Espirituosidade comedida

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

(Para o Prof. Ítalo Gurgel, da UFC e ACLP)

Vinum bonum et suave, /Bonis bonum, pravis prave,
Cunctis dulcis, sabor, ave Mundana laetitia!
(Fragmento de uma canção do séc. XIV). **

Jamais fui achegado à carraspana,
Na cotidiana marcação da história;
Mas a memória freud-ferencziana
Guarda chicana sem fastos de glória.

Em concessória ensancha de bacana,
Não se me empana a retentiva inglória
Da inibitória – hoje, não me ufana –
Lembrança plana de rasca irrisória.

Ao fluido espirituoso sou afeito:
Guimarães, Douro, Murça, Porto ou Minho;
Tête de Boeuf, Sem Nome, qualquer jeito.

Com o mais suave e estreme carinho,
Tomo a botelha, entorno e depois deito
Mui preciosos martelos de vinho.

* Vinho bom e agradável; bom para os bons, ruim para os malvados; de agradável sabor para todos. Viva a alegria mundana!

A MAIS LÍRICA HERANÇA DE PETRARCA

Italo Gurgel
(Membro titular da ACLP – Cadeira nº 17)

O soneto é uma forma de poema rigorosamente codificada. Comporta 14 versos, abrigando dois quartetos e dois tercetos. É obrigatória a rima. Também é necessário que todos os versos tenham o mesmo número de acentos poéticos (ictos). No caso do soneto acima transcrito, a mim dedicado, generosamente, pelo escritor e poeta Vianney Mesquita, apresentam-se 10 acentos nos 14 versos. Percebam-se as rimas no meio dos versos dos quartetos – a chamada rima encadeada, que concede especial estesia à conformação poética.

ORIGENS – Acredita-se que o soneto (do italiano sonetto) nasceu nos tempos da chamada “escola siciliana”, que orbitava a corte do imperador Frederico II (1194-1250). Atribui-se sua “invenção” a Giacomo da Lentini, um dos cortesãos, que criava tais peças para serem cantadas, e não declamadas.

Francesco Petrarca (1304-1374) tornou célebre o soneto em sua “Canzoniere”, sendo, para alguns, o verdadeiro criador dessa expressão poética. Filólogo, poeta e humanista, Petrarca é tido como o Pai do Humanismo, mas foram os sonetos, redigidos pioneiramente em língua italiana, que o elevaram ao pedestal da glória.

O soneto foi, mais tarde, praticado em boa parte da Europa. Na França, atraiu expressões de renome como Ronsard, Baudelaire, Du Bellay e Mallarmé, dentre outros.

Depois de uma viagem pela Itália, entre 1521 e 1526, o poeta português Sá de Miranda retornou a seu país com os traços daquela estética em sua bagagem. Extremamente criativo, Miranda também introduziu em nossa língua a sextina, as composições em tercetos e os versos de 10 pés. Camões daria continuidade a seu legado, compondo diversos sonetos, especialmente os decassilábicos, tendo o amor como tema principal.

No Brasil, o soneto floresceu com especial vigor e algumas das páginas mais belas da nossa Literatura se alinham nessa estética. A título ilustrativo, lembremos algumas que, para sempre, ocuparão um lugar em nossa memória lírica: Círculo vicioso e A Carolina (Machado de Assis), Ouvir estrelas e A um poeta (Olavo Bilac), O enterro da cigarra (Olegário Mariano), O acendedor de lampiões (Jorge de Lima), Mal secreto e As pombas (Raimundo Correia), Ser mãe (Coelho Neto), Contraste (Padre Antonio Tomás) e Soneto de separação (Vinicius de Moraes).

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