Cemitério de galinhas

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37 (patrono: Estêvão Cruz)

Dize-me o que comes e dir-te-ei quem és.
(ANTHELME BRILLAT – SAVARIN, cozinheiro francês).

Sempre me comprazeu o fato de haver recebido de meus pais (Maria de Lourdes Campos de Mesquita e Vicente Pinto de Mesquita) instrução religiosa rígida e determinação comportamental esmerada no âmbito doutrinário e da Igreja Católica, Apostólica e Romana.

Desde o uso da razão, estava no Catecismo, na Palmácia dos ’50, Paróquia de São Francisco de Assis, então sob o vigariato do Cônego Joaquim Alves Ferreira, seu titular, de 10 de fevereiro de 1946 a 1 de março de 1956, coadjuvado por seu irmão, Monsenhor Pedro Alves Ferreira (meu padrinho de batismo).

Jamais nos afastamos – meus onze irmãos e eu – desta orientação eclesial de conteúdo tridentino, continuada na Freguesia de Nossa Senhora de Nazaré, desde que aqui a Fortaleza chegados em 2 de agosto de 1960. Hoje, dez homens e duas mulheres, casados com os mesmos cônjuges desde a celebração matrimonial, moramos em Fortaleza, exceto a irmã mais nova – Lília Mesquita Reyntjens – que reside na cidade de Overijse, Bélgica – União Europeia (bem vizinha a Bruxelas), com o marido, Dirk Reyntjens, e os filhos Paulo e Peter.

Constantemente, também, na obediência à sentença bíblica Servite Domino in laeticiae (Salmo 99,2 – Serve a Deus com alegria), recorro ao bom humor cearensês e me vejo alegre, relembrando passagens brejeiras da vida nordestina – ordinariamente pretextos para piadas e crônicas – sempre ataviadas de complementos da industriosidade cômica regional, ao mesmo tempo em que pretendo servir ao Senhor, conforme o versículo do salmista.

Embora não muito convincente a desculpa, confesso, recordo-me do tempo em que acolitava o Padre Tomás de Aquino Alves Correia – natural do Acarape, o qual foi titular da mencionada Unidade eclesial palmaciana, de l de março de 1956 até 14 de fevereiro de 1962 – quando de suas vilegiaturas pelas então quatro capelas paroquiais – Tanques, Jubaia, Canadá e Gado dos Ferros. Os dois primeiros lugares eram (e ainda são) componentes do Município de Maranguape, o terceiro pertence a Redenção e somente “o Gado”, como ainda é, Distrito de Palmácia, município desde 26 de agosto de 1957, quando, por lei, se independizou da Terra de Chico Anísio.

A despeito disso, mesmo de Maranguape e Redenção, os três lugares faziam parte da Paróquia de São Francisco de Assis, o que discrepa diametralmente do tempo em que o Brasil era um Estado confessional, não um Ente Estatal leigo, fato ocorrido somente com a edição do Decreto 119-A, de 7 de janeiro de 1890, sugerido pelo baiano Ruy Barbosa, logo após proclamada a República, em 15.11.1889, quando a religião católica deixou de ser o culto oficial do País.

Mencionadas viagens às capelas eram feitas, a cavalo, quando da realização de missas mensais ou bimestrais e desobrigas anuais, estas a fim de que os fiéis cumprissem o dever para com o quarto Sacramento, o da Penitência, de confessar-se pelo menos uma vez por ano. Via de regra, as montarias eram cavalos e burros (jamais o burro para o Padre!), que os encarregados pelas capelas mandavam à Palmácia. Em geral, os muares eram choutões, não bralhavam de jeito nenhum, como o faziam os equinos, desenvolvendo chouto ou galope, o que deixava os sessos do cavaleiro em carne viva e depois viravam as famosas “tapiocas” purulentas, as quais, após incomodarem sobremodo, estorricavam e descascavam, muitas vezes trazendo até febre acima de 40 graus Celsius. Entrementes, os sacerdotes podiam sentar-se à vontade, pois suas cavalgaduras, sempre cavalos, em vez de choutar, bralhavam na macieza dos trens-bala supermodernos.

Naquele tempo, bem mais do que hoje, os padres da Igreja Católica eram objeto de exagerada veneração – para não dizer adoração – por parte das pessoas do povo, principalmente no que concernia aos alimentos, no café, almoço e jantar, o que de mais saboroso e basto poderia ocorrer, ou seja, muitos e bons.

Em razão dessas condescendências alimentícias sob a umbela de Deus, foi que apareceu a expressão comer como um frade, a qual titulou um livro de Frei Betto, editado pela José Olympio. E não é à-toa que foram cunhadas dicções de iguarias inventadas nos conventos e noutras circunstâncias de estar de presbíteros e auxiliares leigos católicos, como barriga de freira, pastel de Belém, fatias de bispo, papo de anjo e tantas outras denominações similares.

Bem se lembra o leitor mais na idade do fato de que, antes da instalação de granjas produtoras de aves e ovos, a galinha era comida de luxo, especialmente dos economicamente mais humildes, e somente saboreavam os “pirões de paridas” as senhoras em resguardo de parto normal, muitas vezes ocorrentes até sem o concurso das parteiras e cachimbeiras, sem quaisquer distocias, conforme sucede hoje, com as parições cesarianas desnecessárias, para o Sistema Único de Saúde – SUS pagar, com os recursos dos impostos por nós recolhidos.

Daí se exprimir, então, o dito de que, “quando pobre como galinha, um dos dois está doente”, semelhantemente a “pobre nunca come mel; quando come, se lambuza”, bem assim o dito segundo o qual “o pão do pobre só cai com a margarina pra baixo”.

Então, em qualquer visita destas às capelas da Palmácia, a possibilidade de perecer uma penosa para ser servida assada ou à cabidela beirava os cem por cento. Era batata!

De tal modo, aflorou a gaiata e veraz asserção matuta, consoante a qual “barriga de padre é cemitério de galinha”.

Para remate destas notas de memória, recordo-me de que, numa desobriga feita pelo citado Padre Tomás de Aquino e pelo então Padre Gerardo José Campos (extraordinária pessoa, com quem trabalhei na TV Ceará – Canal 5, ele como diretor pedagógico), em um jantar no sítio Araticum, Distrito de Gado dos Ferros, em Palmácia, na casa de seu Luís Bezerra/dona Delmira, foi servido um peixe cozido delicioso, que logo me fez evocar o pirarucu (Arapaima gigas) vendido em rolos na Conde d’Eu, aqui em Fortaleza.

Quando a auxiliar da cozinha repunha o peixão à mesa, sem saber que espécie de pescado era, o Padre Tomás indagou:

– Pirarucu?

Ela olhou à socapa e respondeu:

– Tiraram, sim senhor!

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