Rimas invariáveis (1)

Vianney Mesquita (Membro titular da ACLP – Cadeira nº 37)

Um panegírico à pessoa humana. Homenagem ao Prof. Valdemir Mourão (docente universitário e imortal titular (ex-presidente) da Academia Cearense da Língua Portuguesa. Escritor e poeta).

Prof. Valdemir Mourão, 1º Vice-Presidente da ACLP

A minha sorte s’esvaiu porque,
Ao vê-la sempre com desejo tanto,
Para comigo a conservar, conquanto
Não atinasse jamais para quê.

Embora sem conhecer, entretanto,
A razão de querer vossemecê,
Obedeci a intenção; portanto,
Perdi-a logo sem ver nem por quê.

Assim, um semiderrotado, entanto,
Na esperança sigo, por enquanto,
De, no amor, lograr Sua Mercê.

Auspicioso, pois, um tanto quanto,
Faço tudo de lícito, contanto
Que um dia possa reaver você.

(1) De estudo, nenhum dos pés do soneto tem rima com as classes de palavras variáveis – substantivo, artigo, adjetivo e verbo.

Hölderlin e dois sonetos decassilábicos

Hölderlin conseguiu sintetizar em sua obra o espírito da Grécia antiga.

Johann Christian Friedrich Hölderlin nasceu em 20 de março de 1770, em Lauffen, Alemanha, e morreu em 7 de junho de 1843, em Tübingen.

Amigo de Hegel e Schelling, na Universidade de Jena conheceu Schiller e Goethe. Tornou-se um dos grandes poetas de todos os tempos e, ao lado de John Keats, um dos mais influentes na modernidade. Com ele, a cristandade encontra a Hélade arcaica. Praticou, como poucos, a ode pindárica e os hinos órficos. O que era filologia clássica ou artifício poético consciente em Goethe e Schiller, transformou-se, para Hölderlin, em realidade. Seu classicismo parece mais real, porque o poeta acreditou, de fato, nos deuses e na interferência do destino. Como nos românticos, a natureza está presente em sua poesia, mas é uma outra natureza, ligada ao mundo mítico pagão da Grécia.

Aqui, o grande vate inspira, inicialmente, um soneto do poeta e diplomata Márcio Catunda, membro correspondente da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. No rastro dessa pequena joia, o poeta, escritor e jornalista Vianney Mesquita, membro da Academia Cearense de Língua Portuguesa, produz outro soneto, igualmente decassilábico, perquirindo a “versificação alentadora” do bardo amigo.

Hölderlin

Márcio Catunda

Hölderlin, em delírio, concebia
Os Alpes prateados como altares,
Tanto se dedicou à poesia,
Que fez dos deuses seus sublimes pares.

Com paixão férvida e neurastenia,
Sentiu a Grécia em todos os lugares.
Foi oráculo da mitomania.
Para Diotina fez os seus cantares.

De Empédocles veio todo o empenho
Começado na vida anterior.
Foi apenas um doido preceptor,

Conquanto demonstrasse o desempenho
De um mago celestial superior
Das benesses de Deus merecedor.

Hölderlin Catunda

Vianney Mesquita

Vê-se inopino em Márcio Catunda
Insuflação deífica, sedutora.
Metros de um bardo, medida fecunda,
De paz, à vida amarga concessora.

Em versificação alentadora,
Súbito alteiam a alma moribunda
Versos volantes, voz preceptora,
De rejeição à derrota rotunda.

De vez em quando supera Bilac,
E excede o percuciente Condillac,
A fim de agasalhar a glória fida.

Em fé cristã já se achegou a Isaac,
Fez bom liame com Honoré Balzac
E é dos melhores Hölderlins da vida!

Acróstico para o Prof. Myrson Melo Lima (Vianney Mesquita (Cadeira 37)

A vitória dos prussianos contra os austríacos foi a vitória do mestre prussiano contra o mestre austríaco. (OSCAR FERDINAND PECHEL, geógrafo e antropólogo. Dresden, 17.03.1826; Leipzig, 13.08.1875).

Mestre insigne da Regra Portuguesa

Y cultor de la Lengua Castellana,

Raros são os que, nesta Fortaleza,

Se achegam à perfeição que dele emana.

 

Ostenta sapiência e agudeza

Na doutrina da norma camoniana;

Myrson tem argúcia e singeleza,

E adestra na média e mediana.

 

Língua oficial de oito países,

O fato nos deixa mui felizes.

Legada, então, por ele, este a sublima.

 

Insertos como alunos no Brasil,

Manifestamos recompensas mil

Ao extraordinário Myrson Lima.

Teorema da distância

Teorema da distância
Ana Paula de Medeiros Ribeiro

Distância, na geometria,
É reta que liga dois pontos. No amor,
É silêncio
É linha sinuosa
Que desvia caminhos
Evita estar próximo
E economiza carinho.
Para saber a distância,
na matemática,
Aplica-se um teorema
Traça-se a reta
Desenha o triângulo
Soma catetos.

 

No amor,
É equação diferente
Mede-se o desejo
A intensidade do beijo
A soma do quadrado dos minutos
Do querer estar junto
Mesmo quando não dá
Quanto mais perto do zero
Mais longe se está.

 

Na geometria,
distância é valor numérico
Expresso em cifra fria.

 

No amor,
Distância é agonia
É sofrimento também
É líquido derramado
Feito lagoa nos olhos
É aguardar um “bom dia”
Que nem sempre vem.

 

É dor que não tem forma
É abandono que faz chorar
É fome, naufrágio
Um poço de saudade
Mais profundo que o abismo
E bem maior que o próprio mar.

O LIVRO

O LIVRO

Horácio Dídimo (Da ACLP e ACL)

Cada livro é uma árvore

Ondulada pelo vento
É papel e personagem
Pendurado no seu tempo

Usa capa e contracapa
Comentário nas orelhas
Nariz na folha de rosto
Sumário nas sobrancelhas

Cada livro é uma nuvem
Carregada de palavras
Chovendo pelos caminhos

Cada livro é um oásis
Onde as aves bibliófilas
Vão preparar os seus ninhos

 

2
Os livros cantam seus contos
Nos castelos nas ameias
Dançam nos pés seus tamancos
E aranhas nas suas teias

Colorido ou preto-e-branco
Cada livro tem seu texto
Seu miolo sua casca
Seu mercado e seu contexto

Livros são menos ou mais
Seres tridimensionais
Cada um com sua norma

Cada livro é uma forja
Um retrato e um espaço
Um abraço e uma forma