Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (7) – A CONFUSÃO NO USO DO HÍFEN

FREI HERMÍNIO BEZERRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 27

Este é o ponto mais inquietante, angustiante, atormentante e paradoxal do Acordo Ortográfico. O uso do hífen em português sempre foi um ponto cruciante. O uso do hífen que tinha 18 regras, passou a ter 25 neste III Acordo. Palavras e expressões que antes eram com hífen tiveram seu uso ab-rogado e outras que não eram foram hifenizadas. O que reforça a tese de Heinrich C. Agripa, que diz: as regras de gramática são capricho dos gramáticos que legislam. (Vide Postagem 02).

Hífen é um termo grego ὑφέν = ligado, unido em um só corpo. Ele indica que as duas palavras são pronunciadas como sendo uma só. Como não vejo proveito apresentar as regras aqui, eu me limito a mostrar omissões e pontos conflitantes. Indico o livro: Português e algo mais para o dia a dia, de Myrson Lima, Ed. Expressão Gráfica, 2020, que em três pp. 115-118 traz ótima síntese do hífen. Como obter: whatsApp (85) 9 9983 4050, nas livrarias Leitura e Nobre, na Banca O Sobral.

O III Acordo dedica 3 Bases ao uso do hífen, com supressões e acréscimos.

Base XV: Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares. Nesta Base chamam nossa atenção: 1 – Não se usa hífen nos compostos que perderam a noção de composição como: pontapé, mandachuva, paraquedas… (Base XV, 1 OBS). A dificuldade é que há muitos casos duvidosos, como: cara-dura ou caradura, sócio-cultural ou sociocultural? 2 – A eliminação do hífen nas locuções com um elemento de ligação, da/de/e/o/na… (Base XV, 6). São escolhidas adrede, sete expressões para serem exceções desta regra. Eu pergunto: Qual o porquê? (Vide: Postagem 2, nº 3).

Base XVI: Do hífen nas formações por prefixação e sufixação. A relação – em ordem alfabética – traz 18 prefixos, com a ausência de alguns que deveriam constar: ab-, ad-, ob-, sob-. Ainda que possam ser considerados como incluídos no “etc”, o esperado é que fossem citados, por sua importância. Por uma questão de clareza estes prefixos exigem hífen quando a palavra a que se agregam começa por l ou r. Exemplos: a) ab-rogar, ab-rupção… Há exceções e casos duplos, como: ab-rupto ou abrupto… b) ad-legação; ad-ligação, ad-referendar, ad-rogação, ad-rogar… Exceção: adrenal… c) ob-repção, ob-reptício, ob-rogação, ob-rogar, ob-ringentifloro, ob-rogável, etc…  d) sob-roda, sob-rojado, sob-rojar.

Base XVII: Do hífen na ênclise, na tmese e com o verbo haver. É útil para a compreensão de termos conhecer sua origem e por isso dou: ênclise vem do grego, ἔγκλισις = ênclise, inclinação, a partir do verbo ἐγκλίνειν = inclinar. A ênclise é a junção de um termo monossilábico à palavra anterior, exemplo: amá-lo, dá-se. A tmese também é do grego, τμῆσις = divisão, a partir do verbo τἐμνω = cortar. É a separação de uma palavra para por outra no meio, exemplo: dar-lhe-ei.

O nosso ex-presidente Jânio Quadros era professor de português e dizem que falava muito bem e até exagerava. Uma vez, à pergunta: Por que renunciou? Ele teria dito: Fi-lo porque qui-lo. Uma testemunha contou que numa inauguração, após ele pedir a segunda dose de uísque, uma senhora interpelou-o: Presidente por que o senhor bebe uísque? Mostrando-lhe o copo, com oportuna tmese, ele explicou: “Veja minha senhora, bebo-o porque é líquido, se sólido fosse, comê-lo-ia”.

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Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (6) – TERMOS ADVINDOS DA MESMA RAIZ COM EXCEÇÕES

FREI HERMÍNIO BEZERRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira 27

Este é um ponto intricado e intrigante pelo fato do texto do Acordo não falar de modo explícito nele. Toma-se conhecimento do mesmo consultando a listagem VOLP = Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que é a relação oficial das palavras da língua. Problema: o VOLP mais recente é de 2009 e além disto, existem dois – um em Portugal e outro no Brasil – mas eles não são iguais. O que prova a não unificação da língua portuguesa. Trataremos dos VOLP (Brasil e Portugal), na postagem 09.

Vejamos palavras com os prefixos: eletro; nic/noc: noite; omni/oni: tudo/todo.

Existem cerca de 300 palavras iniciadas com o termo élektron (do grego, ἤλεκτρον), e do latim, electrum = electro. Nestas palavras nós temos três variações:

  1. a) grafia dupla: electrocirurgia ou eletrocirurgia; electrocópia ou eletrocópia;
  2. b) grafia única sem o c como: eletricidade, eletricismo, eletricista, eletricitário, eletrocísão, eletropirexia, eletrorradiologia, eletroválvula;
  3. c) grafia única com o “c” como: electrocirurgico, electrocopista, electofotófuro.

Cerca de 200 destas palavras estão no primeiro caso, admitindo a dupla grafia.

Como se explica esta tríplice grafia em palavras da mesma raiz? Não me parece que se enquadrem nos casos justificados: eufonia, homonímia e exceções consagradas.

Palavras com os prefixos (grego e latino), de noite. Em grego: νύξ, νυκτός = noite, daí temos: nictalopia, nictemeral, nictobata, nictofilia, nictofobia, nictúria… nenhuma tem forma dupla. Os termos derivados de nox, noctis = noite (que o latim foi buscar no grego) têm três modos diversos de grafia:

  1. a) grafia dupla, com e sem c: noctâmbulo ou notâmbulo e noctívago ou notívago;
  2. b) grafia sem o c: noturnal, noturnância, noturnidade, noturnizar e noturno.
  3. c) grafia só com c: noctífilo, noctífloro, noctífobo, noctífugo, noctívolo e noctúria.

Outro caso curioso é o das palavras com o prefixo latino omni = tudo/todo.

a)Têm grafia dupla: ômnibus ou ônibus; omnicolor ou onicolor; omnidirecional ou onidirecional; omniforme ou oniforme; omnilíngue ou onilíngue; omnímodo ou  onímodo; omnipalrante ou onipalrante; omniparente ou oniparente; omnipessoal ou onipessoal; omnipotência ou onipotência; omnipresença ou onipresença; omnisciente ou onisciente; omniscópio ou oniscópio; omnissapiência ou onissapiência; omnividência ou onividência; omnivoracidade ou  onivoracidade; omnívoro ou onívoro.

  1. b) Têm grafia única somente com oni: onifulgente; onifulgor; onígrafo; onipatente; oniprodutivo; oníssono; onívago e onívomo. Mas há divergências entre os dois VOLP.

Por quê? Qual o critério para tantas grafias em termos vindos da mesma raiz?

O dicionário de A. Houaiss (2009) no termo omni diz: ver oni e traz todas estas palavras só com oni. Para dirimir tantas divergências é preciso usar como livro de bolso o VOLP, que mede 28×20 centímetros, tem 877 páginas e pesa de 2,05 kg.

Portugal segue dando primazia à etimologia e o Brasil à eufonia. Uma sobrinha minha estudou no Ceará até terminar o segundo grau. Fez a prova de acesso para cursar Letras na Universidade de Vitória, no País Basco (Espanha). Escolheu o português (como língua estrangeira), mas quase foi reprovada, pois o professor que corrigiu a prova era de Portugal e tinha outro modo de conceber a nossa língua.

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Flor do Carpo

MARCELO BRAGA, membro efetivo da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 18

           Aiocó estava em festa. As chuvas, nos últimos dias, trouxeram à cidade vida nova, além de muitos mosquitos que se viam aos arredores dos lampiões. Os moradores riam-se com o tempo. Havia quatro anos que a seca castigava, era só sofrimento, luto, desespero e desesperança.

           O pequeno povoado já não existia, mas Deus existe e manda chuva. Chuva que caiu sobre Aiocó durante três dias, deixando a população frenética de alegria. Alguns, em frente à igreja, agradeciam a Deus, ajoelhados; outros, com uma garrafa de cachaça entre as mãos postas, olhavam para o céu e choravam compulsivamente.

            As chuvas, segundo a população daquele pequeno povoado, vieram graças a Mané do Carpo, um curandeiro que fora assassinado pelo Capitão Antoniano Linhares  por ter lhe negado um pedido. Diz-se que a filha do Capitão estava muito doente, então  mandou chamar o curandeiro. Este recusou.

           No dia seguinte, a moça faleceu. Inconformado, foi até a casa de Mané do Carpo, amarrou-o em seu cavalo e desceu ladeira abaixo arrastando o pobre curandeiro, amaldiçoando-o e culpando-o pela morte de sua filha.

            Após cinco dias da morte do velho Mané, o Capitão sofreu um acidente, caiu de seu cavalo, bateu com a cabeça em uma pedra, tendo morte imediata. O povo do lugarejo atribuíra a sua morte como obra do curandeiro que viera para se vingar.

            Aiocó dividia-se nas opiniões tentando justificar o motivo de tanta chuva assim tão repentinamente. Para a maioria dos aiocoenses,  era também obra do curandeiro, que, penalizado e conhecedor do sofrimento de todo povo, lhe mandou chuva. Para os mais católicos, era obra divina e tentavam explicar como sendo o resultado de muitas promessas feitas no período de quatro anos e meio. Para os que se diziam estudados de fenômenos naturais, Liberato e Dagoberto, nenhuma das hipóteses era verdadeira. Segundo eles, nada mais era, senão um caso isolado.

            As chuvas continuaram, os rios e açudes ficaram cheios, e ninguém conseguiu explicar o fenômeno. Os aiocoenses cuidaram de suas terras, plantaram e colheram. A cidade desenvolvera-se especialmente com a chegada diária de turistas, atraídos por uma possível aparição.

            No quintal da casa de Mané do Carpo, apareceu uma flor diferente de todas existentes na região, que recebeu o nome  “Flor do Carpo.”

           Após as chuvas cessarem, no lugar em que a flor nascera, o curandeiro apareceu para Tinó, um amigo fiel, talvez o único. O boato espalhou-se. No início, a cidade desacreditara na história, mas novas aparições surgiram e outras pessoas afirmaram tê-lo visto naquele local. Foi motivo suficiente para atrair pessoas de várias partes e não só da região.

            A casa de Mané do Carpo, ou melhor, o quintal de sua casa nunca mais fora o mesmo. Em vida, era vazio, pouco frequentado , um ou outro ia visitá-lo na tentativa de conseguir alguma cura para seus males. Salvo o fiel amigo Tinó. Este, sim, embora fosse falar-lhe de suas desilusões, considerava-o amigo. Após a sua morte, fora o único a colocar flores em seu túmulo. Depois de morto, gente, que nunca vira ou ouvira falar, visita-o, pede-lhe forças, faz-lhe versos, estatuetas, pequenos panfletos com oração que nunca  fez e foto que não condiz com a sua fisionomia em vida.

            A cidade crescia cada vez mais, já não era só um pequeno povoado, o dinheiro multiplicava-se deixando o prefeito folgazão, e a prefeitura, que sempre se encontrara desapercebida de recursos, engordava que era uma beleza. No período de eleições, os candidatos pediam votos em nome da “Flor do Carpo”. Prometiam mundos e fundos, inclusive ampliar o pequeno quintal, por não mais comportar tanta gente que ia ali para tocar a flor e conseguir uma graça. Vencia o mais burlador e prosador. O fato é que o atual   prefeito cumpriu o dito e ampliou o quintal. Tudo isso, segundo ele, seria para o bem do povo e para a memória do curandeiro que tinha que se manter viva.

            Em um certo dia de casa cheia. Desculpe-me por isso. Em um certo dia de quintal cheio, Mané do Carpo, já não mais aguentando tanta deificação, resolveu aparecer justamente no momento em que todos o aclamavam. Uma confusão generalizou-se, alguns gritavam “Aleluia! Aleluia!”; outros se ajoelhavam; uns desmaiavam. E dentre em pouco, todos, ao perceberem o que realmente estava acontecendo, correram. Mané do Carpo, sobre a flor, observava tudo calado. E, após alguns minutos, a paz reinou novamente no quintal vazio.

            Aiocó voltou a ser o que era. O local da aparição tornou-se mal-assombrado, e turista nenhum nunca mais pôs os pés naquele lugar que, aos poucos, deixava de existir. Mas a “Flor do Carpo” resistia. Não crescia, não murchava, não morria. Resistia.

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (5) – A GRAFIA DUPLA OPCIONAL E SUAS CONTRADIÇÕES

FREI HERMÍNIO BEZERRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 27

Antes eu relembro que na base da dupla grafia está a questão: dar prioridade à eufonia ou à etimologia, junto com a incapacidade da Comissão de achar o meio termo, pois as duas têm importância. Reconhecendo que em algum ponto eu posso estar desinformado pois não sei tudo, no final de cada postagem vai o email para questões.

Na Base IV, 1, a que diz: Consoantes a serem conservadas, por serem pronunciadas: adepto, apto, compacto, convicto, erupção, ficção, micção, pacto… O Acordo não fala em exceção, nesta regra, mas o VOLP (2009) traz exceções.

Na mesma Base IV, 1, b sobre a eliminação das consoantes c, p,  exemplos: ação, acionar, adoção, aflição, ato, batizar, coleção, coletivo, direção, exato, objeção… As exceções ocorrem, em geral, por questão de eufonia, de homonímia ou uso consagrado. O Acordo não se refere exceções, mas o VOLP traz muitas: fração ou fracção (do latim fractio, fractionis), mas seu derivado, difração é forma única. O esperado é que haja uma certa uniformidade e uma lógica.

Na Base IV, 1, c que diz: “Conservam-se ou eliminam-se, facultativamente, quando se proferem numa pronúncia culta da língua, ou quando oscilam entre a prolação e o emudecimento”. Norma facultativa deixa para decisão pessoal. Ela atinge centenas e centenas de palavras. Veja alguns exemplos relativos às normas da Base IV.

A: abjecto/abjeto; adactilia/adatilia; afectar/afetar; alecteromancia/aletoromancia…

B: bactéria/batéria; bactromancia/batromancia. baptismal/batismal; bijecção/bijeção…C: carácter/caráter; ceptro/cetro; coactar/coatar; colecção/coleção; colecta/coleta…

D: dactiloteca/datiloteca; dejectável/dejetável; detectar/detetar; dialectável/dialetável…

E: efracção/efração; ejecção/ejeção; exacto/exato; expectativa/expetativa…

F: factível/fatível; factorial/fatorial; fleugma/fleuma; fracção/fração; fricção/frição…

G: galáctico/galático; genuflectir/genufletir; gimnásio/ginásio; gimnopode/ginopode…

H: héctico/hético; heteroinfecção/heteroinfeção; hipodáctilo/hipodátilo…

I:  icterícia/iterícia/ incoctível/incotível; inflectir/infletir; infractor/infrator…

J: jactar/jatar; jacto/jato; jactancioso/jatancioso; jactoplanador/jatoplandor…

L: láctea/látea; láctico/lático; leccionar/lecionar; liquefáctico/liquefático… 

M: manufacto/manufato; microdáctilo/microdátilo; monodáctilo/monodátilo…

N: neptuniano/netuniano; nictófilo/nitófilo; noctívago/notívago…

O: objecção/objeção; omnímodo/onímodo; omnisciente/onisciente; óptimo/ótimo…  

P: pactear/patear; perempção/perenção; prospecto/pospeto; punctura/puntura…

Q: quimiorreceptividade/quimiorrecetividade; quimiotactismo/quimiotatismo…

R: rarefacção/rarefação; receptível/recetível; rectidão/retidão; ruptura/rutura…

S: secção/seção; sectorial/setorial; septífero/setífero; súbdito/súdito…

T: táctica/tática; táctil/tátil; técnico-táctico/técnico-tático; trissectriz/trissetriz…

U: urectomia/uretomia; uretrorrectal/uretrorretal; usufructo/usufruto…

V: vectação/vetação; vector/vetor; vindicta/vindita; vivisecção/viviseção…

Z: zigodactilia/zigodatilia; zigotáctico/zigotático; zootáctico/zootático…

Esta sucinta lista (de A-Z) não mostra a complexidade nem a sua extensão. Só as letras (J-N-Q-U-Z), têm poucas palavras, as outras têm dezenas e/ou centenas de palavras que são atingidas por esta norma.

Email para observações: freiherkol@yahoo.com.br

Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (4) – O ACENTO DUPLO OPCIONAL

FREI HERMÍNIO BEZERRA OLIVEIRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 27

Em português o acento indica a sílaba forte na pronúncia da palavra. Não há razão plausível para o duplo acento. O tipo de acento – grave, agudo ou circunflexo – não influi na norma. A única explicação para esta regra está na birra e no capricho das partes, em não ceder e ainda faltou imaginação, pois a questão poderia facilmente ter sido resolvida por sorteio ou no par ou impar. Uma geração – no Brasil ou em Portugal – ia lamentar até se habituar à norma.

Com qualquer acento, a ênfase na fala é na sílaba acentuada. É uma questão de convenção. O nosso ponto e vírgula (;) é o ponto de interrogação em grego. Para os espanhóis é estranho que o português não coloque o ponto de interrogação invertido, antes de frase interrogativa. O francês escreve Pelé, mas pronuncia Pelê. Em português convencionou-se que um “s” entre duas vogais têm som de “z”, em espanhol não têm uma só palavra com “ss”  e não se faz confusão quando um “s” está entre duas vogais.

A Base VIII, 1 a, OBS institui o acento duplo (agudo ou circunflexo) em muitas palavras oxítonas terminadas em “e” tônico/tónico, em geral provenientes do francês. Exemplos: balancê ou balancé. baumê ou baumé; bebê ou bebé; bidê ou bidé; bilboquê ou bilboqué; cachê ou caché; cachenê ou cachané; canapê ou canapé; comitê ou comité; crochê ou croché; fricassê ou fricassé; giroflê ou giroflé; glacê ou glacé; glissê ou glissé; guichê ou guiché; guilochê ou guiloché; macramê ou macramé; matinê ou matiné; negligê ou negligé; nenê ou nené; patê ou paté; pavê ou pavé; purê ou puré. O Acordo aprova duas grafias e duas pronúncias (aberta em Portugal e fechada no Brasil).

O Acordo não menciona exceções a esta regra, mas pelo que consta no VOLP (2009), (Brasil) e no VOLP (2009), (Portugal), as palavras: consomê, flambê, laquê e negligê – que se enquadrariam nesta regra – têm apenas acento circunflexo. Ainda: a palavra “negligé” não consta no VOLP do Brasil, mesmo se está numa música de Nelson Gonçalves. Ainda, frapê (bebida gelada), só consta no VOLP do Brasil.

Vale ainda registrar o caso de duas palavras advindas do francês, que pelo uso já poderiam estar neste grupo, mas que constam em ambos os VOLP como estrangeiras: habitué = frequentador assíduo, e démodé = fora de moda, ultrapassado.

Após os exemplos de palavras terminadas em “e”, o texto emenda: O mesmo se verifica em formas como: cocó e cocô; ró e rô (17ª letra do alfabeto grego). O livro, Ortografia em mudançaVocabulário (ILTEC), Edit. Caminho, Rio Tinto, Portugal, 2008, traz duplo acento em palavras japonesas como, caratê e caraté; saquê e saqué. Aparecem com acento duplo palavras de origem tupi como: sapê e sapé (capim); sofrê e sofré (ave); tembê e tembé (grupo indígena tupi). Aparece com acento duplo até a palavra  grega: νηνία = nênia e nénia (canto fúnebre da Frígia).

Acho que basta, para sinalizar a grande confusão armada pelo III Acordo Ortográfico, com relação ao duplo acento. Seria repetitivo e fatigante expor a Base IX, 2, a Obs, que permite: sêmen ou sémen; xênon ou xénon, fêmur ou fémur… Bem como a Base XI, 3, permitindo: afônico ou afónico; biônico ou biónico; daltônico ou daltónico… Neste caso são milhares de palavras. E ainda temos que lutar contra a (in)correção automática dos laptops que no Brasil só aceitam o (^) e em Portugal o (´).

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Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (3) – A CONFUSÃO CRIADA COM GRAFIAS DIVERSAS

FREI HERMÍNIO BEZERRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 27

Uma língua na sua expressão falada e escrita é organizada pela etimologia e pela fonética. A etimologia baseia-se na origem das palavras, a eufonia segue o modo como são pronunciadas as palavras. Embora os dois sistemas estejam presentes em qualquer língua, o comum é que um deles predomine sobre o outro.

O francês começou a organizar-se ainda no século XVII dando ênfase à etimologia, por isso ele tem tanto PH, RH, TH, oriundos do grego, do latim, do frâncico e do celta. Línguas que se organizaram mais tardiamente como o espanhol e o italiano fizeram opção pela fonética. Nenhuma língua usa meio a meio etimologia e fonética. (Cf. E. Banfi – N. Grandi, Lingue D’Europe, Ed. Carocci, Roma, 2003, pp 41-59).

O português – como já vimos – só começou elaborar normas quanto à grafia e à pronúncia, na primeira década do século XX. Até então prevalecia a etimologia e por isso, escrevia-se: cysne, lágryma, lýrio, cavallo, gallo, propheta, pharmácia, philosophia, rhombo, rhonco, theologia…  A primeira proposta oficial veio de Portugal em 1912 e privilegiava a eufonia. Esta foi recebida no Brasil com reserva, mesmo assim, foi adotada em 1915, mas foi cassada em 1919.

O I Acordo Ortográfico de 1931 adotava a eufonia como padrão, mas saiu de uso 1934. O II Acordo Ortográfico foi desastroso, pois Portugal, até então adepto da eufonia, passou a adotar a etimologia e o Brasil, simpático à etimologia, optou pela eufonia. Como nenhuma das partes cedeu, o Acordo foi assinado dando liberdade a cada parte de adotar a eufonia ou a etimologia. Além de criar duas línguas, uma em Portugal e outra no Brasil, ele tem duas datas: 1943 no Brasil e 1945 em Portugal.

O III Acordo Ortográfico, de 1990, só foi adotado em fase experimental em 2009 para entrar em vigor em 2013, mas só entrou em vigor em 01/01/2016. Embora o texto não diga explicitamente, deduz-se pelo conteúdo e a duplicidade de normas, que houve o mesmo impasse do II Acordo, entre etimologia e eufonia. Como nenhuma parte cedeu, a solução foi a mesma: normas duplas e cada país faz como quiser. Foi obnubilado o sonho da unificação da nossa língua portuguesa.

O normal é que haja uma opção clara pela etimologia (como fez o francês), ou pela eufonia (como fez o italiano). O sistema “misturado” do III Acordo Ortográfico, desagrada tanto à “senhora etimologia”, quanto à “senhora eufonia”. Normas contra a unificação: 1 – Base IV, 1 c: Conservam-se ou eliminam-se facultativamente… (consoantes)… Ex.: facto, sector (PT) ou fato, setor (BR). 2 – Base VIII, 1 a, OBS: metro, judo (PT) e metrô, judô (BR). 3 – Base IX, 2 a, OBS: Admite a duplicidade: sémen, fémur (PT) e sêmen, fêmur (BR). A mesma coisa na Base IX, 2 b, OBS: pónei, ónix (PT) e pônei. ônix (BR). Note-se: o estranho é que em – contradictio in terminis –  as OBS, anulam as normas dadas. 4 – Base XI, 3, diz: Levam acento agudo ou circunflexo as palavras proparoxítonas… (que em Portugal têm pronúncia aberta e no Brasil fechada). Exemplo: acrimónia, acrónimo (PT) e acrimônia, acrônimo (BR). Esta última norma é de todo inútil, já que não é possível controlar pronúncia, pois as regras dadas não conseguem determinar fielmente a eufonia de uma palavra.

 Voltarei a este assunto, com exemplificações nas duas próximas postagens.

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