“Vernáculo” nº 13 comemora os 40 anos da ACLP

Circula o nº 13 da revista “Vernáculo”, órgão oficial da Academia Cearense da Língua Portuguesa (ACLP). Em edição comemorativa dos 40 anos da entidade, organizada pelo presidente Sebastião Valdemir Mourão, a publicação recebeu tratamento gráfico especial, com capa em papel supremo 250g e uma alentada coletânea de textos, que inclui artigos; discursos de posse; pequenos ensaios apresentados durante as reuniões da Academia (“Hora do vernáculo”); além de documentos históricos e informações institucionais.

Após a “Palavra do Presidente” e a “Apresentação”, feita pelo acadêmico Teoberto Landim, seguem-se as seguintes contribuições:

  • Ortoepia (Myrson Lima)
  • Linguagem nordestina (Myrson Lima)
  • Silabada (Myrson Lima)
  • As orquídeas na Literatura brasileira (Italo Gurgel)
  • Operações de pensamento no ensino de redação (Valdemir Mourão)
  • A Gente no lugar de Eu, Nós, Se, Ninguém etc. Efeito síncrono-diacrônico, desleixo elocutório ou emprego inocente? (Vianney Mesquita)
  • A fascinante arte de ler e escrever (Maria Luísa Bomfim)
  • Conversa sobre literatura (Regine Limaverde)
  • Regine Limaverde: poeta e contista (Giselda Medeiros)
  • A gramática no texto (José Ferreira de Moura)
  • Diadorim e a Assembleia de Mulheres (Révia Maria Lima Herculano)
  • A poesia erótica de Regine Limaverde (Batista de Lima)
  • Ensaio em verso (Cláuder Arcanjo)
  • Discursos de posse de: Felipe Filho, José Augusto Bezerra, Ana Paula de Medeiros Ribeiro, Giselda Medeiros, Italo Gurgel e Révia Maria Lima Herculano.

Teorema da distância

Teorema da distância
Ana Paula de Medeiros Ribeiro

Distância, na geometria,
É reta que liga dois pontos. No amor,
É silêncio
É linha sinuosa
Que desvia caminhos
Evita estar próximo
E economiza carinho.
Para saber a distância,
na matemática,
Aplica-se um teorema
Traça-se a reta
Desenha o triângulo
Soma catetos.

 

No amor,
É equação diferente
Mede-se o desejo
A intensidade do beijo
A soma do quadrado dos minutos
Do querer estar junto
Mesmo quando não dá
Quanto mais perto do zero
Mais longe se está.

 

Na geometria,
distância é valor numérico
Expresso em cifra fria.

 

No amor,
Distância é agonia
É sofrimento também
É líquido derramado
Feito lagoa nos olhos
É aguardar um “bom dia”
Que nem sempre vem.

 

É dor que não tem forma
É abandono que faz chorar
É fome, naufrágio
Um poço de saudade
Mais profundo que o abismo
E bem maior que o próprio mar.

O LIVRO

O LIVRO

Horácio Dídimo (Da ACLP e ACL)

Cada livro é uma árvore

Ondulada pelo vento
É papel e personagem
Pendurado no seu tempo

Usa capa e contracapa
Comentário nas orelhas
Nariz na folha de rosto
Sumário nas sobrancelhas

Cada livro é uma nuvem
Carregada de palavras
Chovendo pelos caminhos

Cada livro é um oásis
Onde as aves bibliófilas
Vão preparar os seus ninhos

 

2
Os livros cantam seus contos
Nos castelos nas ameias
Dançam nos pés seus tamancos
E aranhas nas suas teias

Colorido ou preto-e-branco
Cada livro tem seu texto
Seu miolo sua casca
Seu mercado e seu contexto

Livros são menos ou mais
Seres tridimensionais
Cada um com sua norma

Cada livro é uma forja
Um retrato e um espaço
Um abraço e uma forma

SÃO FRANCISCO DE ASSIS MAGNIFICAMENTE REVISITADO

SÃO FRANCISCO DE ASSIS MAGNIFICAMENTE REVISITADO

Maria Célia Mesquita Molinari*

 

Confesso que, ao receber o convite para fazer a matéria inaugural deste livro, Francisco de Assis – Alegria e Santidade na Pobreza, de Socorro Lima Mesquita, senti um misto de timidez, insegurança e talvez fraqueza.
Veio-me, então, espontânea a vontade de parafrasear a nossa querida Regina Elisabeth Jaborandy de Mattos Dourado Mesquita, e responder: não posso, não sei, meu estudo é pouco.
Depois, concordei com o autor Teoria da Relatividade, Albert Einstein, para quem Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos. Fazer ou não fazer algo só depende da nossa vontade e perseverança.
Senti, então, que não me podia furtar a essa tarefa, ainda mais ao me reportar a São Francisco de Assis, de quem me confesso apaixonada.
Na verdade, todas as vezes que reflito sobre bondade, humildade, piedade e tantas outras virtudes, penso em Francisco, que, na minha maneira de entender as coisas do Alto, foi figura fiel do próprio Cristo.
Enche-me de alegria saber que Socorro Mesquita decidiu escrever um livro sobre a vida de um santo, especialmente numa época de permissividade como a que vivemos, quando valores morais, religião, oração, pureza, respeito a Deus e ao próximo são coisas “ultrapassadas”, que significam agir na contramão dos ensinamentos terrenos.
O ser humano parece completamente alheio à sua finitude e se preocupa somente com o que é material e passageiro. A fragilidade da vida terrena semelha que atinge somente os outros.
A santidade de Francisco de Assis, tão bem reconfigurada pela Autora, foi radical, uma graça do Espírito Santo, tendo ele recebido e assumido esse favor divino com todas as forças.
Depois da vida mundana que levara, São Francisco abriu os ouvidos e o coração somente para a voz de Deus, a Palavra, o Cristo e nEste para o irmão, amando-o de coração e tendo assim a dignidade de receber no próprio corpo as chagas de Jesus.
Quem tiver a graça de ter nas mãos este volume deixe-se guiar por esta mercê de Cima e medite com profundidade na obediência de Francisco à Palavra, fruto de suas reflexões do Evangelho.
Esta aquiescência franciscense é cópia da atitude de Maria que, ante o anúncio do anjo de que seria mãe do Salvador, em profunda obediência – fruto de oração e interiorização – se lançou nas mãos de Deus e, sem temer o que lhe pudesse acontecer, respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” – a célebre expressão escritural Ecce ancilla Domini fiat mihi secundum verbum tuum, expressa no Evangelho de São Lucas, capítulo 1, versículo 38.
Ainda se pode louvar na vassalagem de São José Operário, então seu prometido em casamento, que renunciou incontinenti aos seus planos de um consórcio comum, uma família (Jesus, Maria e José), sua oficina de carpinteiro, enfim, um sonho normal de todo jovem.
São José, então, ao ser avisado em sonho, por um anjo de que o Filho gerado em Maria o foi pela ação do Espírito Santo, abandonou tudo e a conduziu para sua casa. Passou, também ele, por todas as vicissitudes experimentadas pela mãe e assumiu essa paternidade com responsabilidade e amor ímpar. E, por último, é salutar a prática de meditar na obediência do próprio Jesus que, mesmo

[…] sendo de condição divina, não se prevaleceu de sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.

Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos os nomes para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a gloria de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor. (Fl2 , 6-11).

Muitas vezes, ao evocar São Francisco, eu imaginava como conseguiria um ser humano alcançar a salvação, por não serem as pessoas capazes de imitá-lo em suas virtudes. A certeza da misericórdia do Pai, entretanto, que ama infinitamente a todos os seus filhos e distribui a cada um os seus dons, nos faz ter esperanças e confiar na Sua imensa bondade conhecedora de nossas fraquezas e limites.
Erramos, vacilamos, mas, se abrirmos o coração, tenhamos a certeza de que Deus jamais nos abandona, […] “nunca se cansa de perdoar-nos; nós é que cansamos de pedir perdão”, como diz o Papa Francisco, verdadeiro arauto do Evangelho de Cristo.
É oportuno expressar o argumento de que o nome deste novo Príncipe de Roma para designar o Pastor do Cristianismo, o qual segue os passos de São Francisco, foi escolhido pelo próprio Espírito Santo e, mais do que nunca, podemos sentir viva essa presença, convidando à conversão, suscitando evangelizadores sacerdotes e leigos a ajudar esse Embaixador da Santíssima Trindade a conduzir o rebanho para “verdes prados e fontes de águas puras”, a fim de lhe restaurar as forças ( Sl 22, 2-3).
Percebe-se claramente no mundo uma verdadeira batalha entre o bem e o mal: guerras, violência, crimes, sexualidade exacerbada, filhos trazidos ao mundo de maneira irresponsável, êxodo de populações em busca de paz em países estranhos de língua e cultura diferentes. Não que isto seja uma novidade, pois é mesmo uma situação que se repete ao longo dos séculos.
É notório, porém, o fato de que, ao lado de tudo isto, há também um como que “aquecimento” espiritual. Veem-se pessoas desejosas de aprender e viver a Palavra de Deus, uma expressiva quantidade de jovens que procuram a Palavra (Jornada Mundial da Juventude), muitas pessoas que ingressam em programas de voluntariado para ajudar o próximo, e um grande numero de santos contemporâneos elevados à honra dos altares.
Temos a alegria de contar entre os santos um João XXIII, João Paulo II, Tereza de Calcutá, Faustina Kowalska, como também pessoas que, mesmo não tendo sido elevadas ao múnus da santificação, restam por demais conhecidas as suas obras pelo bem comum, como Helder Câmara, Zilda Arns, Chico Xavier, Irmã Dulce e tantos outros que optaram por pautar suas vidas seguindo a pobreza do Evangelho tão amada por São Francisco.

No contexto evangélico, o pobre é a pessoa honrada, piedosa, espiritualizada, justa (praticante da justiça, ajustado diante de Deus), aberto a Deus e por isso feliz.

O Reino é deles porque, vivendo assim, realizam o pedido de Jesus: Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo (Mt 4,17). O mundo, todavia, faz uma contraposição a essa mensagem e assinala: felizes os que têm dinheiro e sabem usá-lo para comprar influências, comodidades, poder, segurança e bem-estar (MESQUITA, 2016).

Todos os escritos de São Francisco, ele não os atribuía como de sua autoria e sim de inspiração divina; por isso toda a sua obra é fundamentada nas Escrituras, sobretudo, nos Evangelhos. São frutos da profunda vivência interior, do diálogo com Deus. Ele próprio considera sua produção literária como palavra de Deus e solicita a todos que leiam, conservem e divulguem, trata-se de uma leitura espiritual. (MESQUITA, 2016, citando FASSINI).
É necessário, por conseguinte, aprendermos com o Santo a ter uma vida mais simples e regrada, evitando os desperdícios, com vistas a debelar o consumismo. É possível viver com pouco; amar bem mais o próximo, não ter preconceitos e buscar fazer algo de útil em seu favor, sobretudo dos mais necessitados. É premente a ocasião de amarmos e preservarmos a Natureza, desfrutando a vida em sintonia com o nosso Planeta (IDEM).
*Maria Célia Mesquita Molinari é professora aposentada, imortal da Arcádia Nova Palmaciana (Cleonice Danae), titular da Cadeira número 14.

E o que é ser Poeta?

Penso no homem que sabe domar a palavra, fazê-la sua refém e desenhá-la no branco do papel, sem machucá-la: o Poeta!

E o que é ser Poeta?
Giselda Medeiros

Ser poeta é acender imensas luzes
nos túneis mais profundos.
Tecer auroras nos crepúsculos da vida.
Pôr sal de poesia no molho da existência
e açúcar de sonho na calda dos temporais.

 

Ser poeta é dar eternidade ao efêmero.
É ser criança em qualquer fase da vida.
É navegar em seu bergantim de sonho
por mares “nunca dantes navegados”.

 

Ser poeta é cantar o inacessível.
Pôr estrelas nas noites mais escuras.
Saber dar “um toque no intangível”.
Extrair do desespero o néctar
e abrir um imenso girassol na chuva.

CABOTINISMO

CABOTINISMO

COMPORTAMENTO ABOMINÁVEL

Vianney Mesquita*

O orgulho que almoça vaidade janta desprezo. (BENJAMIN FRANKLIN, cientista, diplomata, inventor e intelectual eclético do Estados Unidos. 1706-1790).

O nome cabotino, adjetivo e substantivo de ambos os gêneros, significa, em acepção original, mau comediante, ator histrião, personagem bufo, cômico teatralmente desqualificado. Consoante sugere Antônio Geraldo da Cunha, no seu Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa (2. ed., Rio de Janeiro, 2001), “parece” aludir ao nome de um ator burlesco de categoria inferior (Cabotin), o qual teria atuado no tempo de Luís XIII, em França.

Figurativamente, entretanto – e esta é a significação preferida e mais conhecida no Brasil – denota a ideia de […] indivíduo presumido, afetado, que procura chamar a atenção, ostentando qualidades reais ou fictícias (CUNHA, 2001), com registo lexicográfico no século XIX (1807), sendo controversa a origem dos seus sentidos expressos em glossários, segundo gizado no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2001), de Mauro Salles Villar e Antônio Houaiss.

Este escrito é a continuação de viagem feita na boleia de matéria aqui veiculada recentemente, sob o título de Em qual cabeça assenta este chapéu? – onde expressei indignação com os autores autoproclamados mentores da sociedade, os quais se louvam no expediente da apologia aos protagonistas de suas obras, sem desvinculá-los dos nomes reais como escritores, com vistas à obtenção do aplauso, atitude repreensível, mesmo se o louvor restar merecido, e – pior ainda – caso não sobeje o elogio justo.

A desqualificada significação desta unidade de ideia – cabotinismo – experimenta trajeto bastante comum no decurso na sociedade dos mais diversificados lugares e em tempos totais, conforme, amiudemente, a História relata, submetendo ao risco de sua instalação todos aqueles que não se vacinaram contra a picada da mosca azul – consoante a reflexão de Frei Beto, no livro do mesmo nome – expondo-se, dadivosos, ao seu voraz apetite.

A soberba, a importância e a indispensabilidade quase patológicas dos afagos ao ego sugestionado por Sigmund Freud parecem invadir o controle da volição, determinante da vontade de cada qual, neste caso, concernente a orientar as pessoas na trilha certa, conduzindo-as ao comportamento adequado no âmbito moral, na contextura da decência e no contorno das atitudes saudáveis que devem presidir aos nossos procederes. A isto a sociedade inteira almeja, porém, se descuida de armar anteparos e, com frequência, se descortina subordinada a um inimigo oculto, o qual se arrima até na nossa inteligência, como, por exemplo, na capacidade de escrever bons textos, a fim de operar seu desiderato e nos exibir aos pares com defeito de tanta monta, configurado no recurso nefasto do exibicionismo, sinônimo de ostentação, correspondente a encômio barato e presunção despropositada.

É determinante, por conseguinte, um cuidado redobrado, a fim de as pessoas não se subordinarem às investidas constantes do cabotinismo, mormente quando são alçadas a posições de destaque, por via da Política, Religião, manifestações artísticas e demais haveres dotais impressos pela Providência Divina, como, exempli gratia, a Literatura, a Pintura e as outras quatro artes.

Estas expressões da indústria humana, por efetivo, consuetudinariamente, concedem visão pública e midiática aos produtores e intérpretes, granjeando para seus palcos de shows e outros ambientes de assistência, em catarse aristotélica – de cariz estético – uma multidão apaixonada, desorganizada e desprovida de pensamento racional, condutora do artista aos apogeus da glória, circunstância fácil de ligeiramente enviesar para o senhorio da cabotinagem, de atuação ligeira junto aos que não se abasteceram de defesas rápidas contra opositor de exercício tão desembaraçado e veloz.

O complexo inteiro da Humanidade está sujeito aos tentáculos dos comportamentos charlatães, de tal sorte que se deve permanecer em atalaia contínua contra suas arremetidas. Há que se postar avesso, entretanto, aos pruridos exagerados de simplicidade, como, por exemplo, o autor deixar de assinar uma produção, resignar-se perante a omissão de seu nome de uma ficha técnica, calar-se ante a supressão de referência por parte de alguém em evento cuja efetividade dependeu de sua participação etc., fatos que somente atestam a bobice e a sujeição infantil, também doentias, no polo oposto da ideação do teor cabotino.

Guardo, constantemente, sobrado cuidado com as acometidas desse vilão moral, deontológico e ético, para não ser vergado pelos seus impulsos poderosos (Flexo, sed non frango = envergo, mas não quebro). Ele circula à solta em meio aos desavisados, mormente na ambiência dos inocentes e pretensos credores do reconhecimento e presumidos donos de uma arte maior, definitiva, quando, em muitos lances, representam apenas jejunos e claudicantes aprendizes, visitantes de assuntos sobre os quais estão ainda bastante apartados do domínio.

Estas pessoas merecem de seus próximos – parentes, amigos e circunstantes com quem tenham alguma ligação – os corretivos oportunos, as regulagens apropriadas, a fim de que não habitem o patamar dos artistas deserdados morais que, mesmo sendo bons, ainda acham necessário aparecer, conforme expressei na matéria indicada no terceiro parágrafo desta escrita, como os primeiros entre os pares, feitos luminares refalsados do preparo intelectual e notáveis ilusórios da sabedoria.

Lamentavelmente, não conhecem, ou jamais divisaram, a ideia do cientista de Österreich, naturalizado inglês, Carlos Raimundo Popper (Viena, 28.07.1902 – Kenley, 17.09.1994), para quem todos somos cegos convencidos de que saber e ignorância são vizinhos.