O HOMEM E A CONQUISTA DOS ESPAÇOS

                            Ana Paula de Medeiros Ribeiro – Cadeira nº 12

Disse Voltaire que “Conquistar não é suficiente. É preciso saber seduzir.” Com esta sentença do prolífico escritor francês, inicio esta breve resenha da obra intitulada O homem e a conquista dos espaços: o que os alunos e os professores fazem, sentem e aprendem na escola (Fortaleza: LCR, 2006), de Paulo Meireles Barguil[1].

Trata-se de um livro de 358 páginas graficamente bem apresentadas, cujas características do texto o inserem no gênero ensaio. Embora seja, originalmente, sua tese de Doutoramento, o texto tem traçado literário e se situa entre o poético e o didático.

A capa traz uma fotografia de bela criança em um gesto que suscita muitas interpretações. A posição da criança na foto leva a crer que o autor procurou um modo de expressar a própria conquista tematizada no livro, ou seja, o exato momento em que o homem passa de uma condição em que se movimentava arrastando-se, para uma condição de plena autonomia, na qual procura ficar de pé. A meu ver, esta é a primeira grande conquista do homem. Atestei ainda mais esta intenção ao ler o conteúdo da seção intitulada Um lindo balão azul no infinito, na qual o autor expõe toda a sua gratidão a pessoas com quem estabeleceu vínculos ao longo de sua vida profissional e acadêmica. Nas oito páginas que encerram esta seção, o autor partilha suas conquistas com pessoas que lhe foram importantes. Com esta obra, o autor se põe de pé mostrando maturidade acadêmica, a qual lhe conferiu o título de Doutor em Educação.

Aponta, na página 15, uma de suas intenções com o livro: “Somente por meio de uma atitude filosófica intensa e contínua, expressão de um profundo compromisso com a vida, é que construiremos transitórias soluções, tendo em vista a dinâmica social, que nos impõem desafios ininterruptamente”. Em uma postura humilde e despretensiosa frente ao conhecimento, Paulo Barguil, não intentando apresentar soluções rígidas para o problema a ser tratado no livro, as qualifica de “transitórias” dando-lhes o caráter da finitude, do inacabamento e da efemeridade. Essa postura apresentou-se em várias outras passagens, como se pode atestar na página 21: “O que de mais intenso se revela agora, porém, é a alegria de desenvolver uma investigação sobre um tema que, de forma bastante peculiar, contempla antigas inquietações, tornando-se uma oportunidade para, quem sabe, aclará-las”.

Paulo Barguil apresenta-se ao leitor como um pesquisador eufórico, alegre, inquieto e, paralelo a isso, cuidadoso e rigoroso, não abrindo mão dos passos que fundamentam a pesquisa científica.

No capítulo seguinte, o autor demonstra claramente o seu senso de organização auxiliando o leitor a entender a dinâmica do arranjo textual e a tecedura dos capítulos. Nesta parte, apresenta-se como um habilidoso artesão afinando palavras e urdindo os fios do seu pensamento participando, de forma criativa e inteligente, da costura teórica do texto. Utiliza-se de letras de músicas muito bem selecionadas e que se encaixam na discussão dando uma pitada poética na obra como um todo.

Ao longo dos cinco capítulos subsequentes, Paulo Barguil apresenta os sabores e dissabores existentes no campo educacional e situa a temática que elegeu como objeto de estudo de sua pesquisa: o espaço escolar.

No capítulo 7, o autor expõe os dados coletados, descrevendo-os, sistematizando-os e, sobretudo, analisando-os sendo fiel ao seu intento: “[…] descobrir como o espaço (prédio) escolar é percebido, sentido, valorizado e visualizado por seus diferentes frequentadores (diretor, professores e alunos)” (p.257).

Paulo Barguil admite que “cresceu” ao longo da pesquisa, pois não se deteve ao fazer mecânico dos procedimentos metodológicos do labor científico. Ele se envolveu emocionalmente. Sua alma estava inserta nos vários ambientes que visitou, fotografou e viveu… Ele se desnuda a tal ponto que fui capaz de sentir sua indignação ao ver estruturas físicas tão deploráveis ofertadas aos alunos e professores. Pude ouvir seu clamor por uma intervenção política que aplaque tal problema. Pude saborear suas ideias que, uma vez efetivadas, poderiam minimizar algumas das históricas crises na educação.

Por fim, retomo a citação de Voltaire posta no preâmbulo deste texto: “Conquistar não é suficiente. É preciso saber seduzir”. Paulo Barguil, em sua obra, soube!

[1] Professor Adjunto do Departamento de Teoria e Prática do Ensino, da Faculdade de Educação – UFC.

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