Predicação verbal – Transitividade verbal (verbo Ir)

Raimundo de Assis Holanda, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 22

Como introito, o dicionário eletrônico, Houaiss, apresenta estes conceitos de predicado.

  1. “Relação semântica existente entre um predicado e um argumento, pelo qual o predicado atribui propriedades à entidade representada pelo argumento”. Ex. A Academia Cearense da Língua Portuguesa congrega plêiades de estudiosos do vernáculo (grifo nosso).
  2. “Aquilo que se afirma ou se nega a respeito do sujeito da oração (p.ex., na frase ele é o maior mentiroso que já existiu, o predicado é quase tudo, com exceção de ele; na frase morreu o maior mentiroso que já existiu, o predicado é morreu)
  3. “Termo ou conjunto de termos atribuíveis, por meio de uma afirmação ou negação, ao sujeito de um juízo ou proposição”.

As gramáticas de nosso vernáculo, de modo especial, as tradicionais, classificam os verbos quanto à predicação em: transitivo direto; transitivo indireto; transitivo direto e indireto; intransitivo; ligação.

Faz-se necessário entendermos o conceito de transitividade.

Mattoso Câmara Jr., In: Dicionário de Linguística e Gramática, 11ª edição, conceitua Transitividade sob dois sentidos: 1) “estrito – necessidade, que há em muitos verbos, de se acompanharem de um objeto direto que complete a sua predicação”. No latim, língua de casos, esse complemento indispensável é expresso pelo acusativo. (V.g. Mater filiam pulchram amat).

O nome TRANSITIVO, dado a tais verbos em latim, decorreu da sua possibilidade de poderem passar para a voz passiva, numa transformação em que o objeto é feito paciente, no caso nominativo. Essa transformação existe em português. (V.g. Pedrinho vê fantasmas; fantasmas são vistos por Pedrinho).

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INVENCIONICES NAS PEÇAS DE POETAS (Confissão de um Poeta Malogrado)

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37
(Texto apresentado na “Hora do Vernáculo”, reunião de 15/09/2018 da ACLP)

Sendo mentirosos profissionais, os poetas devem ter
excelente memória.
(JONATHAN SWIFT).

Jonathan Swift

1 Notações Preliminares

Procedo a esta ligeira comunicação com vistas a autentificar, particularmente em relação à grade métrica do soneto, a sentença registada (veja nota no rodapé) na epígrafe deste comentário, da autoria do poeta, escritor satírico e religioso irlandês Jonathan Swift (Dublin, 30.11.1667 – 19.10.1745), célebre autor de um dos mais lidos trabalhos de procedência exterior no Brasil – As Viagens de Gulliver – bem assim de Histórias de um Tonel, entre tantas, na maioria sob pseudônimo.

Para asserir a relevância de Swift no concerto das Letras estrangeiras, é bastante lembrar a influência suscitada pelo artista natural do Eire em beletristas de todo o Mundo, da grandeza de Herbert George Wells (H. G. Wells), Charlotte Brontë (criptônimo de Currer Bell) e, especialmente, no Brasil, em Machado de Assis, cujos principais influxos advieram da literatura inglesa, na mesma dimensão dos recepcionados pelo “Moleque Carioca,”  procedentes de Laurence Sterne (24.11.1713 – 18.03.1768). (Este é um apodo respeitoso da escritora e biógrafa mineira, dele estudiosa, Lúcia Miguel Pereira, mulher do escritor Octávio Tarquínio de Sousa – Barbacena, 12.12.1901; Rio de Janeiro, 22.12.1959).

Convém lembrar aos circunstantes – mesmo de passagem, pois o assunto não calça o objetivo destas notas – o fato de que Joaquim Maria Machado de Assis era averso à licenciosidade das letras do século XVIII e afiliado à literatura da Era Vitoriana, pois não acedia ao emprego das litotes, insertas no vocabulário e no desenrolar narrativo de então. Por este pretexto, com efeito, acolheu as influências de Swift e de outros paredros da literatura internacional, nomeadamente daqueles de sinete grão-britano.

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Hora do Vernáculo – Tautologia

Prof. Valdemir Mourão (Cadeira nº 19), 1º Vice Presidente da ACLP

Tautologia significa redundância, pleonasmo; é o uso de palavras diferentes para expressar uma mesma ideia; é a repetição de ideias com palavras diferentes; é a repetição de forma, significado ou relação.

1) Abusar demais (abusar já é demais).
Ex.: Tem gente que abusa demais da boa vontade dos outros. Adequado: Tem gente que abusa da boa vontade dos outros.

2) Voltar atrás (será possível voltar para frente?).
Ex.: Não vou voltar a palavra atrás. Adequado: Não vou voltar minha palavra; Não vou retroagir minha palavra.

3) Repetir outra vez (repetir não já é outra vez?).
Ex.: O lanche está tão gostoso que vou repetir outra vez. Adequado: O lanche está tão gostoso que vou repetir.

4) Atrás na retaguarda (retaguarda já é atrás).
Ex.: Vamos protegê-lo lá atrás, na retaguarda. Adequado: Vamos protegê-lo na retaguarda.

5) Continua a permanecer (permanecendo não continua?).
Ex.: Depois de tudo, ele ainda continua a permanecer neste recinto. Adequado: Depois de tudo, ele ainda permanece neste recinto.

6) Comparecer em pessoa (você consegue comparecer sem ser em pessoa?).
Ex.: Minha cunhada é tão atenciosa que compareceu em pessoa ao lançamento de meu livro Praticando Redação. Adequado: Minha cunhada é tão atenciosa que compareceu ao lançamento de meu livro Praticando Redação.

OUTROS CASOS PARA REFLEXÃO:

 1) A razão é porque.
2) A meu critério pessoal.
3) Abertura inaugural.
4) Acabamento final.
5) Amanhecer o dia.
6) Anexo junto a carta.
7) Catedral da Sé.
8) Certeza absoluta.
9) Colaborar com uma ajuda.
10) Colocar algo em seu devido lugar.
11) Com absoluta correção.
12) Como prêmio extra (recompensa).
13) Compartilhar conosco.
14) Completamente vazio.
15) Comprovadamente certo.
16) Conviver junto.
17) Criação nova.
18) De sua livre escolha.
19) Demasiadamente excessivo.
20) Destaque excepcional.
21) Detalhes minuciosos.
22) Elo de ligação.
23) Em caráter esporádico (disperso, acidental, raro).
24) Em duas metades iguais.
25) Empréstimo temporário.
26) Encarar de frente.
27) Escolha opcional.
28) Exceder em muito.
29) Expressamente proibido (terminantemente, decisivo).
30) Exultar de alegria.
31) Fato real.
32) Frequentar constantemente.
33) Gritar bem alto.
34) Há anos atrás.
35) Individualidade inigualável.
36) Interromper de uma vez.
37) Juntamente com…
38) Matiz cambiante.
39) Medidas extremas de último caso.
40) Multidão de pessoas.
41) Nasceu morto.
42) Nos dias 8, 9 e 10, inclusive.
43) Obra-prima principal.
44) Outra alternativa.
45) Passatempo passageiro.
46) Planejar antecipadamente.
47) Pode possivelmente ocorrer.
48) Preconceito intolerante.
49) Quantia exata.
50) Relações bilaterais entre dois países.
51) Retornar de novo.
52) Sentido significativo.
53) Sintomas indicativos.
54) Superávit positivo.
55) Surpresa inesperada.
56) Terminantemente proibido (expressamente).
57) Todos foram unânimes.
58) Última versão definitiva.
59) Vandalismo criminoso.
60) Vereador da cidade.

Gerúndio

Prof. Myrson Lima – Cadeira n°14 (28 de novembro de 2017)

1. É uma forma verbo-nominal, juntamente com o infinitivo e o particípio, que ocupou o espaço do antigo particípio presente.

Expressa uma ação que está em curso, ou ocorre simultaneamente, ou remete a uma ideia de progressão.

2. É caracterizado pela desinência –ndo precedida da vogal temática.

Exemplos:

  • amando; escrevendo; partindo.

3. Usa-se na forma simples e na forma composta (auxiliar no particípio composto e nas locuções)

Exemplos:

  • Falando, correndo, partindo.
  • Tendo (ou havendo) falado, corrido, partido.
  • Estar (ficar, continuar, permanecer, andar) falando. (Os portugueses diriam “estar (ficar, continuar, permanecer, andar) a falar”.)

4. O gerúndio indica um processo ainda incompleto, que pode expressar ou uma ação contínua;

  • ou uma ação antes da ação expressa pelo verbo da principal;
  • ou uma ação simultânea, ao lado do verbo da principal, com valor adverbial,
  • ou uma ação com ideia de progressão.

Exemplos:

  • Ficou escrevendo um artigo para a revista.
  • Vi alunos passeando no Iguatemi.
  • Estamos assistindo a uma palestra.
  • Expressões de alegria iam raiando em seu rosto.

5. Além do aspecto verbal, o gerúndio apresenta também um aspecto nominal, assumindo a função de advérbio ou de adjetivo.

Quando assume o valor adverbial, é utilizado sozinho ou com outros verbos.

Exemplos:

  • Fazendo assim, a cena muda (Se fizer assim)
  • Reclamava chorando (com choro).
  • Amanheceu chovendo (com chuva).

6. Modernamente, aceita-se o emprego do gerúndio com valor de adjetivo, para indicar qualidade dinâmica ao substantivo em oposição ao adjetivo que, comumente, atribui ao nome uma característica estática.

Exemplos:

  • Traga uma água fervendo. (Ninguém diz água fervente).
  • Sanduíche viajando. (Ninguém diz sanduíche viajante).
  • Decolagem autorizada: torre sabendo (sabedora de).

“Pelo grande cobertor não cumprindo nada das aparências”. (F. Pessoa)

7. Há uma tendência, apesar da condenação dos puristas, que veem nisso um galicismo de sintaxe, de alargar o uso do gerúndio como adjunto, equivalente a uma oração adjetiva. Tais formas gerundiais correspondem ao antigo particípio presente, ou seja, de natureza nominal, verdadeiros adjetivos.

Exemplos:

  • Um cofre contendo belíssimas joias (que contém).
  • Uma gramática registrando novos usos na linguagem (que registra).
  • Ouço o vento soprando (que sopra).
  • Há ainda muitas viagens, esperando-me (que me esperam).
  • Recebi dele um e-mail pedindo emprego (em que me pede).

Para Rodrigues Lapa (in Estilística da Língua Portuguesa), o emprego do gerúndio é, em certos casos, preferível à oração relativa.

8. O gerúndio, às vezes, é usado sozinho com sentido imperativo.

Exemplo:

  • Saindo! – dizia o professor para os alunos.

Vejam-se casos em que o emprego do gerúndio se apresenta inadequado:

a. Quando as ações expressas pelos dois verbos, gerúndio e verbo principal, não puderem ser simultâneas.

Exemplos:

  • Chegou sentando-se.
  • Adolfo Caminha nasceu em Aracati, entrando na Marinha de Guerra, transferindo-se para Fortaleza.

b. No início do período, quando a ação expressa pelo gerúndio é posterior à do verbo principal.

Exemplo:

  • Sendo detido duas horas depois, o assaltante fugiu.

NB – Depois da oração principal, o gerúndio pode expressar uma ação posterior, se equivale a uma oração iniciada pela conjunção e.

Exemplo: Os alunos chegavam à sala, ocupando em seguida as primeiras carteiras (e ocupavam)

c. Quando ocorre o encadeamento de gerúndios em que um se subordina ao outro.

Exemplo:

  • Entendendo dessa maneira, o problema vai-se pondo em uma perspectiva melhor, ficando mais clara situação.

10.

a) O gerúndio deve apresentar ideia de continuidade. Verifica-se isso, quando pode ser substituído pelo infinitivo regido da preposição

Exemplos:

  • Estava o deputado escondendo o dinheiro (a esconder)
  • Vi o vigia fiscalizando o quarteirão (a fiscalizar)

b) O gerúndio vem, muitas vezes, combinado em locuções com os auxiliares estar, andar, ir e vir, marcando uma ação durativa.

Exemplos:

  • Estavam dormindo profundamente.
  • O país anda vivendo dias de incerteza.
  • Vão-se acendendo as estrelas uma a uma.
  • A luz de um novo tempo vem chegando devagar.

c) O emprego do gerúndio é considerado tão problemático que alguns escritores procuram substituí-lo. O que é passível de crítica, no entanto, é o seu uso abusivo, inadequado.

d) Na redação, serve para evitar a repetição do conectivo que ou o emprego excessivo dos conectivos das orações desenvolvidas.

Exemplos:

  • Ele disse que deve haver indivíduos de tendências totalitárias, que preferem tal candidato (preferindo)
  • Ouço o vento que sopra e as árvores que crescem (soprando – crescendo)
  • Quando proferiu o deputado tais palavras, a assembleia dirigiu-lhe vaias e insultos, que confirmavam a grande revolta com as mudanças propostas pelo governo. (Proferindo – confirmando)

Gerundismo

É o emprego do gerúndio em forma de perífrases, acarretando a ideia temporal de futuro em vez do momento presente em curso.

É considerado um vício de linguagem e constitui-se um excesso linguístico em que se apela desnecessariamente para a perspectiva de um futuro com o intuito de reforçar a ideia da continuidade.

Prefere-se, no gerundismo, uma construção mais complexa com emprego de três verbos, em vez de apenas um ou de uma locução verbal. Verifica-se tal modismo principalmente em serviços de telemarketing e de atendimento ao consumidor.

Exemplos:

  • O senhor pode estar respondendo a um questionário?
  • Nossa empresa vai estar lhe enviando o modelo.
  • Outros exemplos com as devidas correções:

a) Vou estar transferindo sua ligação. (Gerundismo)

Vou transferir sua ligação. (Forma aceitável)

b) Desculpe, senhora, mas estamos tendo que fazer tudo manualmente. (Gerundismo)

Desculpe, senhora, mas temos que fazer tudo manualmente.(Forma aceitável)

c) Os estudantes vão estar pesquisando em casa na próxima semana. (Gerundismo)

Os estudantes vão pesquisar/ pesquisarão em casa na próxima semana (Forma aceitável)

d) Vamos estar encaminhando sua solicitação (Gerundismo)

Vamos encaminhar/ encaminharemos sua solicitação (Forma aceitável)

Exercícios resolvidos

Marque o uso adequado (S) e o inadequado (N), segundo a norma culta, quanto ao emprego do gerúndio.

  1. Chegou à sala cantando. (S)
  2. Chegou à sala sentando-se. (N)
  3. Ficou escrevendo a matéria. (S)
  4. Vi um jardim florescendo. (S)
  5. Vi uma caixa contendo fotografias do entrevistado.(S)
  6. Não vá ao apartamento à noite, pois vou estar dormindo. (N)
  7. Eu estarei dormindo, quando você chegar. (S)
  8. Alugou a casa tendo o número 40 de cor tirando a negro. (N)
  9. Desse jeito, ele vai levando a vida. (S)
  10. Vou estar transferindo a ligação em instantes. (N)
  11. Estarei transferindo a ligação, enquanto você pega os documentos. (S)
  12. Não me procure amanhã, porque vou estar viajando. (N)
  13. Eu vou estar pagando a você amanhã. (N)
  14. Chegando os convidados, começaram a reunião (S)
  15. Aluga-se casa, tendo três quartos, tendo luz e esgoto. (N)
  16. Trouxe água fervendo para o banho. (S)
  17. Vi o deputado contando dinheiro. (S)
  18. Irei estar enviando a nota fiscal amanhã. (N)
  19. Estamos conversando ao telefone. (S)
  20. Continuamos aprimorando nossos conhecimentos. (S)

Soneto Undecassilábico

“SONET’ÂNCIA”

                            Vianney Mesquita*

No começo dos ’80, ministrava na U.F.C. a disciplina Prática de Redação para estudantes do Curso de Comunicação Social, matéria obrigatória com seis módulos de quatro créditos, do primeiro semestre ao sexto.

Dos diversos escorregos linguísticos perpetrados contra nosso código, um dos que mais apareciam era a prática – inocente – daredundância, com significação assente na ideia de superfluidade, na superabundância vocabular desnecessária, com pleonasmos e abusos na ornamentação do discurso oral e escrito. Este só perdia para as escorregadelas ortográficas e impropriedades de concordância e regência de substantivos, adjetivos e verbos.

Além de haver a oportunidade de juntos corrigir esses excessos, afiguravam-se realmente engraçados os fatos sobejados dos escritos de alguns estudantes, os quais, pela míngua de maiores exigências e cuidados durante o primeiro e segundo graus – como se chamavam, então – esses descuidos (“lapso de engano de erro equivocado”, dizíamos, brincando) continuavam a baldear o repertório grafado de quem iria comunicar teores pelo caminho dosmedia massivos, evento realmente desabonador, se viesse a suceder.

De tal modo, era obrigatório que se cuidasse de removê-los o mais depressa possível, para que o futuro comunicador não ludibriasse o imenso universo de receptores, na contextura dos quais há milhões e milhões que acreditam cegamente em tudo o que é veiculado pelos meios de propagação maciça, de sorte que poderiam alargar consideravelmente, em progressão geométrica, o espectro de recepção equívoca dessas mensagens.

Numa das turmas, havia alguns ensaístas versificadores de boa qualidade, hoje poetas reconhecidos, e outros, como eu, curiosos e interessados, por diletantismo, no âmbito da cultura manifesta por via do metro. Divisei, então, a oportunidade de proceder a um exercício por meio dos sonetos, que, após alguns anos no limbo, em especial depois da Semana da Arte Moderna (fevereiro de 1922), eram praticados, sem muita obediência aos cânones dessa grade métrica, por muitas pessoas ligadas às letras e outras meramente amadoras e diletantes.

Compus, então, o undecassílabo – catorze versos com onze acentos, dois quartetos e dois tercetos – intitulado Sonet’ânciaeo ipso, soneto + redundância, para exame em sala de aula, com vistas a afastar das redações dos mass media esse viés do cadáver do defunto morto que morreu de morte morrida, do pássaro de asas, dos há dez anos atrás etc.

          Espero, contudo – e isto é por demais relevante – que a audiência dos meios onde essas linhas chegam, configurada na outra ponta da mensagem, não me assaque a tacha de redundante e “analfa”, porquanto os motivos para este exercício foram há pouco meridianamente explicados, de modo que a configuração da peça, lotada de vocábulos e expressões palavrosas e pleonásticas, foi feita para emprego somente em laboratório, vedado, por conseguinte, o seu curso pelo desmedido agrupamento de pessoas – a recepção mássica do recado comunicativo.

Vamos ao soneto.

SONET’ÂNCIA

Ensaio cavalgar meu jegue asinino,
Na fazendola rural, a fazendinha,
Terra particular, propriedade minha,
Onde, aliás, monto meu Pégaso equino.

Subo, para cima, em hirta e reta linha,
À procura, em caça a um porco suíno.
Pois houvera, antes, atacado a rinha
De galos, que brigavam luta de inopino.

Vi, então, com um sorriso nos lábios,
O meu porco bácoro preso e cativo.
E logo, breve, anotei nos alfarrábios

Carpatácios: “o porqueiro cerdo é vivo:
Então, pois, farei como os sapientes sábios:
Deixá-lo-ei renascente e redivivo”.

O PENSAMENTO NO ENSINO DA REDAÇÃO

HORA DO VENÁCULO – 28-6-2017

                                   Prof. Valdemir Mourão – Cadeira nº 19

Se considerada toda a amplidão em que se engloba o pensamento, há de se admitir que quando um aluno é privado de certas experiências, as consequências logo aparecem na mudança de seu comportamento, por isso que, quando ele apresenta um comportamento impulsivo, por exemplo, o professor costuma atribuir isto à falta de pensamento: a pessoa não para para pensar (cf. Raths, 1977). 

Ainda em Raths, pode-se encontrar outro exemplo de que o aluno não se concentra:

Em certo momento, não presta atenção ao que está fazendo e, por isso, fracassa em seu trabalho. Geralmente se supõe que isso resulte de negligência de rigor nos processos de pensamento. Quando existe acentuação de pensamento no currículo, os alunos tendem a modificar seu comportamento. Quando existem frequentes oportunidades para participar de grande diversidade de processos que exigem pensamento, a frequência de comportamento impulsivo tende a diminuir (Idem).

Pode-se aceitar que é possível transpor a capacidade de pensar do aluno à expressão escrita, dando-lhe oportunidade para exercer essa capacidade, aplicando processos que o levam ao exercício do pensamento através da escrita, pois é fundamental, ao escritor, “ter oportunidade para pensar e para discutir o pensamento”(Ibidem), para que ele consiga harmonizar o pensar e o escrever.

Redigir é, afinal, uma das formas de manifestação da linguagem a qual determina o pensamento que, por sua vez, é útil ao desenvolvimento da linguagem, cuja relação (pensamento-linguagem) é advertida por Greene (1976) ao afirmar que falar acerca do pensamento, ignorando a linguagem, seria uma forma extremamente incompleta de abordar o assunto. 

Por ser o pensamento um elemento determinado pela linguagem e por ser a redação uma das formas de manifestações da linguagem, sente-se, então, a necessidade de se partir da produção do aluno, porque a sua produção deve refletir o seu pensamento (ou a sua consciência) e a sua variedade linguística, se já não decapitada pela repressão do ensino tradicional. 

É oportuno transcrever relações possíveis entre o pensamento e a linguagem atribuídas por Greene (1976), para que se entenda melhor tal ligação: 

  1. A linguagem é necessária ao pensamento e determina-o;b) O pensamento precede a linguagem e é necessário ao seu desenvolvimento; c) Linguagem e pensamento têm raízes independentes.

Também vale apresentar duas funções distintas da linguagem, para que se tenha ciência de que a linguagem e o pensamento partilham o mesmo código linguístico, daí a interligação entre ambos, reforçando, assim, a existência de um auxílio mútuo:

A linguagem tem duas funções distintas: a comunicação externa com os seres humanos nossos semelhantes e, de igual importância, a manipulação internade nossos pensamentos íntimos. O milagre da cognição humana é que ambos esses sistemas usam o mesmo código linguístico e, assim, podem ser reciprocamente traduzidos – com mais ou menos êxito (Ibidem).

Ainda referente ao pensamento, dentro do que interessa para este trabalho, tem lugar uma transcrição de Lima (1970):

O pensamento é uma atividade mental que envolve a manipulação de símbolos, sinais, conceitos ou ideias simbolicamente representados. (…) Se Considerarmos a memória como um arquivo, pensamento é o termo (sic) utilizado para descrever as diversas maneiras que temos para recuperar, examinar, combinar e reagrupar as informações arquivadas. A memória, a aprendizagem, o pensamento e a linguagem são processos intimamente (sic) interligados.

Este enunciado diz respeito especificamente ao que interessa esta pesquisa, visto que mostra que há ligação entre as operações de pensamento, a aprendizagem e a linguagem (elementos frequentes no ato de redigir e indispensáveis ao ensino deste ato). 

Se, por outro lado, o processo que estimula o aluno ao uso do pensamento – que deve refletir no seu comportamento e na sua linguagem – deve ser uma tarefa do professor, a mudança em si deve ser do aluno. Logo, compete ao mestre criar em cima da redação do aluno atividades que provoquem pensamento, que ativem a sua consciência, para que a alteração apresentada por ele recaia na sua própria produção: assim, fica detectada a influência do pensamento no ensino da redação. 

Para que isso ocorra, no entanto, com maior eficácia, presume-se que se deva partir da manifestação escrita do aluno, ainda que com suas variações, sem, todavia, estigmatizá-las, para se alcançar a língua padrão. Feito isso, poder-se-á levar o aluno a conhecer diferentes variações linguísticas e usá-las convenientemente, quando solicitado a expressar-se por escrito, refletindo, portanto, um melhor ordenamento do binômio pensamento-linguagem. 

As atividades sugeridas, a partir da produção escrita do aluno, podem ser desde a reestruturação de frases do texto, de períodos e de parágrafos, além de substituições de verbos, de complementos e/ou de sujeitos. 

O importante, portanto, é que estas atividades ativem o pensamento do aluno para que ele transforme a sua variação linguística em norma culta.

                        SUGESTÕES PARA OS PROFESSORES DE LÍNGUA

            Diante dos resultados favoráveis encontrados, a partir da aplicação de Operações de Pensamento, resta sugerir alguns pontos óbvios e implícitos no decorrer do trabalho.

  1. Que as operações de pensamento sejam aplicadas durante o trabalho de análise da produção do aluno.
  2. Que este trabalho seja feito também junto às composições de outras disciplinas, mesmo diante daquelas que têm como base o número. Acredite: Isso é possível.
  3. Que o trabalho de estudo da composição do aluno abranja a análise do código linguístico e doconteúdo, além da reestruturação frasal no texto e do uso de elementos coesivos.
  4. Que o ponto fundamental do trabalho de produção e análise de texto seja levar o aluno a refletirsobre a própria produção, fazendo-o sentir ou produzir a harmonia entre o pensar e o escrever.
  5. Que, mesmo com os conteúdos programáticos impostos pela escola, seja dada ênfase ao pensamento e ao uso da língua como fator final da produção da linguagem.
  6. Que a norma culta seja o fim do processo do ensino de língua, mas nunca o princípio nem o meio, e que este fim não sirva de repressão do uso da variação linguística do aluno.
  7. Que o processo de correção não seja um mero apontar de erros, mas um motivo de análise do ato de comunicação do indivíduo, sem que estes erros sirvam de punição para o aluno.

            Com a aplicação dessas sugestões por parte do professor, poder-se-á crer em uma possívelexpressão escrita mais próxima dos desejos dos mestres de língua.  

                      

                                    BIBLIOGRAFIA

  1. BAKHTIN, Mikhail (V. N. Volochínov), (1986).Marxismo e filosofia dalinguagem. 3ª ed.,   

       São Paulo, Ed. Hucitec. (tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira).

  1. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda (s.d.).Novo dicionário dalíngua portuguesa. 1ª  

       ed., 4ª impressão, RJ, Ed. Nova Fronteira.

  1. GREENE, Judith (1976). Pensamento e linguagem. 2ª ed., RJ, Zahar.
  2. GAGNÉ, Gilles (1983).Norme et enseignement de la languagematernelle. InBédard Edith

       e Jacques Manrais (org.). La norme linguistique, Québec, p. 463-509.

  1. GARMADI, J. (1973).Introdução à sociolinguística. Lisboa, Publicações Dom Quixote.
  2. GENOUVRIER, Emile e PEYTARD, Jean [1973].Linguística e ensinodo português. Coimbra,

       Almedina. (Tradução de Rodolfo Ilari).

  1. GUILLAUME, Gustavo (b, 1973).Leçons de linguistique,1948-1949, série C, Grammaire

       particulière du français et grammaire générale (IV), publiées par Roch Valin, Québec,   

       Presses de l’Université Laval et Paris, Klincksieck.

  1. JOHNSON, Wendell (1977).Impossível redigir redação.In: Uso e mau uso da linguagem,

       org. por S. I. HAYAKAWA (Tradução: Paulo V. Damásio Filho). SP, Pioneira.

  1. LIMA, Lauro de Oliveira (1982).O ensino reprovado: adaptado por autor desconhecido de

      “Oliveira Lima: Acabou no Brasil a escola normal”. Int: O GLOBO, RJ, p. 12, 2ª clichê, 09:02.

  1. MIRA Y LÓPEZ, Emílio (1966).El pensamiento:leyes y factores, límites y possibilidades del

       pensamento. Buenos Aires, Editorial Kapelsusz.

  1. MIRANDA, José Fernando (1985).Arquitetura da redação.7ª ed., ampliada e reformulada,

       Sagra, 3º V.

  1. OLIVEIRA FILHO, Paulo de (1987).Fundamentos da redação.SP, Lua Nova Editora.
  2. RATHS, Louis Edward; ARTHUR, Jonas; ARNOLD, M. Rothstein e WASSERMANN, Selma

       (1977). Ensinar a pensar: teoria e aplicação. 2ª ed., SP, EPU. (Tradução: DANTE MOREIRA LEITE).