Chanz!

SEBASTIÃO VALDEMIR MOURÃO, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 19

Nada havia ao redor. Deserto de casas, de prédios, de poluição. Cheio, todavia, de um vazio puro: uma paisagem absurda de tranquilidade, um sonho real, uma verdade a ser alcançada por qualquer um. Olhei pra cada lado e não vi coisa alguma, a não ser um horizonte longínquo, ora azul, às vezes cinzento; noutras pardo, noutro instante  colorido, porém distante. Não havia fim nem nada. Um templo moderno, talvez construído naquele instante. A estrutura antiga manifestava um estilo entre colonial, gótico, romano. Invulgar… muito esquisito, mas calmo. Inspirava‑me concórdia.

– Chanz!

Assim chamei o templo, sem querer, ao contemplá-lo. Não sei o que significa, nem se há em alguma língua.

– Chanz!

– C h a n z… a n z… a n z…

Ecoava, caso o chamasse ou o mentalizasse. O que se dissesse, ou se passasse na mente, ressoava.

Chanz me fez sentir força de contemplação, análise do mundo, do homem… aí entrei com o passo de urubu malandro. Lá dentro, a beleza excedeu‑se, me causou estranheza e me fez sentir convicção interior. O meu conhecimento não foi suficiente pra detalhar; é indescritível o sobrenatural, e isto só pode ser alguma obra divina.

Mirei tudo curioso e vagarosamente, meneando a cabeça, parando em cada minúcia. Tinha a forma de ele. Não encontrei imagem alguma, nem mesmo religiosa. Sem luxo, entretanto belo, limpo e confortante; sem recepção, porém acolhedor; sem ninguém, no entanto houve diálogo: como, não sei, mas teve. A cada pensamento, em toda análise, nas conclusões em que chegava, sentia me renovar.

Sem mais nem menos, a vontade de voltar. Os pés, no entanto, não voltaram. Quanto mais tentava retornar, aproximava-me ainda mais do altar do templo. Não havia bem um altar, parecia um trono dos reis hebraicos, um recanto pra meditação. Não sei como minudenciar…

– Chanz era o que era!

Dirigi‑me ao trono, mas não alcancei. Vi outros templos como se fossem imagens infinitas de dois espelhos planos paralelos. De vez em quando, tentava outra vez alcançar o fim, mas não conseguia me aproximar. Sempre havia mais um. Engraçado, do começo estimava‑se a dimensão de um auditório comum, no entanto jamais se alcançava. Presumi, enfim, que era pra parar. Quis me ajoelhar, não pude. Tentei postar as mãos, como quem queria rezar, não consegui. Quis levar a mão ao peito, também não. Continuei em pé; à vontade, mas inerte. Relaxei. Aí ressoou:

– Chanz! c h a n z!…a n z…a n z…

O relax deve ter feito eu notar uma imagem de um grupo de crianças postadas bem na minha frente. De mãos dadas, sorridentes, brincavam de roda. Envolta numa nuvem de fumaça, de névoa, sei lá, foi substituída a imagem. Havia, agora, diante de mim, uma exposição, sem ninguém, de armas nucleares. Nova imagem. Desta vez, um frasco de vidro em labaredas. Tenho dúvidas se era mesmo de vidro. O formato tinha imagens nítidas, a matéria não. Até tive vontade de pegar, contudo, não consegui. Eram absolutamente límpidas, mas intocáveis… e eu permanecia sereno, relaxado.

– Chanz! c h a n z!…a n z…a n z…

Senti‑me subitamente em mim. Tornei rumo à porta que não houvera encontrado ao entrar. Nem ao menos sei como entrara. Saí. Além passadas, olhei pra trás e não vi porta nem templo; só o horizonte continuava, monotonamente azul, unicamente azul, agora com uma interminável fila de gente, esperando a vez de entrar em Chanz… senti que houvera falado Chanz em voz alta e não ressoara.

– Que é Chanz?

Alguém me interpelou, batendo no meu ombro. Acordei assustado. Encontrava‑me no living, num sofá, molhado de suor, visivelmente fatigado. Algum tempo depois, rememorei tudo e indaguei a mim mesmo: simbolizariam as labaredas do frasco a purificação da alma?… ou exprimiriam, como ameaça, o instrumento exterminador do homem?… demonstrariam as armas nucleares que um dia serão apenas peças de exposição sem platéia, como testemunhas de celebração da paz?… ou simbolizariam com a exposição, sem ninguém, o que restará na Terra?… revelaria Chanz o templo interior em que estas crianças, de mãos dadas, sorridentes, manifestavam‑se como símbolo de concórdia  e de convivência humana?…

– Chanz! C h a n z!… a n z… a n z…

Ecoou, finalmente, dentro de mim.

Compartilhar