Hora do Vernáculo – A defectibilidade do verbo CABER

MARCELO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 18

Antes de iniciarmos a análise sobre a possibilidade de se considerar, diferentemente das gramáticas normativas, o verbo CABER como defectivo, atenhamo-nos à origem da palavra defectivo.

Defectivo vem do Latim DEFECTIVUS de DEFECTUS (falha, fraqueza) – particípio passado de DEFICERE – DE prefixo (separação) + FACERE (fazer).

De acordo com a Norma, são chamados de defectivos os verbos que não apresentam conjugação completa. Isso ocorre especialmente no presente do indicativo e nos seus derivados: presente do subjuntivo e imperativo. A maioria das gramáticas distribuem os verbos defectivos em três grupos, assim classificados:

1º Grupo – verbos que não apresentam a primeira pessoa do singular do presente do indicativo como abolir, colorir, extorquir, explodir

2º Grupo – verbos conjugados apenas nas formas arrizotônicas do presente do indicativo na primeira pessoa do plural e na segunda pessoa do plural como adequar, falir, precaver-se, remir …

3º Grupo – verbos unipessoais e impessoais como miar, coaxar, chover, trovejar…..

Observação – alguns gramáticos apresentam os unipessoais e os impessoais como sendo o 1º grupo.

Exemplo de conjugação dos defectivos de 1º e 2º Grupos

        COLORIR                             ADEQUAR

Presente do Indicativo       Presente do Indicativo

Eu—–Eu——–
TucoloresTu———-
ElecoloreEle———–
NóscolorimosNósadequamos
VóscolorisVósadequais
ElescoloremEles———-


Quanto ao imperativo, os verbos do primeiro grupo poderão ser conjugados no afirmativo na segunda pessoa do singular tu e na segunda pessoa do plural vós, mas não no negativo, visto que o negativo se conjuga de acordo com o presente do subjuntivo sem a primeira pessoa. Já os verbos do segundo grupo apresentarão a conjugação no imperativo afirmativo apenas da segunda pessoa do plural vós. Assim fica a conjugação:

              COLORIR                                                         ADEQUAR

Imperativo  Afirmativo                                     Imperativo Afirmativo

colore

Tu

——–

Tu

———–

Você

——-

Você

———–

Nós

——-

Nós

colori

Vós

adequai

Vós

———–

Vocês

——-

Vocês


Feita essa explanação acerca dos verbos defectivos, poderemos agora entender a defectividade do verbo CABER. Consoante o conceito de defectividade, a Gramática Normativa expõe que os verbos defectivos são aqueles que não apresentam conjugação completa. Essa não conjugação  completa se dá por certos motivos como eufonia (colorir), homofonia (falir) e também pela relação semântica do verbo. É exatamente nessa relação semântica que o verbo irregular CABER poderia também ser classificado como defectivo.

O verbo CABER apresenta conjugação completa no presente do indicativo e, consequentemente, no presente do subjuntivo (tempo derivado da primeira pessoa do presente do indicativo). No entanto, não se conjuga no imperativo afirmativo nem no negativo, embora o imperativo afirmativo seja derivado das 2ª pessoas do singular e do plural do presente do indicativo e o imperativo negativo seja conjugado a partir do presente do subjuntivo sem a primeira pessoa. E isso se dá por qual motivo? Na verdade, pela semântica do verbo. Não há como mandar alguém caber em algum lugar, ou suplicar para que alguém caiba em algum lugar. A ausência da conjugação, no referido modo, não ocorre pelo não uso, como acontece, por exemplo, com o verbo PODER, o qual permite o emprego do imperativo pela sua diversidade semântica, mas não pela ideia de sentido.

Observemos a conjugação do verbo CABER no presente do indicativo e no presente do subjuntivo

                  Presente do Indicativo                            Presente do Subjuntivo

Eu

caibo

Eu

caiba

Tu

cabes

Tu

caibas

Ele

cabe

Ele

caiba

Nós

cabemos

Nós

caibamos

Vós

cabeis

Vós

caibais

Eles

cabem

Eles

caibam

Do aumentativo e do diminutivo

MYRSON LIMA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 14

Aumentativo – Diz-se do grau que acrescenta ao substantivo o caráter de aumento de dimensões. Indica geralmente tamanho, mas pode apontar também disformidade, brutalidade, falta de medida, desprezo, afeto. Emprega-se geralmente o sufixo – ão para o masculino e o sufixo – ona para o feminino: garotão, garotona; xerifão, xerifona. Outros exemplos: cavalão, gavetona, janelona, livrão.

Às vezes, o sufixo -ão é anexado a palavras femininas: cabeça-cabeção; caldeira-caldeirão; casa-casarão; loja-lojão; mulher-mulherão; porta-portão.

Alguns aumentativos, bem como os diminutivos, tendem a separar-se da palavra primitiva a tal ponto que o falante já não recorda sua procedência. Exemplos: barranco (de barro), montanha (de monte), peanha (de pé).

Alguns aumentativos apresentam forma especial sem o – ão, nem o – ona:

cabeçorra; bocarra; brancarrão; mulheraça; vozeirão.

Diminutivo – O substantivo, quanto ao grau, se flexiona em aumentativo e diminutivo. Existem    vários sufixos  para formar    o diminutivo. O mais frequente é o sufixo – inho  ( livrinho, portinha, Mateusinho) e  sua variante – zinho, usado com os vocábulos terminados em consoante (lugarzinho), nasal (nuvenzinha) ou vogal tônica (cafezinho).

Note-se quando o substantivo termina pela letra m, (como ocorreu em nuvem do exemplo acima), substitui-se essa letra pelo n.

Outros exemplos de diminutivos: coisinha, lapisinho, gatinho, bonequinho; cãozinho, pazinha, irmãozinho, fezinha, relampogozinho.

O diminutivo às vezes denota também carinho ou desprezo (paizinho, jornaleco). Há diminutivos que se desgarraram do étimo latino e se constituem novos substantivos com um significado especializado. Exemplos: glóbulo (de globo); ventrículo (de ventre); película (de pele); furúnculo (de furo); úvula (de uva); módulo (de modo); clavícula (de clave); porciúncula (de porção).

(Do livro “Português e algo mais para o dia a dia” a ser publicado depois da pandemia)

S.O.S Português de A a Z

SEBASTIÃO VALDEMIR MOURÃO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 19

almoços (ô) ou almoços (ó)– Este nome não aceita metafonia, ou seja, mudança de timbre no plural, portanto pronuncie com som fechado (ô) tanto no singular como no plural.

1) “Alguns preferem o Domingo, um dia mais fechado, mais familiar, pontuado de missas, pijamas, almoços solenes e avaliações.” (Juarez Leitão. Sábado estação de viver. p. 19, 2000).

2) (…) “outras festas e comemorações, eram festejadas com almoços e jantares sempre muito alegres…” (Regina Pamplona Fiuza, O Pão da Padaria Espiritual. p. 49, 2011).

Dicionário do Português da rua

belisco / abanar a cara

belisco – sm. – Diz-se de algo em pouca quantidade; o mesmo que beliscão; ato de comprimir a pele do outro com as pontas ou os nós dos dedos ou com as unhas, provocando dor intensa; 1ª pessoa do presente do indicativo do verbo beliscar; ato ou efeito de beliscar(-se); pessoa ou coisa muito pequena.

1. Quando pensei em comer do bolo, achei só um belisco.

2. Quando olhei para o berço, que vi aquela criaturinha tão pequena, disse: meu Deus, é um belisco de gente!

abanar a cara – Ameaçar alguém; agitar a mão à altura do rosto do outro como forma de ameaça.

1. Deu uma de valentão, abanando a cara do outro.        

2. Nunca abane a cara de um homem, se não tiver como se defender.

Predicação verbal – Transitividade verbal

Raimundo Holanda, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 22

Como introito, o dicionário eletrônico, Houaiss, apresenta estes conceitos de predicado.

  1. “Relação semântica existente entre um predicado e um argumento, pelo qual o predicado atribui propriedades à entidade representada pelo argumento”. Ex. A Academia Cearense da Língua Portuguesa congrega plêiades de estudiosos do vernáculo (grifo nosso).
  2. “Aquilo que se afirma ou se nega a respeito do sujeito da oração (p.ex., na frase ele é o maior mentiroso que já existiu, o predicado é quase tudo, com exceção de ele; na frase morreu o maior mentiroso que já existiu, o predicado é morreu)
  3. “Termo ou conjunto de termos atribuíveis, por meio de uma afirmação ou negação, ao sujeito de um juízo ou proposição”.

As gramáticas de nosso vernáculo, de modo especial, as tradicionais, classificam os verbos quanto à predicação em: transitivo direto; transitivo indireto; transitivo direto e indireto; intransitivo; ligação.

Faz-se necessário entendermos o conceito de transitividade.

Mattoso Câmara Jr., In: Dicionário de Linguística e Gramática, 11ª edição, conceitua Transitividade sob dois sentidos: 1) “estrito – necessidade, que há em muitos verbos, de se acompanharem de um objeto direto que complete a sua predicação”. No latim, língua de casos, esse complemento indispensável é expresso pelo acusativo. (V.g. Mater filiam pulchram amat).

O nome TRANSITIVO, dado a tais verbos em latim, decorreu da sua possibilidade de poderem passar para a voz passiva, numa transformação em que o objeto é feito paciente, no caso nominativo. Essa transformação existe em português. (V.g. Pedrinho vê fantasmas; fantasmas são vistos por Pedrinho).

Ler mais…

O Latim e o ensino da Língua portuguesa

RAIMUNDO DE ASSIS HOLANDA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 22

1. O Latim e os dialetos – Breve retrospectiva

O Latim, enquanto idioma, existia desde os tempos pré-históricos, porém foi a partir do século III a. C. que passou a adquirir uma forma literária, construindo-se aos poucos uma gramática com regras explícitas, cuja consolidação se deu por volta do século I a. C., que é considerado o período clássico do latim.

Ao lado do latim clássico, falado e escrito por pessoas letradas, havia o latim popular, latim vulgar, que assumia formas livres e sem a precisão de regras gramaticais, língua falada por pessoas do povo, a plebe.

Deste latim popular, originaram-se as línguas românicas, ou neolatinas, dentre elas, o português, o espanhol, o francês, o italiano.

A partir do século III d.C., com a expansão do cristianismo, a língua latina, com influências eclesiásticas, predominou no ensino do latim, até o início dos anos 60. O latim passa a ser considerado língua morta. Nas palavras de João Bortolanza (UFMS): “com isso, o que morreu foi a diacronia do português”. 

Ler mais…