Hölderlin e dois sonetos decassilábicos

Hölderlin conseguiu sintetizar em sua obra o espírito da Grécia antiga.

Johann Christian Friedrich Hölderlin nasceu em 20 de março de 1770, em Lauffen, Alemanha, e morreu em 7 de junho de 1843, em Tübingen.

Amigo de Hegel e Schelling, na Universidade de Jena conheceu Schiller e Goethe. Tornou-se um dos grandes poetas de todos os tempos e, ao lado de John Keats, um dos mais influentes na modernidade. Com ele, a cristandade encontra a Hélade arcaica. Praticou, como poucos, a ode pindárica e os hinos órficos. O que era filologia clássica ou artifício poético consciente em Goethe e Schiller, transformou-se, para Hölderlin, em realidade. Seu classicismo parece mais real, porque o poeta acreditou, de fato, nos deuses e na interferência do destino. Como nos românticos, a natureza está presente em sua poesia, mas é uma outra natureza, ligada ao mundo mítico pagão da Grécia.

Aqui, o grande vate inspira, inicialmente, um soneto do poeta e diplomata Márcio Catunda, membro correspondente da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. No rastro dessa pequena joia, o poeta, escritor e jornalista Vianney Mesquita, membro da Academia Cearense de Língua Portuguesa, produz outro soneto, igualmente decassilábico, perquirindo a “versificação alentadora” do bardo amigo.

Hölderlin

Márcio Catunda

Hölderlin, em delírio, concebia
Os Alpes prateados como altares,
Tanto se dedicou à poesia,
Que fez dos deuses seus sublimes pares.

Com paixão férvida e neurastenia,
Sentiu a Grécia em todos os lugares.
Foi oráculo da mitomania.
Para Diotina fez os seus cantares.

De Empédocles veio todo o empenho
Começado na vida anterior.
Foi apenas um doido preceptor,

Conquanto demonstrasse o desempenho
De um mago celestial superior
Das benesses de Deus merecedor.

Hölderlin Catunda

Vianney Mesquita

Vê-se inopino em Márcio Catunda
Insuflação deífica, sedutora.
Metros de um bardo, medida fecunda,
De paz, à vida amarga concessora.

Em versificação alentadora,
Súbito alteiam a alma moribunda
Versos volantes, voz preceptora,
De rejeição à derrota rotunda.

De vez em quando supera Bilac,
E excede o percuciente Condillac,
A fim de agasalhar a glória fida.

Em fé cristã já se achegou a Isaac,
Fez bom liame com Honoré Balzac
E é dos melhores Hölderlins da vida!

Acróstico para o Prof. Myrson Melo Lima (Vianney Mesquita (Cadeira 37)

A vitória dos prussianos contra os austríacos foi a vitória do mestre prussiano contra o mestre austríaco. (OSCAR FERDINAND PECHEL, geógrafo e antropólogo. Dresden, 17.03.1826; Leipzig, 13.08.1875).

Mestre insigne da Regra Portuguesa

Y cultor de la Lengua Castellana,

Raros são os que, nesta Fortaleza,

Se achegam à perfeição que dele emana.

 

Ostenta sapiência e agudeza

Na doutrina da norma camoniana;

Myrson tem argúcia e singeleza,

E adestra na média e mediana.

 

Língua oficial de oito países,

O fato nos deixa mui felizes.

Legada, então, por ele, este a sublima.

 

Insertos como alunos no Brasil,

Manifestamos recompensas mil

Ao extraordinário Myrson Lima.

Teorema da distância

Teorema da distância
Ana Paula de Medeiros Ribeiro

Distância, na geometria,
É reta que liga dois pontos. No amor,
É silêncio
É linha sinuosa
Que desvia caminhos
Evita estar próximo
E economiza carinho.
Para saber a distância,
na matemática,
Aplica-se um teorema
Traça-se a reta
Desenha o triângulo
Soma catetos.

 

No amor,
É equação diferente
Mede-se o desejo
A intensidade do beijo
A soma do quadrado dos minutos
Do querer estar junto
Mesmo quando não dá
Quanto mais perto do zero
Mais longe se está.

 

Na geometria,
distância é valor numérico
Expresso em cifra fria.

 

No amor,
Distância é agonia
É sofrimento também
É líquido derramado
Feito lagoa nos olhos
É aguardar um “bom dia”
Que nem sempre vem.

 

É dor que não tem forma
É abandono que faz chorar
É fome, naufrágio
Um poço de saudade
Mais profundo que o abismo
E bem maior que o próprio mar.

O LIVRO

O LIVRO

Horácio Dídimo (Da ACLP e ACL)

Cada livro é uma árvore

Ondulada pelo vento
É papel e personagem
Pendurado no seu tempo

Usa capa e contracapa
Comentário nas orelhas
Nariz na folha de rosto
Sumário nas sobrancelhas

Cada livro é uma nuvem
Carregada de palavras
Chovendo pelos caminhos

Cada livro é um oásis
Onde as aves bibliófilas
Vão preparar os seus ninhos

 

2
Os livros cantam seus contos
Nos castelos nas ameias
Dançam nos pés seus tamancos
E aranhas nas suas teias

Colorido ou preto-e-branco
Cada livro tem seu texto
Seu miolo sua casca
Seu mercado e seu contexto

Livros são menos ou mais
Seres tridimensionais
Cada um com sua norma

Cada livro é uma forja
Um retrato e um espaço
Um abraço e uma forma

E o que é ser Poeta?

Penso no homem que sabe domar a palavra, fazê-la sua refém e desenhá-la no branco do papel, sem machucá-la: o Poeta!

E o que é ser Poeta?
Giselda Medeiros

Ser poeta é acender imensas luzes
nos túneis mais profundos.
Tecer auroras nos crepúsculos da vida.
Pôr sal de poesia no molho da existência
e açúcar de sonho na calda dos temporais.

 

Ser poeta é dar eternidade ao efêmero.
É ser criança em qualquer fase da vida.
É navegar em seu bergantim de sonho
por mares “nunca dantes navegados”.

 

Ser poeta é cantar o inacessível.
Pôr estrelas nas noites mais escuras.
Saber dar “um toque no intangível”.
Extrair do desespero o néctar
e abrir um imenso girassol na chuva.