O LIVRO

O LIVRO

Horácio Dídimo (Da ACLP e ACL)

Cada livro é uma árvore

Ondulada pelo vento
É papel e personagem
Pendurado no seu tempo

Usa capa e contracapa
Comentário nas orelhas
Nariz na folha de rosto
Sumário nas sobrancelhas

Cada livro é uma nuvem
Carregada de palavras
Chovendo pelos caminhos

Cada livro é um oásis
Onde as aves bibliófilas
Vão preparar os seus ninhos

 

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Os livros cantam seus contos
Nos castelos nas ameias
Dançam nos pés seus tamancos
E aranhas nas suas teias

Colorido ou preto-e-branco
Cada livro tem seu texto
Seu miolo sua casca
Seu mercado e seu contexto

Livros são menos ou mais
Seres tridimensionais
Cada um com sua norma

Cada livro é uma forja
Um retrato e um espaço
Um abraço e uma forma

E o que é ser Poeta?

Penso no homem que sabe domar a palavra, fazê-la sua refém e desenhá-la no branco do papel, sem machucá-la: o Poeta!

E o que é ser Poeta?
Giselda Medeiros

Ser poeta é acender imensas luzes
nos túneis mais profundos.
Tecer auroras nos crepúsculos da vida.
Pôr sal de poesia no molho da existência
e açúcar de sonho na calda dos temporais.

 

Ser poeta é dar eternidade ao efêmero.
É ser criança em qualquer fase da vida.
É navegar em seu bergantim de sonho
por mares “nunca dantes navegados”.

 

Ser poeta é cantar o inacessível.
Pôr estrelas nas noites mais escuras.
Saber dar “um toque no intangível”.
Extrair do desespero o néctar
e abrir um imenso girassol na chuva.

MAR TEMPESTUOSO

Vianney Mesquita*

 

Oh, Mar, solitário noivo da tormenta, inutilmente é que ergues as ondas para seguir teu amor! (Rabindranath Tagore).

 

Sou na essência um bote que navega

No embalo alucinante e aterrador;

Nada mais do que humilde pescador

Por vagas netunais embevecido.

 

Fitando qual um louco a espuma cega,

Pelejas d’água e areia vejo um ror;

Desencadeia um turbilhão de dor

E o rude escaler vira vencido.

 

Talvez mais tarde queira a calmaria

Eu seja a mansa linfa e que, um dia,

Beije e abrace as ondas virginais.

 

A vida, entanto, é mar tempestuoso,

Dançando acelerado e tenebroso,

Numa perene orquestração de ais.

ÓCIO-PURO

Fazer nada é forjar em forno frio,

É fazer fé na fronte dos malucos;

É atiçar lamparina sem pavio

E duvidar da liquidez dos sucos.

 

Fazer nada requer regar o rio,

Remar a ré no rastro dos caducos.

É, cegamente, acreditar num fio

De masculinidade nos eunucos.

 

Fazer nada é, por final, amigo!

É o cogitar em certas ilações:

Na certeza iminente de perigo

Que a lazeirenta fome dos leões

Costuma produzir nos corações

Que os cardiopatas conduzem consigo!

 

(Extraído de MESQUITA, Vianney in: Repertório Transcrito – Notas críticas ativas e passivas. Sobral: Edições UVA, 2003. Os tercetos se baseiam em ideia do dr. Remo Figueiredo Filho)