Sensações

ANIZEUTON LEITE, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

Meus pés caminham em tua direção
Meu olhar te alcança
E assim com uma lança
Perfura o meu coração.

É olhar que deseja
É desejo que inflama ao te ver
Chama ardente que almeja
Estar junto de você.

Seu perfume me enleva
E me leva a loucura
Você é meu remédio, minha cura
E sua paixão me eleva.

Sua voz me desperta sensações
É encanto, é magia
Que invade os corações
E transforma o meu dia em poesia.

Dois poemas de Regina Barros Leal

REGINA BARROS LEAL – Membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 24

Perplexidade

Não sei ao certo o que sinto
Foi tudo tão repentino!
Se é dúvida, tristeza, conflito ou pranto?
Expectativa, nem tanto
Dor, não é
Perplexidade! Sim.

Não sei ao certo o que sinto
Foi tudo tão repentino!
Se é aflição, medo, susto, temor
Dor, não é
Perplexidade! Sim

Então, início minha prece
Entrego, meu corpo ao Divino
Acalmo, minha alma aflita
Na fé, no amor, no sublime

Cresço, no temido caminho
Vivo, o presente alongado
Intenso, sentido e preciso
Vontade, no percurso almejado

Sorrio, então com a vida
Coloco vida, no pranto!
Afasto meus dissabores
Percorro, um trajeto de flores e amores

Na entrega inteira da alma
O meu coração se acalma
Aloco a esperança, na minha inspiração
Alcanço o infindo cosmo, em sua imensidão
Encontro a paz!

Mistério insondável

Fui me alcançando, no trajeto interior
Percorri, o caminho com justo vigor
Compreendi, no longo instante,
A beleza da prudência
Vi o raso e o profundo
A clarividência

Tudo e nada, antes e depois, possibilidades mil
Com sólida confiança,
A espiritualidade surgiu
Na batalha, interior, persisti sem hesitar
Pois, na luta incluí
A certeza de me encontrar

No caminho arriscado, busquei a benevolência
Dominei meus pensares
Com toda consciência
Ouvi o som falante, no silencio do instante
Transcendi a fria forma
No espaço cantante  

Descobri algumas sombras!
Efeitos fascinantes
Conheci o fluxo etéreo, e seus meios fundantes
Reneguei assim o acaso
O que não via antes
Perseverei na coragem, no ato consequente

Abafei o pranto, no sutil anseio ardente
Não sei quando será!
Não sei quanto, mas certa sou
Do inconcluso permanente
Simbólico e paradoxal,
Um mistério fulgente.

Dois poemas de Regina Barros Leal

Dor  

Esta dor que não se aparta! É a amarga solidão
Chega sempre ao anoitecer, repleta de emoção
Soluços na cama vazia, de sua plena brandura
Ausência do peito amante, carência de ternura

Mergulhada no mar de saudades e grande aflição
Procuro ouvir seu riso, nos ventos fortes de verão
Banho-me na cachoeira, das lágrimas já nascidas
Na esperança de gravar, as lembranças surgidas

Busco na nostálgica saudade, os abraços cativantes
Sussurrando, teço palavras, com fios brilhantes
Sinto no corpo um vácuo de afeição e amor
Ah! Nem sei mais fazer poemas, na copiosa dor.

Imortalidade

A alma se revela, em sua imortalidade
Filósofos distintos, ideias em unicidade
Dúvidas permanentes, místicas questões
Expressam harmonia, em sábias concepções

A razão lógica, hesita ao mistério mítico
Renuncia a alma, o Deus não definido
Recusa o Ser divino, e o espaço infinito
Renega aí, o imponderável mundo indizível

No mundo do tempo, do espaço e da forma
A razão cresce, na certeza da correta norma
O homem sofre, em duvidas inexauríveis
Aflição, prantos, vozes e silêncios intangíveis

Na transcendência do ser, surgem lembranças
Voeja a alma, liberta e ascendente em suas nuances
No trajeto mítico, abrolham reminiscências
Buscando o retorno, ao mundo das essências

Complexo e sutil é o mistério da vida
Quem somos para decifrar o enigma divino

Caminhos

GISELDA DE MEDEIROS, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 16

Não sei por onde ir…
Sou trêmula rosa
pendente da haste
ou pássaro implume
esquecido da trajetória.

Os caminhos abrem-se em labirintos,
e não tenho o mapa do destino
nem o fio de Ariadne.

Há muito estou aqui
no meio deste tempo sem história.
Cansa-me procurar a saída
nestes vales úmidos de espanto.

A fuga açula-me a solidão,
esta companheira
sempre à minha espreita
com quem divido meus medos,
minhas angústias inexoráveis.

Vou e retorno sobre meus próprios passos,
tímidos e lassos,
sobre a minha própria busca…

Sei que seguir é imperativo,
ficar é presente,
retornar é passado.

… E o futuro? Deverei buscá-lo?
Será ele um tempo? Ou um vento?
Mas, preciso seguir, mesmo sabendo
que, ao fim de tudo, acabarei pendente,
pétalas caídas, sob a frágil haste
que me sustentou a efêmera vida,
que era apenas tu.

Espirituosidade comedida

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

(Para o Prof. Ítalo Gurgel, da UFC e ACLP)

Vinum bonum et suave, /Bonis bonum, pravis prave,
Cunctis dulcis, sabor, ave Mundana laetitia!
(Fragmento de uma canção do séc. XIV). **

Jamais fui achegado à carraspana,
Na cotidiana marcação da história;
Mas a memória freud-ferencziana
Guarda chicana sem fastos de glória.

Em concessória ensancha de bacana,
Não se me empana a retentiva inglória
Da inibitória – hoje, não me ufana –
Lembrança plana de rasca irrisória.

Ao fluido espirituoso sou afeito:
Guimarães, Douro, Murça, Porto ou Minho;
Tête de Boeuf, Sem Nome, qualquer jeito.

Com o mais suave e estreme carinho,
Tomo a botelha, entorno e depois deito
Mui preciosos martelos de vinho.

* Vinho bom e agradável; bom para os bons, ruim para os malvados; de agradável sabor para todos. Viva a alegria mundana!

A MAIS LÍRICA HERANÇA DE PETRARCA

Italo Gurgel
(Membro titular da ACLP – Cadeira nº 17)

O soneto é uma forma de poema rigorosamente codificada. Comporta 14 versos, abrigando dois quartetos e dois tercetos. É obrigatória a rima. Também é necessário que todos os versos tenham o mesmo número de acentos poéticos (ictos). No caso do soneto acima transcrito, a mim dedicado, generosamente, pelo escritor e poeta Vianney Mesquita, apresentam-se 10 acentos nos 14 versos. Percebam-se as rimas no meio dos versos dos quartetos – a chamada rima encadeada, que concede especial estesia à conformação poética.

ORIGENS – Acredita-se que o soneto (do italiano sonetto) nasceu nos tempos da chamada “escola siciliana”, que orbitava a corte do imperador Frederico II (1194-1250). Atribui-se sua “invenção” a Giacomo da Lentini, um dos cortesãos, que criava tais peças para serem cantadas, e não declamadas.

Francesco Petrarca (1304-1374) tornou célebre o soneto em sua “Canzoniere”, sendo, para alguns, o verdadeiro criador dessa expressão poética. Filólogo, poeta e humanista, Petrarca é tido como o Pai do Humanismo, mas foram os sonetos, redigidos pioneiramente em língua italiana, que o elevaram ao pedestal da glória.

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Derrama de pérolas

GORETE OLIVEIRA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 1.

Chorei as lágrimas que eu tinha
Mas não chorei todas ainda
Guardei uma nascente no veio da cacimba
Para o rio que mais tarde vinha.

Deixei correr o rio que vinha
Mas não dei vazão plena à corrente
Retive em mão translúcidos cristais de sal
Das pérolas que dos olhos caíam.

Colhi dos olhos as pérolas que caíam
Senti o aço cortando a frio sangue
O cetim da pele das pétalas da face

Onde corriam as lágrimas que espalhei
No limo branco das pedras que transformei
Em pérolas que aos porcos atirei.

Fortaleza, 15 de maio de 2019.