INVENCIONICES NAS PEÇAS DE POETAS (Confissão de um Poeta Malogrado)

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37
(Texto apresentado na “Hora do Vernáculo”, reunião de 15/09/2018 da ACLP)

Sendo mentirosos profissionais, os poetas devem ter
excelente memória.
(JONATHAN SWIFT).

Jonathan Swift

1 Notações Preliminares

Procedo a esta ligeira comunicação com vistas a autentificar, particularmente em relação à grade métrica do soneto, a sentença registada (veja nota no rodapé) na epígrafe deste comentário, da autoria do poeta, escritor satírico e religioso irlandês Jonathan Swift (Dublin, 30.11.1667 – 19.10.1745), célebre autor de um dos mais lidos trabalhos de procedência exterior no Brasil – As Viagens de Gulliver – bem assim de Histórias de um Tonel, entre tantas, na maioria sob pseudônimo.

Para asserir a relevância de Swift no concerto das Letras estrangeiras, é bastante lembrar a influência suscitada pelo artista natural do Eire em beletristas de todo o Mundo, da grandeza de Herbert George Wells (H. G. Wells), Charlotte Brontë (criptônimo de Currer Bell) e, especialmente, no Brasil, em Machado de Assis, cujos principais influxos advieram da literatura inglesa, na mesma dimensão dos recepcionados pelo “Moleque Carioca,”  procedentes de Laurence Sterne (24.11.1713 – 18.03.1768). (Este é um apodo respeitoso da escritora e biógrafa mineira, dele estudiosa, Lúcia Miguel Pereira, mulher do escritor Octávio Tarquínio de Sousa – Barbacena, 12.12.1901; Rio de Janeiro, 22.12.1959).

Convém lembrar aos circunstantes – mesmo de passagem, pois o assunto não calça o objetivo destas notas – o fato de que Joaquim Maria Machado de Assis era averso à licenciosidade das letras do século XVIII e afiliado à literatura da Era Vitoriana, pois não acedia ao emprego das litotes, insertas no vocabulário e no desenrolar narrativo de então. Por este pretexto, com efeito, acolheu as influências de Swift e de outros paredros da literatura internacional, nomeadamente daqueles de sinete grão-britano.

É oportuno o momento para fazer parênteses a fim de aludir à venturosa palestra procedida, aqui na “Hora do Vernáculo”, há bem pouco tempo, pelo acadêmico Professor Raimundo Evaristo Nascimento dos Santos, quando se referiu, com rara imponência, ao Escritor de Quincas Borba, em relação ao emprego da figura retórica e estilística da litotes. Sua admissão a esta Arcádia foi um mimo para seus colegas e registo histórico dos mais valiosos para a Instituição.

2 Retrato Ligeiro da Grade do Soneto

A trilha histórica desta conjunção de expressões métricas não é tão curta, conforme se pode cogitar de imediato, e cuja completude não é cabível proceder aqui, impendendo exprimir, oportuna e labilmente, que a modalidade versejada sob comentário advém da Provença antiga, cuja poesia foi acompanhada e muitas vezes imitada em toda a Europa.

O soneto, em provençal sonet, sobrou cultivado por nomes de peso das letras pré-humanistas, no decurso do Renascimento e após este resplendente ciclo da evolução da Humanidade, também, sob o aspecto lítero-linguístico. Experienciou vastos intervalos de transformação, assentado – principalmente na vigência atual – em um formato fixo, conciso e agradável, promovido por um pugilo de versejadores da Sicília, tendo por principal Jacopo da Lentini (Lentini, hoje a cidade de Leôncio).

Resulta útil informar, ainda, que este grupo, a que Dante chamou de Scuola Siciliana (N’a Eloquência Vulgar), reunia-se em volta de Frederico II, um mecenas que tinha por secretário o rimatore Pietro dele Vigne (suicida no Inferno da Divina Comédia), e era constituído, dentre muitos, por Cielo d’Alcomo, o mencionado Jacopo (Jacó, Tiago, Jacques), Ruggiero Apugliese e Giacomino Pugliese –  todos cultores do soneto.

Francesco Petrarca recorreu a sua fórmula para cantar, nas Rimas, seus amores a Laura de Noves, a bela mulher de Hugo de Sade, por quem de inopino se apaixonou. Da Itália, Francisco Sá de Miranda (irmão do terceiro Governador-Geral do Brasil – Mem de Sá) conduziu o gradeado para Portugal na primeira metade do século XVI.

O soneto possui, hoje, quatro esquemas básicos de acentuação – em rima emparelhada, cruzada ou alternada, interpolada e encadeada – como ensina Sânzio de Azevedo (Para uma Teoria do Verso. Fortaleza: Edições UFC, 1997, p. 67), que reconhece, entretanto, outros delineamentos, cada qual com variantes.

3 Facilidade de Composição

Esse conjunto de duas quadras e dois trísticos, somando catorze versos, composto em padrão definitivo, é conformação rítmica relativamente fácil de produzir. Suficiente para tal é o sonetista conhecer bem o vocabulário, respeitar as regras da língua portuguesa, mesmo empregando munificência poética (licença), acolher os ditames da versificação e preencher os lugares nos tabiques das sílabas.

De tal maneira, não resulta necessário grande saber – tampouco impende a pessoa ser poeta-poetisa – para compor um bom soneto, porquanto dispensável me parece ser a erudição, haja vista o fato de que, mesmo não me considerando poeta, componho regulares peças neste estalão e não me arvoro de erudito, o que seria clara e meridianamente descabido.  Convém expressar, no entanto, a noção de que esses atributos conferem a quem os opera, evidentemente, maiores possibilidades de consoar mais substanciosas e cadenciadas estâncias, onde o leitor-ouvinte depara as delícias de sonoridade e estese integral nos pés harmonizados.

A efetivação, não apenas dessa conjunção de versos, como também de qualquer outra medida versificada, a mim me parece mais dependente de lineamentos da técnica do que propriamente de centelha inspirativa, de estro poético, dos quais o sonetista imprescinde a fim de oferecer um bom poema exprimido nesse gradil tão apreciado, até mesmo nos derradeiros tempos, quando é experimentada uma quadra de enorme prestígio das comunicações, maiormente ante as fulgurações da rede mundial de computadores.

Louvo, com a máxima franqueza, aqueles que escrevem poemas em verso branco, fileira na qual jamais me matriculei – como, aqui na ACLP, Regine Limaverde, Ana Paula Medeiros, Cláuder Arcanjo, Révia Herculano, Vicente Alencar, Giselda Medeiros, Batista de Lima, Valdemir Mourão e a maior parte dos nossos acadêmicos, como também ocorre com a árcade nova Iolanda Athena, a professora Iolanda C. Andrade Sampaio (Arcádia Nova Palmaciana) – docentes, linguistas e literatos.

Isto já tentei algumas vezes e há muito tempo, no entanto, abandonei tal desígnio, pois achava a produção desenxabida, insossa, sensabor, absolutamente fora de propósito, passível de um leitor enjeitá-la antes da metade.  Quando, então, tentei bosquejar um romance, ao chegar apenas no módulo dois da distribuição capitular, achei-me reproduzindo estilisticamente autores lidos e recuei imediatamente da pretensão.

Jamais, portanto, fui atrevido ao ponto de editar qualquer composição poética da minha agricultura que não fossem pés concordes, de boa rima, como decassílabos portugueses, nos moldes dos que aí vão, bem medidos, todavia contendo inverdades, de sorte a aceitar a balda particularmente a mim imposta pelo extraordinário Reitor da Sé de São Patrício. Assenta-me, pois, tal carapuça, caso alguém me tenha por poeta.

Então, a invencionice está claríssima nas duas peças adiante reproduzidas, inclusive até bem distantes em sentimento, avessa uma a outra, contrapostas, paradoxais, posso dizer – “mentirosas”, na exata acepção de Swift.

Vejamos, pois, no primeiro conjunto ora retratado, denotativo de exagerado pessimismo – posso assegurar, refalsado – composto nos anos de 1960, pouco modificado a posteriori, com o fito de pastichar Augusto dos Anjos, cuja obra ainda hoje aprecio, consoante sucede com muitos leitores amantes do metro. Tal sucedeu no tempo de estudante da então Escola Industrial Federal do Ceará, atual Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, quando aluno do extraordinário mestre e fundador deste silogeu, Hélio de Sousa Melo, logo após ler o Eu e outras Poesias, bem assim o Tratado de Versificação, clássico de Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac e Sebastião Cícero dos Guimarães Passos, o qual nem lograva entender direito,  à míngua de informações absolutamente necessárias para uma decodificação correta.

4 Fecho – As Reproduções

QUEBRANTAMENTO

Tomam-me por inteiro as mialgias,
Na arteriosclerose das matérias,
E o bater pressuroso das artérias
Pareço escutar todos os dias.

Continuamente levo hipocondrias,
Sobram-me enfermidades deletérias,
E insuportáveis idiossincrasias
Um ser infausto pejam de misérias.

Terão um termo essas bilatérias
Moléstias, pois são meras utopias […] Só se Pompílio volver às Egérias,

Ou quando a Essência perder as porfias
E assentir Zeus em novas Eleutérias
Em tão fúteis e vãs alegorias.

As estrofes sequentes foram produzidas agora em agosto (2018), num momento de descanso da revisão de escritos acadêmicos – ao que procedo no momento, após reforma do magistério – muitos bastante pesados dos haveres da Ciência, de consumo com sabor diverso dos escritos literários. Há alguns deles cuja leitura afadiga o revisador em somente duas páginas, tendo que descansar para reiniciar.

O produto ficou pronto quando perfiz 72 anos – daí o “motorzão” sete-ponto-dois mencionado no pé inicial da primeira estância, recheada de vantagens de ocorrência impossível, dada a natural e inexorável descensão vital, a não ser nas artimanhas de um pseudopoeta, tachado, decerto, com merecido e veraz adjetivo, por Jonathan Swift.

Analisem e avaliem a peça, comparando-a com a anterior para assistir razão, ou denegá-la, ao eclético escritor irlandês.

FORTALEZA E DESTEMOR

Sou motor grande, sete-ponto-dois,
Aproximado de Primo Carnera,
Porquanto a Mãe Natura em mim apôs
O que o vigor humano reverbera.

Não ponho o carro adiante dos bois,
E, sem pavor nenhum da besta-fera,
Enfrento a Terra que se contrapôs
À minha indestrutível primavera.

Arrosto o monstro Typhon – sou o Kratos,
Príapo – fôlego de sete gatos –
Deus Poseidon mais do que furibundo.

Mandachuva de todos os estratos,
Logro, apressado, meus desideratos:
Sinto-me um Atlas transportando o Mundo!

Colegas acadêmicos, memória tenho, como disse Jonathan Swift na epígrafe desde texto. Vamos, ver, entretanto, se chegarei ao segundo turno na postulação do mandato de poeta.
Obrigado.
V.M.

NOTAS

Comento, neste passo, acerca do curioso emprego das palavras e expressões em negrito, utilizadas intencionalmente para este texto, dirigido a acadêmicos estudiosos de língua e literatura em idioma português:

registada – modalidade variante constante do VOLP, de (menor) emprego correto, com seus compostos; sem a letra “r”. Têm maior curso no Brasil as formações registro, registrar, registrado […];

exprimido – o verbo exprimir possui particípio duplo, sendo exprimido o de teor regular e expresso o irregular. Nota-se, entretanto, bem mais usada a segunda maneira – expresso – decerto em decorrência de ordem fonética, em cotejo com a configuração participial do verbo espremer, cujo particípio é espremido;

maiormente – advérbio de modo procedente do adjetivo maior. De pouco emprego no País, resulta, porém, correto a ele recorrer;

litotes – tropo de retórica e estilística que ajunta frequentemente, num eufemismo, o realce retórico à ironia. Sugere uma ideia pela negação do seu contrário. Veja-se uma das acepções de esforçado, de cunho pejorativo, significativo de pessoa pouco inteligente, desprovida de certos predicados, mas que procura se descometer de tarefas, nem sempre com sucesso. “É esforçado porque não usa a inteligência”; “não está com o juízo perfeito porque está louco”;

a mim me parece – apliquei, de caso pensado (licitamente), o objeto direto preposicionado; e

revisador – sinônimo de revisor, revedor, revistador, revisador – todos vocábulos com registo no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa – VOLP.

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