REMÉDIO PARA BARATA

(Periplaneta americana)

Vianney Mesquita

Em determinada ocasião, aqui em Fortaleza, fui a um depósito de material de construção, em verdade um empório de mercadorias não comestíveis, em razão da enorme variedade de produtos, e pedi a um dos caixeiros (palavra fora de moda = balconista) algum REMÉDIO PARA BARATAS.

Incontinenti, ele, alegre e zombeteiro, me respondeu, indagando: – “Então, as bichinha do senhor tão doente?” (sic).

A pergunta produziu nas demais pessoas, de fora e dentro do balcão, um jorro de riso, pela graça realmente originada, em decorrência da falta de conhecimento – dele e de seus circunstantes – a respeito das características homonímicas e polissêmicas de termos e dicções do léxico português, fato, aliás, a tornar este código glossológico uma língua admiravelmente literária.

A surpresa e o aborrecimento, entretanto, bem depois, se dissolveram, quando cuidei do fato de aqueles compradores e caixeiros da loja constituírem um conjunto desprovido de maiores haveres informativos, com escolaridade insuficiente para o alcance daquilo por mim retrucado, ao explicar ao protagonista do chiste, evidentemente com termos diversos dos expressos à frente, o fato de ele não ter razão, pois REMÉDIO possui diversas acepções, aplicáveis na dependência de certas necessidades e circunstâncias.

Impossível é dizer, todavia, não me haja o motejo causado enfado, conforme adiantei, notadamente pelo fato de haver ocorrido publicamente. Passemos a refletir, contudo, tendo por mote este sucesso passado no depósito, a respeito de algumas significações do termo “remédio”.

Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. São Paulo: Objetiva, 2005) colheram no Fichário do Índice do Vocabulário Português Medieval, de Antônio Geraldo da Cunha (Fundação Casa de Rui Barbosa. Rio de Janeiro, 1986), o ano de1390 como o de registro do vocábulo REMÉDIO, palavra polissêmica por excelência, consoante pode ser divisado à frente.

Cumpre informar, por oportuno, o significado, em Lexicologia e Linguística, do termo polissemia, hic est, a propriedade de certas palavras e expressões denotarem bem mais de um sentido, como  ocorrente em:

–  manga –1 de camisa; 2 de farol; 3 fruta (propriedade do fruto comestível); 4 local de pastagem de animais; 5 verbo mangar; etc.;

 

– quarto – 1 posição de número quatro numa sequência; 2 correspondente a cada uma das partes da divisão de um todo (um quarto de litro); 3 aposento ou divisão da casa onde se dorme (alcova, dormitório); 4 partes laterais da região da coxa (meia bunda) etc.

– prato – 1 vasilha; 2 comida; 3 iguaria; 4 de balança; 4 de banda de música; 5 manzape; 6 guloseima, 7 notícia em voga (prato do dia) etc.

Sob o prisma da Gramática, a polissemia é fenômeno ordinário nas línguas naturais, sendo incontáveis os vocábulos expressos por seu intermédio. É diferente de homonimia, por ser a mesma palavra e não unidades de ideias com procedências diversas, as quais convergiram foneticamente.

São causas da polissemia, apontadas por Houaiss e Villar (Opus citatum):

–  empregos figurados, por metáfora ou metonímia, extensão de sentido, analogia etc; e

–  empréstimo de acepção expressa pela palavra noutra língua.

Seu étimo é do francês polysémie, procedente do grego polúsëmos, os on, – “com muitos sentidos” (grego poli- = numeroso; sema- = ato, sinal, marca + o sufixo ia).

REMÉDIO é, pois, como exprimi, noutros torneios, para o caixeiro do depósito à Avenida Jovita Feitosa, aqui na Capital, em acepção estendida, tudo aquilo – substância ou recurso – empregado não somente para combater uma doença ou fazer cessar uma dor, mas também expediente para amatar sofrimentos morais, atenuar os males da vida, eliminar uma inconveniência, um mal, um transtorno.

REMÉDIO configura um recurso, uma solução; instrumento de proteção, para auxilio ou remendo de falha ou defeito. É emenda, corretivo, “regulagem”, retificação.

Como vocábulo polissêmico por excelência, por exemplo, no campo jurídico, refere-se a uma providência para reparar um dano ou estabelecer relação de direito interrompida (“REMÉDIO jurídico”). A Penitência ou Confissão, terceiro Mandamento da Igreja Católica, é “REMÉDIO” religioso; no mesmo passo, a seção do divã do psicanalista representa “REMÉDIO” psicológico.

Na sua ampla variação sinonímica, REMÉDIO” é, ainda, droga, emenda, expediente, forma, jeito, maneira, medicamento, meizinha, curativo, penso, modo, recusa, saída, salvatório.

Por qual pretexto, então, remédio deixaria de ser veneno para acabar com as minhas saudáveis e serelepes “Periplanetae americanae” de estimação?

OBS. Peço atenção para o fato de eu não haver empregado vez nenhuma a partícula “quê”, para render homenagem ao professor. e nosso acadêmico, Itamar Espíndola, o qual era “quêfobo

NUMERAIS : GRAFIA E USO

Academia Cearense da Língua Portuguesa

Hora do Vernáculo – 29.8.2016.

 

NUMERAIS : GRAFIA E USO                                                    

                 

  1. Geralmente, não se iniciam frases com algarismos. Em tais casos, o número deve ser escrito por extenso. Exemplo: Vinte e nove anos completou minha filha. Exceção para o ano civil. Exemplo: 2015 foi um ano difícil para o país.
  2. Escrevem-se os algarismos de 1.000 em diante, usando-se o ponto, exceto na indicação do ano civil. Exemplos: Havia 45.674 torcedores na Arena Castelão. Moro na rua Princesa Isabel, 1.181. Nasceu em 1984. Estamos no ano de 2016.
  3. Na sucessão de papas, soberanos, séculos e capítulos, os números são ordinaisaté dez e os cardinais de onze em diante.

No português do Brasil, na enumeração de artigos de leis, decretos e portarias, emprega-se o ordinal até nove, daí por diante emprega-se o cardinal. Exemplos: Paulo VI (sexto); Pio X (décimo); Século IX (nono); Capítulo XXII (vinte e dois). Arts. 2º (segundo) e 3º (terceiro); Art. 10 (dez).

  1. 4. Os algarismos romanos são muito usados para esses casos acima, bem como para numerar assembleias, conferências, simpósios, encontros, congressos, etc. Cuidado com o vício de se colocar a abreviatura do ordinal (º), após o número romano.
  2. O numeral ordinal, como o nome indica, usa-se para indicar ordem ou série em que estão dispostos os seres e as coisas.Se o número anteceder o substantivo, emprega-se o numeral ordinal. Exemplos: Trigésimo capítulo, segunda sessão.
  3. Por brevidade e economia, usam-se muitas vezes os cardinais em vez dos ordinais. Exemplos: Página vinte e um em vez de “página vigésima primeira”. Moro na casa 1.985 desta rua em vez de “moro na milésima, nongentésima, octogésima quinta casa desta rua”.
  4. Segundo a Instrução Normativa nº 4, da Secretaria da Administração Federal. 6. 3.92. (Cf. D.O. de 4.3.92)“os numerais devem ser escritos por extenso quando constituírem uma única palavra (“quinze”, “trezentos”, “mil” etc.). Quando constituírem mais de uma deverão ser grafados em algarismos (“25”; “141” etc.).

Os numerais que indiquem percentagem seguem a mesma regra: a expressão “por cento” será grafada por extenso, se o numeral constituir uma única palavra (“quinze por cento”, “cem por cento”), e na forma numérica seguida de símbolo “%”, se o numeral constituir mais de uma palavra (“142%”, “57%”, etc.).

  1. “Os valores monetários devem ser expressos em algarismos, seguidos da indicação, por extenso, entre parênteses. Se o valor a ser mencionado estiver localizado no final de uma linha, não deve ser separado: o cifrão deve ser colocado em uma linha e o numeral na seguinte”.
  2. Usam-se algarismos em tabelas, relatórios econômicos, quadros estatísticos, demonstrativos, horários, etc. Empregam-se algarismos quando se indica ordem ou sequência (capítulo, páginas, folhas, modelos, canais, nomes de veículos, apartamentos, estradas, etc.). Exemplos: Canal 10; BR 222; CE 085; lápis nº 2; 2º ato; pág. 135; Apolo 7; Casa 2; Ap. 1.001.
  3. Usa-se, porém, igualmente algarismo na indicação de zonas, regiões, distritos, na indicação de resultados esportivos, na indicação de latitude e longitude, em contextos financeiros e bancários, na seriação de competições, resultados de votação, etc.
  4. 11. Quanto ao gênero,os cardinais são invariáveis, com exceção doumdois e as centenas de duzentos a novecentos. Exemplos : Uma banana;  duzentas bananas.
  5. Milhar, milhão, bilhão, trilhãosão substantivos masculinos. Os artigos e os numerais que os acompanham devem ficar, pois, no masculino. Exemplos: Um milhão participou da eleição. Os dois milhões e quatrocentas mil vítimas da guerra. Os milhares de homens. Os milhares de mulheres. Morreram dois milhares de crianças no conflito.
  6. Milhar, milhão, bilhão, trilhãopodem ser acompanhados da preposição de, quando seguidos de nome. Exemplos: Um milhão de judeus morreu (ou morreram). Os milhares de plantas.
  7. Milé numeral. O artigo e o numeral que o acompanham concordam com o substantivo que se segue. Exemplos: Os dois mil homens. As duas mil mulheres.
  8. 15.Mais demenos de exigem a concordância verbal com o numeral a que se refere. Exemplos: Mais de um conseguiu bolsa. Mais de dois conseguiram bolsa. Menos de quinze acadêmicos compareceram à sessão.
  9. Nonumeral fracionário, o verbo concorda com o numerador, segundo a maioria dos gramáticos. Exemplos: Um quinto dos eleitores preferiu este candidato. Dois quintos preferiram.
  10. Quando houvernúmero percentual, o verbo vai para o plural obrigatoriamente, se o termo especificador estiver também no plural; e preferencialmente vai para o singular, se o termo especificador estiver no singular. Exemplos: Trinta por cento dos alunos saíram. Trinta por cento da turma saiu (ou saíram).
  11. O primeiro dia do mês é indicado preferencialmente por ordinal. Exemplos: Em 1° de maio, comemora-se o Dia do Trabalho; em 1° de abril, o Dia da Mentira.
  12. Onumeral multiplicativo indica o aumento proporcional da quantidade. Exemplos: duplo (dobro, dúplice); triplo (tríplice); quádruplo; quíntuplo; sêxtuplo; sétuplo; óctuplo; nônuplo; décuplo; cêntuplo. Exemplos: A sala estava com o quádruplo da capacidade. O salto triplo. A sêxtupla aliança.
  13. Onúmero fracionário exprime parte da unidade. Exemplos: meio, terço, quarto, quinto, sexto, sétimo, oitavo, nono, décimo, onze avos, doze avos, etc De mil em diante, o fracionário tem a nomenclatura do ordinal (milésimo, milionésimo, bilionésimo, trilionésimo). Os fracionários são normalmente empregados como substantivos com exceção de meio. Exemplos: Um terço da farinha. Meia (numeral fracionário) maçã (substantivo).

Observação: Avos é um substantivo fictício tirado da terminação de oitavo.

 

“Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para as frases; o algarismo não tem frase nem retórica.”  Machado de Assis  (Crônica de 15 de agosto de 1876 )

 

Prof. Myrson Lima – Cadeira nº 14   

VALVA versus VÁLVULA

Ignoti nulla cupido (Ovídio)

Já demanda muito tempo, eu trabalhava como amanuense de uma empresa privada aqui de Fortaleza, na elaboração de atas de sessões das assembleias gerais ou reuniões da Diretoria, redação de cartas comerciais e outras peças que tais. No caso dos relatórios dessas reuniões, as acompanhava nos registros legais na Junta Comercial, para o que era necessário obedecer às exigências da Repartição, entre as quais o preenchimento dos claros de questionários – nome, endereço, número do telefone (hoje, dentro do besteirol em curso, “telefone para contato”, como se ele existisse para outra coisa), ramo de atividade, numerações de CGC e CGF etc.

Havia aprendido com meu chefe, o economista e intelectual eclético Dr. Francisco Gentil Nogueira, de saudosíssima memória, que, se o claro do formulário não permitisse resposta, este era recheado com a expressão “prejudicado”, conforme os advogados sabem decorado e de salto. Por exemplo, se o estado civil do cidadão é de solteiro, não é possível responder, na sequência, qual o regime de bens ao casamento – se comunhão universal, comunhão parcial, separação total ou separação obrigatória, tudo agora de acordo com o Código Civil de 2002.

Ocorreu, então, de o mal-educado e apedeuta funcionário deixar de receber o dossiê documental onde a empresa requeria registo, alegando que “o prejudicado é você, que não preencheu direito o formulário. Volte e conserte; não sei onde você inventou esta besteira!”

Fedelho verde e tolo em muitas ocasiões, com vinte anos de idade, não protestei nem insisti. Voltei à empresa sem proceder ao registro. Foi o suficiente para, no dia seguinte, o Dr. Gentil ir entregar pessoalmente o pacote de documentos, da maneira como estava, ao principal da JUCEC – lembro-me bem, o Dr. Rodrigo Otávio Correa Barbosa – o qual aplicou suspensão de três dias no incompetente empregado, que – então, sim – restou bastanteprejudicado.

Faz muitos anos, também (já era docente da UFC), que fui destratado pelo caixeiro de um depósito de material de construção, quando quis comprar um “remédio para baratas”, expressão absolutamente correta, bem como, noutra vez, me referi àquele calanguinho branco e cego, reportando-me à palavra briba, pois meu circunstante, um vereador à Câmara de Fortaleza e advogado (“adevogado”) me repreendeu, em uma mesa no jantar de aniversário do acadêmico doutor Arnaldo Santos, pois achava ele que o nome era “víbora”. Precisei ser duro e categórico com o teimoso e seus acompanhantes (alguns, porém, vieram em meu favor) para convencê-lo de que víbora é outra coisa, não aquela osga esbranquiçada que costuma dormir atrás dos quadros da parede, onde espera muriçocas e outros pequenos insetos para se alimentar. A respeito desses dois eventos, remeto o leitor deste escrito a duas matérias publicadas, em 18.12.2013 (Remédio para Barata) e 23.01.2015 (É Briba Mesmo!), no blog da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo (academiacearense.blogspot.com.br).

Para fechar estas notas, reporto-me a uma visita que realizei a um dos açudes sob administração do Departamento Nacional de Obras contra as Secas – DNOCS, aqui no Ceará, colhendo matéria para o Jornal Universitário(UFC), oportunidade em que, com outras pessoas, conhecemos suas instalações e equipamentos, acolitados por um dos engenheiros da Instituição, o qual nos ciceroneou por boa parte da imensa barragem – convém dizer – com apropriada capacidade narrativa. Este reservatório d’água, então, era o maior do Ceará em capacidade de volume hídrico, antes de inaugurado o “Castanhão”.

Pensando, inocentemente, no entanto, que estava agarrado em boa escora, após se referir a um equipamento importado e sem informar de que país, esse tecnólogo escorregou desastrosamente, quando foi por mim indagado acerca de onde houvera sido adquirida aquela valva, equipagem de uns oito metros de altura, tendo, assim, respondido, nitidamente tencionando me “corrigir”, espaçando oralmente as sílabas do termo equivocado “válvula”:

– “Você quer dizer esta v á l v u l a aqui da frente, não é?” – A isto respondi, também com vagar e separando na voz as duas sílabas (corretas) da palavra:

– “Sim. Tenciono saber de qual país procede esta VAL-VA – Vê-a-ele-vê-a -imensa, de exagerada altura, que está aqui pertinho de nós”. E ele, dirigindo-se às demais pessoas:

– “Esta vál-vu-la” – continuou com destaque oral, também deletreando a expressão – “foi importada da Alemanha e custou uma fortuna. É uma vál-vu-la de fabricação demorada, com tecnologia estudada há muitos anos, hoje utilizada para controle perfeito da admissão e saída d’água em diversas barragens espalhadas pelo mundo”. (Como se pudessem ficar amontoadas).

As pessoas que ali estavam, quase todas de formação universitária, quer conhecessem ou não os dois vocábulos, notavam a disputa, umas pensando que ele estava correto e outras na certeza de eu estar certo. Aí apareceu a vontade de explicar-lhe em público, como o fiz com o caixeiro do remédio para barata e o “adevogado” da briba, há pouco mencionados. Urbanizadamente, entretanto, me contive e aproveitei-me de uma ocasião em que ele se atrasou para retirar uns carrapichos aderidos as suas calças para dizer-lhe, sem ninguém da turma ouvir, evidentemente com outras expressões, o que exprimo agora para os leitores:

Em Língua Portuguesa, nas flexões de grau, há os aumentativos e diminutivos analíticos e sintéticos. Para não me tornar paulificante na explicação, bastante é dizer que, no concernente aos diminutivos sintéticos, estes se fazem por intermédio dos sufixos -ebre, -ejo, -ete, -eto, -ito, -ote, -ucho, – ULO e , principalmente, -inho e –zinho, assim: casebre, lugarejo, corpete, folheto, franguito, filhote, papelucho, válvULA (diminutivo sintético de VALVA), bichinho e riozinho.

Com efeito, não pode existir válvula grande, de oito metros, por exemplo, pois VÁLVULA é uma VALVA pequena, menor do que aquelas usadas nos radiotransmissores fabricados antes da descoberta dos transístores (TRANSfer+resISTOR), em 1947 e de sua popularização dos anos 1950 em diante. Válvula (valva pequena = diminutivo analítico), por conseguinte, é o diminutivo sintético de VALVA. E eis que ele restou convencido e, decerto, agradecido por não haver sido exposto ao ridículo, como intentou me exibir.

Pelo fato de hoje, em especial na Eletrônica, só se usarem valvas pequenas, as pessoas mais na idade, que conheceram as ditas peças nos rádios fabricados antes dos equipamentos radiofônicos transistorizados, chamam as válvulas, equivocamente, de valvas. Por semelhante pretexto, o engenheiro protagonista desta crônica denomina válvula uma equipagem de oito metros de altura, talvez por não ter conhecido as primeiras, pensando que inexiste a unidade de ideia valva.

Com efeito, convém prestar atenção no aforismo expresso pelo autor latino das Metamorfoses, Públio Ovídio Nasão, configurado em IGNOTI NULLA CUPIDO – “ao ignorante nenhum desejo”, igual a “não tente expressar aquilo que não conhece”.

Em bom Português: não se meta com o que não sabe!

Emprego do hífen

“A ortografia também é gente. A palavra é completa, vista e ouvida, e a gala da transliteração greco-romana veste-na do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.” (Fernando Pessoa)

Observações gerais:

a)O hífen é um sinal diacrítico (-) empregado para dividir sílabas em final de linha para ligar elementos das palavras compostas por justaposição (curto-circuito; banana-prata; banho-maria; franco-atirador; agro-doce; para-raios; afro-luso-brasileiro) e para unir pronomes átonos a verbos (amá-lo; telefonar-lhe; realizar-se-á; fá-lo-íamos)

b)Diacrítico é o sinal gráfico que se apõe a uma letra ou a um vocábulo para se indicar um valor fonológico especial, como o cedilha, os acentos agudo, circunflexo e grave, o trema e o hífen.

c)Não se emprega em geral o hífen nas locuções se houver algum elemento de ligação (fim de semana, mão de obra, fogão a gás,água de coco) e em certos compostos, em que se perdeu a noção de composição (paraquedas, mandachuva, pontapé, madrepérola, madressilva, girassol, passatempo, varapau).

d)Usa-se geralmente hífen quando um dos elementos da palavra composta ou derivada tiveracento ou til, como pré-; pós-; pró-; além-; recém-; aquém; grão-; grã-. Exemplos: pré-operatório; pós–graduação; pró-Brasil; além-mar; recém-nascido; aquém-Pireneus; grão-duque; Grã-Bretanha.

e)São hifenizados elementos repetidos com ou sem alternância vocálica ou consonântica. Exemplos: blá-blá-blá; fecha-fecha; pingue-pongue; ruge-ruge; zás-trás; bum-bum (som de tambor)

f)Usa-se hífen nos topônimos compostos porforma verbal ou aqueles cujos elementos estejam ligados por artigo. Exemplos: Passa-Quatro, Quebra-Dentes (SC); Baía de Todos-os-Santos. Entre-os-Rios, Trás-os-Montes.

g)São hifenizados os gentílicos derivados de topônimos compostos. Exemplos: belo-horizontino; mato-grossense-do-sul; pedro-segundense; são-gonçalense; juazeirense-do-norte.

HÍFEN COM PREFIXOS

 Regra nº 1. O hífen usa-se nos prefixos, quando a palavra seguinte começa por “h”. Não se emprega, porém, quando a palavra começa por “r” ou “s”, devendo essas consoantes duplicar-se. Exemplos: anti-herói; super-homem; a-histórico; antessala; autorretrato; antissocial; antirrugas; arquirraivoso; contrarrazões; contrarregra; contrassenso; megassena; minissérie; suprarrenal; ultrassonografia.

 Regra nº 2. Usa-se o hífen quando o prefixo é terminado por uma vogal e a palavra seguinte é iniciada pela mesma vogal Exemplos: anti-inflamatório: anti-inflacionário: arqui-inimigo; infra-axilar; macro-organização; micro-ondas.

 Regra nº 3. Se a última letra do prefixo for uma consoante idêntica à consoante do início dovocábulo seguinte, haverá hífen. Exemplos: sub-bibliotecário; hiper-rugoso; super-rápido.

 Regra nº 4. O hífen não é mais utilizado em palavra formada de prefixo terminado em vogal

seguida por palavra iniciada por vogal diferente. Exemplos: antiaéreo; autoajuda; autoescola,

contraindicação; contraordem; extraescolar; infraestrutura; intraocular; intrauterino; neonazismo;neoimpressionismo; semiaberto; semiárido; semiaculturado.

CASOS ESPECIAIS

Sempre recebem hífen, quando houver os prefixos: ex- vice- e sem-. Exemplos: ex-chefe; ex-secretário; vice-diretor; sem-terra, sem-família.

Usa-se hífen nas palavras compostas por justaposição cujos elementos constituem uma unidade sintagmática e semântica. Exemplos: ano-luz; azul-claro; médico-cirurgião; tenente-coronel; engenheiro-agrônomo; conta-corrente; turma–piloto; decreto-lei; edifício-sede; mesa-redonda; cachorro-quente; beira-mar; editor-chefe; diretor-presidente; diretor-executivo; diretor-superintendente; diretor-secretário; sócio-gerente; empresa-fantasma.

Usa-se hífen nas palavras compostas formadas por numerais ou pelo adjetivo “geral”;. Exemplos: primeiro-secretário, segundo-tenente; primeira-dama; segunda-feira; diretor-geral, relator-geral, ouvidor-geral; procurador-geral; advocacia-geral; secretaria-geral.

Usa-se hífen nos compostos em que o segundo elemento é um adjetivo pátrio e a palavra envolve mais de uma nacionalidade, região de origem ou etnia. Exemplos: afro-brasileiro; anglo-saxão; euro-asiático; luso-brasileiro; ibero-americano.

Não se usa hífen nas palavras compostas por justaposição, quando o segundo elemento é um adjetivo que denota os diversos graus de uma carreira. Exemplos: professor titular; professor adjunto; professor assistente; diretor administrativo; diretoria social; auxiliar técnico; consultor jurídico; gerente financeiro.

 

Não se emprega o hífen nos compostos por justaposição em que existe elemento ligação, exceto nos que designam espécies de plantas, flores, frutos, raízes, sementes ou espécies zoológicas. Exemplos: pé de moleque; folha de flandres; cão de guarda; azeite de dendê; cor de vinho; pôr do sol; dia a dia; brigadeiro do ar; dona de casa; mal de gota; ponto e vírgula; quarto e sala;bem-te-vi; porco-do-mato; ipê–do-cerrado; fava-de-santo-inácio. Exceções: água-de-colônia;arco-da-velha; cor-de-rosa; mais-que-perfeito; pé-de-meia; ao deus-dará; à queima-roupa.

Nos vocábulos compostos por aglutinação, o hífen permanece. Exemplos: fins-d’água; estrela-d’alva; pai-d´égua; olho-d’água.

Sub recebe hífen, se o vocábulo seguinte começar por ‘h’, ‘b’ ou ‘r’. Exemplos: sub-hélice; sub-base; sub-raça; sub-humano; sub-humanidade. Aceitam-se também subumano;subumanidade.

Mal recebe hífen, se a palavra seguinte começa por “h”, “vogal” ou “l” Exemplos: mal-humorado; mal-educado; mal-estar; mal-limpo; malcriado; malmequer.

Bemrecebe hífen nos compostos sem elemento de ligação. Exemplos: bem-criado; bem–falante; bem-vindo; bem-aventurado; bem-estar; bem-humorado; bem-me-quer. Quando o advérbio bem aparece aglutinado com o segundo elemento, não há hífen. Exemplos: benfeito;benfazejo; benfeitor; bem-querer ou benquerer; bem-querença ou benquerença.

Na formação com os prefixospan- e circum- , haverá hífen se o segundo elemento começar por h, vogal, m ou n. Exemplos: pan-helenismo, pan-americano, pan-mítico, pan-negritude, circum-hospitalar, circum-escolar, circum-meridiano, circum-navegação, no entanto pan-Brasil; pambrasileiro; pambrasileirismo. (Encarte de correções e aditamentos da 5ª.ed.do VOLP)

Com os prefixosco-, re-, pre-, (sem acento), pro- (sem acento) nunca haverá hífen, mesmo se o vocábulo seguinte começar por “h’”. Exemplos: coerdeiro; coautor; coerança; cosseno; reexame; reenvio; preexistência; preeleger; procônsul; provigário-geral.

Não e quase, quando empregados com função prefixal, não recebem hífen. Exemplos: tratado de não agressão; não violência; não fumante; quase irmão; quase contrato.

Existe hífen nos vocábulos formados pelos sufixos – açu (grande); – guaçu (grande); – mirim(pequeno), quando o exige a pronúncia (capim-açu) ou quando o primeiro elemento acaba em vogal acentuada graficamente (Acaraú-mirim; Pará-mirim; Amoré-guaçu; tatuaçu).
Emprega-se o hífen para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam formando encadeamentos vocabulares. Exemplos: a ponte Rio-Niterói; o percurso Lisboa-Coimbra-Porto; a estrada Rio-Santos; a ligação Fortaleza-Recife.

Exercício de fixação: confira as letras em que ocorreu erro (marcado em negrito):

() mini-hotel; semiescravo; sub-raça; subestação; anticristo; cata-vento

() anti-inflacionário; radiorreceptor; socioeconômico; subsolo; obra-prima

() microondas; autoajuda; ultrassom, sócio-gerente; paraquedas; finca-pé

() circum-ambiente; hiper-realista; cosseno; anti-Sarney; pan-Brasil

( ) antissequestro; coeducação; defensor público; porco-do-mato

() agronegócio; radiorrelógio; subcomandante; pré-natal; professor adjunto

g .( ) eurocomunista; coprodutor; coerdeiro; contrassinal; grã-fina; subchefe

h .( ) contra-ordem; conta-corrente; supersônico; corréu; radio-cassete

( ) suprassumo; megaoperação; procurador-geral adjunto; biorritmo

( ) antessala; semioficial; conta-gotas; radiotáxi; maria vai com as outras

() megassalário; microssistema; bielorusso; decreto-lei; suboficial

( ) megassena; circum-navegação; autoescola; ti-ti-ti; pambrasileiismo

m.( ) poli-infecção; pan-negritude; pan-americano; fins-d´água; sem-número

() autoelogio; autossuficiente; ex-vice-primeiro-ministro; beira-mar; malmequer

() direção-geral; procurador-chefe; aerossol; preexistir; mal-educado

() projeto-piloto; subsecretário; afrodescendente; afro-brasileiro; anglo-saxão

() intrauterino; cor-de-rosa; neorreitor; blá-blá-blá; alto-astral; café com leite

() supersecretário; café da manhã; comum de dois; advocacia-geral da União

() água-de-colônia; dia a dia; diretor-secretário; ponto-final; ponto e vírgula

( ) neossocialismo; inter-racial; contraindicação; infantojuvenil; feijão-verde

() água de coco; fim de semana; aerossol; pai-d’égua; vaga-lume; tique-taque

() cor de vinho; à queima-roupa; sub-hélice; mal-estar; mega-hertz; antissocial

w.( ) pé-de-meia; ano-base; azul-celeste; supersônico; mau-caratismo; má-fé

() estrela-d´alva; perfurocortante; mesa-redonda; norte-rio-grandense

() reenviar; professor assistente; preto-e-branco; belo-horizontino; carro-pipa

() tim-tim; antiaéreo; bem-vindo; Benvindo; semiárido; matéria-prima; zás-trás.

Referências bibliográficas

– ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário ortográfico da língua portuguesa. 5.ed. Rio de Janeiro, Global Ed., 2009.

– ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Dicionário escolar da língua portuguesa. 2.ed.São Paulo, Companhia Editora Nacional, 2008.

– ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Encarte de correções e aditamentos à 5ª.ed. Fonte: internet.

– LIMA, Myrson. O essencial do português.7.ed.Fortaleza, Editora ABC, 2008.

Estrangeirismos:

Entre a assimilação acrítica e a rejeição peremptória

Italo Gurgel – Cadeira nº 17

“Você entra na fanpage da Rádio Beach Park, no Facebook, e envia sua playlist de sete hits musicais.” O recado é transmitido, toda tarde, repetidamente, pelo locutor daquela emissora.

O uso de estrangeirismos sempre motivou polêmicas. Apesar de aceitos passivamente pela maioria da população, há quem considere que os empréstimos linguísticos ameaçam a soberania da língua portuguesa, podendo empobrecê-la e dificultar a comunicação.

Não obstante a resistência, expressões alienígenas nunca deixaram de ser empregadas nos mais diferentes cenários e níveis do discurso. Isto é “bom”, ou é “ruim”? – Eu diria que isto é natural em alguns contextos; ridículo, em outros.

A incorporação de vocábulos estrangeiros a determinada língua é fenômeno ditado por contingências políticas, econômicas, geográficas e culturais. Decorre da dominação, explícita ou disfarçada, de um povo sobre outro.

Em Portugal, berço de nossa dulcíssima e sonora língua, assistiu-se, ao longo dos séculos, a sucessivas mudanças do padrão linguístico dominante, ciranda ditada pelos fatos históricos, socioculturais e políticos, modismos e avanços tecnológicos. As línguas celtas dos primórdios dobraram-se um dia ao Latim vulgar. Posteriormente, este acolheu influências mouras, plasmando-se mais tarde o português arcaico e, por fim, o português moderno, que guarda herança de todas as suas raízes.

Hoje, em Portugal como no Brasil, Angola, Moçambique e em todo o mundo lusófono, o Português sofre influência maciça do Inglês, em razão do poder econômico e ascendência cultural que os Estados Unidos exercem sobre boa parte do planeta, desde o término da 2ª Guerra Mundial. Em Portugal e em suas antigas colônias africanas, também não é desprezível a influência das novelas de televisão, que terminaram introduzindo gírias brasileiras no falar cotidiano, especialmente entre os segmentos mais jovens da população.

No Brasil, até onde se pode recuar no tempo, a contaminação mais forte sofrida pelo Português veio da Língua Geral, ou Língua Brasílica, do tronco Tupi, falada pelos colonos portugueses, durante muito tempo, em uma grande extensão da faixa litorânea. Adotada pelos Jesuítas, que a utilizaram no trabalho de catequização, ela acabou fragilizando-se e hoje é considerada extinta.

Desapareceu, mas deixou sonora contribuição, em especial no vocabulário ligado à fauna, alimentos e topônimos. Se examinarmos a lista das cidades cearenses, encontraremos: Abaiara, Acarape, Acaraú, Acopiara, Aiuaba, Apuiarés, Aquiraz, Aracati, Aracoiaba, Ararendá, Araripe, Aratuba, Assaré… 13 topônimos, somente na letra “A”.

Lembremos, igualmente, as influências africanas, que começaram a ser incorporadas quando o primeiro navio negreiro cruzou o Atlântico Sul: abadá, caçamba, cachaça, cachimbo, caçula, candango, canga, capanga, carimbo, caxumba, corcunda, dengo, fubá, macaco, maconha, macumba, marimbondo, miçanga, moleque, quitanda, quitute, tanga, xingar, banguela, babaca, bunda, cafundó, cambada, muquirana, muvuca…

O que pensar dessa contribuição? – Prefiro encará-la exatamente como isto: uma contribuição, um somatório, aporte enriquecedor, que veio tornar nossa língua mais exuberante, mais parecida com a nossa cara, ou seja, mais representativa da variedade ética e cultural que caracteriza a Nação brasileira. A miscigenação linguística aconteceu pari passu com a mistura de raças, o que somente fortaleceu a identidade nacional.

Em etapa posterior às influências indígena e africana, deu-se o desembarque dos galicismos. Buscando datar o início da presença, entre nós, de traços da francofonia, talvez possamos retroceder à época da Revolução Francesa, que teve forte impacto no processo de independência. Mais tarde, a “invasão” acentuou-se, através das sucessivas missões artísticas e científicas que visitaram o Brasil durante o Império. Finalmente, os eflúvios da belle époque vieram incorporar mudanças na arquitetura, na moda, nos costumes… e no vocabulário.

São abundantes as marcas do Francês em nossa língua. Podemos até agrupar esses empréstimos por área:

Arte e decoração: Avant-première, apothéose, ballet, crépon, crochet, croquis, corbeille, doublé, guirlande, hors-concours, marchand, marionnette, matinée, maquette, mise-en-scène, passe-partout, papier mâché, reprise, tournée, tricot, troupe, vernissage.

Cores: Bordeaux, beige, carmin, dégradé, fumé, lilas, marron, ton sur ton.

Esportes: Grand-prix, pivot, raquette.

Gastronomia: À la carte, buffet, baguette, bonbonnière, canapé, croissant, croquette, champignon, champagne, chantilly, couvert, crêpe, escargot, filet, frappé, glacé, garçon, mousse, menu, maître, omelette, pastel, purée, petit gâteau, pâté, rôtisserie, réchaud, rosé, sauté, soufflé.

Locais, móveis e objetos: Atelier, abat-jour, bouquet, bibelot, bidet, canapé, carnet, chalet, divan, cache-pot, crèche, guichet, garage, souvenir, toilette.

Moda e vestuário: Bustier, boutique, cache-col, chic, écharpe, godet, lingerie, maillot, maquillage, mousseline, nécessaire, organdi, pochette, prêt-à-porter, plissé, rouge, robe, soutien.

Sexo e prostituição: Bas-fond, boîte, cabaret, château, madame, ménage-à-trois, miché, travesti.

Transportes: Chauffeur, charrette, châssis, coupé, guidon, métro.

Movimento operário: Grève, sabottage.

Nos dias atuais, podemos considerar que os galicismos já foram assimilados, muitas vezes, com grafia e pronúncia adaptadas ao Português. Provavelmente, eles nunca encontraram resistência, até porque, desde o início, agregavam matizes daquele charme que Paris irradia. Utilizá-los emprestava, ao falante, distinção, finesse.

Cabe indagar o motivo da resistência que se percebe diante dos anglicismos. Afinal, empréstimos linguísticos não se constituem em novidade. Aqui, apenas mudou a origem geográfica e a sonoridade dos termos importados.

Na Universidade Federal de Mato Grosso, o tema inspirou dissertação de Mestrado, sob o título “Presença e uso de anglicismos no cotidiano brasileiro – a visão de pessoas comuns”. Em seu estudo, a mestranda Olandina della Justina observa, de um lado, uma maxivalorização dos termos anglófonos, ditada pela busca de identificação com “o outro” – no caso, uma civilização supostamente mais desenvolvida e com um status social e econômico superior. Trata-se de um “apelo esnobe”, marcado pela conformidade a um padrão de prestígio usufruído pela língua inglesa e seus falantes.

Em outra vertente, haveria forte influência dos veículos de comunicação, vistos como agentes disseminadores dos anglicismos. O vocabulário do locutor da Rádio Beach Park corrobora esta interpretação. Nos jornais e emissoras de rádio e TV, o uso contumaz do termo impeachment, em lugar de “impedimento”, denota a mesma opção preferencial pelo “produto importado”.

No contrafluxo dessa influência, tão passivamente acatada, surge uma corrente inspirada pela crítica ao imperialismo norte-americano, corrente que explora o sentimento nacionalista, interpretando a assimilação dos termos anglófonos como subserviência e aceitação acrítica da massacrante presença dos Estados Unidos em nosso País, através dos agentes econômicos, da música, do cinema, dos produtos industrializados, da gastronomia (se é que sandwich, hot dog e Coca Cola são itens gastronômicos!).

Alguns anglicismos foram aportuguesados – e até dicionarizados – como futebol, piquenique, pôquer… Aparentemente, não houve esforço, no passado, para substituí-los por termos locais. Ou então, as traduções propostas não vingaram. É o caso, em época mais recente, da invasão de expressões ligadas ao universo da informática: backup, blog, browser, chat, chip, download, drive, e-book, home page, link, megabyte, modem, mouse, on-line, scanner, site, underline, upgrade, wireless… A inexistência de termos que correspondam, em Português, a essas inovações levou a sua assimilação imediata.

O mesmo teria acontecido com o vocábulo drive-thru, que a grande maioria dos brasileiros é incapaz de pronunciar, e que designa uma inovação no mundo do comércio. Utilizado por farmácias e franquias de fast food, como McDonald’s e Habib’s, o drive-thru permite que o cliente, utilizando uma faixa especial de circulação, possa ser atendido sem sair do carro. O motivo de se manter, no Brasil, o nome que esse modelo de atendimento recebe em sua origem é o mesmo que leva qualquer língua, em qualquer lugar do planeta, a incorporar vocábulos estrangeiros que designam objetos e técnicas até então desconhecidos.

Exemplifiquemos o fenômeno: na língua indonésia, o termo que traduz “bandeira” é bendera (herança deixada pelos navegadores portugueses do Século XVI). Também no Indonésio, “mesa” se chama tabel (flagrante influência do inglês, incorporada quando os britânicos ali desembarcaram com aquele móvel, então uma novidade no arquipélago).

Situação diferente é quando empregamos vocábulos importados, em lugar de expressões do léxico português dicionarizadas e conhecidas por todos. São exemplos de termos invasivos, garimpados no vocabulário do comércio: delivery, ao invés de “entrega”; sale, usurpando o lugar de “liquidação”; 40% off, substituindo 40% “de desconto”.

Aqui, temos uma manifestação notória de anglofilia. Chamar adolescente de teen e espaço para crianças, de espaço kids; apelidar o intervalo do café de coffee-break, são atitudes que denotam deslumbramento – senão, pobreza de espírito – diante de uma espécie aviltante de invasão cultural. Estrangeirismos funcionais são bem-vindos em qualquer língua. Já a fetichização do inglês é sintoma de fragilidade cultural e carência de aas potências hegemônicas passaram a experimentar uma sobrevida cada vez mais breve. Hoje, o cenário político e econômico mundial se transforma em ritmo vertiginoso. Assim, é possível que o domínio norte-americano, de apenas 70 anos, esteja com os dias contados. Quem sabe, a próxima geração de brasileiros venha a confrontar-se com uma nova realidade. Diante da expansão econômica da China, pode acontecer que, dentro de alguns anos, ou em poucas décadas, tenhamos que incorporar, a nossa linguagem cotidiana, numerosos e intricados termos do… Mandarim.

Ortoepia

O termo ortoepia vem do grego (orthos, correto e épos, palavra). É, segundo Mattoso Câmara Júnior, a parte da gramática normativa que, levando em consideração o uso culto, a pronúncia tradicional e os traços fonológicos relevantes, determina e prescreve no âmbito da fonologia de uma língua a escolha entre as variantes livres dos fonemas (fazer, com um nítido /r/ pós-vocálico vibrante), a nitidez da articulação dos grupos vocálicos e consonânticos (inteirar, com o ditongo /ey/ nítido), os tipos de ligação que se devem fazer ou evitar (mal-estar, pronunciado com ligação /malestar/), as modalidades condenáveis de metaplasmo (próprio, sem a síncope do segundo /r/ ).

A ortoepia, grafia consagrada pela NGB, ou ortoépia, forma adotada por Mattoso e muitos gramáticos, faz parte, juntamente com a prosódia (que indica a tonicidade da sílaba), da ortofonia, capítulo da Fonética.

Eis alguns exemplos de vocábulos, que são comumente objeto de dúvida ou de desvio da pronúncia culta: ab-rogar (anular, suprimir); abóbada; abóbora (e não abobra); absolutamente; acerbo (é), apud Bechara – rigoroso, severo, duro; adaptar; adrede (ê); advogado; adivinhar; admirar; aleijado; amor; apodo (ô) – alcunha, apelido engraçado ; bandeja; bandejão; bebedouro; beneficência; beneficente; bodas (ô): bugiganga; caderneta; cantar; cabeleireiro; calvície (e não calvice); camundongo; canoro (ó); caranguejo; convalescença; cabeçalho; cateto (ê); cepo (ê) – pedaço de tronco de árvore; cepa (ê) – videira; cerebelo (ê) – parte do sistema nervoso; cérebro, (e não célebro); cetro (é); cinquenta; coldre (ó), segundo Aurélio; companhia; corno (ô), cornos (ô ou ó); cumbuca; decepcionado; desinteirar; delinquir (ü); disenteria; digno; digladiar; distinguir (e não distingüir); dolo (ó), segundo Aurélio; em que pese (ê) a – vogal fechada ( aconselha Evanildo Bechara); espécie (cii); estupro (estrupro = estrondo); empecilho; entreter (e não enterter); exangue (u não pronunciado); extinguir (u não pronunciado); fecha (ê); filantropo (ô); foro (ô); fórum (ó); fortuito; freada; gratuito; grelha (ê), segundo Aurélio; grosso (ó) modo (do); hilaridade (e não hilariedade); imprega (e não impreguina); indefesso (é) – infatigável; inexorável (x = z); inodoro (ó); iogurte (e não iorgute); intoxicado (cs); jabuticaba; lato sensu; meritíssimo; mesmo (e não mermo); meteorologia (e não metereologia); mortadela (e não mortandela); molosso (ô) – cão; obcecado (e não obicecado); misantropo (ô); muito; mulher; murchar; odre (ô); ouro; opa (ó) – capa; palimpsesto (ê)- papiro raspado novamente; paralelepípedo; paredro (é)- mentor, conselheiro; Peru (e aberto) – país; peru – ave; pneu; pontiagudo; propriedade; proprietário; psicologia; psicotécnico; privilégio; prostrado; queijo; redarguir (ü); reivindicar; retrógrado; sobranceira; registro (e não rezistro); ritmo; roubar; série (ii); superstição; sintaxe (x=ss); subsídio(ci); tábua; terçol; tóxico (cs); torso (ô) – busto ; trouxe; urbi et orbi (etórbi); virtuose (ô); xifópago (que apresenta duplificação do tórax).

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, (5ª.ed. 2009, Ed.Global), publicação da Academia Brasileira de Letras, consagra palavras com dupla pronúncia. Exemplos: aborígine, aborígene; ab-rupto, abrupto; acervo (ê ou é); algoz (ô ou ó), algozes (ô ou ó) ; ambidestro (ê ou é); avôs – os homens; avós – o casal; badejo (ê ou é); braguilha ou braguilha; cerda (ê ou é) – fios de que se fazem vassouras, etc; coeso (ê ou é); destra (ê ou é); efebo (ê ou é) – jovem, mancebo; entrevero (ê) – confusão entre pessoas, mistura; escaravelho (ê ou é) – vira-bosta; extra(s) (ê); Fênix (s ou cs); grumete (ê ou é); hexagonal (cs ou z); impigem ou impingem; interesses (ê ou é); máximo (ss ou cs); máxime (cs ou ss); obeso (é ou ê); obsoleto (é ou ê); poça (ô ou ó); subsistir (si ou zi); subsistência (si ou zi); traslado ou translado.

Há palavras que mantêm a mesma pronúncia, quando usadas no plural. Exemplos: acordo, acordos; algoz, algozes; almoço, almoços; bolha, bolhas; caolho, caolhos; corso, corsos; corvo (ô) – corvos; crosta (ô), crostas; engodo, engodos; esboço, esboços; estorvo, estorvos; molho (ô) – (tempero culinário); molhos; molho (ó), segundo Houaiss – pequeno feixe, molhos (ó); probo (ó), probos; rosto, rostos; rolo, rolos; Porto, Portos (ô) – nomes personativos; Socorro (ô) – Socorros (ô) – nomes personativos; suborno, subornos.

Existem palavras que passam a ter som aberto no plural, fenômeno chamado de metafonia. Exemplos: abrolho, abrolhos; caroço – caroços; coro – coros; despojo, despojos; desporto, desportos; destroço, destroços; fogo, fogos; forno, fornos; gostoso, gostosos; grosso, grossos; miolo, miolos; morno, mornos; reforço, reforços; poço, poços; porto, portos; povo, povos; rogo, rogos; tijolo, tijolos; socorro, socorros (ó); tijolo, tijolos; torto, tortos; troço (ô) (pedaço de madeira), troços; tropo (ô) (figura literária), tropos.

O afastamento do uso culto e tradicional conforme os ditames da ortoepia é chamado de cacoepia ou cacoépia.

O fato de a ortoepia tratar da pronúncia consagrada pela gramática normativa não significa absolutamente a estigmatização da variante popular perfeitamente aceitável e, muitas vezes, expressiva em determinadas situações de comunicação. A esse propósito, com muita sabedoria Oswald de Andrade registrou a linguagem espontânea e gostosa das pessoas simples e trabalhadoras:

Vício na fala

Para dizerem milho dizem mio

Para melhor dizem mió

Para pior pió

Para telha dizem teia

Para telhado dizem teiado

E vão fazendo telhados.

Oswald de Andrade

(Caderno do aluno de poesia. Globo, 2006)