ACADEMIA CEARENSE DA
LíNGUA PORTUGUESA

dulcisonam et canoram linguam cano

O Franzão e o Brás

Italo Gurgel

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

Podemos convencer os outros com as nossas
razões, porém somente os persuadimos com os
motivos deles. JOSEPH JOUBERT.
(*Montignac, 05.05.1754 – + Villeneuve-sur-Yonne, 04.05.1824).

Durante certo tempo em que o cratense Anselmo de Albuquerque Frazão, convidado pelo reitor Antônio Martins Filho, dirigia um dos órgãos suplementares da U.F.C. – a Imprensa Universitária – trabalhavam no ateliê de desenho da Casa os profissionais Assis Martins (cronista assíduo), Elísio Cartaxo, José Raimundo Monte – o Büí (falecido em acidente de motocicleta), e o Brás, este cujo nome completo me escapole da lembrança, já meio enfastiada de tanta solicitação.

Também militava ali, como parte de sua ação acadêmica, o Professor Geraldo Jesuino da Costa, acadêmico titular de três sodalícios do Ceará, ao chefiar a edição gráfica das revistas da Instituição, editar o Jornal Universitário (para o qual escrevíamos, também, eu e o Professor Ítalo Gurgel) desde o tempo do reitor Professor Paulo Elpídio de Meneses Neto, orientar seus estudantes na disciplina Editoração, ministrada para o Curso de Comunicação Social, bem assim desenvolver outras ações paralelas e afins. Posteriormente, sob os reitores Professor Antônio de Albuquerque Sousa Filho e Roberto Cláudio Frota Bezerra, exerceu por 12 anos múnus como Diretor da então excepcional Casa Publicadora, a qual, hoje, porque os órgãos de controle do País não permitem, está semelhante a peito em homem e ao “H” da Brahma: não serve para coisíssima nenhuma!

A tantos artesãos de uma arte maior, adiciono a incomparável figura do Alberon Soares, pintor e gravador da melhor felpa, muito recentemente desaparecido, cujos inteligentes e espirituosos chistes o faziam admirado ainda mais por parte de quem o conhecia, ajuntando-os, em complemento, aos seus dotes de artista das telas e gráfico a mancheias, antes das grandes fulgurações da Informática, divisora da já envelhecida taxinomia das Artes Gráficas em duas grandes fases diametralmente opostas – antes e depois do computador.

 Esse pugilo de grandes artistas, pois, quase diariamente era engrandecido pela comparência do Prof. Dr. José Liberal de Castro, da vizinha Arquitetura, onde entrava na discussão do futebol, rememorava as estórias engraçadas da Universidade e relatava, quase sempre com muita pimenta, os registos valiosíssimos do seu recheio casuístico, minucioso ao extremo.

Jamais me esqueço de uma vez ter ouvido do Alberon o fato de ele haver lido o convite para os 15 anos da Rosa Frazão – sobrinha do Anselmo, que também trabalhava da IU e não era mais essa juventude toda – reproduzido na seção O Povo há 50 Anos, mantida no periódico de Demócrito Rocha e Paulo Sarasate; dizia ter sido ela a bibliotecária que normalizou o Código de Hamurabi e amanuense redatora da ata da Ceia Larga, a qual, embora não tenha assistido ao dilúvio, pisou na sua lama.

Frazão é homem reto, verdadeiro, autêntico, sem evasivas enganosas nem justificativas matreiras, porém, às vezes, como marca de sua personalidade, meio ríspido, mas de uma severidade que termina na graça, resvala para o gracejo. Há pouco tempo, saía da Agência do Banco do Brasil da Reitoria, muito sério, reclamando das máquinas do Estabelecimento, que apenas soltavam dinheiro para quem tivesse saldo…

Conta, ainda, a canalha da UDN – nisto não acredito – ele haver indicado para um amigo, em viagem ao Rio de Janeiro, hospedar-se no “Hotel Zero Quilômetro”, na Rua Senador Dantas, 24 – Cinelândia. Nada menos do que o Hotel OK.

A proeminência destas linhas está, porém, neste fato derradeiro. Cuida-se do caso das férias concomitantes, ordenadas pelo Frazão, de Assis Martins, Elísio Cartaxo e Büí, deixando o Brás sozinho no ateliê, fato que a este aborreceu por demais. No segundo ou terceiro dia do isolamento do Brás, o Frazão adentrou a sala, desejou “bom dia”, sem resposta do funcionário. Tentou, outra vez debalde, entabular conversa.

Então, Frazão pensou consigo: “Tem mouro na costa”!

Indagou, pois: – o que está acontecendo, rapaz?

Seu Frazão, como o senhor me faz essa maldade de me deixar aqui sozinho, com tanto trabalho, isolado! Faz medo até alma!

– O que isso, Brás! A gente pensa que faz um giro e faz é jirau! Olhe: pelo fato de não ter direito ainda a férias, quis deixar você sozinho, por vários motivos: não tem quem lhe encha o saco; seu café é servido ligeiro, porque não tem outras pessoas; você pode cantar e assobiar à vontade, sem atrapalhar ninguém. Por fim, você pode até soltar um p.., que não há quem diga que foi você. Além do mais, o mau cheiro é somente seu…

O jeito que teve foi rir… E gargalharam ambos.

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