É saudade

ANIZEUTON LEITE, membro correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa em Jucás/CE

É saudade quando dormimos cheirando a roupa da pessoa amada, quando ligamos ou mandamos mensagem tarde da noite na esperança de ouvir a voz de alguém do outro lado da linha. É saudade quando guardamos os pertencem da pessoa que partiu provisória ou definitivamente. Também é saudade quando escrevemos um poema ou rabiscamos o nome da pessoa amada no caderno; quando enxugamos as lágrimas no banheiro ou beijamos calorosamente alguém quando este regressa de viagem.

É saudade quando ouvimos a voz ou sentimos o cheiro da pessoa amada com um simples fechar de olhos. É saudade quando sonhamos acordados e dormimos sonhando em estar ao lado de quem amamos. É saudade quando o coração acelera com a possibilidade da separação; quando a lágrima molha a face ao pronunciar o nome de alguém. É saudade quando o pensamento viaja enquanto o corpo está parado na estação; é saudade quando o  olho brilha e o sorriso desponta ao ver a pessoa ou o objeto do nosso desejo.

A saudade foi a maneira que Deus encontrou de parar o tempo e eternizar os momentos vividos e as pessoas que amamos. E há vários tipos de saudade. Há saudade da infância – das brincadeiras, do colo da avó, dos banhos de chuva ou dos primeiros anos da vida escolar. Momentos que gravamos na parte mais profunda da nossa memória. Há saudade da inundação de sentimentos da adolescência – do primeiro beijo, da rebeldia, dos sonhos idealizados e das escolhas que fizemos ou deixamos de fazer.  Há também a saudade dolorida; ferida cicatrizada que vez por outra arrebenta e sangra novamente. Saudade do filho ausente; da mãe que morreu tão repentinamente ou do irmão que se afastou e hoje não passe de um mero conhecido.

Saudade é bom e ruim. É bom quando se pode sentir o cheiro, ouvir a voz de quem se ama ainda que distante e desejar ardentemente o reencontro. É bom quando lembramos com carinho e nostalgia aquilo que vivemos. É bom quando ela é alma gêmea do amor. É ruim quando dói e se torna um espinho. Espinho que rompe a carne e se instaura na alma. Dor que não tem remédio ou cura.  Saudade: a ferida e o remédio do nosso cotidiano.

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