DESAPROPRIAÇÃO

(à amiga Neide Freire)

O Tempo varre o sótão do meu sonho,
limpa o telhado do meu pensamento,
refaz o alpendre branco, onde me ponho
a conversar, à noite, com o vento.

Não lhe ouço nada, além do que deponho,
em voz sofrida, em lúgubre lamento
ao Tempo que, veloz, segue e, medonho,
vai dissipando os sonhos que acalento.

E fico, horas a fio, indiferente
a esse mister de desapropriação
que o Tempo em nossa vida, mudo, faz.

Depois… depois, o que resta na gente
é este vazio – a flor da solidão –
que se abre e não fenece nunca mais…

Giselda Medeiros – Autora de: Alma Liberta, Transparências, Cantos Circunstanciais, Tempo das Esperas, Sob Eros e Thanatos, Crítica Reunida e Ânfora de Sol. Princesa dos Poetas do Ceará. Dentre vários prêmios literários, anotam-se: Prêmio Cidade de Fortaleza, Prêmio Estado do Ceará, Prêmio Osmundo Pontes de Literatura e Prêmio Lúcia Fernandes Martins de Poesia. Pertence a várias entidades literárias, dentre elas, Academia Cearense de Letras e Academia Cearense da Língua Portuguesa.

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