Nosso dolo, nossas culpas

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Somente o influxo da arte comunica
durabilidade à escrita. Apenas ele marmoriza
o papel e faz da pena escopro. (Rui Barbosa).

Parece-nos fenecer alegação lógica àqueles que inadmitem o emprego facultativo do plural em certos substantivos, quando expressos de par com as unidades vocabulares nosso, vosso e outros possessivos, em suas naturais e corretas variações desinenciais.

Em sua maioria, os nomes são passíveis de comportar modificações flexionais, maiormente em relação a número – flexão nominal ou verbal indicativa da existência de um ou mais.

Sucede, entretanto – e não raro – que a aplicação indiscriminada, na dependência da conformação fraseológica, do plural ou do singular, pode desfear o torneio e, dessarte, comprometer o escrito, no particular, em se cuidando de tecedura literária.

A Língua Portuguesa conserva em guarda extremos recursos, tanto no que concerne a sua impressionante polissemia, como no pertinente às incontáveis maneiras de estruturar a mensagem. É uma como expressão musical, cuja combinação das notas, dissonantes e outros aprestes da codificação desta Arte reverterá na gradação do belo, variando até o feio e, por vezes, descambando para o medonho.

Há tantos recursos, que existem tantos homens e igual quantidade de modos característicos de se escrever, rememorando a célebre asserção leclercana, quando o Conde de Buffon, Georges Louis de Leclerc, lobriga o estilo de acordo com a personalidade do estilista (Le style est l’homme lui-même).

Salvante escorrego de memória, foi durante o Concílio Vaticano II (11.10;1962-08.12.1965, sob o Papa João XXIII), que se achou por bem, exempli gratia, permutar do padre Nosso dos católicos – traduzido, no plural, do Livro Santo – a dicção “nossas dívidas” (perdoai as nossa dívidas assim como perdoamos nossos devedores) pela unidade de ideia “nossas ofensas” (… assim como nós perdoamos os que nos têm ofendido), com o pronome possessivo e o substantivo pluralizados. Bem que podiam ser, também, cunhadas as expressões, no primeiro número gramatical, “a nossa dívida”, “a dívida de todos”, isto é, o débito global, o passivo da Humanidade, com relação à falta geral (o pecado), ou – no segundo número – às faltas gerais (os pecados).

Entrementes, com o substantivo dolo (ô), na primeira e mais relevante acepção em Língua Portuguesa, quiçá resulte desaconselhável grafar dolos ou nossos dolos, exatamente pelo sensabor elocutório, conquanto gramaticalmente corretas ambas as locuções.

Para crime, que assume dolo e culpa, ex positis, entende-se indiferente aaplicação, no singular, como no plural, quando das generalizações, em nosso crime ou nossos crimes. “Nosso crime foi responsável pela Crucifixão”, isto é, a iniquidade humana levou Cristo à morte de cruz; ou em: “nossos crimes levaram Jesus Cristo à morte de cruz”, no plural, sem deslustrar e, tampouco, enriquecer a sentença.

Com a dicção culpa, nas variegadas intenções que conota (“violação ou inobservância de uma regra de conduta, que produz lesão do direito alheio”; ou “falta voluntária de diligência ou negligência, ato de imprudência ou imperícia, sem propósito de lesar, mas de que resultou a outrem dano ou ofensa de seus direitos […] pecado, delito, responsabilidade, causa de um mal etc – AURÉLIO), podem ser torneadas frases, em ambos os números, como na acepção do vocábulo “responsabilidade”, verbi gratia: “O Brasil constitui nação do Terceiro Mundo, Estado periférico, por culpa nossa” (responsabilidade nossa). A expressão é passível de ser conduzida, permutatis, permutandis, para o plural, inclusive a fim de adornar o estilo, quando menos para a fuga do trivial, como assim: “Nossas culpas nos responsabilizam pelo atual status do País”, ou, “Por culpas nossas, nosso País se encontra perto do caos”; “ de quem é a culpa?” “De quem são as culpas?” Sem nos arvorar de referência final no exame da matéria, modestamente entendemos que pluralizar ou permitir a permanência no singular, nos casos dos quais nos ocupamos, é, tão-só, um ponto de aprimoramento do estilo, porquanto, em um número como no outro, a língua do meu conterrâneo (Palmácia-CE) e patrono na ACLJ, José Rebouças Macambira perfaz-se devidamente respeitada.

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