HISTÓRIA DE TAUÁ ENOBRECIDA

Vianney Mesquita, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira 37

Todos sabem fazer História, entretanto apenas os grandes logram escrevê-la.  [OSCAR Fingel O’Flahertie Wills WILDE – escritor, poeta e dramaturgo irlandês. 16.10.1854 – 30.11.1900].

Ensaísta da melhor crase na senda científica, com produções de erguido valor, editadas para fecundar o mealheiro da História do Ceará e seus ramalhos disciplinares e afins, o professor da UECE [nascido em Ibaretama-CE] e imortal-titular de uma cátedra da Academia Tauaense de Letras, doutor João Álcimo Viana Lima, vem, outra vez, aditar ao recheio das nossas averbações literárias um volume de imponente valia para complementar o enredo histórico do seu sítio de trabalho, antigo São João do Príncipe, o conhecido, adiantado e celebrado Município de Tauá – Ceará.

Sob amparo das diligentes táticas de busca na seara do saber parcialmente ordenado – conforme se expressou o filósofo, biólogo e antropólogo grão-britano Herbert Spencer a respeito do conhecimento  – como prova inconteste do preparo intelectual obtido ao largo de seu caminho como estudioso afeito e obediente aos ditames da Metodologia Científica e Filosofia da Ciência, o Autor estendeu ao enredo narrativo dos seus locis de atuação [Tauá e suas parcelas municipais] o volumoso conjunto de trinta e cinco documentos oficiais.

Mencionadas peças, buscadas com o desvelo peculiar ao operário diligente da demanda investigativa, procedem de autoridades reinóis lusitanas, anteriores à chegada da Família Real ao Brasil, em 8 de março de 1808 [há exatos 213 anos], bem como de tempos pós-Independência do País, no decurso do Império, complementadas, empós a Constituição de 1891, com escrituras provenientes de alçadas da República e, enfim, preceituações advindas de próceres estaduais, como os governadores do Estado do Ceará.

Na transferência desses referenciais para o livro Documentos Históricos dos Distritos de Tauá, convém exprimir, além de eles assentarem coerentemente como rememorações de grande distinção para o leitor conhecer e apreciar a evolução do Município sob argumento – com seus termos, fogos e almas – estão pormenorizados com apreciável exatidão em notas nas bases das páginas. Estas vêm acrescidas de minudentes informações complementares, concedendo ao público ledor, mormente de Tauá e dos Inhamuns,  a oportunidade de engrandecer seus haveres culturais atinentes à matéria, ajuntando à mera comunicação expressa na sua conformação, em português já não estilisticamente usado, a estesia da modernidade e o modo ameno, espontâneo, singelo e rico como se exprime o Acadêmico autor desta referência de leitura.

Acresce fazer alusão a um proveito singular no modus operandi do Escritor para reproduzir as trinta e cinco disposições legais, luminosa ideia para melhorar o nível de recepção das mensagens insertas nos ditos diplomas legais. É que ele, parece que sagradamente inspirado, achou de amatar a aspereza do Português ali empregado, em decisão absolutamente legal e justa e inteligente e produtiva, transportando para a boa linguagem hoje em curso a acentuação, a grafia e a pontuação da escrita, levando o consultante a decodificar as ideações das autoridades, sem restritivas intercorrências de cariz interpretativo. É esta, induvidosamente, mais uma vantagem, uma das obrigações intelectuais de um artífice competente à procura de evento novo, a ser evidenciada pela Filosofia da Ciência.

 E, por conseguinte,  para regozijo da conjunção cearense produtora de achados científicos, bem como a fim de trazer júbilo àqueles que se vão servir de tão alteado produto da agricultura deste investigador a mancheias, Documentos Históricos dos Distritos de Tauá está bem sortido de excelências.

Como é salutar expressar esse entendimento!

A PONTUAÇÃO VAI ALÉM DOS PONTOS…

José Olímpio, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira 21

Quando se fala em pontuação, de imediato se pensa no emprego do ponto, da vírgula, do ponto de interrogação, do travessão, etc. Isto é pontuação, sim, porém num sentido restrito. Pontuação, num sentido amplo, abrange toda a estruturação e organização de um texto, através de sinais e procedimentos convencionados.

Assim, além do emprego dos sinais tão conhecidos, temos como casos de pontuação: o emprego de alíneas e de incisos; o uso do hífen; os grifos em geral (itálico, negrito, sublinhado, etc.); os parágrafos; o tamanho da letra; o formato do texto, margens, espaços, divisões, subdivisões… Enfim, – reforçamos – todo e qualquer recurso utilizado para a distribuição, organização e estruturação do texto; e que, consequentemente, concorre de forma decisiva para a sua clareza, coesão, coerência e elegância (que são os objetivos principais da pontuação).

Falemos um pouco desses elementos da pontuação, no sentido amplo…

O parágrafo.

Os textos em prosa (redações escolares, cartas, ofícios, monografias, reportagens, etc.) são habitualmente estruturados em parágrafos. O parágrafo corresponde a cada parte do texto formada por um grupo de ideias afins. Consta de uma ideia principal (ideia-núcleo), à qual podem-se juntar outras ideias secundárias, para complementar, reforçar, justificar, delimitar, enfim, desenvolver essa ideia principal.

O parágrafo é tradicionalmente marcado pela mudança de linha, acompanhado geralmente com um avanço de margem. Mas nem sempre se usa o avanço; nesse caso, é aconselhável, por questão de clareza e estética, uma separação linear entre os parágrafos. O autor e a finalidade a que se propõe o texto definem a escolha do procedimento adequado. Neste texto, optei pelos dois procedimentos, para reforço do tema.

Ilustremos com este exemplo, retirado do Jornal Tribuna do Norte (Natal, 25/06/2011): 

            O número de praias urbanas que estavam impróprias para banho, que chegou a seis na semana passada, caiu para três, segundo anunciou o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente.

            Agora, as praias impróprias para banho em Natal são: o Morro do Careca, em Ponta Negra; a dos Artistas, em frente ao Centro de Artesanato; e na Redinha, em frente às barracas.

            A situação mais preocupante é com relação ao trecho das barracas da Redinha, que está nessas condições há cinco semanas, sofrendo poluição por causa de coliformes fecais.

            O geólogo Ronaldo Fernandes Diniz, um dos coordenadores do Programa Água Azul, explica que em períodos de chuva, como as que vêm caindo em Natal, aumenta o risco de vazamento de esgotos e até de rompimento de galerias. (Jornal Tribuna do Norte, Natal, 25/06/2011)

O parágrafo, em geral, é simbolizado[1] por §.

São também chamados de parágrafos os detalhamentos, ressalvas /e esclarecimentos dos artigos, apresentados à parte, nos textos legais (leis, decretos, pareceres, etc.).

Nos textos legais, quando há apenas um parágrafo, em vez do símbolo, usa-se a expressão “Parágrafo Único”. Confira nos dois trechos (Art. 9º e 44 da Constituição da República Federativa do Brasil, Edição Saraiva, 2006.):

Art. 9.º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.

  • 1º A lei definirá os serviços ou atividades essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.
  • 2º Os abusos cometidos sujeitam os responsáveis às penas da lei. (…)

Art. 44. O Poder Legislativo é exercido pelo Congresso Nacional, que se compõe da Câmara dos Deputados e do Senado Federal.

Parágrafo Único.  Cada legislatura terá a duração de quatro anos.

           Lembremos que, em obras metodicamente estruturadas, as divisões do conteúdo costumam organizar-se em parágrafos numerados. É o caso da Gramática Metódica da Língua Portuguesa, de Napoleão Mendes de Almeida.

Alíneas e incisos.

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua portuguesa, inciso e alínea significam:

  • Inciso: “subdivisão de um artigo de lei, que, por sua vez, pode ser subdividido em alíneas”:
  • Alínea:cada uma das subdivisões de um artigo de lei, decreto, contrato e similares (…)”.

As alíneas e os incisos ajudam na estruturação do texto, na redação legal e nas obras sistematizadas. São indicados por numerais ou letras, acompanhados de ponto, travessão ou parênteses (as duas partes deste símbolo ou só o fechamento). Como neste exemplo (também da Constituição da República Federativa do Brasil):

 

CAPÍTULO IV

DOS DIREITOS

Art. 14.  A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:

I – plebiscito;

II – referendo;

III – iniciativa popular.

  • 1.º O alistamento e o voto são:

I – obrigatórios para os maiores de dezoito anos;

II – facultativos para:

  1. a) os analfabetos;
  2. b) os maiores de setenta anos;
  3. c) os maiores de dezesseis e os menores de dezoito anos.

Os grifos.

Podemos usar de vários procedimentos para grifar, dar destaque a uma palavra, uma expressão ou um trecho:

  • letra inicial maiúscula;
  • todas as letras da palavra, expressão, trecho, em maiúsculo;
  • letra em tamanho menor ou maior, versal, versalete[2];
  • sublinhado, negrito, itálico, etc.;
  • cores;
  • aspas;
  • às vezes, com dois desses procedimentos juntos.

             E por que ou para que grifamos? Veja esses motivos, acompanhados de exemplificações…

  • Para destacar, ou dar um sentido especial a uma palavra ou a um termo. Veja nestes exemplos:

 

A vendedora da AVON me chamou de DONA, Zé!… Ah! DONA MÁRCIA, esse o seu marido vai gostar, garanto!… Sente o perfume, sente? Quando é o aniversário dele, DONA MÁRCIA?… DONA pra cá, DONA pra lá!…Achei uma graça, Zé!… (C. A. Lopes da Silva, O Desmanche; in: Concursos Literários 2006, p. 154.)

Todas, salvo a pessoa e a ação, assumem uma forma gramatical a que se dá o nome de adjuntos adverbiais ou de orações adverbiais (causais, finais, concessivas ou de oposição, etc.). (Othon M. Garcia, Comunicação em Prosa Moderna, p. 48.)

Era a Dama das Camélias. Lia muitos romances […](Eça de Queirós, O Primo Basílio, p.12.)

Fora a íntima amiga da mãe de Luísa e tomara aquele hábito de ir ver a pequena aos domingos (idem, p. 23).

Na última quinta-feira, 5, opinaram no Jornal O Povo sobre a seguinte questão: “A cirurgia de mudança de sexo muda o sexo?”. (Jornal O Povo, 07/04/12, p. 3.)

  • Para destacar ironias, gírias, neologismos, estrangeirismos. Confira:

E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um Major do Exército, sobrinha de um Coronel e filha de um General. Morou?

(Fernando Sabino, A Mulher do vizinho; in: Para gostar de ler, v. 5, p. 39.

Que negócio é esse? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse a casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: “dura lex”! (idem.)

Perdeu, porque o four do Capitão João Magalhães era de reis. (Jorge Amado, Terra do sem fim, p. 22.)

  • Para destacar citações.

Assim se cumpriu a Escritura: Nenhum dos seus ossos será quebrado (Ex, 12,46).

(Bíblia Sagrada Ave-Maria. Jo 19,36.)

E chega um tempo em que eu começo a reviver aquela palavra de Jesus: “Esta é a tua mãe” (Jo 19,27).

(Fr. Elias Vella, Sob o Sopro do Divino Espírito, p. 15)

(Aqui, aspas e itálico simultaneamente.)

              Os procedimentos e sinais de pontuação em sentido lato são muitos, e se multiplicam com a evolução das artes gráficas e visuais. Mas, para não deixar o texto muito longo, colocamos os casos acima, que, acredito, fundamenta a assertiva inicial do ensaio.

[1] O símbolo §, interposição vertical de dois esses (ss), representa  a abreviatura da expressão latina signum sectionis (= sinal de separação ou de seção).

[2] Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, ‘versalete’ é uma forma de letra escrita em maiúsculo no mesmo tamanho da minúscula. Já ‘versal’ tem dois sentidos: 1) o mesmo que letra maiúscula; 2) diz-se dessa letra de tamanho maior que a minúscula e formato próprio.

Novo Acordo IX

Frei Hermínio, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira 27

                         Diferenças entre o VOLP de Portugal e o do Brasil (09)

          Os 21 países de habla española têm um Dicionário Oficial, aceito e seguido por todos eles, editado pela RAE = Real Academia Espanhola. Este traz as palavras mais significativas usadas especialmente em cada um dos países do bloco. 

            A partir do II Acordo Ortográfico 1943/1945 existe o VOLP = Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Temos um editado no Brasil (2009) com 877 pp + XCVIII pp de anexos e um em Portugal (2009) com 643 pp com anexos não paginados. Uma comparação da quantidade de palavras contidas nas letras k, w, y dá uma ideia clara desta diferença: VOLP de Portugal nas letras: K, 88 pal. W, 78 pal. Y, 21 palavras. Nós constatamos no VOLP do Brasil nas letras: K, 236 pal. W, 239 pal. Y, 31 palavras. Nestas três letras o VOLP do Brasil tem 319 palavras a mais, do que o de Portugal.

            Usa-se hífen em palavras/locuções compostas que não contêm elementos de ligação… (Cfr. Base XV, 1, a). Os dois VOLP discordam com frequência nesta regra. O VOLP (PT) traz 86 expressões de dois termos, iniciando com “não”, de não-absorvente a não-volátil, todas com o hífen, seguindo a regra. O VOLP (BR) traz 60 expressões de dois termos iniciando com “não”, de não agressão a não vocálico, todas sem o hífen. As expressões inicial e final do VOLP (PT), não constam no VOLP (BR) e neste faltam 26 expressões constantes no VOLP de Portugal.

            Casos semelhantes:

1 – No VOLP (BR) tem mais-valia e não valia; o VOLP (PT) não traz a expressão não valia, mas certamente grafaria não-valia, com hífen, como todas as desta série. No VOLP (BR): fru-fru; xi-xi-xi… no VOLP (PT) elas são grafadas frufru e xixixi. No VOLP (BR) na letra X constam 1049 termos, no VOLP (PT) apenas 766 termos.

2 – No VOLP (BR) consta centroafricano = relativo à República Centro-Africana e centro-africano = relativo à África central. O VOLP (PT) traz apenas centro-africano. Há aí um contrassenso: o termo sem hífen refere-se ao nome com hífen e vice-versa. Conforme a Base XV, 2 deve ser centro-africano, como registra o VOLP (PT). O VOLP (BR) traz grafia única para úmido; o VOLP (PT) traz húmido e úmido. O VOLP (BR) traz zigue-zigue o VOLP (PT) grafa ziguezigue. O VOLP do Brasil traz “imexível” – termo que em 1990 celebrizou o Ministro Antônio Rogério Magri – mas o de Portugal ignora esta palavra.

3 – O VOLP (PT) traz sitiirgia, o do Brasil siti-irgia. As duas formas são inapropriadas. Trata-se da junção de duas palavras gregas, σιτία = alimentos + εἰργία = repulsão. Mais correto seria: sitieirgia ou melhor ainda, siteirgia. Eu me baseio em Ramiz Galvão (op. cit. Postagem 01). Os dicionários: A. Houaiss, Aurélio, A. Nascentes, Álvaro Magalhães, Frei Domingos Vieira, J. Mesquita de Carvalho, Silveira Bueno e Simões da Fonseca, não registram esta palavra. Se eu digo, paraliva e paravário, você terá dificuldade de compreender, mas se eu digo, paraoliva e paraovário, você compreende logo. Por isso, a palavra paralímpico – que nos teria sido imposta pelo COI em 2016 – para substituir paraolímpico, dói em nossos ouvidos. É técnica e sábia a norma de que na junção de dois termos haja mudança somente no 1° termo, do contrário, a compreensão torna-se difícil.

            Seria enfadonho multiplicar os exemplos: A confusão entre os VOLP do Brasil e o de Portugal é tamanha, que até nos faz lembrar o texto de Sérgio Porto:    “O Samba do louro doido”.

  E-mail para observações: freiherkol@yahoo.com.br

Novo Acordo – VIII

Frei Hermínio, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira 27

Palavras que podem vir a ser escritas com k, w, y (08)

            Com a volta das letras k, w, y – excluídas em 1931 – palavras portuguesas poderão vir a ser escritas com estas letras, se o povo passar a usá-las assim e a nossa Academia Brasileira de Letras sancionar. Muitos já estão grafando kilo, kilômetro… por simplificação. Mas é o uso quem vai definir. Em nosso livro VOCABULÁRIO… (Ver postagem 01) indicamos cerca de 1500 termos greco-latinos de origem, com k e/ou y.

Exemplos: acólyto, alektoromancia, anályse, apócryfo, barýtono, butyrômetro, cályce, cysne, dactilioteca, dynamite, eclypse, embryão, farynge, fylófago, fýsica, glycose, glyptoteca, hypoteca, hysteria, kaos, karáter, kassia, katecismo, kerigma, kiromancia, labyrinto, lágryma, lyra, lýrio, mártyr, mesófryo, myalgia, mycetografia, mytologia, nyctógrafo, nyctotyflose, nynfa, nynfoide, obeliscolýcnio, octógyno, ófryo,  polyglota, psycrofobia, pyrilampo, rizofylo, rytmo, sybarita, sycomancia, sycofanta, sýlaba, symbiose, sýmbolo, sympatia, synagoga, syndérese, synédoque, synérese, synfonalaxia, synfonia, sýnodo, sýstole, urocyanina, xantofyla, xyloide, xylólatra, xylomancia, xystóforo, zelotypia, zéfyro, zygodactilia, zygoma, zygomorfo, zygostata, zigoteca…

Atenção: quando acima eu disse “poderão” não foi no sentido de “deverão”. Com certeza não teremos um uso generalizado de termos grafados com k, w, y, apenas uma palavra ou outra e ao longo do tempo. Isto porque a tendência mais forte é seguir a eufonia e porque em numerosos casos, a etimologia não simplifica a palavra.

            Termos do alemão, árabe, hebreu, holandês, inglês, japonês, russo, sânscrito, turco: criket, folklore, harakiri, hokey, ianke, ikebana, karaokê, karatê, karateca, karma, kastina, kefir, kermesse, kibutz, kimomo, kiosque, perestroika, troika, uisky, yoga…

            Termos de tupi, guarani e de línguas nativas, onde temos palavras com k, w, y. Para facilitar a compreensão de alguns nomes menos usados eu fiz a divisão em classes.

Animais: katita, kururu, kutia, jakaré, kaninana, kapívara, mokó, mukura, paka…

Abelhas: iray, jatay, jaty, mandaguary, mandassaya, moskito, mundury…

Alimentos: karibé, karimã, katolé, mandioka, mukunã, paçoka, tapioka, tukupy…

Aves: akauã, bakurau, jaku, jurity, kaboré, maguary, sabaku, sokó, tukano, tuyuyu…

Cidades: Akary, Aracaty, Kamucim, Kanindé, Krateús, Jukás, Pirakuruka, Ykó, Ypu…

Frutas: aratikum, bakaba, bakury, katolé, kupu, mandakaru, marakujá, matury, peki…

Insetos: karapanã, kupim, marakajá, muriçoka, mutuka, taioka, tapiukaba, trakuá…

Objetos: arapuka, arataka, kicé, koité, kuia, pataku, tapiry, tipity, tipoya, tukum…

Peixes: akará, araku, baku, jukiá, jurupoka, kará, paku, piraruku, tambaki, tukunaré…

Plantas: jakarandá, jekitibá, juká, kamará, katanduva, kopaíba, oitisika, takuara…

Tribos: amawaka, kaetés, kanela, kapíxaba, karajás, karakaraí, kariri, karioka, tikuna…

Vários: kaiçara, kaipora, kauim, kunhã, kurumim, kurupira, maraká, tokaia, ypueira…

             

            Termos do banto, ioruba, kicongo, kimbundo e umbundo:

kabaça, kadiado, kaju, kandeia, kalundu, kalunga, kanjica, kapoeira, karuru, katimba, katinga, kiabo, kilombo, kizila, kitute, kizumba, kimbanda, kindim, komboio, maka, makina, mukama, yansã, yorubá, xikote…

A lista é extensa. (Vide VOCABULÁRIO… op. cit. na Post. 01, pp 239  a 245). Disponível na Editora Armazém da Cultura, Fortaleza.

Email para observações: freiherkol@yahoo.com.br

Flor do Carpo

MARCELO BRAGA, membro efetivo da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 18

           Aiocó estava em festa. As chuvas, nos últimos dias, trouxeram à cidade vida nova, além de muitos mosquitos que se viam aos arredores dos lampiões. Os moradores riam-se com o tempo. Havia quatro anos que a seca castigava, era só sofrimento, luto, desespero e desesperança.

           O pequeno povoado já não existia, mas Deus existe e manda chuva. Chuva que caiu sobre Aiocó durante três dias, deixando a população frenética de alegria. Alguns, em frente à igreja, agradeciam a Deus, ajoelhados; outros, com uma garrafa de cachaça entre as mãos postas, olhavam para o céu e choravam compulsivamente.

            As chuvas, segundo a população daquele pequeno povoado, vieram graças a Mané do Carpo, um curandeiro que fora assassinado pelo Capitão Antoniano Linhares  por ter lhe negado um pedido. Diz-se que a filha do Capitão estava muito doente, então  mandou chamar o curandeiro. Este recusou.

           No dia seguinte, a moça faleceu. Inconformado, foi até a casa de Mané do Carpo, amarrou-o em seu cavalo e desceu ladeira abaixo arrastando o pobre curandeiro, amaldiçoando-o e culpando-o pela morte de sua filha.

            Após cinco dias da morte do velho Mané, o Capitão sofreu um acidente, caiu de seu cavalo, bateu com a cabeça em uma pedra, tendo morte imediata. O povo do lugarejo atribuíra a sua morte como obra do curandeiro que viera para se vingar.

            Aiocó dividia-se nas opiniões tentando justificar o motivo de tanta chuva assim tão repentinamente. Para a maioria dos aiocoenses,  era também obra do curandeiro, que, penalizado e conhecedor do sofrimento de todo povo, lhe mandou chuva. Para os mais católicos, era obra divina e tentavam explicar como sendo o resultado de muitas promessas feitas no período de quatro anos e meio. Para os que se diziam estudados de fenômenos naturais, Liberato e Dagoberto, nenhuma das hipóteses era verdadeira. Segundo eles, nada mais era, senão um caso isolado.

            As chuvas continuaram, os rios e açudes ficaram cheios, e ninguém conseguiu explicar o fenômeno. Os aiocoenses cuidaram de suas terras, plantaram e colheram. A cidade desenvolvera-se especialmente com a chegada diária de turistas, atraídos por uma possível aparição.

            No quintal da casa de Mané do Carpo, apareceu uma flor diferente de todas existentes na região, que recebeu o nome  “Flor do Carpo.”

           Após as chuvas cessarem, no lugar em que a flor nascera, o curandeiro apareceu para Tinó, um amigo fiel, talvez o único. O boato espalhou-se. No início, a cidade desacreditara na história, mas novas aparições surgiram e outras pessoas afirmaram tê-lo visto naquele local. Foi motivo suficiente para atrair pessoas de várias partes e não só da região.

            A casa de Mané do Carpo, ou melhor, o quintal de sua casa nunca mais fora o mesmo. Em vida, era vazio, pouco frequentado , um ou outro ia visitá-lo na tentativa de conseguir alguma cura para seus males. Salvo o fiel amigo Tinó. Este, sim, embora fosse falar-lhe de suas desilusões, considerava-o amigo. Após a sua morte, fora o único a colocar flores em seu túmulo. Depois de morto, gente, que nunca vira ou ouvira falar, visita-o, pede-lhe forças, faz-lhe versos, estatuetas, pequenos panfletos com oração que nunca  fez e foto que não condiz com a sua fisionomia em vida.

            A cidade crescia cada vez mais, já não era só um pequeno povoado, o dinheiro multiplicava-se deixando o prefeito folgazão, e a prefeitura, que sempre se encontrara desapercebida de recursos, engordava que era uma beleza. No período de eleições, os candidatos pediam votos em nome da “Flor do Carpo”. Prometiam mundos e fundos, inclusive ampliar o pequeno quintal, por não mais comportar tanta gente que ia ali para tocar a flor e conseguir uma graça. Vencia o mais burlador e prosador. O fato é que o atual   prefeito cumpriu o dito e ampliou o quintal. Tudo isso, segundo ele, seria para o bem do povo e para a memória do curandeiro que tinha que se manter viva.

            Em um certo dia de casa cheia. Desculpe-me por isso. Em um certo dia de quintal cheio, Mané do Carpo, já não mais aguentando tanta deificação, resolveu aparecer justamente no momento em que todos o aclamavam. Uma confusão generalizou-se, alguns gritavam “Aleluia! Aleluia!”; outros se ajoelhavam; uns desmaiavam. E dentre em pouco, todos, ao perceberem o que realmente estava acontecendo, correram. Mané do Carpo, sobre a flor, observava tudo calado. E, após alguns minutos, a paz reinou novamente no quintal vazio.

            Aiocó voltou a ser o que era. O local da aparição tornou-se mal-assombrado, e turista nenhum nunca mais pôs os pés naquele lugar que, aos poucos, deixava de existir. Mas a “Flor do Carpo” resistia. Não crescia, não murchava, não morria. Resistia.

Tríptico literário [Releitura de três obras]

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Oh, morte, como é amara tua lembrança, como rápida é tua vinda, como são ocultos os teus caminhos, como é duvidosa tua honra, e como é universal teu domínio! (Frei Luís de Granada. * Granada, 1505; Lisboa, 1588 23 anos!).

1 TANATOLOGIA – Vida e Morte no Dia a Dia

Por via da tradição, talvez religiosa cristã e no decurso dos tempos, eram praticamente proibidas na cultura do Ocidente reflexões atinentes a este tão natural fenômeno do decesso corporal, trânsito anímico, trespasse, exício da vida, antônimo perfeito do nascimento, verdade implacável. Morte.

Tema eivado de tanto preconceito, matéria a que se atribui, ainda, caráter de interdito, hoje o assunto perde, a pouco e pouco, seu mistério e é concertado, com frequência, em várias ocasiões e diversos lugares, mormente na ambiência universitária, onde se examinam com profundidade a origem, produção, conservação, repasse e progresso do conhecimento na sua mais extensiva amplitude temática.

O argumento do ocaso vital, evento imprescritível para aquele que viu aparecer a luz, mostra inexoravelmente sua extinção, cedo ou tarde, normalmente ou de inopino, por caducidade natural ou morbidade, ao nos fazer divisar, entre o ser extinto e o vivo, a mesma diferença entre a matéria bruta e a substância ativa.

Diversamente dos fatos ocorrentes nos organismos unicelulares, nos quais não há, necessariamente, fatalidade, a morte dos seres complexos é consequência inevitável da maquinaria anímica, a qual, ajuntando nos tecidos produtos acessórios, lentamente destrui a energia dos aparelhos até a supressão total.

A fim de conduzir esta reflexão ao patamar da naturalidade dos tratos mais ordinários – como os relativos à vida e à ciência – a sociedade inteligente descortinou uma teoria ordenada no tocante à morte, suas causas e eventos, especialmente o estudo dos mecanismos psicológicos empregados para superar os efeitos do fenômeno nas mentes de quem prossegue ou está na iminência de finar-se.

Amparadas nas conjecturas da Tanatologia, sub-ramo científico da Psicologia, as equipes de saúde desenvolvem, diuturnamente, em nosocômios de todo o Mundo, esse custoso ofício/arte de conceder refrigério, transpondo o corpo doente, prestes a consumir-se, e dedicando auxílio e conforto às almas atormentadas pela proximidade do próprio fim ou martirizadas com a imediação do termo existencial de uma pessoa dileta.

Convergindo à regular quantidade de trabalhos literoacadêmicos referentes a este moto de ascensa relevância, no Brasil, e de indescartável aplicação prática, em particular nos hospitais, os professores Annatália Gomes e Erasmo Ruiz Miessa escreveram um livro oportuníssimo, no qual reflexionam, com esmerado preparo e zelo, sobre a relação correta a ser estabelecida entre os profissionais de saúde e os doentes de quem cuidam holisticamente, em especial os enfermos de moléstias em quadro terminal, numa demonstração cabal dos aprestos intelectuais e do desvelo humanitário de ambos, ora ao bom serviço dos seus pares.

A obra Vida e Morte no Cotidiano (EdUECE)reflexões com o profissional de saúde – constitui aditamento valioso à literatura nacional do gênero, razão por que há de ser adotado nos diversos programas universitários de graduação, mestrado e doutorado, onde se estuda a analogia vida-morte, bem assim na formação em serviço do pessoal dos hospitais e congêneres.

Seus consulentes terão neste volume o romaneio correto e seguro para o desempenho de suas nobilitantes ações de intermediação paciente/doença grave, extensivamente aos seus componentes familiares, cujo padecimento à beira do leito será sensivelmente mitigado com a recepção das ideias aqui veiculadas, magnificamente expressas.

Da morte a férrea lei não se derroga./ Nas páginas fatais é tudo eterno! O que se escreve ali jamais se risca. (Manuel Maria Barbosa Du BOCAGE. *Setubal, 1765-+1805).

2 O DRAMA DO PACIENTE TERMINAL

A literatura, recorrentes vezes, recomenda-nos certas cautelas para que, ante a excessiva especialização dos conhecimentos, não percamos de vista as grandes conexões da ciência. De tal sorte, a interdisciplinaridade é praticada sempre mais pelos compositores do saber novo, o que significa o aporte dos melhores resultados, devolvendo às ideias parcialmente unificadas pela ciência o caráter de horizontalidade.

O ideário científico, de efeito, sejam quais forem as vertentes e taxinomias, opera constantemente sob relações e a consorciação de saberes é natural no decurso investigativo em demanda à certeza relativa, consoante orienta a Filosofia da Ciência.

Dessa maneira, compreensões aliadas são, muita vez, necessárias para realização de novéis sub-ramos da indústria humana, como ocorre, verbi gratia, com Bioestatística, Fisico-Química, Sociologia Jurídica, Economia Política, Jusfilosofia, Biônica e tantas outras comunhões de interesses metodológicos a servirem às causas epistemológicas.

Na linha raciocinativa deste ensaio de apreciável força de pesquisa, da autoria da Professora Doutora Preciliana Barreto de Morais, ela se favoreceu da Ciência de Augusto Comte (*Montpellier, 19.01.1798; +Paris, 05.09.1857), bem como de saberes correlatos, para interpretar, ao lume da dita Sociologia, situações extremas de clientes portadores de males terminais, sob os cuidados das equipes multiprofissionais, nos leitos e, na crescente falta destes, até em macas e cadeiras, no desconforto final da vida no interior e umbrais das casas de saúde.

Pungente e contagiante é a dor de quem guarda a certeza de que se vai dentro em pouco. Preocupantes as dúvidas e impasses daqueles a quem se cometeu a tarefa de cuidar dos pacientes acometidos de moléstias, a maioria das quais a Medicina ainda não controlou, como certas síndromes e alguns cânceres.

Há, decerto, falhas de comunicação das equipes, particularmente em virtude de formações defeituosas. “Os livros somente ensinam sobre o comportamento do tumor” – queixa-se um sextanista, que remata: “E a conduta psicológica do doente?”

Faltam, na escolaridade e prática funcional de psicólogos, enfermeiros, médicos, fisioterapeutas e outros agentes do cuidado, informações relevantes de natureza interdisciplinar, quando não para a reabilitação impossível, pelo menos na direção de abreviar o transe ou diferir a vida por algum tempo.

Evidentemente, enquanto perdurar esta situação – configurada no fim da existência dos pacientes, vacilações e embaraços das equipes multifuncionais, sujeitos da pesquisa da Autora – esses clientes vão prosperar como atores na ribalta da tragédia. O livro de Preciliana de Morais – atual docente da Universidade Estadual do Ceará – constitui libelo responsável e claro ao sistema educacional e de atenção à saúde no País, sendo, por este pretexto, fonte de fé para alicerçar investigações similares e embasar novas e urgentes políticas públicas para o setor.

… Por isso, oh Morte! Eu amo-te e não temo./ Por isso, oh Morte, eu quero-te comigo./Leva-me à região da paz horrenda!/Leva-me ao Nada, leva-me contigo! (Luiz José de JUNQUEIRA FREIRE. *Salvador, 31.12.1832; +24.6.1855 – 23 anos!).

3 PACIENTE MUITO ESPECIAL

Resulta deveras compensador o fato de se exercitar constantemente a observação, para dar asas ao talento criador.

Das atividades seculares do espírito, a que mais enleia parece ser a boa leitura, que possibilita a produção de um escrito escorreito, de uma alocução bem concatenada, porquanto vazada em códigos precisos e significações perfeitamente arrazoadas.

Somente a prática dial do exame atento sobre as coisas, bem como o adjutório da ação de ler – sem o que a observação fica limitada – são suficientes para se estabelecer uma mensagem límpida, sem vieses nem ruídos, decomponível com a máxima lucidez por quem a recebe.

Obviamente, há estruturas textuais bem mais leves e fáceis, acessíveis a maior quantidade de pessoas, nomeadamente os esquemas verbais constituídos com suporte na opinião comum. Até aqui, a langue e a parole  saussureanas correm mais livres, obedientes apenas às muitas regras da Língua Portuguesa. (Ferdinand Saussure – *Genebra, 26.11.1857; + Morges, 22.02.1913).

A situação começa a complicar, porém, quando se joga com a certeza relativa do fato científico, não raro se misturando – em sua manifestação oral ou grafada – com as elucubrações espirituais, a fim de dar conformação ao estilo. Mais complexo, ainda, se configura o texto (ou a fala), se a manifestação da verdade científica disser respeito às relações Homem/Natureza. O embaraço se proporciona, consideravelmente, se este Ser for criança, e caso a criança seja doente, e essa moléstia tenha gravidade, dolorosíssima, fatal, óbito iminente …

O Mundo e a História, entretanto, estão cheios de artistas que receberam o dom evangélico e o sopro paráclito da escrita, com incidência menor da dificuldade de estruturação. Eis que, no livro sob escólio, dá-se o caso de uma socióloga, com a função principal de pequena empresária, que achou de estudar a freguesia de instituição especial – a Casa do Menino Jesus, em Fortaleza-CE, cujos clientes se acham em várias fases de C.A.

Rossana Guabiraba discorre sobre o meritório trajeto de acompanhamento dos pequenos enfermos, em texto deveras comovente, haja vista as condições dos sujeitos em relação na sua pesquisa de cunho acadêmico. Entre outras recomendações de ordem humana e humanitária, a Autora indica encarecidamente aos leitores a necessidade de se procurar conhecer os estertores e consequências da morte, a fim de que o transe do cliente e dos circunstantes seja abrandado com o aceite da realidade, abraçando a resignação ante um sucesso irrecorrente.

Nesse poema de amor amplo e celeste – lembrando o simbolismo poético de Alphonsus de Guimaraens (Ouro Preto, 24.07.1870; Mariana, 15.07.1921) – Rossana alcançou a composição de um escrito claro e correto, de leitura cristalina, no qual impôs o vigor de pesquisadora, estruturando-o teoricamente com especialistas acreditados perante a comunidade investigadora de temas afins, com a vantagem de haver evitado compromisso com as desproporções da tanatologia esotérica, não científica, a qual transita solta entre os desavisados.

O escrito de Rossana Guabiraba, embora tenha o continente rápido como o decurso da doença referida, pontilhada de tanta amargura, possui conteúdo de grande alcance, pelo que deve ser lido e debatido, pois, decerto, vai servir de norte a outros estudiosos que intentem revolver o tema sob ângulos mais diversificados.