É briba, mesmo!

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

[…] Disse-lhe cobras e lagartos […]

Resulta bastante comum, em particular se procedente de pagos mais distantes dos centros urbanos e mais atrasados sob vários pontos de vista, a criança conduzir para a adultícia ideias equívocas acerca de fala e grafia de termos e frases aprendidos na infância, perpassando a adolescência, entrando na senectude e, muita vez, conduzindo a ideia enviesada no decurso de toda a vida, até seu ocaso. 

É fato recorrente tal suceder, por exemplo, e entre muitas outras obliquidades, com governo (“gonverno”), pele (“péa”), registro ou registo (“resistro”), deteriorado (“destiorado”), leite mungido (“mugido”), assessor (“assensor”), funcionário (“foncionário”) e aposentadoria (“aposento”). Aliás, hoje esta acepção de reforma por tempo de serviço ou motivo outro está dicionarizada – talvez sem muita responsabilidade de quem o fez – no sentido de pagamento de aposentadoria: hoje é dia de ir ao banco receber meu aposento.

Trouxe para a adultidade, e.g., a grafia desacertada de “ouriversaria” (ourivesaria), palavra por mim divisada, salvante lapso de memória, na placa da Óptica Sansão, na primeira vez quando fui, no caminhão do seu Luís Rebouças, de Palmácia a Fortaleza, a qual cedo corrigi, em razão das leituras de referência de formação, insertas na didática oficial, necessárias durante a quadra escolar e as quais afastaram esta e incontáveis imperfeições ortográficas carreadas da área rural para a “civilização”, como se dizia com aberto preconceito.

Um desses vocábulos, porém, ainda hoje objeto de dúvidas a respeito de seu emprego, coincide com a palavra briba, cuja averbação lexicográfica remonta ao ano de 1913, conforme o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Cândido de Figueiredo (Lisboa, 1899, apud SALLES VILLAR; HOUAISS, 2003), há mais de cem anos, portanto.

Antes de prosseguir com o assunto da controvérsia BRIBA/VÍBORA, ainda ocorrente na contextura local, decerto em todo o Nordeste do Brasil, convém me reportar à configuração histórica e à taxinomia expressa pelos dicionaristas, lexicólogos de ofício, com suporte nos herpetólogos, responsáveis pelo estudo científico dos répteis.

            Em segunda acepção, é bom explicar, há outra espécie de herpetólogos, os dermatologistas das chamadas herpes (aqui em Palmácia, me lembro bem, chamava-se boqueira) cujas atribuições, dos dois especialistas, não se comunicam.

Em Portugal e, certamente, nas ex-colônias, como Angola, Cabo Verde e Moçambique, por exemplo, em língua oficial, briba é a mesma osga – nome vulgar, provindo do Árabe, de um gênero de sáurios habitantes das partes quentes da Terra, lagartos pequenos, lagartixas, nosso calangro branco do Nordeste, de significativa ocorrência no Ceará.

Na classificação científica procedida pelos estudiosos da ala de Carlos Lineu, naturalistas-zoólogos, ocorre o gênero Briba – fato o qual, decerto, já afasta a identificação atravessada com a palavra víbora, a nós crianças ensinada, aqui em Palmácia e noutros lugares, como correta, ao se pensar na dicção briba como a víbora do beiradeiro caipira, do matuto da praia (em uma das muitas significações de caiçara) e do analfabeto, simples corruptela do nome, consoante acontece, também, com Bocage-“Bocais” e Camões-“Camonge”, expressões correntes de emprego, ainda hoje, nas comunidades rurais.

Consoante às obras de referência, só há uma espécie do gênero Briba no Brasil, a Briba Brasiliana (assim, em latim, mesmo), ocorrente no Piauí e em Minas Gerais, em informação de teor por demais relativo, hajam vistas as características semelhantes dos seus estados vizinhos, com habitats parecidos, como Bahia em relação a MG e Maranhão e Ceará, comparativamente ao Piauí.  

Briba é, também, a despeito do informe retroexpresso, a designação ordinária conferida a alguns tipos de pequenos lagartos ocorrentes no Nordeste brasileiro, com o corpo alongado e os membros reduzidos, aquele calanguinho acostumado a dormitar por horas, à espera de pequenos insetos, atrás das imagens de santos apostas às paredes das casas. Daí o ditado: dorme igual a calango atrás de imagem de santo.

Os linguistas admitem, sem qualquer fato a iluminar a recepção dessa ideia, a possível deturpação linguística do termo víbora, transmudado no vocábulo briba, o qual, sob o prisma da herpetologia, é diferente em vários aspectos, como, por exemplo, no concernente à peçonha excretada por esse réptil, à semelhança das serpentes jararacas (Botrops jararaca) e cascavéis (Crotalus terrificus durissus), muitas vezes de picada letal.

De víbora, provém o adjetivo viperino, cujo significado é venenoso, mordaz, perverso e maléfico, enquanto o substantivo briba não produziu nenhum nome sugestivo de toxicidade, ruindade, mesquinhez, depravação etc. Extensivamente, pois, víbora representa a pessoa traiçoeira, de temperamento agressivo, a qual ninguém quer arrostar.

Víbora, por sua vez, sob o espectro da taxionomia zoológica, designa, consoante às obras lexicográficas arrimadas na herpetologia, as serpentes do gênero Vipera, família dos viperídeos, com cabeça grande, mais larga em relação ao pescoço, olhos com pupilas verticais e cauda curta e cônica. Também é a denotação comum a várias cobras venenosas, da subfamília dos viperíneos.

 A despeito de os dicionários registrarem, também, em acepções subsequentes (talvez até em razão do costume de se chamar de víboras aos nossos pequenos calangos brancos), os dois vocábulos como sinônimos, atentemos para a etimologia lácico-científica do gênero Vipera: do latim vipera, ae ‘serpente, víbora, réptil peçonhento’. Isto, então, longe está de corresponder à verdade, negada por muitas pessoas, as quais, inocentemente, pensam falar corretamente ao negar briba, quando estão redondamente equivocadas e, ainda mais, induzem seus circunstantes a persistirem no engano ou até a mudarem de opinião, bandeando-se para o lado falso.

De tal sorte, conquanto as obras de referência aceitem (no meu sentir, equivocadamente, haja vista a etimologia lácica há pouco reproduzida) víbora como sinônimo de briba, é vedado se propalar a inexistência da expressão briba.

Em virtude de tal confusão, me lembro bem, alguém falar em “vibra” e “bríbora”, como a cunhar meios-termos a fim de pacificar uma pendenga tão prosaica, mas arrastada no tempo, carreando dúvidas, não somente neste caso, o qual serve apenas de exemplo para diversas pendências linguísticas de semelhante natureza, impendendo, então, serem aquietadas.

Não acalente mais dúvidas, então, o leitor, pois é BRIBA, MESMO!

Observação – De caso pensado, deixei de empregar no texto a partícula que.

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