Memórias esparsas – Flagrantes da Vida Real (Releitura Analítica)

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

A sorte serve-se, às vezes, dos nossos defeitos
para nos elevar. (FRANÇOIS, Duque de La Rochefoucauld –
*Paris, 15.09.1613; +17.03.1680).

“Memória como o único paraíso de onde não se pode ser expulso.”

1 INTRODUÇÃO – Inexistência de Total Saúde

Certamente não assiste razão a quem cogita na noção de uma humanidade dispensada de toda a doença, na ideal fruição de saúde. Contrariamente ao pretendido pela OMS (BUSS, 2000), ao prescrever ausência patológica total e gozo de bem-estar completo, sempre haverá um senão, seja um ai! no corpo ou mesmo um ui! na alma. Normalmente ocorre a afluência dos dois, via de regra multiplicados nos seus influxos negativos, ao residirem, sem nosso habite-se, tanto em meio corporal quanto no círculo anímico.

Este ponto é objeto de acuradas reflexões por parte de preclaras autoridades da Ciência Médica e seus esgalhos disciplinares e afins, merecendo ressalto o psiquiatra e pioneiro da Neurologia, facultativo estadunidense Walter Riese [Berlin, 30.06.1890; Richmond (Virgínia), 1976].

Em estudo de 1959 – A History of Neurology – como assinala aquele expoente, uma perfeita higidez física e mental faria menos rica a raça de hoje, porquanto um imenso campo de atividade lhe seria poupado e recusado.  Na intelecção de Riese, uma pessoa idealmente sã jamais nos ensinaria tudo de sua capacidade, até seu ponto maior de resistência, quando as moléstias, corpóreas e psíquicas, acham de acometê-la.

Entre vários exemplos reproduzidos pela História, sob tal aspecto, remeto-me a uma leitura feita na infanto-adolescência (a propalada aborrecência), salvante lapso rememorativo, na Nova Seleta, organizada pelo escritor cratense Romão Filgueiras Sampaio (18.11.1915 – 28.01.1994), sendo oportuno pinçar o caso de Helen Adams Keller (1880-1968), do qual procederei a relato ligeiro um pouco à frente, cotejando-a com Antônio de Araújo Costa Filho (2008), cujo Memórias Esparsas – Flagrantes da Vida Real termino de reler.

2 MEMÓRIA E REGRESSÃO

Aqui, procedo a uma digressão, em expediente mais parecido com um colchete ou até uma chave. Sem perder, entanto, o liame com as mencionadas defeituações materiais e da psique, peço a vênia do leitor para compor parêntese maior, a fim de me reportar à memória, cuja falta representa manifestação enfermiça peculiar, nas mais das vezes, à idade cronológica, sendo algo não muito fácil de entendimento, nomeadamente por parte de leigos nesta seara, conforme sou.

Nem todas as pessoas, evidentemente, são favorecidas com a propriedade de preservar e trazer à evocação certas situações de consciência há muito passadas e tudo aquilo quanto a elas está associado. Há algum tempo, exempli gratia, a pouco e pouco, me vinha o lapso de memória, o conhecidíssimo branco.

Agora, contudo, ao descer os degraus vitais, em obediência ao normalíssimo fim organísmico (consoante sucede com o fenômeno do nascimento) e ao qual a sociedade ocidental ainda não se habituou –  me aportam muitas dessas alvuras escurecedoras da lembrança, obstando-me o processamento dos dados.

Em sentença lapidar, de quando em vez repetida, Napoleão Bonaparte exprimiu: cabeça sem memória, cidadela sem guarnição. Entrementes, o escritor alemão, apreciado produtor do livro Titã e Héspero, João Paulo Frederico Richter, exprimiu a memória como o único paraíso de onde não se pode ser expulso.

A vida e a literatura estão, por conseguinte, pontilhadas de remissões a este conceito, e não somente renomeados autores, em todas as línguas literárias, registaram suas lembranças e as legaram à posteridade, pois, mesmo não sendo escritores de ofício, seres dotados desta faculdade, em quantidade considerável, assinalam, à farta, sua existência por intermédio da pontoação de suas recordações, editadas em receptáculo de papel e, hoje, em suportes eletrônicos.

Evocação, porém – é cediço – constitui circunstância complicada, supondo a manutenção de expressões anteriores, sua reprodução e revivescimento, bem como a própria localização. A faculdade da lembrança, decerto, não depende unicamente da mudança de elementos nervosos, mas reclama ligações dinâmicas entre estes. Assim, quanto mais se repetir a associação de tais componentes, tanto mais a ideia será preservada.

De tal sorte, este talvez seja o fenômeno explicativo de serem as evocações mais velhas as derradeiras a aparecer, pela via fenomênica da regressão, estádios já percorridos pela pessoa em seu desenvolvimento, em circunstâncias de estresse e experiências de conflitos interiores e externos.

Evidentemente, por ser fora de propósito, não alimento a tenção de ensaiar nesta senda na qual sou insipiente, pois contraposta aos meus assuntos de exame. Nada obsta observar, entretanto, a necessidade de a imagem recordada se confirmar como algo já conhecido.

3 HELLEN KELLER E COSTA FILHO

Dessa maneira, depois de tergiversar da temática principal ora sob relato, volto a Helen Keller, fecunda escritora dos EEUU, a quem um ataque de escarlatina tolheu a visão e subtraiu a audição, quando contava apenas um ano e sete meses e, no entanto, sob os cuidados de Anne Sullivan (1866-1936), aprendeu muitas línguas e História Latina, havendo escrito vários livros da mais distinta verve criadora, pintando paisagens e descrevendo sons. Com sua força de fé, revelada na autobiografia A História da minha Vida, disse haver criado seu mundo, pois, “[…] com visão, fiz para mim os dias e as noites, divisando nas nuvens o arco-íris e, para mim, a própria noite se povoou de estrelas”. (Apud LELLO & LELLO, 1983).

Transpondo, com efeito, todo esse balanço negativo, Helen Keller demonstrou na doença, imposta como um fado, a possível vertente perpétua de enriquecimento da Natureza. Daí a opinião de Walter Riese, há pouco expressa, para quem a noção do homem, do qual moléstia e padecimento estejam ausentes, será sempre imperfeita.

Ao proceder a um cotejamento de HK com Antônio de Araújo da Costa Filho, autor de Memórias Esparsas – Flagrantes da Vida Real (EDUECE-2008), vejo haver sido ele guardado pelo desvelo de sua família. Enriqueceu-lhe o caráter o fato de haver sobrelevado as limitações físicas, pois não teve a ventura de, na realidade do Tio Sam, deparar uma Anne Sullivan a lhe seguir os passos, alumiar-lhe a senda vital e a ele conceder os favores permitidos a Helen Keller, tornada paradigma de superação.

4 CONCLUSÃO – A Obra de Costa Filho

Ao considerar os comentários procedidos na seção imediatamente anterior deste curto escrito, nem  por isso, todavia, Antônio de Araújo Costa Filho deixou de se crer propício à vida, dignitário de sua condição humana, admiravelmente revelada nos exemplos da peleja, resignação e vitória, bem no espírito do pensamento de Walter Riese, consoante é expresso no esforço de açular a memória e ajuntar seus alfarrábios para reuni-los em um volume, denotativo do seu preparo intelectual, na constância da autodidaxia, sem ocorrer sub tegmini fagi da escola formal e com seu ror de limitações.

Autodidata e na solidão de suas faltas corporais, porém, alcançou mais este galardão, o qual, distante de ser um triunfo de Pirro, aflui à opinião rieseana, cuja ideia de homem, sem neste haver doença nem sofrimento, será perpetuamente inexata.

Costa Filho, nesta seleção de muito bem trabalhados escritos, demonstra, à exuberância, a aptidão humana do sobrepujamento, malgrado os desprovimentos orgânicos, na conquista de um de seus anelos desde há muito acalentado, fazendo-o – e isto é o mais relevante – de modo inteligente, tanto no conteúdo como no formato, legando-nos uma peça literária e artística de indiscutível valor, produzida no recôndito de seu corpo fisiologicamente defeituoso, no encoberto de sua alma vizinha da perfeição e nos escaninhos de um coração referto de amor.

REFERÊNCIAS

BUSS, Paulo Marchiori. Promoção de Saúde e Qualidade de Vida. Ciência e Saúde Coletiva. V.5.n.1, 2000, pp. 163-77.

COSTA FILHO, Antônio de Araújo. Memórias Esparsas – Flagrantes da Vida Real. Fortaleza: Editora da UECE (EDUECE), 2008.

LELLO, José; LELLO, Edgard (Dir.) Dicionário Enciclopédico Luso-Brasileiro em 2 volumes. Porto: Lello & Irmão, 1983.

MESQUITA, Vianney. Arquiteto a Posteriori. Fortaleza: Imprensa Universitária – UFC, 2013. 252 pp.

RIESE, Walter. A History of Neurology. New York, MD. Publications, 1959.

Hora do Vernáculo – A defectibilidade do verbo CABER

MARCELO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 18

Antes de iniciarmos a análise sobre a possibilidade de se considerar, diferentemente das gramáticas normativas, o verbo CABER como defectivo, atenhamo-nos à origem da palavra defectivo.

Defectivo vem do Latim DEFECTIVUS de DEFECTUS (falha, fraqueza) – particípio passado de DEFICEREDE prefixo (separação) + FACERE (fazer).

De acordo com a Norma, são chamados de defectivos os verbos que não apresentam conjugação completa. Isso ocorre especialmente no presente do indicativo e nos seus derivados: presente do subjuntivo e imperativo. A maioria das gramáticas distribuem os verbos defectivos em três grupos, assim classificados:

1º Grupo – verbos que não apresentam a primeira pessoa do singular do presente do indicativo como abolir, colorir, extorquir, explodir

2º Grupo – verbos conjugados apenas nas formas arrizotônicas do presente do indicativo na primeira pessoa do plural e na segunda pessoa do plural como adequar, falir, precaver-se, remir

3º Grupo – verbos unipessoais e impessoais como miar, coaxar, chover, trovejar…..

Observação – alguns gramáticos apresentam os unipessoais e os impessoais como sendo o 1º grupo.

Exemplo de conjugação dos defectivos de 1º e 2º Grupos

COLORIR                                   ADEQUAR

COLORIR                                   ADEQUAR

PRES. DO INDIC.                     PRES. DO SUBJ.

Eu      ————–                    Eu —————-

Tu      colores                          Tu —————–

Ele     colore                            Ele ————— –

Nós    colorimos                      Nós adequamos

Vós    coloris                           Vós adequais

Eles   colorem                         Eles ————-

Por não se ter a conjugação da primeira pessoa do presente do indicativo dos referidos verbos, não se tem também a conjugação do presente do subjuntivo, haja vista ser derivado da primeira pessoa do presente do indicativo.

Quanto ao imperativo, os verbos do primeiro grupo poderão ser conjugados no afirmativo na segunda pessoa do singular tu e na segunda pessoa do plural vós, mas não no negativo, visto que o negativo se conjuga de acordo com o presente do subjuntivo sem a primeira pessoa. Já os verbos do segundo grupo apresentarão a conjugação no imperativo afirmativo apenas da segunda pessoa do plural vós. Assim fica a conjugação:

COLORIR                                                     ADEQUAR

IMPERATIVO AFIRMATIVO             IMPERATIVO AFIRMATIVO

Colore tu

Colori vós                                                 Adequai vós

Feita essa explanação acerca dos verbos defectivos, poderemos agora entender a defectividade do verbo CABER. Consoante o conceito de defectividade, a Gramática Normativa expõe que os verbos defectivos são aqueles que não apresentam conjugação completa. Essa não conjugação completa se dá por certos motivos como eufonia (colorir), homofonia (falir) e também pela relação semântica do verbo. É exatamente nessa relação semântica que o verbo irregular CABER poderia também ser classificado como defectivo.

O verbo CABER apresenta conjugação completa no presente do indicativo e, consequentemente, no presente do subjuntivo (tempo derivado da primeira pessoa do presente do indicativo). No entanto, não se conjuga no imperativo afirmativo nem no negativo, embora o imperativo afirmativo seja derivado das 2ª pessoas do singular e do plural do presente do indicativo e o imperativo negativo seja conjugado a partir do presente do subjuntivo sem a primeira pessoa. E isso se dá por qual motivo? Na verdade, pela semântica do verbo. Não há como mandar alguém caber em algum lugar, ou suplicar para que alguém caiba em algum lugar. A ausência da conjugação, no referido modo, não ocorre pelo não uso, como acontece, por exemplo, com o verbo PODER, o qual permite o emprego do imperativo pela sua diversidade semântica, mas pela ideia de sentido.

Conjugação do verbo CABER

PRES. DO INDIC.                               PRES. DO SUBJ

Eu      caibo                                     Eu caiba

Tu      cabes                                    Tu caibas

Ele     cabe                                      Ele caiba

Nós    cabemos                               Nós caibamos

Vós    cabeis                                   Vós caibais

Eles   cabem                                   Eles caibam

Nosso dolo, nossas culpas

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Somente o influxo da arte comunica
durabilidade à escrita. Apenas ele marmoriza
o papel e faz da pena escopro. (Rui Barbosa).

Parece-nos fenecer alegação lógica àqueles que inadmitem o emprego facultativo do plural em certos substantivos, quando expressos de par com as unidades vocabulares nosso, vosso e outros possessivos, em suas naturais e corretas variações desinenciais.

Em sua maioria, os nomes são passíveis de comportar modificações flexionais, maiormente em relação a número – flexão nominal ou verbal indicativa da existência de um ou mais.

Sucede, entretanto – e não raro – que a aplicação indiscriminada, na dependência da conformação fraseológica, do plural ou do singular, pode desfear o torneio e, dessarte, comprometer o escrito, no particular, em se cuidando de tecedura literária.

A Língua Portuguesa conserva em guarda extremos recursos, tanto no que concerne a sua impressionante polissemia, como no pertinente às incontáveis maneiras de estruturar a mensagem. É uma como expressão musical, cuja combinação das notas, dissonantes e outros aprestes da codificação desta Arte reverterá na gradação do belo, variando até o feio e, por vezes, descambando para o medonho.

Há tantos recursos, que existem tantos homens e igual quantidade de modos característicos de se escrever, rememorando a célebre asserção leclercana, quando o Conde de Buffon, Georges Louis de Leclerc, lobriga o estilo de acordo com a personalidade do estilista (Le style est l’homme lui-même).

Salvante escorrego de memória, foi durante o Concílio Vaticano II (11.10;1962-08.12.1965, sob o Papa João XXIII), que se achou por bem, exempli gratia, permutar do padre Nosso dos católicos – traduzido, no plural, do Livro Santo – a dicção “nossas dívidas” (perdoai as nossa dívidas assim como perdoamos nossos devedores) pela unidade de ideia “nossas ofensas” (… assim como nós perdoamos os que nos têm ofendido), com o pronome possessivo e o substantivo pluralizados. Bem que podiam ser, também, cunhadas as expressões, no primeiro número gramatical, “a nossa dívida”, “a dívida de todos”, isto é, o débito global, o passivo da Humanidade, com relação à falta geral (o pecado), ou – no segundo número – às faltas gerais (os pecados).

Entrementes, com o substantivo dolo (ô), na primeira e mais relevante acepção em Língua Portuguesa, quiçá resulte desaconselhável grafar dolos ou nossos dolos, exatamente pelo sensabor elocutório, conquanto gramaticalmente corretas ambas as locuções.

Para crime, que assume dolo e culpa, ex positis, entende-se indiferente aaplicação, no singular, como no plural, quando das generalizações, em nosso crime ou nossos crimes. “Nosso crime foi responsável pela Crucifixão”, isto é, a iniquidade humana levou Cristo à morte de cruz; ou em: “nossos crimes levaram Jesus Cristo à morte de cruz”, no plural, sem deslustrar e, tampouco, enriquecer a sentença.

Com a dicção culpa, nas variegadas intenções que conota (“violação ou inobservância de uma regra de conduta, que produz lesão do direito alheio”; ou “falta voluntária de diligência ou negligência, ato de imprudência ou imperícia, sem propósito de lesar, mas de que resultou a outrem dano ou ofensa de seus direitos […] pecado, delito, responsabilidade, causa de um mal etc – AURÉLIO), podem ser torneadas frases, em ambos os números, como na acepção do vocábulo “responsabilidade”, verbi gratia: “O Brasil constitui nação do Terceiro Mundo, Estado periférico, por culpa nossa” (responsabilidade nossa). A expressão é passível de ser conduzida, permutatis, permutandis, para o plural, inclusive a fim de adornar o estilo, quando menos para a fuga do trivial, como assim: “Nossas culpas nos responsabilizam pelo atual status do País”, ou, “Por culpas nossas, nosso País se encontra perto do caos”; “ de quem é a culpa?” “De quem são as culpas?” Sem nos arvorar de referência final no exame da matéria, modestamente entendemos que pluralizar ou permitir a permanência no singular, nos casos dos quais nos ocupamos, é, tão-só, um ponto de aprimoramento do estilo, porquanto, em um número como no outro, a língua do meu conterrâneo (Palmácia-CE) e patrono na ACLJ, José Rebouças Macambira perfaz-se devidamente respeitada.

Algumas razões e exigências para se escrever e editar

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Há livros que devem ser saboreados, outros devorados, e poucos mastigados e digeridos. (FRANCIS BACON).

MATÉRIA INTERESSANTE E OPORTUNA

Sem muito rigor na ordem de relevância para se determinar os pretextos conducentes a uma pessoa decidir-se a publicar um livro, é válido iniciar-se com o fato de o assunto ser interessante, atual, inédito ou mesmo controverso, podendo, também, conter outra razão ou distinto conjunto de argumentos. De tal maneira, um enredo insosso, desatualizado, excessivamente rebatido e de entendimento pacífico não há de ser editado porque absolutamente nada acrescenta.

Relativamente ao aspecto do ineditismo, embora, aparentemente, este não se expresse, com clareza, na citada temática, a simples divergência de pensamento dos nossos nacionais a respeito, por exemplo, de arquivar ou não o derradeiro processo contra o ex-Presidente Temer, dota o assunto do caráter de original, inédito. Isto porque não se dispôs, como sucede com os temas das ciências exatas, de uma solução definitiva, na pacificação da querela, trazendo cem por cento de certeza e a consequente negação total de dúvida, conforme acontece com a soma de dois e dois representar quatro.

Penso ser dispensável, pelos motivos ora aludidos, comentar a respeito do predicado, acima oferecido, da controvérsia, incluso e coincidente com o arrazoado da reflexão imediatamente anterior.

Com efeito, qualquer matéria de proveito humano – como religião, ciências, humanidades, relação familiar, alimentação (esta, hoje, com certas “invenções” impostas pela Cultura de Massa expressa nos meios de propagação coletiva), esporte, sexualidade ou assunto diverso – é passível de se transformar em publicação.

Exige-se, porém, que obedeça a certas exigências, aqui de leve comentadas, a fim de a edição experimentar de boa recepção pelo público ledor, o qual a multiplicará em decorrência dos conceitos por ele emitidos, pessoal ou por escrito em obra sua – caso se pense em um escritor.

CONVICÇÃO PROPOSITIVA E EXPRESSÃO COMUNICATIVA PERFEITA

Exprime-se como absolutamente necessário, indispensável, o fato de que o autor, com amparo intelectual conquistado por estudos, observações e exame de obras de terceiros, teça sua argumentação com suporte na lógica e amparo na razão.

De tal sorte, dotado de racionalidade dedutiva e sem recorrer a seduções escondidas e aparentemente verdadeiras – conforme é comum acontecer com propagandas e publicidades desonestas – possa o escritor conquistar o público ledor por via do convencimento sólido, consistente, sem qualquer tentativa de engabelar, por via de argumentos confusos, a sua audiência. Se tal acontecer, restarão multiplicados o desacerto, o erro crasso, o pecado et reliqua. Melhor, sem dúvida, é que o pretenso autor seja analfabeto.

APTIDÃO PARA REFLETIR-REPRODUZIR O PENSAMENTO

Ensina um brocardo de Ovídio que “Não se intrometa com o que não sabe” (IGNOTO NULLA CUPIDO). Se uma pessoa acha de cuidar de assunto desconhecido, das duas, uma: ela transmitirá, equivocamente, conceitos a um público desprovido de possibilidades de refutar seus pretensos “ensinamentos” e sairá a espalhar o conhecimento enganoso, o que configura uma grande irresponsabilidade; ou ficará permanentemente exposta ao ridículo, aliás, numa posição bem merecida, como pagamento à atitude de irresponsabilidade.

De tal sorte, quem não detém saber suficiente acerca de matéria, por mais simples que seja, não há de se arvorar da pretensão de ensinar, uma vez que o livro, ou qualquer suporte de informação, foi instituído para informar, orientar, instruir e educar, não para perpetrar o mal.

PRONTIDÃO COMUNICATIVA (LINGUÍSTICA E PEDAGÓGICA)

Quem pretender publicar uma obra didática, romance, texto científico ou qualquer trabalho que necessite da aplicação da norma culta em Língua Portuguesa, há de ter relativo domínio do vernáculo. Se for o caso de uma edição física, para circulação nacional, por exemplo, é recomendável o texto transitar por um especialista no assunto, que procederá à sua revista, deixando a obra limpa dos destemperos tão comuns nesta seara. Aliás, os deslizes são absolutamente normais, porquanto o autor, ao realizar uma pesquisa científica, por exemplo, não haverá de se preocupar em profundidade com os aspectos linguísticos e estilísticos, sob pena de as ideias restarem atrapalhadas, isso desde que ele pretenda submeter o escrito a uma pessoa competente, professor universitário, por exemplo, pois que conhece, também, dos ensaios envolvendo pesquisas em ciências.

Impende exprimir, por ser de relevância capital, a noção de que os conceitos emitidos com base nas ideações de outrem devem ser acompanhados das obrigatórias menções aos seus autores, nos termos da legislação vigente, consoante exprime a Lei 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, e conjunto de dispositivos complementares.

Importa informar o fato de que há, no Brasil, incontáveis processos judiciais, envolvendo atentados ao Direito do Autor, inclusive o chamado autoplágio, configurado na cópia de trabalhos do próprio autor. Recentemente, professora de uma universidade federal brasileira foi demitida, depois de um processo de autoplágio, pois sobrou confirmado o fato de que seu título de doutor foi obtido com base em reprodução completa da dissertação de mestrado, cujo título de mestre ela havia conquistado noutra instituição acadêmica.

PAGAMENTO-FINANCIAMENTO DA EDIÇÃO

O derradeiro aspecto eleito aqui para rapidamente situar a publicação de um labor literário, artístico ou científico descansa no desembolso financeiro a fim de cobrir os custos das produções.

Nos casos das universidades e institutos de pesquisas públicos, bem como das entidades oficiais ligadas à educação e à cultura, nos âmbitos nacional, estaduais, distrital e municipais, esses órgãos, com recursos apropriados aos seus orçamentos, respondem pelas despesas efetuadas. Tal ocorre após os trabalhos haverem percorrido longo decurso de verificação, seleção e aprovação, em tarefa desenvolvida por consultores acreditados junto à CAPES – Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal Superior – CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e outros organismos dos entes da Federação nas citadas quatro esferas. No Ceará, a instituição oficial de pesquisa é a Fundação Cearense de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FUNCAP, vinculada ao Governo Estadual.

Para atender aos pleitos particulares, de fora dos estabelecimentos sob o controle do Estado (União, estados, Distrito Federal e municípios), em 1991, foi editada a Lei 8.393, a chamada Lei Rouanet, que se responsabiliza, uma vez procedidos aos processos de inscrição e decisão ao Ser Estatal, pelas verbas de cobertura das obras submetidas.

A alta escala de pagamento da maioria dessas produções é procedida, no entanto, particularmente, pelos seus autores, os quais contam com o desconto de até 6% (seis por cento) do Imposto de Renda a pagar, quando da declaração anual.

Depreende-se que, conquistadas todas essas circunstâncias, sobra muito “fácil” publicar um livro …

Triplo emprego de um advérbio (para amatar uma dúvida)

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Só o influxo da arte comunica
durabilidade à escrita; somente ele marmoriza
o papel e transforma a pena em escopro.

(Rui Barbosa).

Atilado consulente, leitor expedito e bem aprestado literariamente – destes que qualquer autor aprecia ter como público e a quem manifestamente agradeço – divisou suposta impropriedade em passagem de agricultura minha, no texto A Respeito dos Críticos, expresso a jeito de prolegômenos no meu livro Arquiteto a Posteriori (Fortaleza: Imprensa Universitária da UFC, 2014), depois reproduzido noutros media com algumas modificações, mercê da energia da Língua e das ocorrências históricas.

Ali, registei o fato de que […] optamos por não escrever a respeito de trabalhos de má qualidade, nem tomar de assalto os bons escritos, pespegando-lhes, ADREDEMENTE, defeitos nestes não contidos […], móvel da resposta agora oferecida com a mais vera satisfação àqueles que ostentam desconfiança acerca de pretensa impropriedade ou até armazenam certeza de sua ocorrência, a qual, com esta réplica cidadã, certamente logro desmontar.

Os advérbios e expressões modais que nomeiam este artigo são aplicados (corretamente) com o mesmo sentido, no Brasil quanto em Portugal, ao curso de muito tempo. Assim me refiro esteado nos estudos procedidos nos anos 1960, quando estudante secundarista, à lucerna cintilante do Mestre Hélio de Sousa Melo [tio do meu paradigma de docente, Myrson Melo Lima, e parente perto do meu estimado amigo, o causídico Dr. Reginaldo Vasconcelos], de quem ouvi a dicção adredemente pela primeira vez, pois, com outro dos sensos humanos – a visão – a depreendera já da leitura de Lições Práticas de Gramática Portuguesa, de Gaspar de Freitas, bem como de Aída Costa, salvo escorrego de lembrança, no Português – Segunda Série Ginasial.

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Caminhos de uma vida fértil

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Artigo Inaugural da obra Notações de um Percurso Pessoal e Acadêmico – VM

A Ciência é o cemitério das ideias mortas.
(MIGUEL DE UNAMUNO)

Prof. Raimundo Mariano.

Antes de adentrar, com elevada satisfação, os escólios a respeito do autor deste livro, o cientista piauiense, militante das Ciências da Terra – Geologia e seus ramos disciplinares, internacionalmente conhecido e apreciado, intento preparar os solos, com seus horizontes texturais, a fim de melhor assentar meus motivos condutores das notas, procedendo a informações propedêuticas sobre minha inserção na mesma Casa de Saber onde opera o autor da obra sob comento, publicado pela Expressão Gráfica – o pesquisador Prof. Dr. Raimundo Mariano Gomes Castelo Branco.

Na qualidade de cearense, sob o prisma do conhecimento e da cultura – embora infinitamente abaixo do estatuto acadêmico do produtor desta obra –  minha referência fundamental assenta na Universidade Federal do Ceará, conjunto acadêmico modelar fundado pelo extraordinário Prof. Antônio Martins Filho, no recuado ano de 1954, ao congregar algumas faculdades e escolas isoladas de Fortaleza, concedendo-lhes caráter universitário.

Universidade – não demora reiterar – conforma uma instituição de ensino e procura da informação ordenada, constituída por um conjunto dos mencionados institutos, destinados a promover a formação profissional e científica em nível superior, bem como efetivar demanda teórica e prática na maioria das vertentes da recepção do saber humanístico, artístico e tecnológico, bem como proceder à divulgação de seus resultados a  uma vasta comunidade receptora.

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