Livro revela página obscura da história: o dia em que Camões foi censurado no Brasil

ITALO GURGEL – membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 17

(Trabalho apresentado na “Hora do Vernáculo”, sessão de 28/05/2019)

O livro a que o título se reporta me foi presenteado por uma cunhada, a professora Neuma Cavalcante, aposentada do Departamento de Literatura da Universidade Federal do Ceará, pesquisadora do manuscrito literário e ex-curadora do acervo de Guimarães Rosa, na USP. A preciosidade, ela recebeu do bibliófilo José Mindlin, industrial paulista, fundador da Metal Leve, fabricante de autopeças, e patrono do ex-libris que aparece na capa.

Ao longo de décadas, Mindlin, que faleceu em 2010, reuniu uma extraordinária biblioteca brasiliana que, em 2006, doou à Universidade de São Paulo. O conjunto é constituído por obras de literatura, história, relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários, documentos, periódicos, mapas, livros científicos e didáticos, iconografia e livros de artistas.

Num rápido adendo, vamos espiar o que Aurélio revela sobre o termo “ex-libris”: “Fórmula que se inscreve nos livros, acompanhada do nome, das iniciais ou de outro sinal pessoal, para marcar possessão. Pequena estampa, geralmente alegórica, que contém ou não divisa, e vem sempre acompanhada do próprio termo ex-libris e do nome do possuidor, a qual se cola na contracapa ou em folha preliminar do livro.”

A inscrição “ex-libris” pode aparecer carimbada, ou numa vinheta colada. No caso do Dr. Mindlin, seu lema, “Je ne fay rien sans gayeté” (“Não faço nada sem alegria”), foi extraído de um ensaio de Montaigne sobre os livros e explicita sua afinidade com aquela grande figura do humanismo francês. Só uma curiosidade: no dístico que temos aqui, o verbo faire (fazer) preservou sua grafia arcaica (fay).

Voltando à obra que trago aqui, eu diria que chama a atenção, de pronto, o esmero com que foi produzida. A caixa de cartolina que envolve dois pequenos volumes encadernados traz apenas a vinheta com o lema, seguida da informação: “Ex-libris José Mindlin”.

Os dois volumes são: um conjunto de artigos que constituem a sétima edição do periódico “A Revista”, e um primoroso fac-simile da primeira edição de “Os Lusíadas”, datada de 1572. O original, evidentemente, fazia parte da biblioteca do Dr. Mindlin. Dessa edição, existem hoje pouco mais de 20 exemplares espalhados pelo mundo.

Mindlin, que era membro da Academia Brasileira de Letras, colecionava livros desde menino e, ao longo dos anos, reuniu mais de 100 edições preciosas dos Lusíadas, em várias línguas e versões, incluindo a segunda, datada de 1584 e que foi censurada em sua época. O livro, de quase 400 páginas, foi fotografado na biblioteca do proprietário, em meio a extremados cuidados, dado o valor material e sentimental, além de sua fragilidade. A tarefa tornou-se ainda mais complexa porque as páginas não podiam ser abertas por completo, sob pena de se comprometer ou arruinar por completo aquele tesouro bibliográfico.

A capa exigiu precauções ainda maiores, em virtude do desgaste que sofreu com a ação do tempo. Tendo como referência a foto, a artista plástica Gisele Dias redesenhou todos os detalhes em bico-de-pena. No fac-simile, a capa dura, em cartão Royal de alta gramatura, recebeu ainda uma laminação fosca para obter o mesmo efeito do pergaminho aveludado original. As ilustrações copiadas do original aparecem em dourado.

A costura das páginas do miolo, a prensagem e colagem da guarda foram feitas manualmente. O miolo recebeu, então, a douração, processo hoje restrito, praticamente, aos livros religiosos e que se traduz na aplicação de uma solução dourada, através de um rolo aquecido – daí o nome inglês que identifica esse processo na indústria gráfica: hot stamping.

As fases seguintes foram o arredondamento do miolo, a colagem manual do cabeceado, que é o tecido de algodão aplicado à lombada, e a colagem da capa flexível no miolo.

Quanto ao libreto, que constitui o exemplar de “A Revista”, os materiais de impressão foram escolhidos de modo a harmonizar-se com o fac-simile. Do que trata seu conteúdo? Aqui é quando se impõe mencionar a questão política anunciada no início de minha fala e prenunciada, talvez, pelo próprio título que apliquei a estes comentários.

O livrinho, de 70 páginas, traz sete artigos assim intitulados: “Uma história de resistência para as novas gerações”, por José Mindlin; “A imprensa amordaçada”, onde se reproduzem textos que foram censurados no jornal “O Estado de São Paulo”, na época do regime militar; “No Brasil não há liberdade de imprensa” e “Sombria situação da imprensa brasileira”, ambos de Julio de Mesquita Neto; “O AI-5 matou meu pai – desabafa Ruy Mesquita”, entrevista concedida a Regina Echeverria; “Crônica de um tempo alucinado”, de Arnaldo Jabor; e “Como se produz um legítimo Camões”, por Tânia Galuzi.

 

No período de 1964 a 1985, especialmente após a edição do AI-5, em dezembro de 1968, os órgãos de comunicação brasileiros enfrentaram um dilema: ou aplicavam a autocensura, ou eram obrigados a acolher, em suas redações, a figura do censor. O “Estadão” foi um dos jornais que se recusaram a praticar a autocensura e, quando os agentes do regime impediam a publicação de algum texto, o espaço era preenchido com poemas, ou mesmo com receitas de bolo, não importando se página interna ou primeira página. Para os leitores, ficava claro que, ali, alguém havia aplicado a tesoura.

Mais tarde, o jornal passou a lançar mão apenas de “Os Lusíadas”, preenchendo espaços com estrofes ou versos camonianos, o que aconteceu mais de 600 vezes. Fica, pois, esclarecida a relação entre Camões e essa candente questão política brasileira do século passado, que foi a censura.

Quero, por fim, ceder a palavra ao empresário bibliófilo, o isento Dr. Mindlin, para que complete esta narrativa, que tem a ver com literatura, com liberdade e com um resgate histórico. Diz ele em seu artigo, na abertura do libreto, falando da estratégia do “Estadão” de publicar versos de Camões em substituição a matérias censuradas:

“O expediente divertiu os leitores, em sua maioria de oposição ao regime, mas obviamente irritou os censores, pelo ridículo a que estavam sendo expostos, e Camões acabou sendo banido por uma proibição draconiana. Mas o objetivo do jornal tinha sido alcançado. Os que viveram aquele período ainda se lembram do episódio. As novas gerações, no entanto, em sua maior parte, o ignoram, e considero por isso genial a ideia de ‘A Revista’ publicar uma edição fac-similar da primeira edição de ‘Os Lusíadas’, reproduzindo, a título de exemplo, ao lado de algumas estrofes, o texto que preencheu o espaço que elas ocupavam.”

Qual era, enfim, o conteúdo dos textos censurados? Quão ferozes eram as críticas ao regime? Essas perguntas vão, decerto, espicaçar a curiosidade de vocês. Mas a revelação fica para outra oportunidade. Não quero extrapolar o tempo a mim concedido, para não obrigar o Presidente a empunhar a tesoura e cortar minha palavra.

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