O Pão que o Táxi Amassou

Giselda Medeiros – Cadeira nº 16

Entendo que a ficção não é abstração, mas realidade, cada obra refletindo um pedaço de mundo que a cada escritor foi permitido conhecer, cada escritor interpretando o mundo a partir das suas circunstâncias e nos limites das suas perspectivas existenciais…

Tomando como ponto de partida esta afirmação do grande crítico literário cearense Dimas Macedo, ousamos tecer alguns comentários sobre O Pão que o Táxi Amassou (Fortaleza: Educadora e Editora HB Ltda., 1997), o mais recente livro de contos de Valdemir Mourão.

Efetivamente, nos 27 contos enfeixados neste volume, vemos saltar a realidade, refletindo a cosmovisão de seu autor, num ato não de abstração, mas de sua plena integração aos problemas existenciais do ser humano, nunca tão estraçalhado por suas dores ontológicas, como agora neste final de século. E o autor, comungando da mesma hóstia desses conflitos, trabalha a palavra num esforço de terapia para si e para seus leitores que têm, no fluir de cada história, uma reflexão, a levar-nos à descoberta de um caminho, onde é possível visualizar o bem, a caridade, a compreensão, a solidariedade.

Valdemir Mourão aproveita, pois, fatos corriqueiros, familiares à vida de cada um de nós para, com sabedoria e arte, trazer-nos experiências de realidades objetivas, captadas por seu olho de artesão ficcional. E sabe dizer o que capta com simplicidade e segurança. De um mergulho na alma de suas personagens, sai por aí afora, a retocar imagens, com seus detalhes quase imperceptíveis, para colocá-las, vivas e palpáveis, diante de nossos olhos ávidos de novos aprendizados.

Impõe-se nos o Autor como um contista, não só de caráter humanístico, mas também de forte carga social, denunciando as injustiças e desigualdades em que se debatem os marginalizados da vida, como no conto ”Visita à Angústia”.

O metafisicismo presente em sua obra deixa-nos cientes de nossa condição precária, do niilismo de nossa matéria, da inelutabilidade que nos põe diante da morte como presas certas e indefesas, aptas ao golpe fatal.

Conferimos isto através do monólogo de Gê, no conto “Alucinações Depois da Vida”: – Antes a morte que, por certo, é tal qual a preconcepção; tudo em forma de nada. A morte!.

O lado cômico da vida e a tragédia humana são também motivo do seu artesanato, bem trabalhado, dentro de uma linguagem própria de cada personagem, como afirma a percuciente palavra de Genuíno Sales, na apresentação do livro: “A simplicidade do estilo, que valoriza a utilização do léxico e da sintaxe populares, não encobre a virtude do professor de Língua Portuguesa que se denuncia pela justeza do uso da linguagem escorreita”, afirmação essa que por si já basta para se aquilatar o valor literário de O Pão que o Táxi Amassou.

Sendo assim, resta-nos levar nossas congratulações ao Autor pelo trabalho sério, de dimensões transcendentes que, por certo, terá grande aceitação por parte da crítica e dos leitores, haja vista a multiplicidade de enfoque da realidade trabalhada, dentro dos caminhos de modernização da escritura ficcional brasileira.

(do livro Crítica Reunida, 2007)

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