Da Felicidade

Myrson Lima – Cadeira nº 14

Parece, à primeira vista, ingenuidade ou babaquice matutar sobre a felicidade. Pode constituir-se tema mais apropriado a livro de autoajuda, cheio de fórmulas mágicas, estilo “Como evitar preocupações e começar a viver”, “Aprenda inglês, dormindo”, “Como ser bem sucedido no emprego, sem fazer nada, somente assobiando e comendo pimentão”.

Há mesmo pessoas sisudas e compenetradas, que dizem com toda convicção que a felicidade não existe; o que há são momentos felizes, como ler um bom livro, comer tapioca molhada em água de coco, banhar-se nas piscininhas na maré secante, tomar caldo de cana na Praça do Ferreira, caminhar de manhã cedo pela Beira-Mar. Outras, como o poeta Vicente de Carvalho em Velho Tema, reconhecem que a felicidade existe, “mas nós não a alcançamos, porque está sempre apenas onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos”.

Tom Jobim, não lhe nega a existência, contudo assegura que passa rápido: é “como a pluma, que o vento vai levando pelo ar, voa tão leve, mas tem a vida breve”.

Daniel Kaminsky, personagem de “Hereges”, de Leonardo Padura, (Boitempo, 2015) diz para o filho Elías: “A felicidade é um estágio frágil, às vezes, instantâneo, uma faísca. Mas se você tiver sorte, pode ser duradouro”.

A felicidade parece, mesmo, ter caráter aleatório. Há pessoas que nascem, como se diz, de bunda para a lua, ou têm um anjo da guarda forte, ou parecem protegidas por uma boa estrela. Dependeria da dinâmica do céu, do signo zodiacal, da combinação de astros.

Também se lhe realça o caráter subjetivo: para o doente, felicidade é ter saúde; gozar de uma boa companhia para um solitário; arranjar novo emprego para quem sofreu demissão com a crise. Daí se conclui não poder haver mesmo receita universal para se ser feliz.

O direito a ser feliz nem sempre é reconhecido nas leis de uma nação.  No Congresso Nacional, há até uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC nº 19), de 2010, do Senador Cristovam Buarque que altera o artigo 6º da Carta Magna, para incluí-lo mediante a dotação pelo Estado e pela própria sociedade de adequadas condições de exercício desse direito.

Se procurarmos conceituar a felicidade, a matéria fica crespa. Vamos deparar com várias teorias filosóficas e religiosas que ora a consideram uma utopia, ora a põem no além, ora a erigem como valor supremo de suas verdades, ora a situam como algo alienante e burguês. Sobre o assunto, foi publicado excelente livro traduzido com o título “Sobre a Felicidade, uma viagem filosófica” de Frédéric Lenoir (Objetiva, 2016). Lá se lê que Flaubert encara o tema com ironia ao apontar três condições para ser feliz: ser bobo, egoísta e ter boa saúde. Ser bobo: a ignorância é meia felicidade? O ter boa saúde, no entanto, para Shopenhauer, é visto como algo fundamental para haver felicidade: “um mendigo com saúde é mais feliz que um rei doente”.

Os Antigos, como Aristóteles e Epicuro, situaram a felicidade como núcleo central da filosofia e a associaram ao prazer, porém o primeiro acentua a busca de prazer com o uso de razão, que garantirá a supremacia dos valores espirituais sobre os corporais; o segundo condiciona a felicidade à satisfação dos desejos naturais e necessários, como comer, beber, vestir-se, ter um abrigo. Os outros prazeres poderão existir, mas deverão ser usados com sobriedade e prudência. Tal associação entre felicidade e prazer continua ainda reconhecida até os dias de hoje. Acrescenta-se também, modernamente, que a aptidão para a felicidade é condicionada em grande parte, além do patrimônio genético, pelo equilíbrio dos neurotransmissores do cérebro e pela presença dos hormônios produzidos pelas glândulas endócrinas.

Afinal, somos ou não felizes, é a pergunta. Noutras palavras, estamos satisfeitos com a vida que levamos?  Achamos sentido naquilo que vivemos e fazemos? Apesar de a vida alternar momentos prazerosos e fases de sofrimento, um quadro estável de satisfação com nós mesmos, com os outros e com aquilo que nos cerca parece nos levar a concluir que uma felicidade relativa é possível, embora imperfeita, porquanto humana. Para muitos filósofos, como Kant, e para numerosas religiões, a felicidade plena, profunda e estável somente a encontraremos no além, após a morte.

Considere-se também que esse bem-estar subjetivo depende enormemente do bem-estar coletivo. Como se pode ser feliz em um país mergulhado em profunda crise de desemprego, em grave crise ética, sem garantir à população o básico no que diz respeito à saúde e à educação e à cidadania?

O Brasil, segundo pesquisa do Instituto Gallup feita entre setembro e dezembro de 2015, ficou abaixo da média mundial de felicidade. Enquanto outras nações apresentam o índice de felicidade em torno de 56%, o nosso fixou-se na casa dos 54%

Não basta procurar vagamente a felicidade. Devemos sempre desejá-la e construí-la em nosso dia a dia, assumindo plenamente o momento presente, aceitando a vida, como ela é, e procurando descobrir o que nos traz alegria e o que nos provoca tristeza. O importante, nas fases mais adversas que se apresentam, é conscientizar-se de que ser feliz depende mais de nós, do que do exterior. E nunca perder a esperança, pois às vezes a felicidade está bem mais perto do que imaginamos, como nos alerta Quintana, o poeta:

“Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!”

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