quantidade considerável, assinalam, à farta, sua existência por intermédio da pontoação de suas recordações, editadas em receptáculo de papel e, hoje, em suportes eletrônicos.

Evocação, porém – é cediço – constitui circunstância complicada, supondo a manutenção de expressões anteriores, sua reprodução e revivescimento, bem como a própria localização. A faculdade da lembrança, decerto, não depende unicamente da mudança de elementos nervosos, mas reclama ligações dinâmicas entre estes. Assim, quanto mais se repetir a associação de tais componentes, tanto mais a ideia será preservada.

De tal sorte, este talvez seja o fenômeno explicativo de serem as evocações mais velhas as derradeiras a aparecer, pela via fenomênica da regressão, estádios já percorridos pela pessoa em seu desenvolvimento, em circunstâncias de estresse e experiências de conflitos interiores e externos.

Evidentemente, por ser fora de propósito, não alimento a tenção de ensaiar nesta senda na qual sou insipiente, pois contraposta aos meus assuntos de exame. Nada obsta observar, entretanto, a necessidade de a imagem recordada se confirmar como algo já conhecido.

3 HELLEN KELLER E COSTA FILHO

Dessa maneira, depois de tergiversar da temática principal ora sob relato, volto a Helen Keller, fecunda escritora dos EEUU, a quem um ataque de escarlatina tolheu a visão e subtraiu a audição, quando contava apenas um ano e sete meses e, no entanto, sob os cuidados de Anne Sullivan (1866-1936), aprendeu muitas línguas e História Latina, havendo escrito vários livros da mais distinta verve criadora, pintando paisagens e descrevendo sons. Com sua força de fé, revelada na autobiografia A História da minha Vida, disse haver criado seu mundo, pois, “[…] com visão, fiz para mim os dias e as noites, divisando nas nuvens o arco-íris e, para mim, a própria noite se povoou de estrelas”. (Apud LELLO & LELLO, 1983).

Transpondo, com efeito, todo esse balanço negativo, Helen Keller demonstrou na doença, imposta como um fado, a possível vertente perpétua de enriquecimento da Natureza. Daí a opinião de Walter Riese, há pouco expressa, para quem a noção do homem, do qual moléstia e padecimento estejam ausentes, será sempre imperfeita.

Ao proceder a um cotejamento de HK com Antônio de Araújo da Costa Filho, autor de Memórias Esparsas – Flagrantes da Vida Real (EDUECE-2008), vejo haver sido ele guardado pelo desvelo de sua família. Enriqueceu-lhe o caráter o fato de haver sobrelevado as limitações físicas, pois não teve a ventura de, na realidade do Tio Sam, deparar uma Anne Sullivan a lhe seguir os passos, alumiar-lhe a senda vital e a ele conceder os favores permitidos a Helen Keller, tornada paradigma de superação.

4 CONCLUSÃO – A Obra de Costa Filho

Ao considerar os comentários procedidos na seção imediatamente anterior deste curto escrito, nem  por isso, todavia, Antônio de Araújo Costa Filho deixou de se crer propício à vida, dignitário de sua condição humana, admiravelmente revelada nos exemplos da peleja, resignação e vitória, bem no espírito do pensamento de Walter Riese, consoante é expresso no esforço de açular a memória e ajuntar seus alfarrábios para reuni-los em um volume, denotativo do seu preparo intelectual, na constância da autodidaxia, sem ocorrer sub tegmini fagi da escola formal e com seu ror de limitações.

Autodidata e na solidão de suas faltas corporais, porém, alcançou mais este galardão, o qual, distante de ser um triunfo de Pirro, aflui à opinião rieseana, cuja ideia de homem, sem neste haver doença nem sofrimento, será perpetuamente inexata.

Costa Filho, nesta seleção de muito bem trabalhados escritos, demonstra, à exuberância, a aptidão humana do sobrepujamento, malgrado os desprovimentos orgânicos, na conquista de um de seus anelos desde há muito acalentado, fazendo-o – e isto é o mais relevante – de modo inteligente, tanto no conteúdo como no formato, legando-nos uma peça literária e artística de indiscutível valor, produzida no recôndito de seu corpo fisiologicamente defeituoso, no encoberto de sua alma vizinha da perfeição e nos escaninhos de um coração referto de amor.

REFERÊNCIAS

BUSS, Paulo Marchiori. Promoção de Saúde e Qualidade de Vida. Ciência e Saúde Coletiva. V.5.n.1, 2000, pp. 163-77.

COSTA FILHO, Antônio de Araújo. Memórias Esparsas – Flagrantes da Vida Real. Fortaleza: Editora da UECE (EDUECE), 2008.

LELLO, José; LELLO, Edgard (Dir.) Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro em 2 volumes. Porto: Lello & Irmão, 1983.

MESQUITA, Vianney. Arquiteto a Posteriori. Fortaleza: Imprensa Universitária – UFC, 2013. 252 pp.

RIESE, Walter. A History of Neurology. New York, MD. Publications, 1959.

Nosso dolo, nossas culpas

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Somente o influxo da arte comunica
durabilidade à escrita. Apenas ele marmoriza
o papel e faz da pena escopro. (Rui Barbosa).

Parece-nos fenecer alegação lógica àqueles que inadmitem o emprego facultativo do plural em certos substantivos, quando expressos de par com as unidades vocabulares nosso, vosso e outros possessivos, em suas naturais e corretas variações desinenciais.

Em sua maioria, os nomes são passíveis de comportar modificações flexionais, maiormente em relação a número – flexão nominal ou verbal indicativa da existência de um ou mais.

Sucede, entretanto – e não raro – que a aplicação indiscriminada, na dependência da conformação fraseológica, do plural ou do singular, pode desfear o torneio e, dessarte, comprometer o escrito, no particular, em se cuidando de tecedura literária.

A Língua Portuguesa conserva em guarda extremos recursos, tanto no que concerne a sua impressionante polissemia, como no pertinente às incontáveis maneiras de estruturar a mensagem. É uma como expressão musical, cuja combinação das notas, dissonantes e outros aprestes da codificação desta Arte reverterá na gradação do belo, variando até o feio e, por vezes, descambando para o medonho.

Há tantos recursos, que existem tantos homens e igual quantidade de modos característicos de se escrever, rememorando a célebre asserção leclercana, quando o Conde de Buffon, Georges Louis de Leclerc, lobriga o estilo de acordo com a personalidade do estilista (Le style est l’homme lui-même).

Salvante escorrego de memória, foi durante o Concílio Vaticano II (11.10;1962-08.12.1965, sob o Papa João XXIII), que se achou por bem, exempli gratia, permutar do padre Nosso dos católicos – traduzido, no plural, do Livro Santo – a dicção “nossas dívidas” (perdoai as nossa dívidas assim como perdoamos nossos devedores) pela unidade de ideia “nossas ofensas” (… assim como nós perdoamos os que nos têm ofendido), com o pronome possessivo e o substantivo pluralizados. Bem que podiam ser, também, cunhadas as expressões, no primeiro número gramatical, “a nossa dívida”, “a dívida de todos”, isto é, o débito global, o passivo da Humanidade, com relação à falta geral (o pecado), ou – no segundo número – às faltas gerais (os pecados).

Entrementes, com o substantivo dolo (ô), na primeira e mais relevante acepção em Língua Portuguesa, quiçá resulte desaconselhável grafar dolos ou nossos dolos, exatamente pelo sensabor elocutório, conquanto gramaticalmente corretas ambas as locuções.

Para crime, que assume dolo e culpa, ex positis, entende-se indiferente aaplicação, no singular, como no plural, quando das generalizações, em nosso crime ou nossos crimes. “Nosso crime foi responsável pela Crucifixão”, isto é, a iniquidade humana levou Cristo à morte de cruz; ou em: “nossos crimes levaram Jesus Cristo à morte de cruz”, no plural, sem deslustrar e, tampouco, enriquecer a sentença.

Com a dicção culpa, nas variegadas intenções que conota (“violação ou inobservância de uma regra de conduta, que produz lesão do direito alheio”; ou “falta voluntária de diligência ou negligência, ato de imprudência ou imperícia, sem propósito de lesar, mas de que resultou a outrem dano ou ofensa de seus direitos […] pecado, delito, responsabilidade, causa de um mal etc – AURÉLIO), podem ser torneadas frases, em ambos os números, como na acepção do vocábulo “responsabilidade”, verbi gratia: “O Brasil constitui nação do Terceiro Mundo, Estado periférico, por culpa nossa” (responsabilidade nossa). A expressão é passível de ser conduzida, permutatis, permutandis, para o plural, inclusive a fim de adornar o estilo, quando menos para a fuga do trivial, como assim: “Nossas culpas nos responsabilizam pelo atual status do País”, ou, “Por culpas nossas, nosso País se encontra perto do caos”; “ de quem é a culpa?” “De quem são as culpas?” Sem nos arvorar de referência final no exame da matéria, modestamente entendemos que pluralizar ou permitir a permanência no singular, nos casos dos quais nos ocupamos, é, tão-só, um ponto de aprimoramento do estilo, porquanto, em um número como no outro, a língua do meu conterrâneo (Palmácia-CE) e patrono na ACLJ, José Rebouças Macambira perfaz-se devidamente respeitada.