Valdemir Mourão autografa duas de suas obras, dia 19, no Shopping Benfica

A Associação Cearense de Escritores e o Shopping Benfica convidam para o lançamento de duas obras do Prof. Valdemir Mourão – “Reflexão e produção de textos” e “Valor simbólico das cores de Vidas Secas de Graciliano Ramos”. Será na Galeria BenficArte, no primeiro andar daquele centro de compras. O endereço é Av. Carapinima, 2200, bairro Benfica, em Fortaleza.

Valdemir Mourão é membro da Academia Cearense da Língua Portuguesa, onde ocupa a Cadeira n° 19, patroneada por José de Sá Nunes. Presidiu a ACLP no biênio 2016/2018 e, na atual Diretoria, é o Vice-Presidente.

Caminhos

GISELDA DE MEDEIROS, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 16

Não sei por onde ir…
Sou trêmula rosa
pendente da haste
ou pássaro implume
esquecido da trajetória.

Os caminhos abrem-se em labirintos,
e não tenho o mapa do destino
nem o fio de Ariadne.

Há muito estou aqui
no meio deste tempo sem história.
Cansa-me procurar a saída
nestes vales úmidos de espanto.

A fuga açula-me a solidão,
esta companheira
sempre à minha espreita
com quem divido meus medos,
minhas angústias inexoráveis.

Vou e retorno sobre meus próprios passos,
tímidos e lassos,
sobre a minha própria busca…

Sei que seguir é imperativo,
ficar é presente,
retornar é passado.

… E o futuro? Deverei buscá-lo?
Será ele um tempo? Ou um vento?
Mas, preciso seguir, mesmo sabendo
que, ao fim de tudo, acabarei pendente,
pétalas caídas, sob a frágil haste
que me sustentou a efêmera vida,
que era apenas tu.

Edital para preenchimento de vaga na Academia Cearense da Língua Portuguesa

Edital 02/2019

Academia Cearense da Língua Portuguesa (ACLP), representada pelo Presidente Sebastião Teoberto Mourão Landim e atendendo ao disposto em seu Estatuto, abre inscrições para preenchimento da Cadeira nº  21, conforme regulamentação a seguir:

1) Para ser eleito Associado Efetivo, deverá o candidato:

a) ser residente e domiciliado no Estado do Ceará;

b) ter boa conduta;

c) concordar com o Estatuto e com os princípios nele definidos, mediante declaração de que o leu no site da Academia Cearense da Língua Portuguesa – www.aclp.com.br;

d) haver publicado trabalho de natureza gramatical, filológica ou linguística sobre a Língua Portuguesa ou apresentar produção científica e literária que prime não só pelo ponto de vista da expressão linguística portuguesa, mas também pelo valor científico e criatividade literária, méritos a serem arbitrados e mensurados por comissão mista instituída pela Academia para esse fim.

2) A proposta para a admissão de associado será apresentada por 3 (três) associados efetivos e entregue no ato da inscrição.

3) À proposta serão anexados os trabalhos do candidato e seu curriculum vitae.

4) A proposta terá entrada na Secretaria da ACLP em Fortaleza, no Palácio da Luz, nº 1, Centro, até 28 de julho de 2019, das 9 às 16 horas.

5) O candidato proposto apresentará o comprovante bancário de pagamento da taxa de inscrição no valor de R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais), no Banco do Brasil, agência 3296-4, poupança, com variação 51, conta 300.000-1, em nome da confreira Giselda de Medeiros Albuquerque, podendo o pagamento ser feito, também, no ato da inscrição.

6) Deverá o postulante preencher uma ficha, no ato da inscrição, e assinar declaração de que se compromete a frequentar anualmente no mínimo 50% (cinquenta por cento) das reuniões ordinárias mensais e solenes, salvo em caso de justificativas por razões de saúde, aprovadas em ata, e a manter as mensalidades em dia, nunca ficando inadimplente por mais de seis mensalidades, sob pena de perda da condição de acadêmico da ACLP, conforme normas estatutárias.

Fortaleza, 28 de junho de 2019.

Sebastião Teoberto Mourão Landim (Presidente da ACLP)

O Latim e o ensino da Língua portuguesa

RAIMUNDO DE ASSIS HOLANDA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 22

1. O Latim e os dialetos – Breve retrospectiva

O Latim, enquanto idioma, existia desde os tempos pré-históricos, porém foi a partir do século III a. C. que passou a adquirir uma forma literária, construindo-se aos poucos uma gramática com regras explícitas, cuja consolidação se deu por volta do século I a. C., que é considerado o período clássico do latim.

Ao lado do latim clássico, falado e escrito por pessoas letradas, havia o latim popular, latim vulgar, que assumia formas livres e sem a precisão de regras gramaticais, língua falada por pessoas do povo, a plebe.

Deste latim popular, originaram-se as línguas românicas, ou neolatinas, dentre elas, o português, o espanhol, o francês, o italiano.

A partir do século III d.C., com a expansão do cristianismo, a língua latina, com influências eclesiásticas, predominou no ensino do latim, até o início dos anos 60. O latim passa a ser considerado língua morta. Nas palavras de João Bortolanza (UFMS): “com isso, o que morreu foi a diacronia do português”. 

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Espirituosidade comedida

VIANNEY MESQUITA, membro titular da Academia Cearense da Língua Portuguesa – Cadeira nº 37

(Para o Prof. Ítalo Gurgel, da UFC e ACLP)

Vinum bonum et suave, /Bonis bonum, pravis prave,
Cunctis dulcis, sabor, ave Mundana laetitia!
(Fragmento de uma canção do séc. XIV). **

Jamais fui achegado à carraspana,
Na cotidiana marcação da história;
Mas a memória freud-ferencziana
Guarda chicana sem fastos de glória.

Em concessória ensancha de bacana,
Não se me empana a retentiva inglória
Da inibitória – hoje, não me ufana –
Lembrança plana de rasca irrisória.

Ao fluido espirituoso sou afeito:
Guimarães, Douro, Murça, Porto ou Minho;
Tête de Boeuf, Sem Nome, qualquer jeito.

Com o mais suave e estreme carinho,
Tomo a botelha, entorno e depois deito
Mui preciosos martelos de vinho.

* Vinho bom e agradável; bom para os bons, ruim para os malvados; de agradável sabor para todos. Viva a alegria mundana!

A MAIS LÍRICA HERANÇA DE PETRARCA

Italo Gurgel
(Membro titular da ACLP – Cadeira nº 17)

O soneto é uma forma de poema rigorosamente codificada. Comporta 14 versos, abrigando dois quartetos e dois tercetos. É obrigatória a rima. Também é necessário que todos os versos tenham o mesmo número de acentos poéticos (ictos). No caso do soneto acima transcrito, a mim dedicado, generosamente, pelo escritor e poeta Vianney Mesquita, apresentam-se 10 acentos nos 14 versos. Percebam-se as rimas no meio dos versos dos quartetos – a chamada rima encadeada, que concede especial estesia à conformação poética.

ORIGENS – Acredita-se que o soneto (do italiano sonetto) nasceu nos tempos da chamada “escola siciliana”, que orbitava a corte do imperador Frederico II (1194-1250). Atribui-se sua “invenção” a Giacomo da Lentini, um dos cortesãos, que criava tais peças para serem cantadas, e não declamadas.

Francesco Petrarca (1304-1374) tornou célebre o soneto em sua “Canzoniere”, sendo, para alguns, o verdadeiro criador dessa expressão poética. Filólogo, poeta e humanista, Petrarca é tido como o Pai do Humanismo, mas foram os sonetos, redigidos pioneiramente em língua italiana, que o elevaram ao pedestal da glória.

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Até

CLAUDER ARCANJO, Membro Correspondente da Academia Cearense da Língua Portuguesa

— Até agora, não tenho a resposta.

Ouviu aquilo e resolveu sair; nem sequer quis saber de mais nada. Aquilo lhe bastava.

Trouxera com ela a certeza do aceite dele. Fora uma proposta tentadora. Logo, julgara, ela receberia o “de acordo” sem mais delongas.

Ao pôr os pés na estrada, revisitou, no caminho de volta, as palavras que usara ontem. “Será que fui clara?” Ela sempre a colocar a dúvida em si, nunca no outro. Desde pequena, segundo sua parentada, era aquele o seu jeito de agir. Não seria diferente depois de velha e surrada pela vida.

Entre as passadas pequenas, a cena e o diálogo correram frente à sua vista, embaçada pelo início da catarata. “Não! Eu fui muito clara e direta. Era pegar ou largar! Mas, ele pedira um tempo. Até porque ele é homem já entrado nos trinta e, segundo soube, metido com as letras e as sabenças dos doutores. Não, não se tratava de ter colocado mal as palavras!”

Com pouco, uma nuvem encobriu o sol que se fazia forte. Com a mão direita em pala, ela visou o nascente; velha mania de ver se viria chuva. Resmungou uma rabugice de si para si. “Tome tento, mulher! Estamos ainda em outubro. Onde já se viu!?…”

Na curva seguinte, a casa velha se apresentou. Teve a impressão de ver Mariquinha no alpendre, ansiosa pelo desfecho. A coitadinha, de mala pronta, já passara a noite em claro. “Comadre, ele vai aceitar, não vai!?”. Da boca seca, ela ainda conseguira fazer sair: “Durma, minha filha! Deus é grande, Deus é pai!”.

Parou, enxugou o porejado do suor na testa larga, ajeitou o grampo grande que prendia-lhe o cocó no cocuruto e abriu, decidida, a porteira.

A carreira desabalada de Mariquinha ao seu encontro espantou a criação que pastava no quintal. Quando ela estancou em sua frente, ouviu da boca da velha, como se em arte de ventríloqua:

— Até agora, não tenho…

E, crivando as unhas nas carnes das mãos secas, ela proferiu, entredentes:

— Até agora; mas, de amanhã, Mariquinha, isso não passa. Ah!, que não passa, não passa!