Ortoepia

O termo ortoepia vem do grego (orthos, correto e épos, palavra). É, segundo Mattoso Câmara Júnior, a parte da gramática normativa que, levando em consideração o uso culto, a pronúncia tradicional e os traços fonológicos relevantes, determina e prescreve no âmbito da fonologia de uma língua a escolha entre as variantes livres dos fonemas (fazer, com um nítido /r/ pós-vocálico vibrante), a nitidez da articulação dos grupos vocálicos e consonânticos (inteirar, com o ditongo /ey/ nítido), os tipos de ligação que se devem fazer ou evitar (mal-estar, pronunciado com ligação /malestar/), as modalidades condenáveis de metaplasmo (próprio, sem a síncope do segundo /r/ ).

A ortoepia, grafia consagrada pela NGB, ou ortoépia, forma adotada por Mattoso e muitos gramáticos, faz parte, juntamente com a prosódia (que indica a tonicidade da sílaba), da ortofonia, capítulo da Fonética.

Eis alguns exemplos de vocábulos, que são comumente objeto de dúvida ou de desvio da pronúncia culta: ab-rogar (anular, suprimir); abóbada; abóbora (e não abobra); absolutamente; acerbo (é), apud Bechara – rigoroso, severo, duro; adaptar; adrede (ê); advogado; adivinhar; admirar; aleijado; amor; apodo (ô) – alcunha, apelido engraçado ; bandeja; bandejão; bebedouro; beneficência; beneficente; bodas (ô): bugiganga; caderneta; cantar; cabeleireiro; calvície (e não calvice); camundongo; canoro (ó); caranguejo; convalescença; cabeçalho; cateto (ê); cepo (ê) – pedaço de tronco de árvore; cepa (ê) – videira; cerebelo (ê) – parte do sistema nervoso; cérebro, (e não célebro); cetro (é); cinquenta; coldre (ó), segundo Aurélio; companhia; corno (ô), cornos (ô ou ó); cumbuca; decepcionado; desinteirar; delinquir (ü); disenteria; digno; digladiar; distinguir (e não distingüir); dolo (ó), segundo Aurélio; em que pese (ê) a – vogal fechada ( aconselha Evanildo Bechara); espécie (cii); estupro (estrupro = estrondo); empecilho; entreter (e não enterter); exangue (u não pronunciado); extinguir (u não pronunciado); fecha (ê); filantropo (ô); foro (ô); fórum (ó); fortuito; freada; gratuito; grelha (ê), segundo Aurélio; grosso (ó) modo (do); hilaridade (e não hilariedade); imprega (e não impreguina); indefesso (é) – infatigável; inexorável (x = z); inodoro (ó); iogurte (e não iorgute); intoxicado (cs); jabuticaba; lato sensu; meritíssimo; mesmo (e não mermo); meteorologia (e não metereologia); mortadela (e não mortandela); molosso (ô) – cão; obcecado (e não obicecado); misantropo (ô); muito; mulher; murchar; odre (ô); ouro; opa (ó) – capa; palimpsesto (ê)- papiro raspado novamente; paralelepípedo; paredro (é)- mentor, conselheiro; Peru (e aberto) – país; peru – ave; pneu; pontiagudo; propriedade; proprietário; psicologia; psicotécnico; privilégio; prostrado; queijo; redarguir (ü); reivindicar; retrógrado; sobranceira; registro (e não rezistro); ritmo; roubar; série (ii); superstição; sintaxe (x=ss); subsídio(ci); tábua; terçol; tóxico (cs); torso (ô) – busto ; trouxe; urbi et orbi (etórbi); virtuose (ô); xifópago (que apresenta duplificação do tórax).

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, (5ª.ed. 2009, Ed.Global), publicação da Academia Brasileira de Letras, consagra palavras com dupla pronúncia. Exemplos: aborígine, aborígene; ab-rupto, abrupto; acervo (ê ou é); algoz (ô ou ó), algozes (ô ou ó) ; ambidestro (ê ou é); avôs – os homens; avós – o casal; badejo (ê ou é); braguilha ou braguilha; cerda (ê ou é) – fios de que se fazem vassouras, etc; coeso (ê ou é); destra (ê ou é); efebo (ê ou é) – jovem, mancebo; entrevero (ê) – confusão entre pessoas, mistura; escaravelho (ê ou é) – vira-bosta; extra(s) (ê); Fênix (s ou cs); grumete (ê ou é); hexagonal (cs ou z); impigem ou impingem; interesses (ê ou é); máximo (ss ou cs); máxime (cs ou ss); obeso (é ou ê); obsoleto (é ou ê); poça (ô ou ó); subsistir (si ou zi); subsistência (si ou zi); traslado ou translado.

Há palavras que mantêm a mesma pronúncia, quando usadas no plural. Exemplos: acordo, acordos; algoz, algozes; almoço, almoços; bolha, bolhas; caolho, caolhos; corso, corsos; corvo (ô) – corvos; crosta (ô), crostas; engodo, engodos; esboço, esboços; estorvo, estorvos; molho (ô) – (tempero culinário); molhos; molho (ó), segundo Houaiss – pequeno feixe, molhos (ó); probo (ó), probos; rosto, rostos; rolo, rolos; Porto, Portos (ô) – nomes personativos; Socorro (ô) – Socorros (ô) – nomes personativos; suborno, subornos.

Existem palavras que passam a ter som aberto no plural, fenômeno chamado de metafonia. Exemplos: abrolho, abrolhos; caroço – caroços; coro – coros; despojo, despojos; desporto, desportos; destroço, destroços; fogo, fogos; forno, fornos; gostoso, gostosos; grosso, grossos; miolo, miolos; morno, mornos; reforço, reforços; poço, poços; porto, portos; povo, povos; rogo, rogos; tijolo, tijolos; socorro, socorros (ó); tijolo, tijolos; torto, tortos; troço (ô) (pedaço de madeira), troços; tropo (ô) (figura literária), tropos.

O afastamento do uso culto e tradicional conforme os ditames da ortoepia é chamado de cacoepia ou cacoépia.

O fato de a ortoepia tratar da pronúncia consagrada pela gramática normativa não significa absolutamente a estigmatização da variante popular perfeitamente aceitável e, muitas vezes, expressiva em determinadas situações de comunicação. A esse propósito, com muita sabedoria Oswald de Andrade registrou a linguagem espontânea e gostosa das pessoas simples e trabalhadoras:

Vício na fala

Para dizerem milho dizem mio

Para melhor dizem mió

Para pior pió

Para telha dizem teia

Para telhado dizem teiado

E vão fazendo telhados.

Oswald de Andrade

(Caderno do aluno de poesia. Globo, 2006)

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