Hoje eu vou me visitar

Anizeuton Leite *

Vivemos em mundo barulhento e iluminado. Presenciamos um corre-corre frenético das pessoas, que quase sempre, buscam algo material para preencher o vazio existencial.

Somos diariamente bombardeados com paredões de som que circulam constantemente em nosso meio e que agridem os nossos ouvidos não só pela quantidade de decibéis que lançam ao ar, mas também pela péssima qualidade das músicas. Também faz parte da nossa paisagem urbana os letreiros luminosos, os outdoors, a propaganda capitalista…

Nesse ambiente hostil (barulhento e iluminado) não tem sobrado espaço para a cultura do silêncio e do aconchego. O silêncio é propício para a reflexão e promove um bem estar na alma. Precisamos ter momentos de silêncio para ouvir e ser ouvido. E o silêncio mais revelador é o silêncio interior. Ele revela quem somos verdadeiramente. Acorda-nos para a beleza da vida e a urgente tarefa de viver bem e viver o bem.

Vivemos em um mundo que não dorme. Estamos conectados 24 horas. E conosco, estamos conectados também?  Às vezes, vivemos mais no mundo virtual do que real. As interferências nas relações interpessoais causadas pela exposição ao mundo virtual precisam ser refletidas e avaliadas.

Quando permitimos que nossa vida se torne uma rotina e o mundo tecnológico, que invade os nossos lares, ocupe uma enorme parcela do nosso tempo, corremos o risco de ficarmos reféns das redes sociais e vivermos distantes das pessoas mais próximas de nós. E o mais grave, corremos o risco de vivermos distantes de nós mesmos.

Quem eu sou? Quais as minhas prioridades? Como tenho gerenciado o meu tempo? Como tenho tratado aos meus familiares? Como tenho cuidado de mim mesmo? Como tem sido minha relação com o transcendente?  Esses questionamentos surgem no momento em que paramos, aquietamos o nosso ser e visitamos a nós mesmos. Visita que precisa ser feita sem pressa e em um ambiente sereno. Se isso não acontecer, podemos não estar em casa quando a “nossa visita chegar.”

Também podemos ser morada abandonada que não desperta nenhum encanto ou alegria. Morada que vive na escuridão e que não permite ao visitante enxergar os defeitos e as qualidades da edificação. Na escuridão temos dificuldade de contemplar as coisas. Coisas, às vezes, de valor inestimável. Vivemos como cegos, embora não tenhamos nenhum problema no globo ocular.

Isso ocorre porque insistimos em ver as coisas e as pessoas com os olhos e não com o coração.    “O essencial é invisível aos olhos. Só se ver bem com o coração.” É preciso está atento aos detalhes que nos cercam e se encantar com a beleza da vida. Observar o pôr do sol, abraçar um filho, beijar a esposa, ir à igreja, visitar um amigo ou demonstrar gratidão aos nossos pais. Esses, são gestos simples que nos aproximam das pessoas que amamos e de nós mesmos.  “Ama-te ao próximo como a ti mesmo.” Verdade bíblica que nos aponta para necessidade de uma maior alteridade.

O diálogo precisa também ser exercitado com maior frequência, uma vez que vivenciamos a cultura do isolamento. Algumas famílias vivem sob o mesmo teto, mas dificilmente estão próximos, apenas se esbarram pela casa. Cada cômodo da casa é ocupado por ser que se comunica com o mundo, no entanto, vive quase incomunicável dentro de casa. Precisamos estar vigilante, pois essa cultura do isolamento e do individualismo tem, aos poucos, adentrado nossos lares e minguado a comunicação e o afeto entre as pessoas.

É necessário que vez por outra reflitamos: hoje eu vou me visitar. Conversar comigo mesmo. Olhar pra minhas fragilidades e meu egoísmo. Olhar para as coisas que eu tenho eleito como prioridades. Valorizar mais estar presente do que o presente. Ouvir mais e falar menos. Priorizar o silêncio e a calmaria. Viajar para dentro de mim mesmo, afinal, as mudanças não ocorrem de fora para dentro, mas sim, de dentro para fora. É preciso mudar o interior para que a mudança reflita no exterior.

É preciso, enfim, acalmar o coração e ficar em silêncio para que possamos ouvir “a voz interior”.  É preciso viver a beleza do silêncio e o poder transformador que ele tem.

* Anizeuton Leite é sócio correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa na cidade de Jucás/CE.

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