Estrangeirismos:

Entre a assimilação acrítica e a rejeição peremptória

Italo Gurgel – Cadeira nº 17

“Você entra na fanpage da Rádio Beach Park, no Facebook, e envia sua playlist de sete hits musicais.” O recado é transmitido, toda tarde, repetidamente, pelo locutor daquela emissora.

O uso de estrangeirismos sempre motivou polêmicas. Apesar de aceitos passivamente pela maioria da população, há quem considere que os empréstimos linguísticos ameaçam a soberania da língua portuguesa, podendo empobrecê-la e dificultar a comunicação.

Não obstante a resistência, expressões alienígenas nunca deixaram de ser empregadas nos mais diferentes cenários e níveis do discurso. Isto é “bom”, ou é “ruim”? – Eu diria que isto é natural em alguns contextos; ridículo, em outros.

A incorporação de vocábulos estrangeiros a determinada língua é fenômeno ditado por contingências políticas, econômicas, geográficas e culturais. Decorre da dominação, explícita ou disfarçada, de um povo sobre outro.

Em Portugal, berço de nossa dulcíssima e sonora língua, assistiu-se, ao longo dos séculos, a sucessivas mudanças do padrão linguístico dominante, ciranda ditada pelos fatos históricos, socioculturais e políticos, modismos e avanços tecnológicos. As línguas celtas dos primórdios dobraram-se um dia ao Latim vulgar. Posteriormente, este acolheu influências mouras, plasmando-se mais tarde o português arcaico e, por fim, o português moderno, que guarda herança de todas as suas raízes.

Hoje, em Portugal como no Brasil, Angola, Moçambique e em todo o mundo lusófono, o Português sofre influência maciça do Inglês, em razão do poder econômico e ascendência cultural que os Estados Unidos exercem sobre boa parte do planeta, desde o término da 2ª Guerra Mundial. Em Portugal e em suas antigas colônias africanas, também não é desprezível a influência das novelas de televisão, que terminaram introduzindo gírias brasileiras no falar cotidiano, especialmente entre os segmentos mais jovens da população.

No Brasil, até onde se pode recuar no tempo, a contaminação mais forte sofrida pelo Português veio da Língua Geral, ou Língua Brasílica, do tronco Tupi, falada pelos colonos portugueses, durante muito tempo, em uma grande extensão da faixa litorânea. Adotada pelos Jesuítas, que a utilizaram no trabalho de catequização, ela acabou fragilizando-se e hoje é considerada extinta.

Desapareceu, mas deixou sonora contribuição, em especial no vocabulário ligado à fauna, alimentos e topônimos. Se examinarmos a lista das cidades cearenses, encontraremos: Abaiara, Acarape, Acaraú, Acopiara, Aiuaba, Apuiarés, Aquiraz, Aracati, Aracoiaba, Ararendá, Araripe, Aratuba, Assaré… 13 topônimos, somente na letra “A”.

Lembremos, igualmente, as influências africanas, que começaram a ser incorporadas quando o primeiro navio negreiro cruzou o Atlântico Sul: abadá, caçamba, cachaça, cachimbo, caçula, candango, canga, capanga, carimbo, caxumba, corcunda, dengo, fubá, macaco, maconha, macumba, marimbondo, miçanga, moleque, quitanda, quitute, tanga, xingar, banguela, babaca, bunda, cafundó, cambada, muquirana, muvuca…

O que pensar dessa contribuição? – Prefiro encará-la exatamente como isto: uma contribuição, um somatório, aporte enriquecedor, que veio tornar nossa língua mais exuberante, mais parecida com a nossa cara, ou seja, mais representativa da variedade ética e cultural que caracteriza a Nação brasileira. A miscigenação linguística aconteceu pari passu com a mistura de raças, o que somente fortaleceu a identidade nacional.

Em etapa posterior às influências indígena e africana, deu-se o desembarque dos galicismos. Buscando datar o início da presença, entre nós, de traços da francofonia, talvez possamos retroceder à época da Revolução Francesa, que teve forte impacto no processo de independência. Mais tarde, a “invasão” acentuou-se, através das sucessivas missões artísticas e científicas que visitaram o Brasil durante o Império. Finalmente, os eflúvios da belle époque vieram incorporar mudanças na arquitetura, na moda, nos costumes… e no vocabulário.

São abundantes as marcas do Francês em nossa língua. Podemos até agrupar esses empréstimos por área:

Arte e decoração: Avant-première, apothéose, ballet, crépon, crochet, croquis, corbeille, doublé, guirlande, hors-concours, marchand, marionnette, matinée, maquette, mise-en-scène, passe-partout, papier mâché, reprise, tournée, tricot, troupe, vernissage.

Cores: Bordeaux, beige, carmin, dégradé, fumé, lilas, marron, ton sur ton.

Esportes: Grand-prix, pivot, raquette.

Gastronomia: À la carte, buffet, baguette, bonbonnière, canapé, croissant, croquette, champignon, champagne, chantilly, couvert, crêpe, escargot, filet, frappé, glacé, garçon, mousse, menu, maître, omelette, pastel, purée, petit gâteau, pâté, rôtisserie, réchaud, rosé, sauté, soufflé.

Locais, móveis e objetos: Atelier, abat-jour, bouquet, bibelot, bidet, canapé, carnet, chalet, divan, cache-pot, crèche, guichet, garage, souvenir, toilette.

Moda e vestuário: Bustier, boutique, cache-col, chic, écharpe, godet, lingerie, maillot, maquillage, mousseline, nécessaire, organdi, pochette, prêt-à-porter, plissé, rouge, robe, soutien.

Sexo e prostituição: Bas-fond, boîte, cabaret, château, madame, ménage-à-trois, miché, travesti.

Transportes: Chauffeur, charrette, châssis, coupé, guidon, métro.

Movimento operário: Grève, sabottage.

Nos dias atuais, podemos considerar que os galicismos já foram assimilados, muitas vezes, com grafia e pronúncia adaptadas ao Português. Provavelmente, eles nunca encontraram resistência, até porque, desde o início, agregavam matizes daquele charme que Paris irradia. Utilizá-los emprestava, ao falante, distinção, finesse.

Cabe indagar o motivo da resistência que se percebe diante dos anglicismos. Afinal, empréstimos linguísticos não se constituem em novidade. Aqui, apenas mudou a origem geográfica e a sonoridade dos termos importados.

Na Universidade Federal de Mato Grosso, o tema inspirou dissertação de Mestrado, sob o título “Presença e uso de anglicismos no cotidiano brasileiro – a visão de pessoas comuns”. Em seu estudo, a mestranda Olandina della Justina observa, de um lado, uma maxivalorização dos termos anglófonos, ditada pela busca de identificação com “o outro” – no caso, uma civilização supostamente mais desenvolvida e com um status social e econômico superior. Trata-se de um “apelo esnobe”, marcado pela conformidade a um padrão de prestígio usufruído pela língua inglesa e seus falantes.

Em outra vertente, haveria forte influência dos veículos de comunicação, vistos como agentes disseminadores dos anglicismos. O vocabulário do locutor da Rádio Beach Park corrobora esta interpretação. Nos jornais e emissoras de rádio e TV, o uso contumaz do termo impeachment, em lugar de “impedimento”, denota a mesma opção preferencial pelo “produto importado”.

No contrafluxo dessa influência, tão passivamente acatada, surge uma corrente inspirada pela crítica ao imperialismo norte-americano, corrente que explora o sentimento nacionalista, interpretando a assimilação dos termos anglófonos como subserviência e aceitação acrítica da massacrante presença dos Estados Unidos em nosso País, através dos agentes econômicos, da música, do cinema, dos produtos industrializados, da gastronomia (se é que sandwich, hot dog e Coca Cola são itens gastronômicos!).

Alguns anglicismos foram aportuguesados – e até dicionarizados – como futebol, piquenique, pôquer… Aparentemente, não houve esforço, no passado, para substituí-los por termos locais. Ou então, as traduções propostas não vingaram. É o caso, em época mais recente, da invasão de expressões ligadas ao universo da informática: backup, blog, browser, chat, chip, download, drive, e-book, home page, link, megabyte, modem, mouse, on-line, scanner, site, underline, upgrade, wireless… A inexistência de termos que correspondam, em Português, a essas inovações levou a sua assimilação imediata.

O mesmo teria acontecido com o vocábulo drive-thru, que a grande maioria dos brasileiros é incapaz de pronunciar, e que designa uma inovação no mundo do comércio. Utilizado por farmácias e franquias de fast food, como McDonald’s e Habib’s, o drive-thru permite que o cliente, utilizando uma faixa especial de circulação, possa ser atendido sem sair do carro. O motivo de se manter, no Brasil, o nome que esse modelo de atendimento recebe em sua origem é o mesmo que leva qualquer língua, em qualquer lugar do planeta, a incorporar vocábulos estrangeiros que designam objetos e técnicas até então desconhecidos.

Exemplifiquemos o fenômeno: na língua indonésia, o termo que traduz “bandeira” é bendera (herança deixada pelos navegadores portugueses do Século XVI). Também no Indonésio, “mesa” se chama tabel (flagrante influência do inglês, incorporada quando os britânicos ali desembarcaram com aquele móvel, então uma novidade no arquipélago).

Situação diferente é quando empregamos vocábulos importados, em lugar de expressões do léxico português dicionarizadas e conhecidas por todos. São exemplos de termos invasivos, garimpados no vocabulário do comércio: delivery, ao invés de “entrega”; sale, usurpando o lugar de “liquidação”; 40% off, substituindo 40% “de desconto”.

Aqui, temos uma manifestação notória de anglofilia. Chamar adolescente de teen e espaço para crianças, de espaço kids; apelidar o intervalo do café de coffee-break, são atitudes que denotam deslumbramento – senão, pobreza de espírito – diante de uma espécie aviltante de invasão cultural. Estrangeirismos funcionais são bem-vindos em qualquer língua. Já a fetichização do inglês é sintoma de fragilidade cultural e carência de aas potências hegemônicas passaram a experimentar uma sobrevida cada vez mais breve. Hoje, o cenário político e econômico mundial se transforma em ritmo vertiginoso. Assim, é possível que o domínio norte-americano, de apenas 70 anos, esteja com os dias contados. Quem sabe, a próxima geração de brasileiros venha a confrontar-se com uma nova realidade. Diante da expansão econômica da China, pode acontecer que, dentro de alguns anos, ou em poucas décadas, tenhamos que incorporar, a nossa linguagem cotidiana, numerosos e intricados termos do… Mandarim.

Compartilhar