O PENSAMENTO NO ENSINO DA REDAÇÃO

HORA DO VENÁCULO – 28-6-2017

                                   Prof. Valdemir Mourão – Cadeira nº 19

Se considerada toda a amplidão em que se engloba o pensamento, há de se admitir que quando um aluno é privado de certas experiências, as consequências logo aparecem na mudança de seu comportamento, por isso que, quando ele apresenta um comportamento impulsivo, por exemplo, o professor costuma atribuir isto à falta de pensamento: a pessoa não para para pensar (cf. Raths, 1977). 

Ainda em Raths, pode-se encontrar outro exemplo de que o aluno não se concentra:

Em certo momento, não presta atenção ao que está fazendo e, por isso, fracassa em seu trabalho. Geralmente se supõe que isso resulte de negligência de rigor nos processos de pensamento. Quando existe acentuação de pensamento no currículo, os alunos tendem a modificar seu comportamento. Quando existem frequentes oportunidades para participar de grande diversidade de processos que exigem pensamento, a frequência de comportamento impulsivo tende a diminuir (Idem).

Pode-se aceitar que é possível transpor a capacidade de pensar do aluno à expressão escrita, dando-lhe oportunidade para exercer essa capacidade, aplicando processos que o levam ao exercício do pensamento através da escrita, pois é fundamental, ao escritor, “ter oportunidade para pensar e para discutir o pensamento”(Ibidem), para que ele consiga harmonizar o pensar e o escrever.

Redigir é, afinal, uma das formas de manifestação da linguagem a qual determina o pensamento que, por sua vez, é útil ao desenvolvimento da linguagem, cuja relação (pensamento-linguagem) é advertida por Greene (1976) ao afirmar que falar acerca do pensamento, ignorando a linguagem, seria uma forma extremamente incompleta de abordar o assunto. 

Por ser o pensamento um elemento determinado pela linguagem e por ser a redação uma das formas de manifestações da linguagem, sente-se, então, a necessidade de se partir da produção do aluno, porque a sua produção deve refletir o seu pensamento (ou a sua consciência) e a sua variedade linguística, se já não decapitada pela repressão do ensino tradicional. 

É oportuno transcrever relações possíveis entre o pensamento e a linguagem atribuídas por Greene (1976), para que se entenda melhor tal ligação: 

  1. A linguagem é necessária ao pensamento e determina-o;b) O pensamento precede a linguagem e é necessário ao seu desenvolvimento; c) Linguagem e pensamento têm raízes independentes.

Também vale apresentar duas funções distintas da linguagem, para que se tenha ciência de que a linguagem e o pensamento partilham o mesmo código linguístico, daí a interligação entre ambos, reforçando, assim, a existência de um auxílio mútuo:

A linguagem tem duas funções distintas: a comunicação externa com os seres humanos nossos semelhantes e, de igual importância, a manipulação internade nossos pensamentos íntimos. O milagre da cognição humana é que ambos esses sistemas usam o mesmo código linguístico e, assim, podem ser reciprocamente traduzidos – com mais ou menos êxito (Ibidem).

Ainda referente ao pensamento, dentro do que interessa para este trabalho, tem lugar uma transcrição de Lima (1970):

O pensamento é uma atividade mental que envolve a manipulação de símbolos, sinais, conceitos ou ideias simbolicamente representados. (…) Se Considerarmos a memória como um arquivo, pensamento é o termo (sic) utilizado para descrever as diversas maneiras que temos para recuperar, examinar, combinar e reagrupar as informações arquivadas. A memória, a aprendizagem, o pensamento e a linguagem são processos intimamente (sic) interligados.

Este enunciado diz respeito especificamente ao que interessa esta pesquisa, visto que mostra que há ligação entre as operações de pensamento, a aprendizagem e a linguagem (elementos frequentes no ato de redigir e indispensáveis ao ensino deste ato). 

Se, por outro lado, o processo que estimula o aluno ao uso do pensamento – que deve refletir no seu comportamento e na sua linguagem – deve ser uma tarefa do professor, a mudança em si deve ser do aluno. Logo, compete ao mestre criar em cima da redação do aluno atividades que provoquem pensamento, que ativem a sua consciência, para que a alteração apresentada por ele recaia na sua própria produção: assim, fica detectada a influência do pensamento no ensino da redação. 

Para que isso ocorra, no entanto, com maior eficácia, presume-se que se deva partir da manifestação escrita do aluno, ainda que com suas variações, sem, todavia, estigmatizá-las, para se alcançar a língua padrão. Feito isso, poder-se-á levar o aluno a conhecer diferentes variações linguísticas e usá-las convenientemente, quando solicitado a expressar-se por escrito, refletindo, portanto, um melhor ordenamento do binômio pensamento-linguagem. 

As atividades sugeridas, a partir da produção escrita do aluno, podem ser desde a reestruturação de frases do texto, de períodos e de parágrafos, além de substituições de verbos, de complementos e/ou de sujeitos. 

O importante, portanto, é que estas atividades ativem o pensamento do aluno para que ele transforme a sua variação linguística em norma culta.

                        SUGESTÕES PARA OS PROFESSORES DE LÍNGUA

            Diante dos resultados favoráveis encontrados, a partir da aplicação de Operações de Pensamento, resta sugerir alguns pontos óbvios e implícitos no decorrer do trabalho.

  1. Que as operações de pensamento sejam aplicadas durante o trabalho de análise da produção do aluno.
  2. Que este trabalho seja feito também junto às composições de outras disciplinas, mesmo diante daquelas que têm como base o número. Acredite: Isso é possível.
  3. Que o trabalho de estudo da composição do aluno abranja a análise do código linguístico e doconteúdo, além da reestruturação frasal no texto e do uso de elementos coesivos.
  4. Que o ponto fundamental do trabalho de produção e análise de texto seja levar o aluno a refletirsobre a própria produção, fazendo-o sentir ou produzir a harmonia entre o pensar e o escrever.
  5. Que, mesmo com os conteúdos programáticos impostos pela escola, seja dada ênfase ao pensamento e ao uso da língua como fator final da produção da linguagem.
  6. Que a norma culta seja o fim do processo do ensino de língua, mas nunca o princípio nem o meio, e que este fim não sirva de repressão do uso da variação linguística do aluno.
  7. Que o processo de correção não seja um mero apontar de erros, mas um motivo de análise do ato de comunicação do indivíduo, sem que estes erros sirvam de punição para o aluno.

            Com a aplicação dessas sugestões por parte do professor, poder-se-á crer em uma possívelexpressão escrita mais próxima dos desejos dos mestres de língua.  

                      

                                    BIBLIOGRAFIA

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  1. LIMA, Lauro de Oliveira (1982).O ensino reprovado: adaptado por autor desconhecido de

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  1. OLIVEIRA FILHO, Paulo de (1987).Fundamentos da redação.SP, Lua Nova Editora.
  2. RATHS, Louis Edward; ARTHUR, Jonas; ARNOLD, M. Rothstein e WASSERMANN, Selma

       (1977). Ensinar a pensar: teoria e aplicação. 2ª ed., SP, EPU. (Tradução: DANTE MOREIRA LEITE). 

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